Era um daqueles dias em que só queriam se lamuriar e afogar todas as mágoas no copo, como, por coincidência, era o dia da dose dupla, acabaram por afogar as mágoas no dobro de copos previstos. Fizeram uma quantidade inimaginável de amigos de cinco minutos, dos quais ela nunca lembrará o nome, por mais que tenha feito associações dos nomes com COISAS que NÃO se esquece, também nunca conseguirá lembrar porque de repente estava abraçando um cara que falava de.. hum.. do que falava mesmo? Mas, enfim… No fim da noite ela era capaz de chamar Odair José de Eddie Vedder. Ele, o adulto responsável, só ria dos absurdos que ela falava, mostrando relativa sobriedade. Até o fatídico:
- Desculpe, vamos fechar o bar.
Quando, por forças ocultas supremas, foram obrigados a se retirar. Ela se levantou e o mundo levantou junto com ela, fazendo movimentos de rotação de todos os graus, ele a abraça e os dois andam cambaleando, até que ele diz:
- Acho que precisamos pedir uma coca-cola.
- Nem pensar… com que cara vamos entrar aqui novamente?
- Como assim?
- Esse é o NOSSO bar… não podemos pedir coca-cola aqui.. vão achar que viramos franguinhos! E ninguém.. ninguém.. mas NINGUÉM mesmo me chama de franguinha.. (diz ela entre gargalhadas… com o dedo em riste, tentando fazer pose-de-não-sei-o-que-mas-com-alguma-autoridade)
- You’re a chicken, Martíra McFly – Diz ele rindo, orgulhoso do seu trocadilho que só mais de três doses poderiam deixar engraçado, enquanto apertava as bochechas da poor girl.
Saíram do bar, o carro estava estacionado logo em frente. Ele olha sério para ela:
- Entre no carro, vou ali buscar uma coca-cola pra senhorita… o que não seria preciso.. se você passasse a noite tomando um ÚNICO tipo de bebida.. mas não… você insiste em misturar destilados, fermentados, água sanitária…
- Humpf… eu posso comprar minha própria coca-cola… EU NÃO ESTOU BÊBADA..
- Claro que não está.. vou ali buscar uma coca-cola pra mim.. só estou te usando como desculpa…
- Ok.. traga uma caipirinha com muito limão pra mim então…
Ele destrava o carro, coloca as chaves na mão dela.. e ainda assim ela consegue derrubar tudo, trancar de novo e fazer o alarme disparar por DUAS vezes. Quando no meio daquela confusão solitária, com aquele objeto demoníaco que muitos chamam de chave, aparece um outro rapaz:
- Ei!… Espere..
Ela se vira, não repara muito no rapaz.. abaixa sua cabeça e começa a revirar sua bolsa:
- Um minuto…
- Mas..
- Não.. não.. calma aí.. espera.. eu já acho…
- Eu só queria..
- Shiiiiuuu.. peraí… segura isso pra mim (diz ela despejando todos os absurdos que sua bolsa estilo malote poderiam abrigar.. até achar a carteira)… Ráááá..
Ela pega algumas moedinhas… gentilmente olha para o moço, fazendo seu olhar mais terno, e lhe entrega as moedinhas… Ele faz sua cara mais “ahn” e estampando uma clara decepção… tenta dizer alguma coisa:
- Ahn.. não.. não é isso.. eu..
- Moço.. desculpa.. mas eu não tenho mais nada… eu só não deixei minhas calças no bar porque eu estou de vestido…
Ele olha as moedinhas na palma da mão, olha para ela daquele jeito consternado enquanto resmunga uma coisa e outra no meio da frase:
- Mas eu só queria pedir seu número de telefone…
- Telefone? Tem que preencher alguma ficha?
- Ficha? Como assim ficha?
- Não sei.. você que está falando de telefone.
Ele continuava olhando para ela com aquele jeito “e-livrai-nos-dessas-pessoas-tresloucadas-amém”:
- Eu sou o João, lembra? Estava no bar com você há 5 minutos atrás.. você saiu e nem pude me despedir… queria o seu telefone.. mas.. ahn.. esquece…
Ela sente a vergonha tomando conta do seu ser, começando pelas bochechas em brasa.. e como pessoa centrada que é, faz o que qualquer outra faria no seu lugar.. respira fundo:
- Ahn…desculpe.. desculpe mesmo.. bem.. você pode ficar com as moedinhas… – Diz entrando desesperadamente dentro do carro, esperando que aqueles vidros insulfilmados a tornassem invisível…. e lá ficou.. até o amigo chegar.
- Ihh.. que cara é essa? Porque está amuada assim ao invés de estar procurando CDs com músicas de temática festiva, enquanto acompanha cantando fora de ritmo?
- Acho que estou muito bêbada…
- O que você aprontou agora?
- Dei gorjeta para o moço que queria meu telefone…
- hahahahahahaha.. não sabia que você pagava… por uma noite de sexo selvagem tá dando quanto em cifrões?
- Que vergonha.. um moço meio que até bonitinho e tudo!
- Ohmm.. Não fique triste babe…olhe eu te trouxe jujubas… e além do mais… no mundo ainda há muitos de nós.. heteros assumidos meio que até bonitinhos… para você traumatizar…
PS: Queridos.. como vocês bem sabem.. minha juventude está sendo sugada pelo mundo corporativo… Passarei o próximo mês confinada em um hotel…num tal de treinamento e em atividades de nomes engraçados, que pregam a integração corporativa… rezem por mim… que ninguém me obrigue a abraçar árvores, entrar em contato com meu interior e usar crachás com desenhinhos em volta
PS2: É provável que eu fique mais desnaturada nesse período, mas acreditem.. se fosse minha escolha.. eu estaria aqui escrevendo para vocês e lendo seus e-mails esquisitos e pornográficos… Não me abandonem… se eu não me afogar na banheira do hotel no fim de 4 semanas.. volto para seus braços.. ou, no mínimo, para a lista de posts recentes…
