
Dias de poodle selvagem

Dias de poodle selvagem
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Quando somos jovens, somos cheios de sonhos e ilusões a respeito do futuro, tudo se baseia em ideais. Ora pensamos em fazer biologia para nadar com os golfinhos e salvar as tartarugas, ora temos certeza que, no futuro, estaremos no Camboja, fazendo alguma cobertura jornalística e ganhando prêmios por brilhantes matérias. Ou então só queremos virar uma publicitária arrogante, em busca da sua própria ilha, mas a verdade é que ninguém nunca imagina que no final das contas vai acabar se tornando uma putinha corporativa.
Quando dominada pela infelicidade, pela falta de luz no fim do túnel ou pelo estresse profundo, eu tomo medidas drásticas… Eu não sei lidar com o meio termo, eu não sei ser ponderada, eu não sou boa com medidas paliativas. Sou dramática, sou exagerada, sou drástica. Não está dando certo? Muda tudo, tudo, TUDO e espera que a vida dê um jeito de entrar nos eixos e foi assim que eu mudei tudo e me mudei.
- Eu vou me mudar.
- Como assim mudar? Vai pra onde? Por quê?
- Não sei ainda.. mas.. tudo vai se ajeitar.
- Você vai largar tudo? Vai se mudar só por mudar sem nenhuma perspectiva?
- Eu tenho uma perspectiva.. vou para São Paulo.. meus planos são comprar sabão em pó e vodka com certa freqüência às 3 horas da manhã… Estou estressada!
- Eh… elemento ar.. vocês são assim…
- Oi?
- Aquário.. elemento ar.. Ah esquece.. Mas as coisas não funcionam assim bla bla bla.. porque a vida bla bla bla porque planejamento bla bla bla porque empregos bla bla bla.
E mal deu tempo de me livrar do estresse e mal deu tempo de cogitar aprender a fazer artesanato e mudar para praia:
- Alô.
- Quem fala?
- Maíra.
- Maíra, aqui é a fulana da empresa X. Você foi selecionada para trabalhar na área Y da nossa empresa. Ainda tem interesse?
PENSAMENTO INSISTENTE: Não.. quero morar na praia e aprender a viver com pouco.. achando que não é uma vida de privações ficar sem tv a cabo.
- Sim.. tenho interesse sim.
- O salário inicial é X, mais bla bla bla bla bla de benefícios, mas é provável que você tenha que morar uns 40 km depois da Puta que Pariu. Teria algum problema?
PENSAMENTO INSISTENTE: Imagina! Eu nem gosto tanto assim do caos da cidade grande. Eu posso muito bem viver em qualquer lugarzinho de 5 mil habitantes, sem um restaurante tailandês, sem um shopping, sem uma lojinha de conveniência, que seja!
- Não, de forma alguma.. sem problemas. Estaria disposta até a avaliar uma possível mudança para assumir a filial da empresa no Camboja, se fosse necessário.
PENSAMENTO INSISTENTE: Meu Deus! Me tornei uma prostituta corporativa!
- Você é bem-humorada, né? Acho que você se daria bem no setor de relacionamento com clientes. Estaria disposta a considerar outro cargo?
PENSAMENTO INSISTENTE: Ahh… eu só quero minha mesinha num canto, um telefone.. e um serviço burocrático qualquer… Pessoas? Contato humano? Uiiiii.
- Claro! ADORO a parte de relacionamento com clientes.
- Certo, te encaminhei um e-mail com a relação de documentos para ser entregue no RH. Leve os documentos e já vão te encaminhar para os exames de admissão. Depois definimos ao certo o cargo que irá ocupar.
Vejo o e-mail e no meio dos pedidos normais envolvendo carteira de trabalho, RG e etc. está lá aquele monte de pedidos de certidões de antecedentes criminais. Polícia Federal, Polícia do Estado que mora, Polícia do Estado que morou, Interpol, CIA, KGB, atestado de bons antecedentes lá do bar do Zezinho.
Lá vou eu atrás de TODOS os documentos, o que com a internet não é algo tão complicado assim, até empacar no site da polícia de São Paulo:
“Não podemos emitir sua certidão negativa de antecedentes. Verifique se os dados estão corretos”
Escrevo meu nome com acento, sem acento. Escrevo o nome da minha mãe de casada, de divorciada. Escrevo tudo em maiúsculo, tudo em minúsculo. Escrevo a data de expedição do meu ultimo RG. Escrevo a data de expedição do meu primeiro RG e NADA. Vou até a delegacia, chegando lá encontro um amigo de tempos longínquos:
- Má, finalmente acharam um motivo para te prender?
- Você bem que deseja isso, né? Pra poder me ver TODO dia.. Quanto egoísmo!
- Pentelha como sempre, né?
- Certas coisas não mudam nunca, meu caro.
- Mas então, o que faz por aqui?
- Preciso de uma certidão de antecedentes criminais.
- Ah.. dá para tirar pela internet.
- Eu sei.. eu tentei, mas não dá certo.
- Sim, quando se cometeu algum crime ele não expede uma certidão negativa. Você já foi fichada, Má?
PENSAMENTO INSISTENTE: Será que dona Silvia, meu alterego, cometeu algum crime e esqueceu de me avisar?
- Não.. quer dizer.. eu acho que não.. não que eu me lembre.. será?
- Hum.. pense.. não foi fichada por arruaça ou coisa parecida?
- Oi? Arruaça? Por acaso tenho jeito de baderneira?
PENSAMENTO INSISTENTE: Ahn.. teve aquela vez de perturbação da ordem pública..éramos jovens e imaturos.. mas fomos fichados? Não, não.. não fomos fichados… eu nem tinha idade para ser fichada
- Vou consultar o sistema.
Cinco minutos depois, ele aparece com a certidão negativa de antecedentes:
- Eh… nenhum mandado de prisão no seu nome, nenhum crime. Sua ficha, por incrível que pareça, está limpa.
- Sou seguidora das leis dos homens e de Deus.. o que posso fazer?
No outro dia levo todos os 4093843093394830 documentos e já sou encaminhada para uma batelada de exames médicos. Foi-se o tempo que os exames envolviam um reles “médico do trabalho”. Sou mandada para trocentos médicos, para fazer os mais surreais exames. Faço xixi no potinho, tiro litros e litros de sangue. Vou parar no dentista, no psiquiatra, no psicólogo, no clínico geral e numa infinidade de outros especialistas.
Na batelada de exames odontológicos me senti um cavalo, era como se a qualquer momento fossem me dar uma medalha e eu sairia desfilando pela sala. Começamos pelo raio-x, com a doutora enfatizando achar meus molares “liiiindos”, não sei bem qual a utilidade de tal tipo de comentário, mas na hora eu achei bacana ter um molar acima da média quando comparado a outros molares mundanos.
Basicamente todos os médicos faziam a mesma pergunta sobre cigarro, álcool e demais drogas. Já tinha vontade de chegar avisando até o zelador:
- Não, não fumo.. bebo ocasionalmente (hahahahaha) e não uso tóxico. Anote aí.. NÃO uso tóxico.
Mas a experiência mais surreal foram minhas duas horas de conversa com a psicóloga. Com a tranqüilidade de quem pergunta: “quer mais chá” ela vira para você e calmamente pergunta:
- Você usa drogas?
- Não, não uso.
- Já experimentou?
- Não.
- Não mesmo?
- Não.
- Nunca?
- Bom.. uma vez.. quando tinha lá meus 13.. 14 anos… tive uma experiência com o cd do Zezé de Camargo e Luciano.. foi o mais perto que já cheguei de drogas.
- Você tem oscilações de humor ou é sempre bem-humorada assim? Me fale da Maíra. Me fale do que Maíra gosta. Me fale dos amigos de Maíra. Me fale tudo o que você sabe sobre Maíra.
Eu tive vontade de dizer que Maíra estava cansada de desenhar bonequinhos para mostrar que não era avoada, cansada de ser furada, apertada e espremida, mas.. Maíra continuou sorrindo e respondendo as perguntas, falando como era e descrevendo em detalhes até sua relação com o vizinho do tio do primo em quinto grau.
E tudo isso porque acabamos nos prostituindo corporativamente, cedendo às vontades dos nossos cafetões empresarias.. e tudo isso pra que? Para podermos comprar xampu, jujubas e vodka.. vodka em menor escala, porque, vocês sabem, só bebo ocasionalmente.
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Eu sempre fui dependente de celular. Era um, dois números, aparelhos ligados 24h por dia, sempre esperando aquela importantíssima ligação às 3 horas da manhã, envolvendo choro, risadas, declarações impróprias de amor ou um “vem me buscarrr.. to bêbado e não sei onde estou”. Mas com minha mudança de estado veio à tentativa de me desprender desses vícios tecnológicos, mas…
- Dona Maíra, tentei te ligar a TARDE INTEIRINHA, mas quem te acha? Se ao menos inventassem um aparelho telefônico móvel que você pudesse levar para todo lugar que fosse…
- Ahn.. Ops.. tentou falar comigo, é? O que era?
- Não importa, estou passando aí em 5 minutos. Vamos ao shopping escolher um chip novo para você.
Obviamente que foi uma péssima escolha de horário para compras de chip. São Paulo é excelente para se encontrar sabão em pó às 3 horas da manhã, comida tailandesa às 5 horas.. mas quando o assunto é: preciso de um chip de celular desesperadamente logo pela manhã e em um domingo.. a coisa muda um pouco de figura. Principalmente quando certas criaturas escolhem CERTOS lugares. Mas, eis que encontramos uma famosa loja de roupas, que também entrou para o ramo da venda de telefonia móvel. Chegando no quiosque:
- Ola moço! Preciso urgentemente de um chip para voltar a me conectar com o mundo lá fora… disseram que existe vida além e que não precisamos de cartão telefônico para isso.
- Tem preferência por operadora?
- Sim.. Já tenho a política de só me relacionar com seres humanos que possuem celular TIM, se mudar de operadora vou ter que mudar todas minhas relações interpessoais e já me afeiçoei a alguns..
- Se é por uma questão sentimental, como argumentar? Peraí.. Vou chamar o vendedor da TIM.
E então me aparece ele.. criatura branca (tão ou mais branco do que eu), bochechas cor-de-rosa.. um olho azul, o outro acredito que também, mas a franja EMO me impedia de afirmar com convicção, vestido na sua mais marrom calça xadrez e usando um de seus muitos allstar, acredito eu:
- Olá moça.. no que posso ajudá-la?
- Então.. eu queria um chip da TIM.
- Queria não.. você quer e muito e eu vou te arranjar um… Não precisa de um aparelho também?
- Não.. não.. eu já tenho um… o Moisés…
- Moisés? (pergunta ele aos risos)
- Sim, meu celular burguesinho… fotografa, filma, manda sms, mms.. se bobear tem até uma função que quando acionada estoura pipoca… então só vou levar o chip hoje mesmo…
- Ah.. quer dizer que comprou um celular assim e esqueceu desse pequeno detalhe do chip? Afinal, o importante são as funções.. o número e ligações é o de menos, não?
- Pareço o tipo de pessoa esquisita que compra um aparelho, mas esquece o chip? Não, não.. não responda… Mas sabe o que é.. eu tenho um chip, mas é de Curitiba.. Agora eu preciso de um chip aqui de São Paulo..
- Ah..você é paranaense?
- Não, não.. eu sou uma paulista nojentinha mesmo… estava só vagando entre estados para disseminar o estilo de vida paulistano…
O amigo que me acompanhava, já me olhava com cara de pânico e me dava alguns delicados chutes, tentando chamar a minha atenção. Olhava para ele sem entender nada. Onde estava errando nos mandamentos sociais de conversa com o vendedor? O vendedor continua:
- Estamos com falta de chip TIM com começo 8… você se importa se for um com começo 7?
- Ahn.. na verdade eu me importo… 7 é um numero bom de brincos, de tatuagens… mas é deveras esquisito para número de celular…
- Vou dar uma olhada lá dentro para ver se encontro alguns 8 pra você então..
Mal o vendedor virou as costas.. recebo um aterrorizante beliscão:
- Auwww.. você endoidou? Porque está me beliscando?
- Para ter certeza que você está nesse plano e ciente do que acontece ao seu redor.. aparentemente sim.. então, por favor, me diga que você está fazendo isso para ganhar algum desconto.
- Oi? O que eu estou fazendo?
- Você está descaradamente flertando com um EMO.. UM E-M-O
- Eu não estou flertando com ele… eu estou comprando um chip
- Ahh bom.. então só está jogando charme para conseguir um desconto, né? Que bom que você é só uma mulher vil… e não uma “flertadora” de EMOS…
- Ahn.. na verdade eu não estou flertando.. nem com intenções amorosas-sexuais.. nem com intenções exploradoras-comerciais.. eu diria que não estou flertando de maneira nenhuma…
- Oi moça.. olha só.. encontrei esses aqui com começo 8.. Mas vou mostrar os com começo 7 também.. ainda não perguntamos o que seu namorado acha..
- Oi? Namorado?
- Sim… esse rapaz com você.. não é seu namorado?
- Não.. não.. só amig… Auwwwwwww – (recebo um chute na canela) e vejo aquele olhar de reprovação “F-L-E-R-T-A-N-D-O com um EMO”.
- O que foi? (pergunta o vendedor)
- Ahn.. nada, nada… então.. nas relações interpessoais ele está no nível abaixo do que dá poder para escolher números de celular.. como mulher independente e adulta que sou.. escolherei o meu PRÓPRIO número de celular.
Números daqui, números dali.. escolho meu super novo número de celular com começo 8.
- Então.. obrigada.. hoje é só isso.. pago ali no caixa, né? Tchau.. Obrigada mesmo..
- Ei.. espera… vou cadastrar o celular pra você.. me empresta o aparelho para colocarmos o chip.
Dou o cartão para o meu amigo e digo:
- Vai lá pagar, enquanto a gente cadastra meu número aqui.
Ele me olha com um jeito assassino e eu quase começo a me sentir desintegrando, mas ele vai mesmo assim.
- Qual é o seu nome?
- Maíra…
- Me dê seu CPF e o seu RG…
- Enquanto ele discava 1 para não sei o que, 2 para não sei o que lá.. e todos os etc.. travávamos uma semi conversa:
- Está morando onde aqui?
- Na rua XXXX
- Ahh.. esse nome não me é estranho…
- Hum.. é a rua do metrô da estação bla bla bla
- Quer dizer que é menininha zona sul?
- Não.. sou uma incompreendida da zona oeste perdida na zona sul..
Muitos minutos depois, com o chip pago, com o celular cadastrado e depois de muitas conversas paralelas:
- Pronto Ma, seu celular já está cadastrado.. Posso chamar de Ma, não é?
- Claro.. sem problemas EM.-O.. ahn.. digo Gabriel (bendito crachá salvador).
- Então.. olha.. vou anotar aqui.. esse número você liga para colocar créditos com o cartão.. este outro número você liga para cadastrar seus números prediletos.. e esse número aqui você liga se aceitar sair comigo..
- Oi?
- Estou deixando meu número de celular com você.. é TIM também.. deve ser o destino, já que ouvi você dizendo que só mantém relações afetivas com usuários TIM.. Vou tocar num barzinho hoje na Vila Olímpia.. Me liga… que eu arrumo umas cortesias para você.
Digo que talvez eu vá no barzinho, me despeço.. e saio da loja com meu amigo..
- Ahn… que coisa..
- O que foi?
- Acho que eu estava flertando com o EMO…
- Você ACHA? A-C-H-A?
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Minha mãe e meu irmão mais velho ficam em pânico quando estou sozinha em São Paulo. É como se o perigo estivesse sempre presente, é como se eu fosse colocar os pés para fora de casa e de repente eu seria assaltada, seqüestrada, estuprada, tudo junto e terminando desovada em um córrego qualquer. Meu irmão sempre diz:
- Mas você agora está acostumada com Curitiba.
Sempre com aquela cara de compreensão e aquela expressão facial de “e sabemos que lá é quase uma cidade de 30 mil habitantes com igreja e pracinha. Onde há felicidade, parques, transporte urbano de primeiro mundo e, principalmente, onde pessoas perdidas e sociáveis iguais a você.. podem andar despreocupadas pelas ruas.
E essa é outra incrível discussão: a minha sociabilidade. É sempre a mesma bronca:
- Não sorria para desconhecidos. Não fale com desconhecidos. Nem sequer olhe para desconhecidos. Você tem que passar, apenas passar por aquelas ruas caóticas, buscando ser mais um rosto na multidão, buscando passar despercebida. MEU DEUS PARE DE SORRIR!!!
E eis que esses dias tive minha mais bizarra experiência de quase morte, onde, desesperadamente, tentei seguir os conselhos de passar, apenas passar pela multidão, não surtindo resultado.
Era uma linda manhã cinza e poluída de domingo. Você podia respirar fundo e sentir todo aquele CO2 entrando pelas suas narinas, chegando ao seu pulmão e te fazendo ter vontade de tossir. Seus poros estavam entupidos e seu cabelo alvoroçado com aquela ventania toda. Não havia pássaros, mas havia carros cantando pneus e aquele cheiro de fios queimados exalava da estação de metrô.. Não tive dúvida: que belo dia para ir tomar um cappuccino na Barra Funda. E lá estava eu na plataforma do metrô na minha espera quase solitária, se não fosse mais aqueles quatro, cinco paulistanos escondidos atrás de seus jornais, óculos escuros e caras mal humoradas. Quando… de repente: gritos, cantos, palmas e “Gaviões.. Gaviões.. Gaviões”… rompiam o som do meu mp3 player.. olhei as escadas rolantes e em segundos elas estavam abarrotadas de gente usando touquinhas escrito “Fiel”. Pânico.
Pensamento insistente: E livrai-nos de todas as torcidas organizadas num domingo de manhã.. e livrai-nos de todas as torcidas organizadas no metrô.. e livrai-nos de todas as torcidas organizadas e caos no transporte urbano.
Como qualquer mulher independente, auto-suficiente e senhora de si, fiz o que qualquer outra faria: fiz pose de samambaia, enquanto vestia minha melhor cara de desprezo pelo mundo, onde, invariavelmente, expressava todo meu jeito blasé, ignorando toda aquela multidão ao meu redor, enquanto pensava:
- Ok, a multidão vai.. eu espero e espero e espero.. uma hora eles vão ter que parar de abarrotar aquelas escadas rolantes e, estou em São Paulo, atrasos são incrivelmente tolerados.
E continuo minha estratégia de passar despercebida pela multidão e vou tentando atravessar aquele mar de gente, saindo da plataforma e tentando chegar a um lugar onde não tenha que pensar em estapear alguém para conseguir oxigênio, quando o pior aconteceu: o metrô chegou. Me senti como Nemo tentando escapar da correnteza, mas era tarde demais, foi como num piscar de olhos, em um momento eu via o mundo lá fora e no outro estava dentro de um vagão subterrâneo. Continuei com minha estratégia de olhar blasé e de tentativas de passar, apenas passar pela multidão. Não sorri, não fiz cara de simpática, não olhei nos olhos de ninguém, mas nada adiantou, devo exalar algum tipo de feromônio que faz com que gente esquisita fale comigo:
- Ai mina.. cê tá indo pra Barra Funda também?
Pensamento insistente do dia: Merda! Merda! Merda! Ele está falando comigo.. vou ter que falar com ele. Sorria.. sorria.. pareça simpática.. pelo amor de Deus seja simpática. Não, não.. não o encare, apenas olhe e sorria. Olhar amistoso, olhar amistoso.. você consegue.. Vamos lá, responda Maíra.. responda:
- Estou sim… (Ai Meu Deus! Será que fiz um olhar amistoso? Acho que me atrapalhei e fiz meu olhar nojentinho. Será que pareci uma da playboyzada do Morumbi? Aiii.. e livrai-nos de todos da torcida organizada te achando uma nojenta do Morumbi.. e livrai-nos de todos os olhares intimidadores… e livrai-nos do espancamento)
- Cê tá indo pro jogo?
Pensamento insistente: Jogo? Ai Meu Deus! JOGO? Diga que não vai ter clássico hoje na Barra Funda.. por favor.. clássico não.. ai.. ai.. tanta padaria na Vila Mariana, mas nãooo.. vamos marcar de nos encontrar na Barra Funda.. isso.. grande idéia.. gênio você Maíra.. gênio mesmo! Já sei.. digo que não sou daqui.. digo que sou curitibana.. Isso! Ahn.. não, não.. curitibana tem fama de antipática. Catarinense.. isso digo que sou catarinense, torcedora do JEC. Quem iria olhar torto para uma torcedora do JEC? Merda! Sotaque.. hum.. interior do Paraná.. isso.. consigo muito bem fazer sotaque do interior do Paraná.. isso.. “porrrrrta”. Certo, não vou pro jogo, só se fosse do JEC. Ahn, não, não.. sou do interior do Paraná. Rá! América. Isso sou do interior do Paraná e Ameriquinha desde criança por causa do meu pai carioca. Isso! Não vou pro jogo, só se fosse do América.
- Ow mina.. cê vai pro jogo também?
- Ahn.. então meu.. não vou não (O que? “Não vou não”? Essa é sua resposta simpática? Mas que merda!! Foco Maíra, FOCO! Você é torcedora do Ameriquinha! E “meu”? é assim que quer passar por paranaense? Falando “meu” a cada 3 palavras?)
- Cê tem jeito de palmeirense..
Pensamento insistente: Ok, estou com um jeito de palmeirese dentro de um vagão subterrâneo cercada da torcida organizada do Corinthians. Isso é o que chamam de ironia do destino? Porque não tenho cara de torcedora do América? PORQUE?
Como mulher independente, auto-suficente e comospolita que sou, acreditando que quem tem partes pudentas tem medo, fiz o que qualquer outra faria:
- Qual é meu… se é pra xingar chama de putona logo.. se é pra ofender deveria começar já lembrando da minha mãezinha.
Ele ri:
- Foi mal mina.. foi mal.. mas que cê tem cara de palmeirense.. ah tem
Pensamento insistente: Da última vez que vi tanta gente da Gaviões e um palmeirense só lembro de ouvir: “pega o porcoooo”. Tá, vamos la.. dê uma boa resposta.. cante o hino do Corinthians enquanto sorri e parece uma da Fiel.. vamos lá.. Merda! Qual é o hino do Corinthians mesmo? Ohohoh alvinegro praiano.. ahn.. esse é do Santos. Caramba.. qual é o maldito hino?
- Soy loco por ti Corinthians.. eu vivo por ti Corinthians.. eu canto até ficar rouca.. eu canto pra te empurrar.. vamos.. vamos meu Corinthians.. não pare de lutar… (merda.. esse não é o maldito hino.. mas ta.. músicas da fiel.. resolve..)
- Minaaaaa.. cê é da raça também… É nóis.. é nóis.. tamo juntooooo parçaaa (diz ele me abraçando.. e, de repente, todo mundo me abraçando.. e, de repente, eu pensando insistentemente que nunca mais vou à outra padaria que não na Vila Mariana)
Chegando na Barra Funda, toca o celular:
- Ma?
- Oh, vovó, abre a janela, A avenida hoje está tão bela, Gaviões, Gaviões da Fiel… Gaviões….
- Maaaa??? Maaa??? É VOCÊ??
- Corinthians minha vida.. ô – ô – ô
- Ma? Ma? Maíra? Tá tudo bem? Corinthias?? Até onde eu sei você é Palmeiras até a morte.. Onde diabos você está?
- Ah meu.. tudo firmeza.. to aqui com os parça da fiel… Uhuuuu.. é nóis mano.. é nóis…
- Gaviões! Gaviões! Gaviões! É nóis.. é nóis… Da raçaaaaaaaaa… (Vitão, meu novo amigo de infância pega meu celular e grita empolgado).
- Parça? Você falando parça? Mano? Gaviões? Quem é esse cara gritando? Ma, você ta sendo sequestrada? Se sim diga.. ahn.. diga AMENDOIM, Ma… diga AMENDOIM…
Subo as escadas rolantes, usando um gorro da gaviões da fiel, erguendo os braços de maneira ritmada com os “parça” e entoando cânticos de adoração ao timão. Ele me esperava na saída da estação. Não pude deixar de notar seu olhar.. uma mistura de medo com apreensão. Olhei para ele, ele olhou pra mim e prometemos nunca mais falar a respeito, sendo o “nunca mais” depois que ele já tivesse tirado sarro o bastante.
As vezes temos que abrir mão da dignidade para a preservação dos dentes e das partes pudentas. E eu só penso: porque fui dizer que me chamava Maíra? Devia ter dito Gisleide quando me perguntaram.. assim não carregaria a vergonha do:
- Ma, grande corinthiana.. parça mesmo… da raça.. da fiel…
Ah.. o que o ser humano não faz para preservar suas partes? Dignidade zero!
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Gripe insistente, gripe insistente, GRIPE INSISTENTE. Toca o telefone:
- al.. atchim, atchim, atchim… alô…
- Nossa.. você está bem?
- Ahn.. se por bem você quer dizer febre, um mal estar que não passa e graves problemas para respirar.. eh.. eu diria que nunca estive tão bem.
- Sempre exagerada! Vou passar na sua casa daqui a pouco, tá precisando de alguma coisa?
- Uma garganta sem infecção. Pode me conseguir uma?
- Bom, vou sair um pouco do meu caminho, mas dou um pulo no IML, mas porque é pra você, hein..
- Aproveita e passa na farmácia, preciso de um anti-térmico e qualquer coisa que me faça ter uma vaga lembrança do que é respirar.
- Como sou bonzinho te levo chocolate também. Hum.. só isso?
- Ah! E tinta
- Ahn? Tinta?
- Sim, tinta para o cabelo.
- Vindo de você tinta guache que não seria, né? Mas, enfim, como isso vai fazer você melhorar da gripe?
- Ah.. é uma técnica hindu. Cheiro de tinta é melhor do que vicky vaporub, não sabia?
- Doida! (diz rindo). Mas eu acho que a probabilidade de apanhar quando chegar com a caixinha de tinta é enorme. Pra mim existe quatro cores: loiro, vermelho, castanho e preto. Mas você sempre compra aquelas tintas de nome engraçado.
- Você poderia tentar, né?
- Está bem, qual a nuance de vermelho que você quer?
- Castanho.
- Ahn? Existe vermelho castanho?
- Não! Não quero mais pintar de vermelho, quero um castanho.. escuro, mas nem tanto.
- A que devemos a mudança radical?
- Castanho combina melhor com a gripe. Lembra quando eu tinha o cabelo preto? Combinava perfeitamente com aquelas olheiras de gripe. Ficava pálida de um jeito tão harmônico!
- Ta, quando estiver na farmácia te ligo.
Alguns minutos depois ele liga de novo:
- Meu Deus! Sabe quantas mil cores são chamadas de castanho? Castanho irisado, que diabos é isso? Já mencionei que você fica muito bem de cabelo preto? Pois é, você fica muito bem de cabelo preto.. Que tal preto? Só tem três nomes engraçados sendo preto e pra mim são o mesmo tipo, não tem erro! E aí.. o preto café, ônix ou ametista?
- Não quero preto, quero castanho..C-A-S-T-A-N-H-O! O irisado é muito claro. Não quero chocolate, não quero nenhum tom de marrom, não quero dourado, que dificuldade pode ter em comprar tinta?
- Agora complicou.. todos tem um “dourado”, “acobreado”, “penas de pavão nórdico acinzentado” na caixinha. Como diabos esses nomes fazem sentido? Existe mesmo diferença entre esse tal de castanho claro acobreado irisado intenso e o vermelho claro? Ai! Me sinto num universo paralelo… Meu habitat natural, definitivamente, é o corredor de bebidas do mercado.
- Ai, ai..
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É final de semana, o que por si só sempre foi o suficiente para me deixar feliz, mas dessa vez uma gripe intensa me fez esquecer que as sextas são lindas por si só e que os sábados são gloriosos só porque são sábados. A felicidade deu lugar aos espirros, a vodka ao suco de laranja sem gelo e o bom humor a apatia.
Eu me esforcei para ser sociável, acabei parando em um bar e tentei esquecer que a música só piorava a minha dor de cabeça e que manter os olhos abertos era um martírio. Tentava, desesperadamente, me convencer que o bacardi lemon nem é tão essencial para a vida humana e procurava achar graça no suco de laranja sem gelo.
Em menos de duas horas desisti de querer ter uma vida e resolvi ir pra casa e, numa atitude altamente altruísta, dispensei todo e qualquer ser humano das funções de enfermeiro, afinal, amar é incentivar a consumação de cerveja e, também, tudo que eu queria era me encher de porcarias sintéticas que aliviam a sensação de mal-estar e dormir.
Em casa, fiquei deitada na cama lembrando de saudosos tempos, quando ainda conseguia respirar sem maiores problemas. Ah! Que doce sensação, não? Você puxava o ar e o sentia entrando em seus pulmões. Que dias gloriosos foram esses! E agora você está assim, mal humorada, morrendo de gripe, achando que até seus dedos dos pés devem estar congestionados e que é por isso que cada parte do seu corpo dói. Teria outra explicação plausível?
Você não caminha mais, você se arrasta com suas pantufas de joaninha por todo o apartamento, enquanto deseja ser acéfala, para que aquela insuportável dor de cabeça deixe de fazer parte dos seus dias. Não há neosaldina que amenize, não há paracetamol que cure, não há vicky vaporub que descongestione.
Em meio a todo caos que tem sido respirar, você tenta desesperadamente dormir, mas você descobre que ou você deita na cama ou você respira. Você cogita ligar para seu avô e perguntar sobre as técnicas dele para dormir sentado, mas já passam das duas horas da manhã e é assim.. só você, a gripe e seu mau humor, numa madrugada fria.
Quando você pensa que nada mais pode acontecer, quando você acha que não tem o que piorar, você ouve aquele ruído vindo do banheiro. Muito a contra gosto você se levanta do sofá, caminha em direção ao barulho e tchan-tchan-tchan… tem o banheiro, tem um tapete encharcado e tem água, muita água… você tenta respirar fundo e se lembra que nem isso você pode fazer. Em uma atitude muito madura, você resmunga e tenta fechar o registro emperrado. Você é destra e sua mão direita está machucada, você tenta se convencer de que tem a mesma coordenação com a mão esquerda, mas é em vão. Você fica tão irritada que esquece da mão machucada, esquece da dor e fecha o registro, enquanto amaldiçoa os malditos problemas hidráulicos.
Porque eu? Porque diabos esses malditos problemas envolvendo canos e água me perseguem? Karma? E já começo a pensar sobre vidas passadas: “Pô! Se soubesse que ia ser um castigo tão cruel assim, eu nunca teria roubado o padre, batido no mendigo, bebido mais que devia e xingado a mãe da dona da padaria!!”.
A festa regada à música ruim e volume ensurdecedor continua dentro da minha cabeça, manter os olhos abertos em meio a lugares com luzes acesas tem sido uma provação e, infelizmente, não era possível controlar um vazamento e enxugar todo o alagamento no escuro.
Além de tudo o registro vazava. Você procura por fita veda rosca desesperadamente.. e lembra-se que ela acabou no último problema do chuveiro. Você amaldiçoa o chuveiro, o registro, a instalação hidráulica e se pergunta por que diabos você não está morando com seus pais, com seu irmão, com o zelador, com um bombeiro hidráulico, que seja! Você fecha o registro, resolve o problema do vazamento com fita crepe e um pano e começa a se sentir meio McGyver.
A irritação continua, a dor de cabeça só piora e você tem febre. Você madura, sensata, auto-suficiente, independente, senhora de si e cosmopolita faz o que qualquer outra faria.. grita “Merdaaaaaa”, resmunga e jura que vai resolver de vez o caos que virou seu banheiro, nem que pra isso tenha que derrubar paredes.
Se eu já tinha ficado triste com o chuveiro e suas seis fileiras de água com pingos caindo num intervalo de 6 segundos, imagine só a euforia de não ter água no banheiro como um todo.
A febre continua e você pensa em um banho gelado e lembra do problema com banheiro e vazamentos. Cogito deixar o apartamento alagando por 20 minutos enquanto tomo banho, depois resolvo partir para o plano B: a área de serviço. Tem uma portinha na área de serviço que leva para um lugar que civilizações antigas acreditavam ser um banheiro. Tem um vaso sanitário e um cano de chuveiro, tudo isso dentro de um cômodo do tamanho de uma porta do meu guarda-roupa, deveria servir em uma situação emergencial.
Abro o “chuveiro” (entende-se por chuveiro um cano sem um chuveiro de fato) e a água em temperatura ambiente padrão Patagônia começa a jorrar. Lá se foram meus planos de não lavar a cabeça, visto que, forças místicas superiores fizeram a intensidade da água lavar minha cabeça, o vaso sanitário, as janelas do “banheiro” e a porta.
Acabo adormecendo no sofá da sala, assistindo as porcarias que só uma tevê aberta pode produzir às 3 horas da manhã. Mas, ao amanhecer, o problema hidráulico continua, ainda tenho febre, tomo paracetamol como se fosse tic-tac e, nostálgica, suspiro e lembro daqueles velhos tempos.. onde eu conseguia respirar tão bem. Ah!! Que dias gloriosos foram esses!
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PS: Querida Bia, nesta manhã festiva, eu (e toda aquela equipe responsável por esse blog – hahaha) queremos desejar a você blá blá blá blá, felicidade, sucesso, etc.. etc.. etc… e que o espírito (ops, isso é só no natal!), enfim, Feliz aniversário! =)
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Você tenta ser uma mulher superior, independente, senhora de si, corajosa e cool, mas acontece que vez ou outra, o inevitável acontece e você, a garota imperturbável com seu ar de mulher independente, acaba desabando diante do pior problema que uma mulher pode enfrentar depois da falta de creme para pentear: chuveiros.
Eu sou uma garota mimada, com os privilégios de quem tem um pai e dois irmãos. Assim, acabei sendo criada dentro de uma bolha, vivendo em um mundo cor-de-rosa, onde problemas elétricos eram inexistentes e nunca fui preparada para usar uma chave de fenda ou reconhecer uma chave allen 1/8.
Não sei se são as leis de Murphy agindo, não sei se meu apartamento está localizado justo no limite da declinação mais meridional da elíptica do sol, não sei se eu tenho mais problemas com chuveiros ou se eu só PASSEI A PRESTAR ATENÇÃO NOS PROBLEMAS DE CHUVEIRO, mas o fato é que eu tenho a síndrome da mulher que mora sozinha e, cotidianamente, tenho que lidar com isso. E enquanto estava no ritual matinal envolvendo xampu, cremes e sabonete, me deparei com a falta d´agua. Como qualquer mulher calma e centrada:
- Merdaaaaaa! Eu não acredito que acabou a água justo agora. Como diabos a água acaba sem nenhum aviso prévio? Ah não.. eu vou ligar para o síndico agora.. onde já se viu!!! Vou passar o dia com a cabeça cheia de xampu??? Merda! Merda! Merda! Merdaaaa! (resmungo enquanto saio do chuveiro, me enrolando na toalha e procurando pela toquinha de banho rosa com borboletinhas)
Antes de mostrar toda minha indignação para com a autoridade do prédio, resolvo abrir toda e qualquer torneira existente em casa e, para meu espanto, em todas a água saia abundantemente, então, seguidora da filosofia que uma garota deve aprender a lidar com seus problemas e desgostos sem que isso acabe em Djavan e chocolate, totalmente independente e senhora de mim, disco os números da salvação, também conhecidos como número de telefone de um representante do sexo masculino:
- Socorrooo! Deus está me punindo porque não consigo tomar banho em 10 minutos!
- Porque sempre parece que estamos no meio da conversa quando eu atendo uma ligação sua?
- Está dizendo que nunca sou clara o suficente?
- Não, estou dizendo que você começa a conversa do meio então parte para o começo, volta para o meio, fala compulsivamente e então temos o fim. Mas você não ser clara o suficiente seria minha próxima colocação.
- A minha cabeça está cheia de xampu, poderíamos nos concentrar nos meus problemas e depois nas suas reclamações a meu respeito?
- Sempre egocêntrica.. “meus sentimentos”, “minhas falas”, “meu cabelo cheio de xampu”. Ahn? Cabelo cheio de xampu?!? Porque você saiu do chuveiro para me telefonar?
- Foi uma mensagem do Senhor, Ele se manifestou para Maomé, para Paulo.. parece que chegou a minha vez.
- Oi??
- Meu chuveiro parou de funcionar, tenho que explicar tudo???
- Hum.. o que houve? Queimou?
- Não! Se fosse isso teria terminado de lavar a cabeça, né? Essa coisa de frescura com água gelada é coisa de franguinha! A água acabou.
- Então você se enganou com a mensagem do Senhor para você. Está claro que ele queria que você ligasse para a SANEPAR.
- Não, porque antes Ele me fez abrir todas as torneiras e a água é abundante, menos no chuveiro, que continua com suas cinco fileirinhas de água e pingos caindo num intervalo de 6 segundos.
- Ai, ai.. você é muito maluca! Posso ver isso a tarde?
- Hum.. já está no trabalho?
- Yeah…
- E as prioridades?
- Tenho certeza que seu chuveiro sabe que ele é muito importante pra mim, mas ele tem que compreender que há homens engravatados sentados em uma sala esperando por uma apresentação em ppt.
- Tudo bem.. eu dou um jeito..
- Nãooo! Se você me disser que vai mexer no chuveiro eu dou uma desculpa e saio agora. É mais fácil do que te salvar de um prédio em chamas.
- Engraçadinho! Não vou arrumar.. quer dizer.. só vou arrumar uma maneira paliativa de lavar a cabeça.
Patéticas cenas de uma mulher na área de serviço do seu apartamento, debruçada sobre o tanque, lavando a cabeça.
A tarde ele chega, abre o chuveiro e:
- Certo, o fluxo de água parece bem normal pra mim.
- O que você fez?
- Mexi naquela torneirinha mágica ali e a água começou a sair. Não é bárbaro?
- Deve ser sua máscula presença intimidando o chuveiro.
E tudo funcionou normalmente, até aquele outro dia. Novamente, os mesmos números da salvação:
- Casa comigo?
- Casar? Ué.. pensei que você achasse que o casamento cria semi-zumbis e destrói a forma humana das pessoas.
- Hum.. e acho, mas a gente não precisa casar, podemos só morar juntos. O que acha? Quando traz suas coisas? Hoje?
- Você andou bebendo?
- Eu acho que minha samambaia está precisando de uma figura paternal em casa.
- Doida! (diz gargalhando). Posso saber o que você aprontou?
- Meu chuveiro só funciona com você em casa. O que posso fazer? Ou me mudo, ou paro de tomar banho, ou caso com você. Pareceu o menos complicado, odeio encaixotar coisas e tenho a síndrome de abstinência de sabonetes e xampu… sou asseada o que posso fazer?
- Sempre sentimental!
Ferramentas, fitas, registros e algum tempo depois, o problema foi totalmente resolvido.
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