Movimento Anti-Atrofia Hepática*

29 09 2008

 

É sempre a mesma história todo final de semana: João Paulo ouve o mesmo sermão da mãe, vê o olhar de reprovação da mesma tia-avó, escuta a vizinha mandando a família se apegar a Deus e lá está mais uma corrente de oração em mais um sábado de confraternização etílica junto com o pessoal do escritório.

 

Sempre antes das 20 horas, Dona Mariluce se joga aos pés do filho e implora para que ele pense no fígado, outrora tão vermelhinho e sorridente como um daqueles cartões smile.

 

Quase todo domingo, Luís Gustavo, depois de ter tomando um porre, acorda de cueca, esparramado no sofá, com o mesmo olhar de “ressaca introspectiva,” enquanto ouve o mesmo sermão de Dona Marlene.

 

Mas, ora essa, nós somos aquilo que fazemos repetidamente. Excelência, então, não é um modo de agir, mas um hábito.

 

Quando Aristóteles (Ari, para os íntimos) proferiu esta grande máxima da filosofia, nunca imaginaria que tal citação, sem maiores pretensões artísticas, se tornaria uma verdade etílica universal. Afinal, o fígado, tal qual qualquer órgão do corpo humano, carece exercícios cotidianos a fim de apresentar um bom desempenho.


Assim como aquele tio de meia idade que, no auge do mais familiar dos churrascos de domingo, se escala pra pelada da gurizada a fim de “fazer bonito” relembrando a saudosa época em que jogou de volante nos áureos tempos do combate Barreirinha (quando era conhecido pela alcunha de “Zezão quebra-osso”), e que, irremediavelmente acaba, após alguns (poucos) minutos de profunda humilhação, por ser hospitalizado às pressas com uma torção no joelho esquerdo, uma hérnia de disco, e um princípio de parada cardíaca, as atividades de devassidão (leia-se aqui bebedeira) devem ser devidamente exercitadas. Como manter um fígado funcionando devidamente se você não o faz trabalhar?

 

A bebedeira de final de semana não é só mais um ato mundano, não é apenas uma forma da secretária quase aposentada e reprimida fazer um striptease em meio ao pessoal do escritório. A bebedeira é medicinal! Terapêutica!

 

Porém, evidentemente, a não ser que estejamos na Sibéria (neste caso, recomenda-se vodka sem gelo, a não ser que esta já tenha virado gelo, que, não se havendo alternativa, pode ser facilmente comido), obviamente as condições normais de pressão e temperatura hão de ser respeitadas.

 

Muito embora a palavra “limite” enseje um significado tanto quanto subjetivo quando não empregada para fins matemáticos, principiantes devem se portar como tais, e, a fim de não terem seus currículos vergonhosamente maculados, até mesmo antigos medalhistas devem conservar certa parcimônia em questões etílicas, ao menos quando já desabituados ao mundo de Marlboro.

 

Tudo isso para que, ao final da empreitada alcoólica, dois martinis não acabem fazendo você se sentar no chão do banheiro e chorar copiosamente enquanto interpreta os maiores sucessos do Roupa Nova, um pouco antes de acordar com a maior ressaca do mundo, em local incerto e não sabido.

 

Enfim, isso e mais todas aquelas coisas que fazem parte do incerto conjunto de coisas que não deviam acontecer, mas que, acredite: acontecem nas melhores famílias. Nas piores famílias, então, nem se fala…

 

* Texto escrito em parceria com meu ilustríssimo amigo, conselheiro e fornecedor de grandes idéias, notícias bizarras e demais coisas mundanas.. Marcos Brehm, outrora conhecido por Castor.. e/ou “oww.. eh meu.. você aí ô cor-de-rosa”…





Entre paracetamol, lenços e registros

15 09 2008

 

É final de semana, o que por si só sempre foi o suficiente para me deixar feliz, mas dessa vez uma gripe intensa me fez esquecer que as sextas são lindas por si só e que os sábados são gloriosos só porque são sábados. A felicidade deu lugar aos espirros, a vodka ao suco de laranja sem gelo e o bom humor a apatia.

 

 Eu me esforcei para ser sociável, acabei parando em um bar e tentei esquecer que a música só piorava a minha dor de cabeça e que manter os olhos abertos era um martírio. Tentava, desesperadamente, me convencer que o bacardi lemon nem é tão essencial para a vida humana e procurava achar graça no suco de laranja sem gelo.

 

Em menos de duas horas desisti de querer ter uma vida e resolvi ir pra casa e, numa atitude altamente altruísta, dispensei todo e qualquer ser humano das funções de enfermeiro, afinal, amar é incentivar a consumação de cerveja e, também, tudo que eu queria era me encher de porcarias sintéticas que aliviam a sensação de mal-estar e dormir.

 

Em casa, fiquei deitada na cama lembrando de saudosos tempos, quando ainda conseguia respirar sem maiores problemas. Ah! Que doce sensação, não? Você puxava o ar e o sentia entrando em seus pulmões. Que dias gloriosos foram esses! E agora você está assim, mal humorada, morrendo de gripe, achando que até seus dedos dos pés devem estar congestionados e que é por isso que cada parte do seu corpo dói. Teria outra explicação plausível?

 

Você não caminha mais, você se arrasta com suas pantufas de joaninha por todo o apartamento, enquanto deseja ser acéfala, para que aquela insuportável dor de cabeça deixe de fazer parte dos seus dias. Não há neosaldina que amenize, não há paracetamol que cure, não há vicky vaporub que descongestione.

 

Em meio a todo caos que tem sido respirar, você tenta desesperadamente dormir, mas você descobre que ou você deita na cama ou você respira. Você cogita ligar para seu avô e perguntar sobre as técnicas dele para dormir sentado, mas já passam das duas horas da manhã e é assim.. só você, a gripe e seu mau humor, numa madrugada fria.

 

Quando você pensa que nada mais pode acontecer, quando você acha que não tem o que piorar, você ouve aquele ruído vindo do banheiro. Muito a contra gosto você se levanta do sofá, caminha em direção ao barulho e tchan-tchan-tchan… tem o banheiro, tem um tapete encharcado e tem água, muita água… você tenta respirar fundo e se lembra que nem isso você pode fazer. Em uma atitude muito madura, você resmunga e tenta fechar o registro emperrado. Você é destra e sua mão direita está machucada, você tenta se convencer de que tem a mesma coordenação com a mão esquerda, mas é em vão. Você fica tão irritada que esquece da mão machucada, esquece da dor e fecha o registro, enquanto amaldiçoa os malditos problemas hidráulicos.

 

Porque eu? Porque diabos esses malditos problemas envolvendo canos e água me perseguem? Karma? E já começo a pensar sobre vidas passadas: “Pô! Se soubesse que ia ser um castigo tão cruel assim, eu nunca teria roubado o padre, batido no mendigo, bebido mais que devia e xingado a mãe da dona da padaria!!”.

 

A festa regada à música ruim e volume ensurdecedor continua dentro da minha cabeça, manter os olhos abertos em meio a lugares com luzes acesas tem sido uma provação e, infelizmente, não era possível controlar um vazamento e enxugar todo o alagamento no escuro.

 

Além de tudo o registro vazava. Você procura por fita veda rosca desesperadamente.. e lembra-se que ela acabou no último problema do chuveiro. Você amaldiçoa o chuveiro, o registro, a instalação hidráulica e se pergunta por que diabos você não está morando com seus pais, com seu irmão, com o zelador, com um bombeiro hidráulico, que seja! Você fecha o registro, resolve o problema do vazamento com fita crepe e um pano e começa a se sentir meio McGyver.

 

A irritação continua, a dor de cabeça só piora e você tem febre. Você madura, sensata, auto-suficiente, independente, senhora de si e cosmopolita faz o que qualquer outra faria.. grita “Merdaaaaaa”, resmunga e jura que vai resolver de vez o caos que virou seu banheiro, nem que pra isso tenha que derrubar paredes.

Se eu já tinha ficado triste com o chuveiro e suas seis fileiras de água com pingos caindo num intervalo de 6 segundos, imagine só a euforia de não ter água no banheiro como um todo.

 

A febre continua e você pensa em um banho gelado e lembra do problema com banheiro e vazamentos. Cogito deixar o apartamento alagando por 20 minutos enquanto tomo banho, depois resolvo partir para o plano B: a área de serviço. Tem uma portinha na área de serviço que leva para um lugar que civilizações antigas acreditavam ser um banheiro. Tem um vaso sanitário e um cano de chuveiro, tudo isso dentro de um cômodo do tamanho de uma porta do meu guarda-roupa, deveria servir em uma situação emergencial.

 

Abro o “chuveiro” (entende-se por chuveiro um cano sem um chuveiro de fato) e  a água em temperatura ambiente padrão Patagônia começa a jorrar. Lá se foram meus planos de não lavar a cabeça, visto que, forças místicas superiores fizeram a intensidade da água lavar minha cabeça, o vaso sanitário, as janelas do “banheiro” e a porta.

 

Acabo adormecendo no sofá da sala, assistindo as porcarias que só uma tevê aberta pode produzir às 3 horas da manhã. Mas, ao amanhecer, o problema hidráulico continua, ainda tenho febre, tomo paracetamol como se fosse tic-tac e, nostálgica, suspiro e lembro daqueles velhos tempos.. onde eu conseguia respirar tão bem. Ah!! Que dias gloriosos foram esses!

—-

PS: Querida Bia, nesta manhã festiva, eu (e toda aquela equipe responsável por esse blog - hahaha) queremos desejar a você blá blá blá blá, felicidade, sucesso, etc.. etc.. etc… e que o espírito (ops, isso é só no natal!), enfim, Feliz aniversário! =)





Pessoas reais num mundo surreal I

10 08 2008

 

Era mais um final de semana como outro qualquer na capital paranaense. Estava frio, cinza e uma chuva fina e gelada caia ininterruptamente. Era dia de sofá, a preguiça assim determinou.

- Eu escolho o filme hoje.

- De jeito nenhum! Eu escolho o filme hoje.

- Certo, vamos fazer iguais pessoas adultas fariam.

- Hum.. cara ou coroa?

- Não! Isso é para franguinhos e não somos franguinhos. Quer dizer.. você é..

- A quem ta chamando de franguinha, hein? Hein? HEIN?

- Então vamos lá.. eu tenho um desafio pra você. Se você conseguir vencer, eu assisto o que você quiser.. nem que isso envolva aqueles malditos filmes do Harry Potter.

- Fechado!

- Então.. é o seguinte… Faça uma matriz transposta da identidade, ache seu determinante e a sua jacobiana. Chamando o determinante da transposta de “x” e sendo o mesmo um espaço percorrido num tempo “t”, onde “t” seja a jacobiana da matriz. Integre os resultados em função de “t” achando assim a velocidade. Decomponha a velocidade no espaço R3 em seus autovetores originais i, j e k. Após isso, calcule o produto interno do vetor velocidade encontrado com a matriz identidade prévia e me diga o resultado. Fácil assim. Tem 15 minutos!

- Não preciso de 15 minutos, já sei a resposta.

- Já?

- Sim. Jacobiana se fez Jacobiana pela dissecação do seu vetor externo, para, assim, atrair vetores convergente numa soma enlouquecida de operações de vetores que, então, se tornariam internos. Entendo, portanto, que a transposta da matriz é, na verdade, a inversão da identidade da matriz, algo que muito me chocou!!! Pois ao saber que o mesmo, ou mesma, queria decompor o escalar da velocidade em várias posições dos seus autovetores no espaço R3. Fazendo para isso uso, só posso pensar eu, das mais obscuras relações matemáticas. Portanto, me sinto obrigada a ser determinante com a Matriz e sua nova identidade transposta e inversa e devo alertá-lo da impossibilidade da multiplicação de matrizes de raízes diferentes. Mas esclarecendo que se pode, ainda, integrar o “x” bem ao tempo “t”, e, ao integrá-lo, tornar-se-á uma constante em sua vida e assim juntos viverão felizes para sempre, mas sem que ninguém derive, pois a derivada de uma constante nada mais é do que zero!!! E então?

- Sou seu fã, sabia?- diz entre risos - É difícil achar uma outra pessoa com tanto talento para ser excêntrica.

- Uiiii..Que medooo!

- Medo? Por quê?

- Não tenho certeza se quero ter fãs.. Lembra o que aconteceu com o Lennon?

- Ah! Mas eu não te mataria.. Não pelo menos não como fizeram com o Lennon..Você precisa de uma morte digna de você. Algo grandioso. Tinha que ser igual a do Kennedy, assim, na frente de milhões!! A do Lennon nem filmada foi…

- Eh, vendo por esse ângulo…não quero só escrever: “saio da vida pra entrar pra historia”..quero dizer em alto e bom som para as multidões que me amavam..

- Que te amavam não!! Que te amam e amarão, pois você nunca será esquecida. Estará para sempre no coração de todos os que um dia tiveram a felicidade de te conhecer. Será eterna, pois seu nome nunca morrerá. Será passado de geração para geração, na palavra escrita e falada, pois todos lembrarão do tempo em que o mundo tinha você…

- Ehh..e todos te odiarão..e o pior.. você vai usar aquelas roupas cinzas de prisão e bem.. você fica horrível de cinza.

- Bem, na verdade eu sempre fico bonitinho, mas vou ter um uniforme diferente: preto. Pra todos saberem quem foi o causador da maior desgraça da terra. Pra saberem quem destruiu o sonho de milhões. Claro que escreverei um livro sobre minha, ou melhor, nossa vida, que será transformado em filme e ganharei milhões.

- Milhões?

- Sim, até serei entrevistado no programa do Jô, no Late Show, etc. todos querendo entender o porque. Então direi: “Porque antes dela ser do mundo, ela havia sido apenas minha e vocês tiraram isso de mim. Então a tirei de vocês. Espero que gostem da sensação, seus malditos, malditos, todos vocês!!!”.

- Não sabia que era tão possessivo assim comigo.

- Não sou… só um sentimento de posse doentiamente controlado, o resto é cena.. Você sabe que sou um puta de um ator né! Na verdade vou fazer tudo isso pela fama…

- Que isso.. nós sabemos que a culpa irá te corroer e você viverá pra sempre atormentado com a minha presença..

- Ahh! Mas eu já vivo atormentado com sua presença em dias normais..

- Como é que é?

- Err.. nada.. quis dizer que você escolhe o filme.. e aí.. Harry Potter?





Entre pipoca e lágrimas

15 07 2008

 

Moletom, sofá e Dr. House, ela jurava que nada a faria abandonar os travesseiros e o edredom naquele dia, quer dizer, abriria uma exceção: João, definitivamente, pelo João ela abriria uma exceção, não tiraria as pantufas para correr de encontro a ele.. Ah! Mas pelo João, somente pelo João, seria capaz de apertar o pause do controle remoto. Era isso: dvd´s, moletom, edredom, sofá e o João, entregador de pizza amigo, trazendo o mesmo pedido de sempre: tomate seco com rúcula. Mas..

 

- Alô..

- Vamos sair?

- Não.

- Vamos sair?

- Não.

- VAMOS SAIR?

- Err.. hum.. não!

- Você fez um juramento lembra?

- Amar, respeitar e ser fiel até que a morte nos separe? Hum, não, não.. não era isso. Era? Xiiii… Senhor, perdoai.. eu pequei!

- “Com esse pedaço de carpê nas mãos, tendo Deus como testemunha, eu juro que nunca mais deixarei ninguém do meu círculo de amizade ir ao cinema sozinho”. Lembra-se?

 

Merda! Eu adoro cinema, cadeiras nas últimas fileiras, tela grande, saquinhos de M&M, mas a verdade é que o cinema, pra mim, é uma prova de que seres humanos são feitos para viver em sociedade. Em um dos meus piores pesadelos, estou em um cinema vazio, com um pote de jujubas, assistindo repetidamente Casablanca e chorando ao som de “as time goes by”.

 

Toda imagem de independência, toda a ilusão de auto-suficiência, toda arrogância de “não preciso de você pra nada”, se esfacela diante da bilheteria de um cinema.  Com quem vou rir nos trailers? Quem vai repetir comigo “há-há-há eu não tinha pensado nisso”, naquela mesma propaganda de Seguros do Unibanco? Com quem vou fazer observações (im)pertinentes? Definitivamente, o ser humano não nasceu pra ser só e por mais que os curitibanos (variante da espécie homo sapiens, mas com inúmeras peculiaridades) afirmarem que vão ao cinema sozinho por gosto pessoal, eu acredito que nenhum ser humano pode, REALMENTE, achar DIVERTIDO ir ao cinema sozinho, mas.. sei lá.. talvez a estranha seja eu, afinal, sou excêntrica.. faço solos de air guitar ouvindo Doors. Mas, enfim, convite para cinema é covardia. Como recusar? É uma alma em desespero, clamando por ajuda:

 

- Hum.. e qual é a boa de hoje? Documentário cambojano? As mazelas da Somália? Ou outro incrível filme iraniano sobre tratadores de avestruz? (ele é sempre responsável pelos mais “incríveis” convites, sempre acho que está testando o quanto eu posso suportar).

- A nova animação da Pixar.

 

(Pausa para a confissão pública: eu A-D-O-R-O desenhos).

 

- Está sendo cínico? Está dizendo isso para me fazer ficar feliz, dizer umas interjeições que expressam felicidade e depois acabar com todas minhas ilusões, num ato de puro sadismo?

- Não, estou realmente te chamando para assistir o novo desenho da Pixar.

- Por quê?

- Porque sei que você adora desenhos, oras!

- Hum… Você fez alguma coisa que faria eu te odiar pra sempre e está tentando ser legal para me impedir de te odiar pra sempre?

- Eu sempre faço coisas que fariam você me odiar, mas sabe Deus porque, nunca funciona.

- Eu estou doente, né? Eu estou com os dias contados e você, na sua infinita bondade, está tentando me deixar feliz antes da passagem, confesse!

- Pobre criança inocente! Você sabe que eu nunca faria isso.. minha bondade é extremamente finita, isso seria uma atitude cristã demais pra mim.

- Está precisando de um rim?

- Não, só de companhia para o cinema… e talvez de um fígado, mas creio que você não seja a escolha mais acertada para essa necessidade. Então, 15 minutos?

- Claro! Aí você me espera por mais 1 hora e vamos.

 

E lá estávamos nós e milhares de criança, em uma sala de cinema, comendo pipoca e assistindo Wall-E, quando:

 

- Má, você está chorando?

- Chorando?? Eu?? Eu não tô chorando.

- Então vamos sair daqui correndo para o hospital, deve ter algo estranho, estão saindo lágrimas dos seus olhos, LÁGRIMAS!! Sem você chorarrr.. Um médico, UM MÉDICO. Sococorro! Glândula lacrimal fora de controle!

 

E, em um ataque de fúria, o belisquei.. ferozmente!

E Wall-E fez o que nem a morte do pai do Simba em “Rei Leão” fez.. Patéticas cenas de uma pessoa adulta, chorando assistindo um desenho. Constrangedor! Na próxima vamos ver algo meio “Piaf”, “menos” triste.





A fase da negação

27 06 2008

 

Estavam no bar. Ele a olhava fixamente com um sorriso de canto de lábio, ela ria e falava compulsivamente sobre papéis, mundo corporativo, frio, cor-de-rosa e insanidades aleatórias, de maneira completamente não linear.

- Desisto! Quem é ele? (diz ele batendo na mesa e interrompendo uma das histórias dela)

- Ah! Você não conhece.. é aquele boy novo daquele…

- Não, não é disso que estou falando. Quero saber quem é o cara.

- Ahn? Cara? Que cara?

- O cara por quem você está apaixonada.

- Eu?? Apaixonada? – diz entre risos – Eu não tô apaixonada.

- Sim, está.. mas não descobri ainda por quem. Eu conheço? Não, não devo conhecer.. senão já teria notado.

- Eu não to apaixonada, meuuu!

- Ihhh… ele é casado?

- Hein? Não!!! Ele não é casado.

- Rá! Se tem um ele que não é casado é sinal de que tem um ELE que é solteiro. Qual é o problema então?

- Problema? Que problema? Não tem problema nenhum.

- Então porque não estão namorando? (pausa) (pausa) Xiiiii…

- O que? O que?

- Você realmente gosta dele, né?

- Mas quer merda!!! Não tô apaixonada.

- Se não estivesse apaixonada, estaria namorando.

- Ahn?? Não é o contrário?

- Seria, mas você tem um modo de funcionamento muito peculiar. Qual o problema com esse cara? Aliás, qual a razão totalmente sem sentido, mas que na sua mente parece ter coerência?

- Se eu estivesse apaixonada eu saberia, não?

- Mas você sabe que está, mas está na fase da negação.

- Negação?

- Sim, por causa do funcionamento peculiar, racionalidade, medo e coisas que soam e cheiram a certezas. Você está e tenta se convencer que não está… sei lá.. aquelas coisas de gostar do controle da situação, não pisar em ovos.

- Quantas cervejas você tomou antes que eu chegasse?

- Não o suficiente para não perceber que está mudando de assunto.

- Não estou apaixonada.

- Então prove!

- Como?

- Fique com um cara hoje.

Ela ri:

- Quem? Você? Se for essa sua técnica de convencimento já digo que foi uma péssima abordagem.

- Por quê? Você quer ficar comigo? Ai Meu Deus! Sou eu? Você está apaixonada por mim? É.. por isso tem demorado pra retornar as minhas ligações.. é isso.. antes você não estava apaixonada, podia me ligar compulsivamente, agora me ama.. não quer que eu perceba e tenta me evitar para que eu não note o sentimento mais profundo.

- Quer me fazer ficar com você e ainda tentando me fazer pensar que sou eu que quero porque estou apaixonada por você, mas não sei lidar com isso?

- Não! Eu sei que está apaixonada.. e sei que não é por mim, mas não custava tentar. Mas e aí.. vai ficar com o cara?

- Cara? Que cara? O por quem estou apaixonada?

- Ah! Então você está apaixonada…

- Não sei.. você disse que estou…

- Se não está marque de sair por uma semana com aquele cara que te mandou aquela cantada escrita no guardanapo.

- O que escreveu “se você querer”??

- Exato!

- Olha..o “se você querer” eu relevava.. o “encomodar” eu deixava passar.. mas, definitivamente, o “entertida”.. ah não.. não tem como.

- A-hááááá.. Já sei!! É o João.

- Hein?!?! Não!!!!

- Hmmm… é… não, não é o João mesmo… o João eu conheço. Quando vou conhecer esse tal cara??

- Gente! Desculpe o atraso, maldito trânsito, maldito horário comercial, malditas calçadas, salto quebrado. Merda! Garçom.. uma caipirinha de rum, capricha no limão (diz, enquanto puxa uma cadeira e se junta a eles). Ihh.. que caras são essas? Do que estão falando?

- Ela está apaixonada! – diz ele com olhar cínico e com o maldito sorriso de canto de lábio.

- Apaixonada?!?!? Por quem??

- Não conhecemos, mas ele não é casado.. é o que sei.

- EU NÃO TÔ APAIXONADA!

- Xiii… A fase da negação, é?

- Exato! A negação… Garçom… mais uma cerveja e Cranberries de música de fundo, porque temos aqui uma mulher apaixonada!





Ela tinha decidido

17 04 2008

  

 Ela tinha decidido, seria um final de semana de moletom, arrastando meias junto com o Ross, rindo das mesmas piadas e repetindo as mesmas falas de friends. Seria um daqueles finais de semana dela sóbria, embebedada só com as doses de sorvete chambinho. ELA TINHA DECIDIDO, seria um final de semana de total reclusão desse lugar chamado mundo, com edredom e filmes clássicos, sim.. ELA TINHA DECIDIDO.

  

Toca o telefone:

 

- Ei! O que está fazendo? Vamos sair?

 

- Décimo quinto episódio, terceira temporada, “Where Ross and Rachel take a break”. Hoje nada que precise de maquiagem e salto alto.

 

- Fechado! Vamos pro Largo então, você pode andar igual mendiga lá… Passo aí em 15 minutos, já que não vou precisar esperar você se arrumar. Devia ter esses dias de prostração mais vezes, sabia? Te esperar por 1h30 é uma coisa terrível.

 

- Que bom que minha preguiça da raça humana te agrada, mas não vou sair hoje.

 

- Sabemos que você só precisa de um incentivo, sua preguiça de sociabilidade acaba 1 minuto depois de te jogarmos na sociedade.

 

- Ah! Mas hoje não vou sair mesmo, talvez amanhã.

 

- Ih… Posso fazer alguma coisa para te animar? Quer companhia? Quer um abraço? Caipirinha? Sexo??

 

- Sexo???

 

- Sim, pra te animar.. o que for preciso.. O QUE FOR PRECISO!

 

- Besta!

 

- Bom.. se mudar se idéia, se quiser sair ou se quiser fazer sexo, sei lá.. Bom, só me ligar hein.

 

Voltando aos dvd´s, voltando ao “We were on a break!” E mal dá tempo de achar o controle, mal dá tempo de tirar do pause e toca, novamente, o telefone:

 

- O que está fazendo?

 

- Sofá, moletom, sorvete, dvd´s.

 

- Xiiii.. Eu sei do que você precisa.. uma noite de whisky e poker.

 

- Whisky? Poker? Vai querer me levar para um inferninho com prostitutas fazendo striptease também? Eu sou mulherzinha, lembra? Você deveria me oferecer chocolate e filmes da Meg Ryan.

 

- Ah.. mas está faltando um na mesa de poker hoje.

 

- Oi??

 

- Ah! Custa você substituir o João? Eu te ensinei a jogar a toa? Vai ser quase igual ficar andando pela casa deprimida e de meia, mas vai ter uns homens, cigarro e apostas.

 

- Pensei que a sua noite de poker fosse uma noite masculina sagrada.

 

- Sim, é.. mas, bom.. hoje tá liberado aqui..e você sabe jogar, é divertida e cheira bem.. é melhor chamar você do que um cara estranho, que nem sabe jogar.

 

- Tentador, mas deixa para a próxima.

 

- Ah! Você tem que vir. Já te apresentei o Marcelo? Você vai adorar o Marcelo, ele até gosta do Chico, filmes estranhos, você vai adorar mesmo! Não é assim, bonito como eu, mas, bom.. é esforçado, vai… você não pode esnobar o Marcelo assim.

 

- Hum.. valeu mesmo, mas hoje não estou afim.

 

- Merda. Tem alguém pra me indicar então?

 

- Pra você apresentar pro Marcelo?

 

- Ãhn??… Eu quero que o Marcelo se foda. Alguém pra mesa de poker, porra!.

 

- …..

 

Novamente, busca incessante pelo controle, novamente, mal aperta o pause, toca o interfone:

 

- Ô sua vadia! Abre ai pra gente!

 

- Oi? Quem é?

 

- Como quem é? Não reconhece mais suas amigas não? Alguém mais te chama de Vadia?? (diz uma delas).

 

- Abre logoooo! Eu preciso ir ao banheiro, sabe o que é ficar horas dentro desse carro? (diz a outra).

 

Ela abre o portão, elas chegam ao apartamento. Ela pergunta intrigada:

 

- O que estão fazendo aqui suas doidas?

 

- Viemos te buscar, oras! Joga umas coisas dentro da mala e vamos.

 

- Vamos pra onde?

 

- Ah! Vocês fiquem aí conversando que eu vou usar o banheiro (diz a outra impaciente, enquanto vai entrando apartamento adentro).

 

- Mas então, posso saber pra onde pretendem ir?

 

- Definitivamente, pra um lugar onde não se entra de pantufas, então.. vá logo se arrumar (diz, a empurrando para o quarto).

 

- Meu! Só você pra me fazer ficar tanto tempo dentro de um carro, olha.. eu estou com os pés inchados… Ai, ai (reclama a outra, enquanto sai do banheiro).

 

- Você vai ficar aí olhando pra gente? Vai se arrumar logo, deixa que a sua mala eu arrumo, aliás, não era aqui que você guardava uma mala? (diz, enquanto revira o guarda-roupa).

 

- Não era aqui (diz a outra, abrindo outras portas). Nossa!! Olha essa sandália, decidido.. você vai usar essa sandália e aquele vestido preto de cetim.. Hum.. aquilo é cetim? Ah! Enfim, cadê aquele vestido preto?

 

- Está…

 

- Deixa que a gente procura. Vá logo tomar banho e tirar esse moletom, ande! Não podemos nos atrasar.

 

- Nos atrasar pra que?

 

- Vá se arrumar e deixa o resto com a gente…

 

 E foi assim que o final de semana tendo como companhia moletom, dvd´s e sorvete, acabou se transformando em um final de semana de malas, viagens, salto alto, maquiagem, música muito alta e uma considerável taxa de álcool no sangue.





O interminável final de semana

30 03 2008

Final de semana, música alta, risadas na mesa, discussões bobas de bar, muita gente. Confusão de pessoas, banda ao vivo. Algo como a quarta ou quinta dose da noite.

Ela cantava, junto com a banda, rouca e sem fazer questão de ser afinada, acompanhando a letra de uma das cantoras prediletas: “um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer, me libertei daquela vida vulgar…”

Toca o celular. No identificador de chamadas o número que ela sabia, não traria boas notícias, afinal, ele nunca ligaria naquele dia, naquela hora, daquele número, se não fosse para começar a frase com: “não sei como dizer, mas..”. Ela atende com apreensão, já perguntando:

- O que aconteceu?

- Onde você está?

- Oi?? Não estou te ouvindo direito?

- Nossa! Que barulheira. Está em uma festa?

- Estou em um bar.

- Hum.. bar…

- Sim, por quê? Está acontecendo algo?

Ligação ruim, muito barulho em volta dela, ele diz alguma coisa, ela não escuta direito. Música ao fundo, risadas, gente falando. Enquanto ela caminha em busca de um lugar longe dos amplificadores alguém a chama, lhe diz alguma coisa, ela não presta atenção. O garçom entrega a ela um copo, algum drink de nome desconhecido, cujo único ingrediente realmente sabido é a vodka. Ele continua falando alguma coisa ao telefone, ela sem entender direito vai respondendo com interjeições. Ela vai se afastando da confusão de pessoas, da música e das risadas, quando escuta:

- Ele morreu.

- O que? Acho que não entendi direito.

Ele faz uma pausa e repete a parte final:

- Ele morreu.

Silêncio. Era como se a linha do tempo acabasse, como se o tempo parasse e ela retrocedesse em seus atos e revivesse suas ações, fragmentos da sua vida passada. Uma vida que parecia muito distante, onde ela era agora expectadora e não personagem.

Silêncio, silêncio este só quebrado pela voz preocupada e rouca dele:

- Você está aí? Você está bem? Você me ouviu? Entendeu o que eu disse?

Silêncio dela, por mais alguns eternos segundos:

- Sim… (ela responde ainda meio confusa).

Ele então continuou a falar. Velório, enterro, passagens de avião, conexões, datas, horários, pessoas, lugares, consolo.

Ela diz que já está indo pra casa, desliga o telefone e toma, de uma só vez, a última dose de vodka da noite. Já não escutava mais os risos, parecia não ter mais ninguém naquele bar além dela, mas no meio do silêncio que ela se encontrava, ainda podia ouvir a música ao fundo: “day after day, alone on the hill, the man with the foolish grin is keeping perfectly still. But nobody wants to know him, they can see that he’s just a fool..”

O garçom passa novamente por ela e pergunta se ela quer mais alguma coisa. Ela balança a cabeça afirmamente e diz quase sem voz:

- Whisky duplo, sem gelo.

Tomou o whisky e foi embora, mas o gosto amargo na boca e na vida continuou por todo o interminável final de semana.





Histórias de bar

1 03 2008

Saindo do banheiro:

- Posso te dar um abraço?

- Ãhn?

- Um abraço.. posso te dar um abraço?

- Claro – Se eu deixar ele me abraçar, me livro logo desse maluco, pensa ela.

Mal termina de falar sim e ele já dá um abraço apertado nela.

- Sabia que Júpiter estava me enviando bons raios hoje, além de Marte e os raios enviesados da Lua.

- Oi?

- Marte na casa doze (diz ele, como se ela tivesse feito uma cara de dúvida incrivelmente absurda, diante da clareza do que ele tinha dito).

- Ah sim! – Se eu fizer de conta que sei do que diabos ele está falando ele me solta mais rápido e eu posso voltar pra minha mesa sem ele me seguir, gesticulando e falando animado das casas de não sei onde e o raios de não sei o que, pondera ela.

- Eu sabia que eu ia te encontrar aqui hoje.

- Ah! Não se vanglorie… metade da população local sabe onde me encontrar as sextas-feiras – Merda, eu fui simpática? Eu fui simpática? Ai.. se ele rir e emendar com uma gracinha, eu não vou conseguir voltar pra mesa hoje, droga! Olhar com cara de poucos amigos.. parecer sociopata, vamos lá.. parecer sociopata.. Seria muito brusco dar um empurrão nele e fazer ele me soltar? Acho que ele está me abraçando há mais de 2 minutos já, pensa ela.

- É muito mais do que isso, temos uma ligação cósmica (diz ele a soltando e a olhando nos olhos, como se fizesse a maior revelação do mundo).

- Temos, é? (diz ela no maior cinismo).

- Você pode não acreditar, mas tenho certeza que é você.. estrela diferenciada na casa 11, elemento ar.

Mal dá tempo dela pensar em fazer um comentário e ele já emenda:

- Você é realmente muito, muito interessante mesmo. Seu jeito de alinhar as coisas, assim desse modo, chega até a eternizar o amor numa comunhão de corpo e alma, a sua fragilidade, vulnerável e encantadoramente feminina, me deixa sem forma de ser e estar.

- Uauuu e tudo isso implícito na entonação que dei nas três interjeições que falei? (diz ela sarcástica e impaciente).

- Não, tudo isso nos astros, no universo, nas luas.. tudo conspirando para que nos encontrássemos na porta desse banheiro.

- Amor de porta de banheiro? O amor verdadeiro não precisava vir de cavalo branco, mas com papel toalha e perguntando se lavei as mãos, também acho que não é sonho de ninguém.

Ele ri:

- É sempre incrédula e cínica assim?

- Acho que sim, não viu esses problemas na casa 11?

- Qual a sua lua?

- Minha lua?

- Eh.. qual a sua lua?

Ela fica em silêncio, pensando que isso é o que acontece quando uma mulher infringe as leis elementares que regem o universo e contrariando os padrões mundiais, vai sozinha ao banheiro. O silêncio é interrompido pelo grito indignado dele:

- EU NÃO ACREDITO.. V-o-c-ê   NÃO  s-a-b-e  MESMO qual é sua lua?

- Errr não.. mas eu também nunca soube usar a fórmula de Eron direito.. ameniza?

- Tudo bem.. a gente vai começar a namorar e vamos traçar seu mapa astral e achar sua lua.

- Como é que é?

- Vamos.. ach..

- Não, não.. essa coisa do “vamos namorar”.

- Ah! Independente da nossa vontade.. os astros..

- Mas eu já tenho um namorado.

- Mas vocês vão terminar.

- Ahh, mas eu já me afeiçoei a ele. 

- Mas eu sei que isso não vai durar… vou te deixar com meu telefone… sei que terminaremos juntos (diz ele, enquanto pede uma caneta pro garçom e anota um número de telefone em um guardanapo). Me liga qualquer dia desses, tá?

Ele dá um abraço apertado novamente nela e diz:

- Adorei conhecê-la.

Ela permanece em silêncio, sorri, se vira e vai, finalmente, caminhando até a sua mesa, quando ele a puxa pelo braço e diz:

- Espera um pouco.

- Sim?

- Eh… tem gloss, amiga?

Ela olha espantada e se segura para não rir.

- Como?

- Gloss? Tem gloss? Esqueci o meu…

- Ah.. desculpa! Só tenho batom e vermelho ainda..

- Ah, deixa pra lá.. mas me liga hein…

Ela vira de costas e cai na gargalhada.

- “Amiga, você tem gloss?”.. eu mereço.. eu mereço… (diz ela rindo, amassando o guardanapo e o jogando no chão, enquanto balança a cabeça incrédula). 

- Que demora! A fila do banheiro estava grande assim? (pergunta uma das pessoas da mesa)

- Não, mas se for ao banheiro e alguém falar sobre lua e casas, já oferece logo seu gloss e vá embora.





O homem sem vícios

25 02 2008

- Oi! Você atendeu…

- Desculpa, não sabia que não era pra atender.. se você ligar de novo eu corrijo esse deslize.

- Não, não.. não estou dizendo que você não deveria ter atendido. Só estou em choque.

- Por quê? Achou que era contra meus princípios atender ao telefone? Achou que eu não fosse capaz de atender essa engenhoca cheia de botões? Achou que eu não sabia que quando esse aparelho emite um som eu tenho que levantar o fone da base e falar alô?

- Não, acredito muito na sua capacidade, se bem que.. você não falou “alô”, aliás, você nunca diz “alô” ao telefone… De qualquer forma, estou impressionado porque é sábado à noite e você está em casa.. atendendo ao telefone. O que está havendo? Acabou o estoque de vinho natal? O Bacardi lemon já não tem o mesmo gosto? A vida sem mim ficou tão divertida e fácil de ser vivida que não precisa mais refugiar-se da dura realidade no álcool?

- Faço minhas as suas palavras. Porque você está me ligando num sábado à noite sem falar coisas desconexas de forma enrolada?

- Não sem um quê de vergonha venho confessar não mais ser o homem que um dia fui… Temo que não mais seja da vida boêmia, que não mais feste all night long com meus amigos, com as bebidas, a jogatina e alguns outros vícios…

- É cada piada que a gente tem q ouvir viu.. Aham..parou de beber até o próximo porre.. parou de jogar até perder a cueca, novamente, na mesa de poker.. parou de levar pessoas puras para o mau caminho..até a última alma boa se corromper..

- Quisera eu que você estivesse certa… Não se pode confiar num homem que não tem vícios, é alguém sem raízes, sem chão, sem nada em que se agarrar, sem honra!!! E esse sou eu agora… Não, não sofra… Continue sua vida, não me estenda a mão, não me dê a chance de puxá-la para este mundo em preto e branco no qual passei a viver!!! Vá, be free my girl, be free…

- Livre? Não me iluda, parece que nunca estarei livre de você.. Olha você me ligando no sábado à noite.

- Somos iguais minha cara.. Você precisa de mim, ninguém mais te entende. Porque você acha que ninguém fala contigo? Eu só falo contigo porque ninguém fala comigo também, aí tenho que apelar.

- Hum..na verdade muita gente fala comigo…

- Estou falando de gente normal né.. destrambelhados não contam. Por você ser assim também, chama esse tipo de pessoa.

- Tipo assim.. você??

- Não, comigo foi o sono, fui pego desprevenido e nunca mais consegui me livrar..

- Você deveria me agradecer, se não sou eu você viveria uma vida de prostração.

- Eu sou introspectivo.. eu sempre quis uma vida de prostração, mas não.. você me obriga a fazer aquele negócio de socialização, falar com outras pessoas.. não suporto isso.

- Ah! Mas eu lhe dei a chance de se livrar de mim.

- Ah! Agora é tarde.. já me afeiçoei a você.

- Você se afeiçoou a mim? Pensei que na sua vida só tivesse conseguido se apegar as Bohemias.

- O que?!?! Tem Bohemia aí?!?! Entendi direito? Estou passando aí daqui meia hora.

- Como assim? E a prostração? E o homem sem vícios?

- Eu tentei.. eu tentei..

- Não, pelo que entendi você estava tentando se livrar de mim.

- Sim, mas junto a isso está à bebida, a jogatina e os outros vícios, então, como não tem jeito.. você é meu destino.. só posso abraçá-lo e tentar ser feliz, me conformar em passar o resto da vida escutando você cantar as malditas músicas do Jack Johnson..

E por quase um sábado inteiro, ele foi um homem sem nenhum vício. E por quase um sábado inteiro, ele não precisou ouvir “Sitting, waiting, wishing”.