No auge dos meus dezessete, dezoitos anos.. consegui a minha independência, ainda comprava danoninho e jujuba, ainda vivia do dinheiro dos meus pais, mas tinha me tornado uma adulta que fazia suas próprias compras no mercado e podia almoçar bolacha (não biscoito, que fique claro!) negresco, se eu quisesse.
Morava sozinha e apesar de sofrer com uma forte crise de abstinência provocada pela falta de tevê a cabo, eu superava a infelicidade disto com as festas open bar da USP.
E nessa vida independente e solitária, em um dia de calor senegalês, em um dia de ar condicionado quebrado, em um dia em que me sentia mais ou menos como o vilão de Exterminador do Futuro II, dissolvendo, me partindo em milhares de partículas e me transformando em uma poçinha, eis que tomo a sábia decisão:
- Vou dormir de janela aberta, não era isso que os antigos faziam em tempos longínquos, em uma vida de privações.. uma existência sem os prazeres do ar condicionado? Isso! Janela aberta, afinal, eu moro no quinto andar, que perigo uma janela aberta teria?
Então, lá estava eu, reclamando insistentemente do calor absurdo, lembrando como minha criação me estragou e eu me tornei uma pessoa que necessita de um ar condicionado no nevar para ter uma boa noite de sono, mas.. em um determinado momento, fui vencida pelo cansaço.. e em meio aos lençóis de algodão e a falta de vento entrando pela janela.. adormeci.
E lá, nos meus devaneios, lá dormindo e sonhando com camelos e o deserto do Saara, eis que de repente sinto algo em minha perna, instintivamente peguei o travesseiro e bati na perna, jogando o que quer que fosse para longe. Cambaleando, levantei e acendi a luz, então me deparo com aquilo: algo preto, rastejando sobre o piso. Dormindo, sonhando, delirando, pensei comigo:
- O que seria isso? Uma borboleta mutante e feia, feia, feia?
Então, saindo do meu estado de transe, deixando para a trás a demência do sono, eis que:
- Aiiiiii.. um morcegooo! Um morcegooo.. UM M-O-R-C-E-G-O (grito, enquanto faço o que qualquer outra mulher destemida faria: subo na cama).
Respiro fundo, tento superar o ataque de pânico e começo a pensar em soluções:
- Posso pular da cama, sair correndo.. trancar o morcego no quarto e dormir na sala. Amanhã eu cuido do morcego (eu = cara de sofredora, voz mansa implorando para um homem tirar aquele bicho asqueroso do meu quarto).
Me pareceu coerente. Então, destemida sai correndo do quarto, enquanto soltava algumas interjeições de pânico. Deitei na sala:
- Merda! Não vou conseguir dormir aqui, sofá desconfortável… Que absurdo! Eu com pânico de um morceguinho? Que mulherzinha! Claro que eu consigo me livrar de um morcego.
Então, bravamente, armada com uma vassoura, entro no quarto decidida:
- Alguém aqui vai morrer e não serei eu, está me ouvindo Batman?
E lá, senhora de mim, tentava matar, com a vassoura, o morcego que se arrastava pelo chão. Mas no meu planejamento ele morria, não grudava na vassoura:
- Merda!
E então, provando sua superioridade, provando ser conhecedor de diversas artimanhas para assustar mulheres indefesas, eis que o morcego começa a voar pelo quarto. Mais pânico, mais gritinhos, interjeições e corrida destemida até a sala, enquanto trancava a porta do quarto.
Corajosa, independente, senhora de mim, tomei uma decisão: fui pedir socorro para o ex-namorado e vizinho:
- Tem um monstro no meu quarto!
- Jeito estranho de pedir desculpa e fazer as pazes.
- Estou falando sério.. tem um monstro no meu quarto.
- Se você quer dormir em casa, é só pedir.. não precisa inventar desculpas malucas.
- Tem um animal asqueroso e feroz no meu quarto, vamos lá matá-lo (digo o empurrando até meu apartamento).
- Se você quer que eu durma com você na sua casa, é só precisa pedir.. não preci..
- Entra lá no quarto.. tem um morcego horrível… eu espero aqui.
Ele abre a porta, entra e minutos depois sai:
- Certo, não tem nada lá dentro. Isso tudo é porque você quer que eu durma aqui ou porque você quer dormir lá em casa, mas é incapaz de engolir o orgulho e pedir desculpa?
- Como não tem nada lá dentro? Claro que tem… (digo enquanto entro corajosa dentro do quarto).
Olho em volta, vasculho e nada do morcego. Concluo:
- Deve ter saído pela janela, então.. pode ir agora.
- Ahn? Como assim? Você me acorda, me faz vir aqui por nada e nem um pedido de desculpa, nem um assumir que estava mentindo?
- Errr.. não.. TCHAU!…
E ele vai embora, e eu volto para o quarto… e me preparo para voltar a dormir, quando:
- Aiiiii.. um morcego, um morcego.. UM MORCEGOOOO!..
Novamente, destemida, senhora de mim, adulta e independente, bato na porta desesperadamente:
- Tem um morcego no meu quarto.. verdade.. ele está lá.. ele está lá..
- Má, ou você me pede desculpas e diz que errou e eu deixo você dormir aqui, ou.. você vai para sua casa e sossega e para com essa história de morcego.
- Eu juro que tem um morcego lá.. Por favor, tire ele de lá.. (digo chorosa, puxando-o pelo braço)
- Não tem nada aqu..arghh.. um morcego… não é que era verdade? Me traga uma vassoura.
- Ah!.. Eu já tentei isso.. mas ele não morre..
- Me traga a vassoura.
E então ele, destemido, macho alfa, profundo conhecedor de técnicas de caça, vira a vassoura e com o cabo esmaga a cabeça do morcego.
- Arghhhh!… Que nojooooo…. (digo, sempre primando por comentários coerentes e inteligentes).
- Ele te mordeu?
- Ahn?
- O morcego te mordeu?
- Ihhh… não sei… talvez.. eu estava dormindo, quando senti algo na perna.
- Vamos para o hospital (diz me arrastando)
- Nãooooo.. hospital nãooo…
Patéticas cenas de uma mulher independente, destemida, senhora de si.. em um hospital, tomando injeção por causa de uma maldita noite de calor senegalês, sem ar condicionado.. Ah! A vida independente….