Mah e suas aleatórias divagações

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Excêntricas Relações Interpessoais III

Março 25, 2009 · 6 Comentários

 

- Já anotou meu novo telefone? Não queremos que você deixe de me ligar TODAS aquelas ‘UMA’ vez por ano, não é?

- Chata! rs.. Você merece duas ligações por ano.. Apesar que… se fosse uma só, já seria mais do que eu ganho de você rs

- hahahahaha… que maldade.. como você pode ser tão ingrato?

- A verdade dói, né Ma? rs

- Não.. o que dói é dedicar A VIDA para certas pessoas e elas serem ingratas desse jeito.

- Maíra do Bairro! rs. E como está a minha Srta. Lagarto Morto?

- Eu estou bem… convivendo com as chuvas fora de hora.. com o metrô lotado… com o transito caótico.. enfim.. uma vida moderna adorável.. hahaha. E o senhor T.B.? Como é a vida longe de mim?

 - Ahh sim, poluição, superlotação, caos e total falta de paz, o que mais Maíra poderia querer?

- Sorvete de cereja!! Mencionei que aqui tem o melhor sorvete de cereja do mundo? Em Curitiba eu tinha uma vida de privações..hahahaha

- Humm.. aquele com gosto bem artificial? rs

- O bom mesmo são os conservantes né TB.. as frutas servem mesmo só pra dar uma corzinha….hahahaha

- Sim… esses sorvetes são os melhores…rs. Sabe que eu percebi que eu passava muito tempo da minha vida sendo o seu tudo? Depois que você abandonou minha carcaça no sol escaldante, tive que arrumar novas formas de preencher minha vida… agora estou aprendendo a tocar violino.

- Ta treinando pra me fazer uma daquelas serenatas e cantar “quero ver seus olhinhos de noite serena?” hahahahahahaha

- rs.. não sei se você merecerá… é pouco provável.. mas estou trabalhando duro.. quero elevar o meu (já alto, é claro) nível de sofisticação…rsrs

- Mas é um nojentinho!

- rsrs… meu jeito nojentinho de ser que você adora e idolatra, não esqueça de mencionar isso….

- Não..você me idolatra.. e eu te idolatro de volta por gostar da reciprocidade… Porque nós sabemos que eu sou SUPER boazinha, né?

- Claro que sim, comparada ao Senhor Satanás, você é de uma bondade angelical rs

- Olha o nativo frio falando =P

- rsrs,.. verdade, mas o frio já não combina mais com Curitiba.. faz tanto calor por aqui… quem poderia imaginar que a capital do Mundo um dia seria tão quente?? Que coisa!..rsrsrs

- Isso não é calor… Venha ver como SP se tornou o novo Senegal.. com temperatura perto dos 40.. estou pensando em criar uma nova civilização nas profundezas do metrô.. seremos os novos Maias… estou pensando já nas obras faraônicas hahahahaha

- Hum.. isso é o novo Rio.. aliás, esse não é o sonho de SP, se tornar o novo Rio de Janeiro??…rsrs

- Claro que não.. nosso sonho é eliminar o Rio.. pegar o território.. ampliar SP e transformar as praias em shopping… estamos pensando em mandar os cariocas para repovoar Curitiba.. inclusive… estudos apontam para a extinção de vida em Curitiba se medidas enérgicas não forem tomadas.. algo envolvendo ninguém falar com ninguém, impedindo que se vá em frente na procriação hahahahaha

- Ma, você me mata…rsrs

- Na verdade eu te faço viver… =P  

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Dos quase amores ao primeiro chip

Março 23, 2009 · 11 Comentários

 

 

Eu sempre fui dependente de celular. Era um, dois números, aparelhos ligados 24h por dia, sempre esperando aquela importantíssima ligação às 3 horas da manhã, envolvendo choro, risadas, declarações impróprias de amor ou um “vem me buscarrr.. to bêbado e não sei onde estou”. Mas com minha mudança de estado veio à tentativa de me desprender desses vícios tecnológicos, mas…

- Dona Maíra, tentei te ligar a TARDE INTEIRINHA, mas quem te acha? Se ao menos inventassem um aparelho telefônico móvel que você pudesse levar para todo lugar que fosse…

- Ahn.. Ops.. tentou falar comigo, é? O que era?

- Não importa, estou passando aí em 5 minutos. Vamos ao shopping escolher um chip novo para você.

Obviamente que foi uma péssima escolha de horário para compras de chip. São Paulo é excelente para se encontrar sabão em pó às 3 horas da manhã, comida tailandesa às 5 horas.. mas quando o assunto é: preciso de um chip de celular desesperadamente logo pela manhã e em um domingo.. a coisa muda um pouco de figura. Principalmente quando certas criaturas escolhem CERTOS lugares. Mas, eis que encontramos uma famosa loja de roupas, que também entrou para o ramo da venda de telefonia móvel. Chegando no quiosque:

- Ola moço! Preciso urgentemente de um chip para voltar a me conectar com o mundo lá fora… disseram que existe vida além e que não precisamos de cartão telefônico para isso.

- Tem preferência por operadora?

- Sim.. Já tenho a política de só me relacionar com seres humanos que possuem celular TIM, se mudar de operadora vou ter que mudar todas minhas relações interpessoais e já me afeiçoei a alguns..

- Se é por uma questão sentimental, como argumentar? Peraí.. Vou chamar o vendedor da TIM.

E então me aparece ele.. criatura branca (tão ou mais branco do que eu), bochechas cor-de-rosa.. um olho azul, o outro acredito que também, mas a franja EMO me impedia de afirmar com convicção, vestido na sua mais marrom calça xadrez e usando um de seus muitos allstar, acredito eu:

- Olá moça.. no que posso ajudá-la?

- Então.. eu queria um chip da TIM.

- Queria não.. você quer e muito e eu vou te arranjar um… Não precisa de um aparelho também?

- Não.. não.. eu já tenho um… o Moisés…

- Moisés? (pergunta ele aos risos)

- Sim, meu celular burguesinho… fotografa, filma, manda sms, mms.. se bobear tem até uma função que quando acionada estoura pipoca… então só vou levar o chip hoje mesmo…

- Ah.. quer dizer que comprou um celular assim e esqueceu desse pequeno detalhe do chip? Afinal, o importante são as funções.. o número e ligações é o de menos, não?

- Pareço o tipo de pessoa esquisita que compra um aparelho, mas esquece o chip? Não, não.. não responda… Mas sabe o que é.. eu tenho um chip, mas é de Curitiba.. Agora eu preciso de um chip aqui de São Paulo..

- Ah..você é paranaense?

- Não, não.. eu sou uma paulista nojentinha mesmo… estava só vagando entre estados para disseminar o estilo de vida paulistano…

O amigo que me acompanhava, já me olhava com cara de pânico e me dava alguns delicados chutes, tentando chamar a minha atenção. Olhava para ele sem entender nada. Onde estava errando nos mandamentos sociais de conversa com o vendedor? O vendedor continua:

- Estamos com falta de chip TIM com começo 8… você se importa se for um com começo 7?

- Ahn.. na verdade eu me importo… 7 é um numero bom de brincos, de tatuagens… mas é deveras esquisito para número de celular…

- Vou dar uma olhada lá dentro para ver se encontro alguns 8 pra você então..

Mal o vendedor virou as costas.. recebo um aterrorizante beliscão:

- Auwww.. você endoidou? Porque está me beliscando?

- Para ter certeza que você está nesse plano e ciente do que acontece ao seu redor.. aparentemente sim.. então, por favor, me diga que você está fazendo isso para ganhar algum desconto.

- Oi? O que eu estou fazendo?

- Você está descaradamente flertando com um EMO.. UM E-M-O

- Eu não estou flertando com ele… eu estou comprando um chip

- Ahh bom.. então só está jogando charme para conseguir um desconto, né? Que bom que você é só uma mulher vil… e não uma “flertadora” de EMOS…

- Ahn.. na verdade eu não estou flertando.. nem com intenções amorosas-sexuais.. nem com intenções exploradoras-comerciais.. eu diria que não estou flertando de maneira nenhuma…

- Oi moça.. olha só.. encontrei esses aqui com começo 8.. Mas vou mostrar os com começo 7 também.. ainda não perguntamos o que seu namorado acha..

- Oi? Namorado?

- Sim… esse rapaz com você.. não é seu namorado?

- Não.. não.. só amig… Auwwwwwww – (recebo um chute na canela) e vejo aquele olhar de reprovação “F-L-E-R-T-A-N-D-O com um EMO”.

- O que foi? (pergunta o vendedor)

- Ahn.. nada, nada… então.. nas relações interpessoais ele está no nível abaixo do que dá poder para escolher números de celular.. como mulher independente e adulta que sou.. escolherei o meu PRÓPRIO número de celular.

Números daqui, números dali.. escolho meu super novo número de celular com começo 8.

- Então.. obrigada.. hoje é só isso.. pago ali no caixa, né? Tchau.. Obrigada mesmo..

- Ei.. espera… vou cadastrar o celular pra você.. me empresta o aparelho para colocarmos o chip.

Dou o cartão para o meu amigo e digo:

- Vai lá pagar, enquanto a gente cadastra meu número aqui.

Ele me olha com um jeito assassino e eu quase começo a me sentir desintegrando, mas ele vai mesmo assim.

- Qual é o seu nome?

- Maíra…

- Me dê seu CPF e o seu RG…

- Enquanto ele discava 1 para não sei o que, 2 para não sei o que lá.. e todos os etc.. travávamos uma semi conversa:

- Está morando onde aqui?

- Na rua XXXX

- Ahh.. esse nome não  me é estranho…

- Hum.. é a rua do metrô da estação bla bla bla

- Quer dizer que é menininha zona sul?

- Não.. sou uma incompreendida da zona oeste perdida na zona sul..

Muitos minutos depois, com o chip pago, com o celular cadastrado e depois de muitas conversas paralelas:

- Pronto Ma, seu celular já está cadastrado.. Posso chamar de Ma, não é?

- Claro.. sem problemas EM.-O.. ahn.. digo Gabriel (bendito crachá salvador).

- Então.. olha.. vou anotar aqui.. esse número você liga para colocar créditos com o cartão.. este outro número você liga para cadastrar seus números prediletos.. e esse número aqui você liga se aceitar sair comigo..

- Oi?

- Estou deixando meu número de celular com você.. é TIM também.. deve ser o destino, já que ouvi você dizendo que só mantém relações afetivas com usuários TIM.. Vou tocar num barzinho hoje na Vila Olímpia.. Me liga… que eu arrumo umas cortesias para você.

Digo que talvez eu vá no barzinho, me despeço.. e saio da loja com meu amigo..

- Ahn… que coisa..

- O que foi?

- Acho que eu estava flertando com o EMO…

- Você ACHA? A-C-H-A?

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Paranóias, livros e desconhecidos

Março 11, 2009 · 13 Comentários

 

Estava na estação da Barra Funda, perdida em uma daquelas todas DUAS semi-livrarias que ficam entre a estação de metrô e o terminal rodoviário, enquanto esperava para encontrar uns amigos para almoçar. Cantarolava com os fones do mp3 player no ouvido, até que um moço de cabelos compridos, brincos e camiseta de uma banda alternativa qualquer, se aproxima:

- Você canta bem.

- Oi? (digo tirando os fones do ouvido).

- Você canta bem.

- Ahn.. não, não canto…

- Hum.. tem razão, não canta tãoo bem, mas não é das piores. De qualquer forma, você não falaria comigo se eu te abordasse dizendo: “mas você canta bem mais ou menos hein”… Me olharia com desprezo, continuaria com os fones e fingiria que não me ouviu, então seria obrigado a te perseguir por toda a livraria, você acharia que sou louco e eu terminaria na sala da segurança.

- Pelo visto você tem uma larga experiência em abordagem em livrarias.

- Pareço um compulsivo por conversas com desconhecidos em livrarias?

- Aparentemente é o que está fazendo…

- Mas é porque você está cantando Moptop.. eu nunca conheci ninguém que gostasse de Moptop… achei que valeria a pena sair do meu mundinho e lhe dirigir a palavra. E convenhamos.. você parece ser bem mais perigosa do que eu.

- Hum.. Porque é ameaçador estar folheando livros enquanto acompanho a seleção musical do mp3 player?

- Não… mas estar folheando um livro com um Jesus vestido de Bob Marley e os seguintes dizeres na capa: “o evangelho segundo Beef, camarada do grande JC”, não te parece meio assustador?

- É a hora que você revela que na verdade é um enviado de Cristo para me salvar e terminamos com você citando um Salmo?

- Não. Será possível querer se divorciar de um homem só porque ele se recusa a falar mal da Ginger Spice? Temo que sim.

- Oi?

- Nicky Hornby.

- Ahn? O escritor?

- Sim.. Ou estou citando um trecho dele ou assumindo minha homossexualidade. Realmente espero que você não cogite a última hipótese.

- Certo, tenho a convicção que você faz parte dos heterossexuais.. e agora te acho alfabetizado… Tenho profundo respeito por quem insere frases do Nick no dia-a-dia, independente da conotação homossexual.

- Esse livro é pra você – diz ele abrindo a mochila e me entregando o livro “Como ser legal”.

- Oi? Como assim pra mim? Por quê?

- Porque quando eu te vi, achei que você ia gostar desse livro, só precisava ter a certeza que você não iria perguntar “é auto-ajuda?” ou “está querendo dizer que não pareço legal?”. Agora tenho essa certeza, quero que você fique com o livro.

- Por acaso você roubou o livro e está me dando para que saia da livraria e o alarme dispare?

- Aqui não tem alarme.

- Por acaso rouba livros e sai com eles, porque sabe que aqui não tem um alarme que dispara?

- Não, não roubo livros. Esse é meu.. leia aqui na primeira folha.. veja:  Você é legal? Digo, você é bom?” e “Eduardo”, Eduardo sou eu. Muito prazer…

- Tá.. e porque você quer me dar um livro?

- Não quero te dar UM livro, quero te dar ESSE livro, porque você me lembra a personagem principal dele.

- Lembra que você disse que eu parecia ser mais perigosa que você? Então.. ahn.. ta parecendo o contrário agora. Lembra dos seguranças? Começam a fazer sentido…

- O que vai fazer? Correr desesperadamente, enquanto grita apavorada que eu quero te dar um livro? Acho que isso ainda não é crime, quer dizer.. seria se fosse um livro do Paulo Coelho. Você não gosta do Paulo Coelho, gosta?

- Não.. não gosto..

- Viu? Resposta correta.. Parabéns!!! Você acaba de ganhar um livro, “Como ser legal”, do Nick Hornby.

 

PS: Este post é um oferecimento de Alessandro, criatura que me “obriga” a atualizar o blog =P

PS2: Eu tenho um amigo famoso, eu não gosto de ficar por aí alardeando.. mas é isso.. eu tenho um amigo famoso.. Então, para colaborar para o aumento da sua fama e, indiretamente, realizarem meu sonho da caixa de lápis de cor própria. Acessem o site Apaixonados por Quadrinhos, cadastrem-se e votem, de preferência, em Cuca e Racha, do meu querido amigo Sampaio

Sampaio é educação sexual!

Sampaio é educação sexual!

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Ensaio sobre a semi-cegueira

Fevereiro 16, 2009 · 8 Comentários

 

Minha mãe sempre foi o tipo mãe zelosa, sempre foi daquela espécie preocupada, sempre teve aquelas crises hipocondríacas pensando nos males que podiam assolar sua prole, por isso se havia um médico especialista em alguma coisa, lá estávamos eu e meus irmãos sendo examinados.  Partindo da máxima “quem procura acha”, claro que foi descoberto um tal astigmatismo e fui obrigada a conviver desde cedo com os males das armações e lentes.

 

Nunca fui fã de óculos, minha mãe tentava de tudo para me empolgar: armações cor-de-rosa, caixinhas decoradas, mas, ainda assim, eu detestava usar óculos. Felizmente existem os médicos, seres especializados, que sabem como tratar crianças:

- É o seguinte.. ou você usa óculos ou você vai ficar cega… e ficar cega quer dizer que nunca mais você vai poder assistir a pequena sereia.

 

Desde então usava óculos compulsivamente, tinha tanto pânico que às vezes chorava porque minha mãe não me deixava dormir de óculos. Inocentemente, achava que se eu usasse muito, aos 11 anos eu já teria me livrado de todos aqueles graus naquelas lentes… doce ilusão!

 

O tempo foi passando e eu descobri que assim como irmãos, astigmatismo é para sempre. Mas a puberdade traz mais do que espinhas e a primeira menstruação, junto com ela vem a sabedoria. Foi neste período que descobri que não usar óculos não me deixaria cega de fato, sem eles só deixaria de enxergar de maneira definida. Acreditando que enxergar bem não é tão importante assim, fiz o que qualquer outra adolescente com horror a óculos faria no meu lugar: deixei de usar. Ia no oftalmologista uma vez por ano, fazia os exames e matinha o mesmo grau, as vezes aumentava um 0,25 aqui outro acolá, até chegar aos meus 19 anos e o problema estabilizar. Desde então mantenho os mesmos 3 graus, que me deixam semi-cega a uma certa distância.

 

Tentei me afeiçoar aos óculos, tentei usar lentes de contato, mas meus esforços foram em vão… eu continuava detestando usar óculos e descobri que qualquer coisa no meu olho me dava aflição. Toda vez que tinha que fazer o exame de pressão do olho era um parto, quando o oftalmologista resolvia que precisava pingar algum colírio era um drama mexicano. A vida estudantil e corporativa me obrigou a usar óculos com mais freqüência, mas mantinha minha postura de evitar óculos nos acontecimentos sociais. Continuei com o ritual de aparecer no oftalmologista uma vez por ano, mas neste ano:

- Consultório médico, boa tarde.

- Boa tarde.. eu gostaria de marcar uma consulta com o Dr. X

- O Dr. X está de férias, as consultas estão sendo agendadas a partir do dia 27. Quer marcar para o dia 27?

- Não.. eu preciso com urgência.. estou com um problema nos olhos.

- Que tipo de problema?

- Não faço a menor idéia, mas já faz algumas semanas.. e tem piorado.. definitivamente é um problema.. e, definitivamente, não se resolve sozinho.

- Você tem o número pessoal dele?

- Tenho sim…

- Então ligue na residência dele para ver se ele pode te receitar alguma coisa.

Ligo para meu oftalmologista de quase toda a vida:

- Olá Dr. X, aqui é a Maíra, eu sei que está de férias, mas estou com um problema nos olhos, gostaria de saber se não pode me atender.

- Para você querer uma consulta com urgência deve ser um problema grave mesmo. Quais os sintomas?

- Tenho quase certeza que é um tumor pressionando o nervo óptico.

- Tenho quase certeza que você está abusando da tevê.

- Não!!! Tirando raras exceções eu costumo usar óculos para assistir tevê.. não é isso..

- Não é o assistir tevê o problema, é assistir séries médicas… Dr. House?

- Ahn.. Sim.. e Grey´s Anatomy.

- Quais os sintomas?

- Arde bastante, coça, lacrimeja e a vista embaça com freqüência.

- Os dois olhos?

- Acho que sim, mas o direito está bem pior.

- Vamos dar uma olhada nisso então. Amanhã às 15 horas?

- Ok..

 

Chego ao consultório, faço todos os exames possíveis e imagináveis e lá vem o grande diagnóstico: eu estou morrendo. Tá, não estou morrendo, mas estou ficando cega. Ok, não estou ficando cega, pelo menos não mais do que já sou, mas coça, arde e embaça. O oftalmologista me diagnostica como tendo uma infecção alérgica, mas no fundo eu acho que ele está querendo me poupar.. no fundo eu sei que ele não quer dizer que é o efeito dos meus 26 anos… no fundo eu sei que devo ter catarata..

 

Saio de lá com meus dois colírios, que devem ser usados três vezes ao dia nas próximas quatro semanas e a proibição de usar qualquer tipo de maquiagem nos olhos pelo próximo mês. E assim vou levando minha vida de privações.. sem cílios alongados e tentando desesperadamente me livrar dessa aflição com colírios, me esforçando para pingar as gotinhas nos olhos e não nas pálpebras, usando os amigos em beneficio próprio e na falta deles em algum dos três horários diários, pedindo ajuda para entregadores desconhecidos que tocam a campainha.

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De Globeleza a Yvone Lara

Fevereiro 10, 2009 · 8 Comentários

 

Uma das mudanças mais gritantes que senti ao sair da minha vida paulista/paulistana para viver no curitibano life style foi o banheiro feminino. Em São Paulo e adjacências o banheiro feminino é uma instituição, é quase uma versão feminina e menos informal da maçonaria. Se em São Paulo tem sempre aquela que bebeu uma taça de Martini e está chorando no chão do banheiro, sendo consolada por passantes que retocavam a maquiagem, se aqui tem conselhos sobre cabelo, esmaltes, dicas sentimentais e conversas amenas, em Curitiba é no máximo um “está na fila?” e um silêncio profundo, não importando se vão ficar lado a lado por 5 minutos ou meia hora. Eu sentia falta da animação dos banheiros femininos, em Curitiba existem mulheres que vão SOZINHAS ao banheiro.. imagine.. SOZINHAS!

 

Era sexta-feira, eu tinha vestido o meu maior estilo roqueira-clichê, fui contra tudo e contra todas as infecções alérgicas nos olhos e caprichei no lápis, no rímel e na sombra preta, na doce ilusão de que iria para um daqueles porões claustrofóbicos com bebida barata e banda com vocalistas gritando “rock n´roll”, enquanto aconteciam solos intermináveis de guitarra. Mas:

- Má, mudanças de planos, vamos para um pagode ai.

- Oi? Pagode? Comoooo assimmmm vamos pro pagode? Vamos quem?

- Vamos todos, ora essa.

- Todos não… Não é só porque uma droga é legalizada que eu vou usar.. ou no caso.. ouvir..

- “Mimimimi.. olhe pra mim.. como seu sou fresca”. Larga a mão, que temos convites VIPS e chopp na faixa.

 

Sou famosa na minha seleta roda de amigos por topar quase todo e qualquer programa de índio. Já me arrastaram para rodeios, shows estranhos, peças esquisitas, mudanças, doação de sangue e festinhas infantis. Não tive outra opção a não ser encarar mais essa: pagode com bebida de consolo.

 

Estava meio emburrada e reclamando que se soubesse que ia acabar no pagode, não teria gastado tanto tempo montando meu visual “ainda no punk”. Mas ao chegar no bar, meu rosto se iluminou: “Sexta de samba de raiz e chorinho”.

- Como assim pagode? Olha lá.. samba de raiz e chorinho – Digo demonstrando empolgação.

- Ah.. sei lá o que era.. só escutei o convites-VIP-bebida liberada. Podiam dizer que as coelhinhas da playboy estariam fazendo stripper que eu não teria prestado atenção. Ahn.. quer dizer… coelhinhas fazendo stripper eu prestaria atenção, bem, enfim, podiam dizer que o Coverdale estaria presente que eu não prestaria atenção. Hum.. quer dizer, o Deus estaria presente.. ok.. prestaria atenção. Enfim, sei la… vamos dizer que eu sabia que não era pagode e sim samba de raiz, mas que menti para te fazer uma surpresa e te ver feliz assim.

- Verdade?

- Ahn.. não…

 

Cartola, Noel, Demônios da Garoa e vez ou outra um Art Popular pra fazer a alegria daqueles 3 ou 4 que pediam pra tocar “pimpolho”. Aproveitávamos toda aquela bebida liberada… Até que a vontade de fazer xixi e os efeitos do rímel, do lápis e da sombra preta nos olhos com infecção alérgica me fizeram ir até o banheiro. Como de praxe, arrastando toda e qualquer garota que estivesse na mesa comigo. Enquanto umas usavam o banheiro eu tentava, desesperadamente,dar um jeito de continuar maquiada e coçar e lavar os olhos ao mesmo tempo. Nisso a confraria “banheiro feminino” entrou em ação:

- Aiii.. que linda a sua maquiagemmm.. você mesmo que se maquiou? (perguntou uma passante ao lado que também tentava retocar a maquiagem)

- Sim, agora estou tentando desesperadamente mantê-la, mas os olhos estão me atrapalhando com essa coisa de coçar e lacrimejar, estou até cogitando arrancá-los e colocar uns olhos de vidro. Enxergar não é assim tãoooo importante, é?

- O que você tem?

- Não sei ao certo.. alergia.. possessão, semi-cegueira, catarata.

- Ah.. eu tenho um colírio na bolsa quer? Um daqueles bem naturais, que só limpam o olho.. nenhuma contra-indicação (diz a menina desconhecida da pia ao lado).

Síndrome da cidade grande atacando: Alucinógeno em forma de colírio.. vou ficar locona, vou ficar cega, vou morrer, vou parar no hospital e o oftalmologista vai ficar histérico dizendo que não se aceita colírios de estranhos:

- Ahn.. quero sim.. (digo vencida pelo meu espírito interiorano-crédulo-ingênuo, afinal, pior do que estava não ficaria e se a cegueira fosse o efeito colateral para não coçar e lacrimejar mais, estava valendo).

 

Uma das garotas pingou o colírio enquanto a outra, com um pedaço de papel higiênico, limpava as gotas que escorriam, para não estragar muito a maquiagem. Nesse meio tempo as amigas que me acompanhavam ao banheiro já estavam presentes na força-tarefa junto a pia e já me ajudavam a retocar a maquiagem. Medida paliativa incrivelmente eficaz, os olhos já não ardiam e a maquiagem estava impecável.  Depois da operação salvamento de maquiagem, partimos para a próxima missão da confraria do banheiro feminino:

- Está meio desanimado aqui. A música é boa,o lugar é bom, a bebida ta gelada… mas cadê o pessoal dançando? – diz uma das desconhecidas do banheiro.

- É verdade. Cadê o samba no pé? – pergunta minha amiga já meio enrolando as palavras, devido ao excesso de chopp liberado.

- Isso ai!!! Cadê a roda de samba? Vamos organizar o movimento “samba no pé já!” – Digo também meio enrolando as palavras, mas com a maquiagem impecável.

- Vamos dançar? – diz a moça do colírio.

- Ah… eu tenho vergonha! – diz outra moça desconhecida que lavava as mãos.

- Vergonha? Comooo assim vergonha? Vamos Lá, senta na nossa mesa e ficamos todos juntos (falo solidária).

 

Não sei precisar como e porque, mas de repente várias mesas se juntaram com a minha mesa e formamos uma roda de samba, a princípio com cinco garotas e eu, roqueira assumida, sem nenhum samba no pé, liderava o grupo de dança. De repente uma legião de pessoas, incluindo homens, mulheres e “em cima do muro” estavam dançando. Minha mesa começou a encher de mais desconhecidos e de repente tudo se transformou em uma festa privativa, com cerca de sessenta amigos de infância e milhares de trocas de telefones. Já pedíamos músicas pra banda e fazíamos os refrões junto com o maestro Zezinho.

 

Maestro Zezinho me ensinou alguma coisa sobre como tocar pandeiro e ensinou um dos amigos que me acompanhavam o que era uma cuíca. O fato é que no fim da noite, já sem nenhuma vergonha na cara e sentindo os efeitos do chopp liberado, terminei com um microfone nas mãos, junto com o Thiaguinho (semi-desconhecido, mas meu novo parceiro musical. Naquele momento éramos quase como Tom e Vinicius, só que sem o uísque) fazendo três ou quatro duetos, incluindo “moro em Jaçanã e se eu perder esse trem que sai agora às onze horas.. só amanhã de manhã”.

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Em direção a luz

Fevereiro 4, 2009 · 8 Comentários

 

Eu tenho pânico de hospitais, médicos, agulhas, exames, doenças raras… Para chegar a ir para um hospital eu tenho que estar muito mal ou com alguma fratura exposta e, ainda assim, com alguém me arrastando. Senão eu digo um “mas eu tô bem” enquanto me enfaixo com alguma coisa e me automedico.

 

Mas na teoria eu gosto muito de hospitais. Na tevê a cabo eu adoro hospitais.. médicos correndo aqui e ali, crânios sendo abertos, pessoas com ferimentos internos e um ferro enfiado nelas. Até solto um “franguinho” vez ou outra quando o paciente não deixa o Dr. Sheperd abrir seu crânio e fico indignada quando a Cuddy não deixa o House colocar um paciente para fazer radiação sem um exame que confirme o câncer, afinal, exames são para FRANGUINHOS!

 

Mas quando é comigo.. ah.. quando é comigo.. eu fecho os olhos quando a agulha se aproxima. Eu tenho queda de pressão vendo meu sangue em potinhos. Eu fico hipocondríaca para doenças raras e começo a achar que um simples probleminha no olho pode ser um tumor no quiasma óptico, assim como naquele último episódio do House, que a poor girl pensava não ser nada e… BANG!

 

Então, lá estava eu passando mal e vendo luzes de todas as cores, enquanto agonizava na cama e pensava que se aquilo não era uma pessoa caminhando para a morte, deveria ser algo bem parecido. Cada pedacinho passível de dor doía insistentemente, até água me enjoava e eu morria de frio mesmo com a temperatura verão Salvador. Qualquer outro ser humano acharia que era a hora de ir para o hospital. Eu, independente, auto-suficiente e esperançosa nos leucócitos, resolvi ficar lá deitada enquanto meu organismo dava um jeito de se manter vivo.  E minha estratégia de passar mal, muito mal estava indo muito bem.. até o telefone começar a tocar insistentemente. Dúvida crucial: atendo? Não atendendo? Levanto da cama? Não levanto? Já pensando ser minha mãe desesperada, chorando, criando todas as teorias imagináveis para minha morte, resolvo atender. Sei lá.. dizem que mães são assim.. neuróticas e ligam de 5 em 5 minutos “Já morreu? Não? Ahn.. e agora? E agora? E agoraaaaaa?”.

- Oi (atendo com voz cadavérica).

- Mááááááá.. Bom dia flor do dia, deusa do existir.. maravilha entre as maravilhas (diz ele com aquela irritante empolgação matinal).

- Bom dia (digo quase sussurrando).

- Que voz é essa? Parece que você está virada do avesso. Vamos almoçar hoje?

- ….

- Ma? Ma? Maíraaaaa.

 

Eu estava certa de que estava emitindo sons coerentes e dando boas respostas, mas pelo jeito apavorado que ele desligou o telefone depois de dizer: “to indo já aí”.. eu acho que minha eloqüência se resumiu a grunhidos e interjeições de dor.

 

Quando ele chegou, eu já estava bem melhor. Tinha conseguido sair da cama, o que, na atual conjuntura, era um grande feito.   Me arrastei da cama até o banheiro e de maneira incrivelmente deprimente me encontrava abraçada ao vaso sanitário, enquanto cogitava seguir os conselhos de um amigo… pegar umas lâminas e acabar com a agonia de viver, quando ele entrou pela porta, se ajoelhou comigo no banheiro, me olhou com os olhos caridosos e:

 

- Puta que pariu!!! Que merda você fez? O que diabos você bebeu? Gasolina? Por quê? Meu Deus.. Porque você não tem o menor bom-senso?

Eu tento dizer alguma coisa.. mas só sai:

- A….ass…hfd…ooeee…

- Porque bla bla bla bla… bebida bla bla bla.. farra bla bla bla… discernimento bla bla bla.. não posso passar um dia longe que bla bla bla.

 

Respiro fundo, tiro todas as forças de dentro do meu ser e digo, quase sussurrando:

- Eu não bebi… não bebi nada..

- Oi?

- Não bebi.. nada… não comi nem bombom com licor.. eu fiquei em casa vendo tevê… de meias.. no sofá da sala.. era meu dia de agonia, estava quase melancólica.

- Não é ressaca? Ahn… Vou te levar para o hospital. Agora! Vamos.. Má.

- Não.. hoje sou Dona Silvia, velhinha de 80 anos.. que não quer ir pro hospital. Quero só morrer em casa, ajoelhada no tapete do banheiro e abraçada ao vaso sanitário. Me deixe aqui morrendo com dignidade.

- Levanta desse chão e vamos.. vou te ajudar a trocar de roupa.

- Lá vem você querendo tirar minha roupa…

- Yeah.. você fica sexy com olheiras profundas e de moletom do Jonnhy Bravo. Tenho tara por doentes… Agora levanta desse chão.

 

Ele me arrasta até o quarto. Minha cabeça dói, meu corpo dói, até o couro cabeludo está doendo… e eu sinto um frio estilo Patagônia. No meu melhor modelito doente terminal, com uma calça jeans qualquer, tênis e uma jaqueta feita para invernos rigorosos na Alemanha, vamos até o hospital. Tenho minhas duas carteirinhas do plano de saúde e alguma coisa para preencher. No cadastro dei o nome errado dos meus pais, troquei o mês com o dia do meu nascimento e esqueci meu segundo nome. Ele com aquela cara de apavorado e eu repetindo “calma, eu estou bem”… enquanto meu estilo hipocondríaca e dramática pensava: “câncer, eu tenho câncer cerebral.. seis meses de vida.. eu vou esquecer como se escreve as palavras, vou esquecer onde é ‘c’ e onde é ‘s’.. terminarei meus dias lendo Paulo Coelho”.

 

Exames daqui, exames dali. Um médico, outro médico.. uma internação. Não se sabe ao certo o que eu tive.. algo como virose, infecção, intoxicação, gastrite, possessão. Não se sabe se eu tive 20 horas de sono ou coma induzido, mas quando eu acordei tinha tantas flores no quarto que as enfermeiras insistiam em perguntar se eu era alguma celebridade. Contei várias vezes como eu ganhei o prêmio Pulitzer.. uma pena minhas enfermeirinhas não saberem o que era um Pulitzer… deveria ter dito que era uma ex-BBB, mas acabei admitindo que não passava de uma menina mimada, sendo paparicada.

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O direito a esquisitice

Janeiro 30, 2009 · 11 Comentários

 

Eu estava molhada dos pés a cabeça, graças a uma daquelas tempestades de verão de fim de tarde. O cabelo estava desgrenhado e eu estava descalça.. com o tamanco arrebentado nas mãos, junto com umas sacolas com sorvete e garrafas de vinho. Abri a porta do elevador e lá estava ele, com seu gorro, correntes, piercing e óculos escuros. Ele olhou pra mim, eu sorri. Ele sorriu pra mim meio sem jeito:

- Desculpe, eu machuquei o joelho e estou sentindo muita dor, não vou conseguir subir de escada. Você se importa?

- Oi? Me importar? Bom.. eh.. Não conheço muito bem seu joelho, mas eh.. claro.. me importo sim… tem todo meu apoio nessa questão… sou assim.. do tipo que se importa com joelhos.

- Não, não.. quer dizer.. agradeço pelo apoio com o joelho, mas perguntava do elevador.. se você se importa se eu usar o elevador… prometo que vai ser só por hoje… talvez amanhã no máximo.

- Oi? Me importar com o elevador? Bem, eu acredito em amor livre quando falamos de elevadores e é por isso que tenho uma relação sincera e aberta com os elevadores do prédio.. é assim.. qualquer um, mas qualquer um mesmo.. pode usá-lo que meu ciúmes doentio não vai se manifestar. Estamos tentando uma relação saudável, sabe?

Ele sorri, novamente, encabulado:

- Você é nova no prédio?

- Hum.. não exatamente.

- Não está com medo?

- Não.. porque? Você está? Eu sei..eu sei.. eu estou parecendo uma maluca.. eu estou encharcada.. eu sou uma poça ambulante.. por onde eu passo ficam pingos e mais pingos de água.. eu estou descalça e segurando meu tamanco, eu sei que pareço uma maluca de cabelo alvoroçado, molhada e descalça.. mas não é nada disso.. Ahn.. ok.. é exatamente isso.. sou uma maluca descalça, segurando um tamanco e sacolas.. mas eu te garanto que podemos subir alguns andares sem você se preocupar com sua integridade física. Sou totalmente inofensiva, eu juro!

- Não é isso.. o problema não é você.. sou eu…

- Ahn.. me desculpe, mas essa frase só é socialmente aceita depois de, no mínimo, três encontros. É nossa primeira vez e não sei nem o seu nome.

- Celso.. meu nome é Celso..

- Certo.. o meu é Maíra, pobre garota com seu tamanco arrebentado, segurando sacolas e a porta do elevador, enquanto tem uma conversa estranhíssima.

- Desculpe.. não queria causar transtornos.. eu realmente não deveria estar aqui… vou de escada.. Desculpe moça.. desculpe mesmo..

- Não.. não… espere.. Eu que peço desculpas… se você fica nervoso com outras pessoas no elevador, não tem problema.. vai lá.. eu dou a volta e subo pelo elevador social.. eu estava andando assim pela rua.. o elevador social vai ser fichinha.

- Você não sabe mesmo quem eu sou?

- Não.. um serial killer? Ataca suas vítimas no elevador? Vou ser a próxima vitima sangrenta?

- Não.. sou o Celso.. do 705…

- Certo.. Celso do 705… com uma tendência a sociopatia em elevadores?

- Não.. Celso do 705.. proibido pelo condomínio de andar de elevador..

- Proibido de andar de elevador? Por quê?

- Porque eu sou esquisito.

- Ah… pessoas esquisitas são proibidas de andar de elevador aqui? Então acho que eu também deveria subir de escada…

- Você não é esquisita.

- Não? Eu estou descalça.. molhada, descabelada e a pouco andava pela rua cantarolando. Quem é a esquisita agora, hein?

- Qualquer uma.. menos você… você é só uma versão moderna e suave do Gene Kelly. Duvido que assuste velhinhas, duvido que assuste qualquer ser humano.

- Você assusta velhinhas? Prazer ou Lazer?

- Tatuagens nas bochechas.

- Ah.. eu achei charmoso essa aranha e essa caveira combinadas em cada bochecha… quase chega a ter uma graça jovial.. e eu também posso assustar velhinhas. Olha, eu tenho borboletas tatuadas no tornozelo. Borboletas podem ser intimidadoras, sabia?

- Nada cor de rosa e com estrelinhas em volta pode ser assustador. Vai entrar no elevador ou vai ser a nova garota a ser banida dos privilégios do condomínio?

- Vou entrar no elevador, para te assustar com minhas apavorantes borboletas tatuadas no tornozelo…

Chego no meu andar, me despeço, entro no apartamento e, determinada a ajudar o vizinho injustiçado, busco por apoio:

- A gente tem que fazer alguma coisa. Como assim proíbem pessoas esquisitas de andar no elevador?

- Te proibiram de andar de elevador?

- Não.. eu não sou esquisita.

Ele ri:

- Não?

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Maíra, sozinha numa multidão de Fiel

Janeiro 26, 2009 · 12 Comentários

 

Minha mãe e meu irmão mais velho ficam em pânico quando estou sozinha em São Paulo. É como se o perigo estivesse sempre presente, é como se eu fosse colocar os pés para fora de casa e de repente eu seria assaltada, seqüestrada, estuprada, tudo junto e terminando desovada em um córrego qualquer. Meu irmão sempre diz:

- Mas você agora está acostumada com Curitiba.

Sempre com aquela cara de compreensão e aquela expressão facial de “e sabemos que lá é quase uma cidade de 30 mil habitantes com igreja e pracinha. Onde há felicidade, parques, transporte urbano de primeiro mundo e, principalmente, onde pessoas perdidas e sociáveis iguais a você.. podem andar despreocupadas pelas ruas.

E essa é outra incrível discussão: a minha sociabilidade. É sempre a mesma bronca:

- Não sorria para desconhecidos. Não fale com desconhecidos. Nem sequer olhe para desconhecidos. Você tem que passar, apenas passar por aquelas ruas caóticas, buscando ser mais um rosto na multidão, buscando passar despercebida. MEU DEUS PARE DE SORRIR!!!

E eis que esses dias tive minha mais bizarra experiência de quase morte, onde, desesperadamente, tentei seguir os conselhos de passar, apenas passar pela multidão, não surtindo resultado.

Era uma linda manhã cinza e poluída de domingo. Você podia respirar fundo e sentir todo aquele CO2 entrando pelas suas narinas, chegando ao seu pulmão e te fazendo ter vontade de tossir. Seus poros estavam entupidos e seu cabelo alvoroçado com aquela ventania toda. Não havia pássaros, mas havia carros cantando pneus e aquele cheiro de fios queimados exalava da estação de metrô.. Não tive dúvida: que belo dia para ir tomar um cappuccino na Barra Funda. E lá estava eu na plataforma do metrô na minha espera quase solitária, se não fosse mais aqueles quatro, cinco paulistanos escondidos atrás de seus jornais, óculos escuros e caras mal humoradas. Quando… de repente: gritos, cantos, palmas e “Gaviões.. Gaviões.. Gaviões”… rompiam o som do meu mp3 player.. olhei as escadas rolantes e em segundos elas estavam abarrotadas de gente usando touquinhas escrito “Fiel”. Pânico.

Pensamento insistente: E livrai-nos de todas as torcidas organizadas num domingo de manhã.. e livrai-nos de todas as torcidas organizadas no metrô.. e livrai-nos de todas as torcidas organizadas e caos no transporte urbano.

Como qualquer mulher independente, auto-suficiente e senhora de si, fiz o que qualquer outra faria: fiz pose de samambaia, enquanto vestia minha melhor cara de desprezo pelo mundo, onde, invariavelmente, expressava todo meu jeito blasé, ignorando toda aquela multidão ao meu redor, enquanto pensava:

- Ok, a multidão vai.. eu espero e espero e espero.. uma hora eles vão ter que parar de abarrotar aquelas escadas rolantes e, estou em São Paulo, atrasos são incrivelmente tolerados.

E continuo minha estratégia de passar despercebida pela multidão e vou tentando atravessar aquele mar de gente, saindo da plataforma e tentando chegar a um lugar onde não tenha que pensar em estapear alguém para conseguir oxigênio, quando o pior aconteceu: o metrô chegou. Me senti como Nemo tentando escapar da correnteza, mas era tarde demais, foi como num piscar de olhos, em um momento eu via o mundo lá fora e no outro estava dentro de um vagão subterrâneo. Continuei com minha estratégia de olhar blasé e de tentativas de passar, apenas passar pela multidão. Não sorri, não fiz cara de simpática, não olhei nos olhos de ninguém, mas nada adiantou, devo exalar algum tipo de feromônio que faz com que gente esquisita fale comigo:

- Ai mina.. cê tá indo pra Barra Funda também?

Pensamento insistente do dia: Merda! Merda! Merda! Ele está falando comigo.. vou ter que falar com ele. Sorria.. sorria.. pareça simpática.. pelo amor de Deus seja simpática. Não, não.. não o encare, apenas olhe e sorria. Olhar amistoso, olhar amistoso.. você consegue.. Vamos lá, responda Maíra.. responda:

- Estou sim… (Ai Meu Deus! Será que fiz um olhar amistoso? Acho que me atrapalhei e fiz meu olhar nojentinho. Será que pareci uma da playboyzada do Morumbi? Aiii.. e livrai-nos de todos da torcida organizada te achando uma nojenta do Morumbi.. e livrai-nos de todos os olhares intimidadores… e livrai-nos do espancamento)

- Cê tá indo pro jogo?

Pensamento insistente: Jogo? Ai Meu Deus! JOGO? Diga que não vai ter clássico hoje na Barra Funda.. por favor.. clássico não.. ai.. ai.. tanta padaria na Vila Mariana, mas nãooo.. vamos marcar de nos encontrar na Barra Funda.. isso.. grande idéia.. gênio você Maíra.. gênio mesmo! Já sei.. digo que não sou daqui.. digo que sou curitibana.. Isso! Ahn.. não, não.. curitibana tem fama de antipática. Catarinense.. isso digo que sou catarinense, torcedora do JEC. Quem iria olhar torto para uma torcedora do JEC? Merda! Sotaque.. hum.. interior do Paraná.. isso.. consigo muito bem fazer sotaque do interior do Paraná.. isso.. “porrrrrta”. Certo, não vou pro jogo, só se fosse do JEC. Ahn, não, não.. sou do interior do Paraná. Rá! América. Isso sou do interior do Paraná e Ameriquinha desde criança por causa do meu pai carioca. Isso! Não vou pro jogo, só se fosse do América.

- Ow mina.. cê vai pro jogo também?

- Ahn.. então meu.. não vou não (O que? “Não vou não”? Essa é sua resposta simpática? Mas que merda!! Foco Maíra, FOCO! Você é torcedora do Ameriquinha! E “meu”? é assim que quer passar por paranaense? Falando “meu” a cada 3 palavras?)

- Cê tem jeito de palmeirense..

Pensamento insistente: Ok, estou com um jeito de palmeirese dentro de um vagão subterrâneo cercada da torcida organizada do Corinthians. Isso é o que chamam de ironia do destino? Porque não tenho cara de torcedora do América? PORQUE?

Como mulher independente, auto-suficente e comospolita que sou, acreditando que quem tem partes pudentas tem medo, fiz o que qualquer outra faria:

- Qual é meu… se é pra xingar chama de putona logo.. se é pra ofender deveria começar já lembrando da minha mãezinha.

Ele ri:

- Foi mal mina.. foi mal.. mas que cê tem cara de palmeirense.. ah tem

Pensamento insistente: Da última vez que vi tanta gente da Gaviões e um palmeirense só lembro de ouvir: “pega o porcoooo”. Tá, vamos la.. dê uma boa resposta.. cante o hino do Corinthians enquanto sorri e parece uma da Fiel.. vamos lá.. Merda! Qual é o hino do Corinthians mesmo? Ohohoh alvinegro praiano.. ahn.. esse é do Santos. Caramba.. qual é o maldito hino?

- Soy loco por ti Corinthians.. eu vivo por ti Corinthians.. eu canto até ficar rouca.. eu canto pra te empurrar.. vamos.. vamos meu Corinthians.. não pare de lutar… (merda.. esse não é o maldito hino.. mas ta.. músicas da fiel.. resolve..)

- Minaaaaa.. cê é da raça também… É nóis.. é nóis.. tamo juntooooo parçaaa (diz ele me abraçando.. e, de repente, todo mundo me abraçando.. e, de repente, eu pensando insistentemente que nunca mais vou à outra padaria que não na Vila Mariana)

Chegando na Barra Funda, toca o celular:

- Ma?

- Oh, vovó, abre a janela, A avenida hoje está tão bela, Gaviões, Gaviões da Fiel…  Gaviões….

- Maaaa??? Maaa??? É VOCÊ??

- Corinthians minha vida.. ô – ô – ô

- Ma? Ma? Maíra? Tá tudo bem? Corinthias?? Até onde eu sei você é Palmeiras até a morte.. Onde diabos você está?

- Ah meu.. tudo firmeza.. to aqui com os parça da fiel… Uhuuuu.. é nóis mano.. é nóis…

- Gaviões! Gaviões! Gaviões! É nóis.. é nóis… Da raçaaaaaaaaa… (Vitão, meu novo amigo de infância pega meu celular e grita empolgado).

- Parça? Você falando parça? Mano? Gaviões? Quem é esse cara gritando? Ma, você ta sendo sequestrada? Se sim diga.. ahn.. diga AMENDOIM, Ma… diga AMENDOIM…

Subo as escadas rolantes, usando um gorro da gaviões da fiel, erguendo os braços de maneira ritmada com os “parça” e entoando cânticos de adoração ao timão. Ele me esperava na saída da estação. Não pude deixar de notar seu olhar.. uma mistura de medo com apreensão. Olhei para ele, ele olhou pra mim e prometemos nunca mais falar a respeito, sendo o “nunca mais” depois que ele já tivesse tirado sarro o bastante.

As vezes temos que abrir mão da dignidade para a preservação dos dentes e das partes pudentas. E eu só penso: porque fui dizer que me chamava Maíra? Devia ter dito Gisleide quando me perguntaram.. assim não carregaria a vergonha do:

- Ma, grande corinthiana.. parça mesmo… da raça.. da fiel…

 Ah.. o que o ser humano não faz para preservar suas partes? Dignidade zero!

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