A vida em cores

21 09 2008

 

Gripe insistente, gripe insistente, GRIPE INSISTENTE. Toca o telefone:

- al.. atchim, atchim, atchim… alô…

- Nossa.. você está bem?

- Ahn.. se por bem você quer dizer febre, um mal estar que não passa e graves problemas para respirar.. eh.. eu diria que nunca estive tão bem.

- Sempre exagerada! Vou passar na sua casa daqui a pouco, tá precisando de alguma coisa?

- Uma garganta sem infecção. Pode me conseguir uma?

- Bom, vou sair um pouco do meu caminho, mas dou um pulo no IML, mas porque é pra você, hein..

- Aproveita e passa na farmácia, preciso de um anti-térmico e qualquer coisa que me faça ter uma vaga lembrança do que é respirar.

- Como sou bonzinho te levo chocolate também. Hum.. só isso?

- Ah! E tinta

- Ahn? Tinta?

- Sim, tinta para o cabelo.

- Vindo de você tinta guache que não seria, né? Mas, enfim, como isso vai fazer você melhorar da gripe?

- Ah.. é uma técnica hindu. Cheiro de tinta é melhor do que vicky vaporub, não sabia?

- Doida! (diz rindo). Mas eu acho que a probabilidade de apanhar quando chegar com a caixinha de tinta é enorme. Pra mim existe quatro cores: loiro, vermelho, castanho e preto. Mas você sempre compra aquelas tintas de nome engraçado.

- Você poderia tentar, né?

- Está bem, qual a nuance de vermelho que você quer?

- Castanho.

- Ahn? Existe vermelho castanho?

- Não! Não quero mais pintar de vermelho, quero um castanho.. escuro, mas nem tanto.

- A que devemos a mudança radical?

- Castanho combina melhor com a gripe. Lembra quando eu tinha o cabelo preto? Combinava perfeitamente com aquelas olheiras de gripe. Ficava pálida de um jeito tão harmônico!

- Ta, quando estiver na farmácia te ligo.

Alguns minutos depois ele liga de novo:

- Meu Deus! Sabe quantas mil cores são chamadas de castanho? Castanho irisado, que diabos é isso? Já mencionei que você fica muito bem de cabelo preto? Pois é, você fica muito bem de cabelo preto.. Que tal preto? Só tem três nomes engraçados sendo preto e pra mim são o mesmo tipo, não tem erro! E aí.. o preto café, ônix ou ametista?

- Não quero preto, quero castanho..C-A-S-T-A-N-H-O! O irisado é muito claro. Não quero chocolate, não quero nenhum tom de marrom, não quero dourado, que dificuldade pode ter em comprar tinta?

- Agora complicou.. todos tem um “dourado”, “acobreado”, “penas de pavão nórdico acinzentado” na caixinha. Como diabos esses nomes fazem sentido? Existe mesmo diferença entre esse tal de castanho claro acobreado irisado intenso e o vermelho claro? Ai! Me sinto num universo paralelo… Meu habitat natural, definitivamente, é o corredor de bebidas do mercado.

- Ai, ai..





Entre paracetamol, lenços e registros

15 09 2008

 

É final de semana, o que por si só sempre foi o suficiente para me deixar feliz, mas dessa vez uma gripe intensa me fez esquecer que as sextas são lindas por si só e que os sábados são gloriosos só porque são sábados. A felicidade deu lugar aos espirros, a vodka ao suco de laranja sem gelo e o bom humor a apatia.

 

 Eu me esforcei para ser sociável, acabei parando em um bar e tentei esquecer que a música só piorava a minha dor de cabeça e que manter os olhos abertos era um martírio. Tentava, desesperadamente, me convencer que o bacardi lemon nem é tão essencial para a vida humana e procurava achar graça no suco de laranja sem gelo.

 

Em menos de duas horas desisti de querer ter uma vida e resolvi ir pra casa e, numa atitude altamente altruísta, dispensei todo e qualquer ser humano das funções de enfermeiro, afinal, amar é incentivar a consumação de cerveja e, também, tudo que eu queria era me encher de porcarias sintéticas que aliviam a sensação de mal-estar e dormir.

 

Em casa, fiquei deitada na cama lembrando de saudosos tempos, quando ainda conseguia respirar sem maiores problemas. Ah! Que doce sensação, não? Você puxava o ar e o sentia entrando em seus pulmões. Que dias gloriosos foram esses! E agora você está assim, mal humorada, morrendo de gripe, achando que até seus dedos dos pés devem estar congestionados e que é por isso que cada parte do seu corpo dói. Teria outra explicação plausível?

 

Você não caminha mais, você se arrasta com suas pantufas de joaninha por todo o apartamento, enquanto deseja ser acéfala, para que aquela insuportável dor de cabeça deixe de fazer parte dos seus dias. Não há neosaldina que amenize, não há paracetamol que cure, não há vicky vaporub que descongestione.

 

Em meio a todo caos que tem sido respirar, você tenta desesperadamente dormir, mas você descobre que ou você deita na cama ou você respira. Você cogita ligar para seu avô e perguntar sobre as técnicas dele para dormir sentado, mas já passam das duas horas da manhã e é assim.. só você, a gripe e seu mau humor, numa madrugada fria.

 

Quando você pensa que nada mais pode acontecer, quando você acha que não tem o que piorar, você ouve aquele ruído vindo do banheiro. Muito a contra gosto você se levanta do sofá, caminha em direção ao barulho e tchan-tchan-tchan… tem o banheiro, tem um tapete encharcado e tem água, muita água… você tenta respirar fundo e se lembra que nem isso você pode fazer. Em uma atitude muito madura, você resmunga e tenta fechar o registro emperrado. Você é destra e sua mão direita está machucada, você tenta se convencer de que tem a mesma coordenação com a mão esquerda, mas é em vão. Você fica tão irritada que esquece da mão machucada, esquece da dor e fecha o registro, enquanto amaldiçoa os malditos problemas hidráulicos.

 

Porque eu? Porque diabos esses malditos problemas envolvendo canos e água me perseguem? Karma? E já começo a pensar sobre vidas passadas: “Pô! Se soubesse que ia ser um castigo tão cruel assim, eu nunca teria roubado o padre, batido no mendigo, bebido mais que devia e xingado a mãe da dona da padaria!!”.

 

A festa regada à música ruim e volume ensurdecedor continua dentro da minha cabeça, manter os olhos abertos em meio a lugares com luzes acesas tem sido uma provação e, infelizmente, não era possível controlar um vazamento e enxugar todo o alagamento no escuro.

 

Além de tudo o registro vazava. Você procura por fita veda rosca desesperadamente.. e lembra-se que ela acabou no último problema do chuveiro. Você amaldiçoa o chuveiro, o registro, a instalação hidráulica e se pergunta por que diabos você não está morando com seus pais, com seu irmão, com o zelador, com um bombeiro hidráulico, que seja! Você fecha o registro, resolve o problema do vazamento com fita crepe e um pano e começa a se sentir meio McGyver.

 

A irritação continua, a dor de cabeça só piora e você tem febre. Você madura, sensata, auto-suficiente, independente, senhora de si e cosmopolita faz o que qualquer outra faria.. grita “Merdaaaaaa”, resmunga e jura que vai resolver de vez o caos que virou seu banheiro, nem que pra isso tenha que derrubar paredes.

Se eu já tinha ficado triste com o chuveiro e suas seis fileiras de água com pingos caindo num intervalo de 6 segundos, imagine só a euforia de não ter água no banheiro como um todo.

 

A febre continua e você pensa em um banho gelado e lembra do problema com banheiro e vazamentos. Cogito deixar o apartamento alagando por 20 minutos enquanto tomo banho, depois resolvo partir para o plano B: a área de serviço. Tem uma portinha na área de serviço que leva para um lugar que civilizações antigas acreditavam ser um banheiro. Tem um vaso sanitário e um cano de chuveiro, tudo isso dentro de um cômodo do tamanho de uma porta do meu guarda-roupa, deveria servir em uma situação emergencial.

 

Abro o “chuveiro” (entende-se por chuveiro um cano sem um chuveiro de fato) e  a água em temperatura ambiente padrão Patagônia começa a jorrar. Lá se foram meus planos de não lavar a cabeça, visto que, forças místicas superiores fizeram a intensidade da água lavar minha cabeça, o vaso sanitário, as janelas do “banheiro” e a porta.

 

Acabo adormecendo no sofá da sala, assistindo as porcarias que só uma tevê aberta pode produzir às 3 horas da manhã. Mas, ao amanhecer, o problema hidráulico continua, ainda tenho febre, tomo paracetamol como se fosse tic-tac e, nostálgica, suspiro e lembro daqueles velhos tempos.. onde eu conseguia respirar tão bem. Ah!! Que dias gloriosos foram esses!

—-

PS: Querida Bia, nesta manhã festiva, eu (e toda aquela equipe responsável por esse blog - hahaha) queremos desejar a você blá blá blá blá, felicidade, sucesso, etc.. etc.. etc… e que o espírito (ops, isso é só no natal!), enfim, Feliz aniversário! =)





Me, myself and chuveiros

9 09 2008

 

Você tenta ser uma mulher superior, independente, senhora de si, corajosa e cool, mas acontece que vez ou outra, o inevitável acontece e você, a garota imperturbável com seu ar de mulher independente, acaba desabando diante do pior problema que uma mulher pode enfrentar depois da falta de creme para pentear: chuveiros.

 

Eu sou uma garota mimada, com os privilégios de quem tem um pai e dois irmãos. Assim, acabei sendo criada dentro de uma bolha, vivendo em um mundo cor-de-rosa, onde problemas elétricos eram inexistentes e nunca fui preparada para usar uma chave de fenda ou reconhecer uma chave allen 1/8.

 

Não sei se são as leis de Murphy agindo, não sei se meu apartamento está localizado justo no limite da declinação mais meridional da elíptica do sol, não sei se eu tenho mais problemas com chuveiros ou se eu só PASSEI A PRESTAR ATENÇÃO NOS PROBLEMAS DE CHUVEIRO, mas o fato é que eu tenho a síndrome da mulher que mora sozinha e, cotidianamente, tenho que lidar com isso. E enquanto estava no ritual matinal envolvendo xampu, cremes e sabonete, me deparei com a falta d´agua. Como qualquer mulher calma e centrada:

 

- Merdaaaaaa! Eu não acredito que acabou a água justo agora. Como diabos a água acaba sem nenhum aviso prévio? Ah não.. eu vou ligar para o síndico agora.. onde já se viu!!! Vou passar o dia com a cabeça cheia de xampu??? Merda! Merda! Merda! Merdaaaa! (resmungo enquanto saio do chuveiro, me enrolando na toalha e procurando pela toquinha de banho rosa com borboletinhas)

 

Antes de mostrar toda minha indignação para com a autoridade do prédio, resolvo abrir toda e qualquer torneira existente em casa e, para meu espanto, em todas a água saia abundantemente, então, seguidora da filosofia que uma garota deve aprender a lidar com seus problemas e desgostos sem que isso acabe em Djavan e chocolate, totalmente independente e senhora de mim, disco os números da salvação, também conhecidos como número de telefone de um representante do sexo masculino:

 

- Socorrooo! Deus está me punindo porque não consigo tomar banho em 10 minutos!

- Porque sempre parece que estamos no meio da conversa quando eu atendo uma ligação sua?

- Está dizendo que nunca sou clara o suficente?

- Não, estou dizendo que você começa a conversa do meio então parte para o começo, volta para o meio, fala compulsivamente e então temos o fim. Mas você não ser clara o suficiente seria minha próxima colocação.

- A minha cabeça está cheia de xampu, poderíamos nos concentrar nos meus problemas e depois nas suas reclamações a meu respeito?

- Sempre egocêntrica.. “meus sentimentos”, “minhas falas”, “meu cabelo cheio de xampu”. Ahn? Cabelo cheio de xampu?!? Porque você saiu do chuveiro para me telefonar?

- Foi uma mensagem do Senhor, Ele se manifestou para Maomé, para Paulo.. parece que chegou a minha vez.

- Oi??

- Meu chuveiro parou de funcionar, tenho que explicar tudo???

- Hum.. o que houve? Queimou?

- Não! Se fosse isso teria terminado de lavar a cabeça, né? Essa coisa de frescura com água gelada é coisa de franguinha! A água acabou.

- Então você se enganou com a mensagem do Senhor para você.  Está claro que ele queria que você ligasse para a SANEPAR.

- Não, porque antes Ele me fez abrir todas as torneiras e a água é abundante, menos no chuveiro, que continua com suas cinco fileirinhas de água e pingos caindo num intervalo de 6 segundos.

- Ai, ai.. você é muito maluca! Posso ver isso a tarde?

- Hum.. já está no trabalho?

- Yeah…

- E as prioridades?

- Tenho certeza que seu chuveiro sabe que ele é muito importante pra mim, mas ele tem que compreender que há homens engravatados sentados em uma sala esperando por uma apresentação em ppt.

- Tudo bem.. eu dou um jeito..

- Nãooo! Se você me disser que vai mexer no chuveiro eu dou uma desculpa e saio agora. É mais fácil do que te salvar de um prédio em chamas.

- Engraçadinho!  Não vou arrumar.. quer dizer.. só vou arrumar uma maneira paliativa de lavar a cabeça.

 

Patéticas cenas de uma mulher na área de serviço do seu apartamento, debruçada sobre o tanque, lavando a cabeça.

 

A tarde ele chega, abre o chuveiro e:

- Certo, o fluxo de água parece bem normal pra mim.

- O que você fez?

- Mexi naquela torneirinha mágica ali e a água começou a sair. Não é bárbaro?

- Deve ser sua máscula presença intimidando o chuveiro.

E tudo funcionou normalmente, até aquele outro dia. Novamente, os mesmos números da salvação:

- Casa comigo?

- Casar? Ué.. pensei que você achasse que o casamento cria semi-zumbis e destrói a forma humana das pessoas.

- Hum.. e acho, mas a gente não precisa casar, podemos só morar juntos. O que acha? Quando traz suas coisas? Hoje?

- Você andou bebendo?

- Eu acho que minha samambaia está precisando de uma figura paternal em casa.

- Doida! (diz gargalhando). Posso saber o que você aprontou?

- Meu chuveiro só funciona com você em casa. O que posso fazer? Ou me mudo, ou paro de tomar banho, ou caso com você. Pareceu o menos complicado, odeio encaixotar coisas e tenho a síndrome de abstinência de sabonetes e xampu… sou asseada o que posso fazer?

- Sempre sentimental!

 

Ferramentas,  fitas, registros e algum tempo depois, o problema foi totalmente resolvido.

 





Entre pipoca e lágrimas

15 07 2008

 

Moletom, sofá e Dr. House, ela jurava que nada a faria abandonar os travesseiros e o edredom naquele dia, quer dizer, abriria uma exceção: João, definitivamente, pelo João ela abriria uma exceção, não tiraria as pantufas para correr de encontro a ele.. Ah! Mas pelo João, somente pelo João, seria capaz de apertar o pause do controle remoto. Era isso: dvd´s, moletom, edredom, sofá e o João, entregador de pizza amigo, trazendo o mesmo pedido de sempre: tomate seco com rúcula. Mas..

 

- Alô..

- Vamos sair?

- Não.

- Vamos sair?

- Não.

- VAMOS SAIR?

- Err.. hum.. não!

- Você fez um juramento lembra?

- Amar, respeitar e ser fiel até que a morte nos separe? Hum, não, não.. não era isso. Era? Xiiii… Senhor, perdoai.. eu pequei!

- “Com esse pedaço de carpê nas mãos, tendo Deus como testemunha, eu juro que nunca mais deixarei ninguém do meu círculo de amizade ir ao cinema sozinho”. Lembra-se?

 

Merda! Eu adoro cinema, cadeiras nas últimas fileiras, tela grande, saquinhos de M&M, mas a verdade é que o cinema, pra mim, é uma prova de que seres humanos são feitos para viver em sociedade. Em um dos meus piores pesadelos, estou em um cinema vazio, com um pote de jujubas, assistindo repetidamente Casablanca e chorando ao som de “as time goes by”.

 

Toda imagem de independência, toda a ilusão de auto-suficiência, toda arrogância de “não preciso de você pra nada”, se esfacela diante da bilheteria de um cinema.  Com quem vou rir nos trailers? Quem vai repetir comigo “há-há-há eu não tinha pensado nisso”, naquela mesma propaganda de Seguros do Unibanco? Com quem vou fazer observações (im)pertinentes? Definitivamente, o ser humano não nasceu pra ser só e por mais que os curitibanos (variante da espécie homo sapiens, mas com inúmeras peculiaridades) afirmarem que vão ao cinema sozinho por gosto pessoal, eu acredito que nenhum ser humano pode, REALMENTE, achar DIVERTIDO ir ao cinema sozinho, mas.. sei lá.. talvez a estranha seja eu, afinal, sou excêntrica.. faço solos de air guitar ouvindo Doors. Mas, enfim, convite para cinema é covardia. Como recusar? É uma alma em desespero, clamando por ajuda:

 

- Hum.. e qual é a boa de hoje? Documentário cambojano? As mazelas da Somália? Ou outro incrível filme iraniano sobre tratadores de avestruz? (ele é sempre responsável pelos mais “incríveis” convites, sempre acho que está testando o quanto eu posso suportar).

- A nova animação da Pixar.

 

(Pausa para a confissão pública: eu A-D-O-R-O desenhos).

 

- Está sendo cínico? Está dizendo isso para me fazer ficar feliz, dizer umas interjeições que expressam felicidade e depois acabar com todas minhas ilusões, num ato de puro sadismo?

- Não, estou realmente te chamando para assistir o novo desenho da Pixar.

- Por quê?

- Porque sei que você adora desenhos, oras!

- Hum… Você fez alguma coisa que faria eu te odiar pra sempre e está tentando ser legal para me impedir de te odiar pra sempre?

- Eu sempre faço coisas que fariam você me odiar, mas sabe Deus porque, nunca funciona.

- Eu estou doente, né? Eu estou com os dias contados e você, na sua infinita bondade, está tentando me deixar feliz antes da passagem, confesse!

- Pobre criança inocente! Você sabe que eu nunca faria isso.. minha bondade é extremamente finita, isso seria uma atitude cristã demais pra mim.

- Está precisando de um rim?

- Não, só de companhia para o cinema… e talvez de um fígado, mas creio que você não seja a escolha mais acertada para essa necessidade. Então, 15 minutos?

- Claro! Aí você me espera por mais 1 hora e vamos.

 

E lá estávamos nós e milhares de criança, em uma sala de cinema, comendo pipoca e assistindo Wall-E, quando:

 

- Má, você está chorando?

- Chorando?? Eu?? Eu não tô chorando.

- Então vamos sair daqui correndo para o hospital, deve ter algo estranho, estão saindo lágrimas dos seus olhos, LÁGRIMAS!! Sem você chorarrr.. Um médico, UM MÉDICO. Sococorro! Glândula lacrimal fora de controle!

 

E, em um ataque de fúria, o belisquei.. ferozmente!

E Wall-E fez o que nem a morte do pai do Simba em “Rei Leão” fez.. Patéticas cenas de uma pessoa adulta, chorando assistindo um desenho. Constrangedor! Na próxima vamos ver algo meio “Piaf”, “menos” triste.





Vida independente - Como matar animais ferozes

9 07 2008

 

No auge dos meus dezessete, dezoitos anos.. consegui a minha independência, ainda comprava danoninho e jujuba, ainda vivia do dinheiro dos meus pais, mas tinha me tornado uma adulta que fazia suas próprias compras no mercado e podia almoçar bolacha (não biscoito, que fique claro!) negresco, se eu quisesse.

Morava sozinha e apesar de sofrer com uma forte crise de abstinência provocada pela falta de tevê a cabo, eu superava a infelicidade disto com as festas open bar da USP.

E nessa vida independente e solitária, em um dia de calor senegalês, em um dia de ar condicionado quebrado, em um dia em que me sentia mais ou menos como o vilão de Exterminador do Futuro II, dissolvendo, me partindo em milhares de partículas e me transformando em uma poçinha, eis que tomo a sábia decisão: 

- Vou dormir de janela aberta, não era isso que os antigos faziam em tempos longínquos, em uma vida de privações.. uma existência sem os prazeres do ar condicionado? Isso! Janela aberta, afinal, eu moro no quinto andar, que perigo uma janela aberta teria?

Então, lá estava eu, reclamando insistentemente do calor absurdo, lembrando como minha criação me estragou e eu me tornei uma pessoa que necessita de um ar condicionado no nevar para ter uma boa noite de sono, mas.. em um determinado momento, fui vencida pelo cansaço.. e em meio aos lençóis de algodão e a falta de vento entrando pela janela.. adormeci.

E lá, nos meus devaneios, lá dormindo e sonhando com camelos e o deserto do Saara, eis que de repente sinto algo em minha perna, instintivamente peguei o travesseiro e bati na perna, jogando o que quer que fosse para longe. Cambaleando, levantei e acendi a luz, então me deparo com aquilo: algo preto, rastejando sobre o piso. Dormindo, sonhando, delirando, pensei comigo:

- O que seria isso? Uma borboleta mutante e feia, feia, feia?

Então, saindo do meu estado de transe, deixando para a trás a demência do sono, eis que:

- Aiiiiii.. um morcegooo! Um morcegooo.. UM M-O-R-C-E-G-O (grito, enquanto faço o que qualquer outra mulher destemida faria: subo na cama).

Respiro fundo, tento superar o ataque de pânico e começo a pensar em soluções:

- Posso pular da cama, sair correndo.. trancar o morcego no quarto e dormir na sala. Amanhã eu cuido do morcego (eu = cara de sofredora, voz mansa implorando para um homem tirar aquele bicho asqueroso do meu quarto).

Me pareceu coerente. Então, destemida sai correndo do quarto, enquanto soltava algumas interjeições de pânico. Deitei na sala:

- Merda! Não vou conseguir dormir aqui, sofá desconfortável… Que absurdo! Eu com pânico de um morceguinho?  Que mulherzinha! Claro que eu consigo me livrar de um morcego.

Então, bravamente, armada com uma vassoura, entro no quarto decidida:

- Alguém aqui vai morrer e não serei eu, está me ouvindo Batman?

E lá, senhora de mim, tentava matar, com a vassoura, o morcego que se arrastava pelo chão. Mas no meu planejamento ele morria, não grudava na vassoura:

- Merda! 

E então, provando sua superioridade, provando ser conhecedor de diversas artimanhas para assustar mulheres indefesas, eis que o morcego começa a voar pelo quarto. Mais pânico, mais gritinhos, interjeições e corrida destemida até a sala, enquanto trancava a porta do quarto.

Corajosa, independente, senhora de mim, tomei uma decisão: fui pedir socorro para o ex-namorado e vizinho:

- Tem um monstro no meu quarto!

- Jeito estranho de pedir desculpa e fazer as pazes.

- Estou falando sério.. tem um monstro no meu quarto.

- Se você quer dormir em casa, é só pedir.. não precisa inventar desculpas malucas.

- Tem um animal asqueroso e feroz no meu quarto, vamos lá matá-lo (digo o empurrando até meu apartamento).

- Se você quer que eu durma com você na sua casa, é só precisa pedir.. não preci.. 

- Entra lá no quarto.. tem um morcego horrível… eu espero aqui.

Ele abre a porta, entra e minutos depois sai:

- Certo, não tem nada lá dentro. Isso tudo é porque você quer que eu durma aqui ou porque você quer dormir lá em casa, mas é incapaz de engolir o orgulho e pedir desculpa?

- Como não tem nada lá dentro? Claro que tem… (digo enquanto entro corajosa dentro do quarto).

Olho em volta, vasculho e nada do morcego. Concluo:

- Deve ter saído pela janela, então.. pode ir agora.

- Ahn? Como assim? Você me acorda, me faz vir aqui por nada e nem um pedido de desculpa, nem um assumir que estava mentindo?

- Errr.. não.. TCHAU!…

E ele vai embora, e eu volto para o quarto… e me preparo para voltar a dormir, quando:

- Aiiiii.. um morcego, um morcego.. UM MORCEGOOOO!..

Novamente, destemida, senhora de mim, adulta e independente, bato na porta desesperadamente:

- Tem um morcego no meu quarto.. verdade.. ele está lá.. ele está lá..

- Má, ou você me pede desculpas e diz que errou e eu deixo você dormir aqui, ou.. você vai para sua casa e sossega e para com essa história de morcego.

- Eu juro que tem um morcego lá.. Por favor, tire ele de lá.. (digo chorosa, puxando-o pelo braço)

- Não tem nada aqu..arghh.. um morcego… não é que era verdade? Me traga uma vassoura.

- Ah!.. Eu já tentei isso.. mas ele não morre..

- Me traga a vassoura.

E então ele, destemido, macho alfa, profundo conhecedor de técnicas de caça, vira a vassoura e com o cabo esmaga a cabeça do morcego.

- Arghhhh!… Que nojooooo…. (digo, sempre primando por comentários coerentes e inteligentes).

- Ele te mordeu?

- Ahn?

- O morcego te mordeu?

- Ihhh… não sei… talvez.. eu estava dormindo, quando senti algo na perna.

- Vamos para o hospital (diz me arrastando)

- Nãooooo.. hospital nãooo…

Patéticas cenas de uma mulher independente, destemida, senhora de si.. em um hospital, tomando injeção por causa de uma maldita noite de calor senegalês, sem ar condicionado.. Ah! A vida independente….

 





Como cuidar de cachorros – Lição I

30 06 2008

 

 Eu adoro cachorro, de todos os tipos, tamanhos, raças.. eu simplesmente ADORO cachorros. Quando criança eu morava em um lugar que meu pai transformou em uma quase chácara. Já tive os mais diversos bichos de estimação, só não tive um golfinho porque meu pai disse que não era viável criar um golfinho na piscina. Em compensação já tive patos, ganso, coelhos, tartarugas, cavalos (mas esses não ficavam no quintal, mas sim na fazenda), mas sempre gostei mais de cachorro… e é assim até hoje.

Tirando Lênin, um pastor alemão que já me mordeu uma vez, já mordeu meu irmão mais velho uma vez, já mordeu meu primo uma vez, já mordeu meu irmão caçula 4934894034 vezes e já mordeu/assustou/arranhou/avançou em alguns passantes, os cachorros lá de casa sempre foram conhecidos por aquele jeito de cachorro bobão e pacato até que:

- Ah! Você ficou sabendo o que aconteceu com o Neto?

- Ahn?

- O Neto..coitado! Morreu em um acidente de moto..

- Ahn??

- O Neto.. não lembra dele?

- Quem??

- O filho da Maria.

- Maria?

- Ah! Enfim.. ela te deu o cachorro.

- Hein?? Cachorro???

E foi assim que de repente lá em casa passou a ter uma criatura que alguns chamavam de cachorro, outros de criatura demoníaca. Um fila enorme e incrivelmente sociopata, que ficava isolado no outro lado do quintal de casa, afastado por um muro e dois portões do convívio social, sendo alimentado só pelo meu pai e privado de carinhos na barriga e brincadeiras com bolinhas, por se tratar de um cachorro incrivelmente bravo. E assim seguimos nossas vidas, eu já não morava mais com meu pai e nas raras vezes que estava lá de passagem, nem chegava perto do cachorro.. sabia de sua existência pelos latidos altos e em som grave e vivia bem assim.. até que meu pai fez uma operação e eu era a única pessoa passando uns dias em casa, então, ou eu alimentava o cachorro ou ele morria de fome. Confesso que cogitei deixar o cachorro morrer de fome cada vez que ele rosnava pra mim e avançava sobre a grade, mas eu lembrei que eu adoro cachorros, então, pensei:

- Que isso.. medo eu tenho de ratos, que são animais ferozes e perigosos, vê se eu vou ter medo de um simples cachorro.

E assim, munida de muita coragem, atravessei o portão que liga o quintal social ao quintal dos cachorros e senhora de mim, peguei o saco de ração com a bravura de uma guerreira dos tempos romanos, pelo menos por breves momentos, até o cachorro começar a latir, rosnar e bater na grade do outro portão, então, como qualquer mulherzinha que se preze, larguei o saco de ração e sai de lá antes que ele descobrisse que era maior do que a grade que nos separava.

Depois dessa tentativa frustrada, como mulher adulta, independente e auto-suficiente que sou, fiz o que qualquer outra faria no meu lugar: chamei um homem.

- Ei! O que está fazendo?

- Nada. Por quê? Tá querendo fazer alguma coisa?

-Sim, estava pensando em alimentar uma criatura com corpo de cachorro e fúria de leão, está afim?

- Oi??

- Não consigo dar comida pro cachorro, ele me detesta!

- Que patinha!! – diz ele rindo – Já estou indo.

Então ele, ser do sexo masculino, senhor de si, corajoso e macho pra caramba, atravessou aquele portão, com a determinação de um William Wallace, lutando por suas crenças e menos de um minuto depois:

- Meu! Aquilo não é um cachorro… não vai dar não, Má.. não tenho coragem de encostar na grade pra por ração.. nem água.

 - Ahh.. mas o que fazemos então? Não podemos deixar o cachorro morrer de fome.. chamamos os bombeiros?

- Hum… eu tenho um plano.

- Qual?

- A gente pega uma mangueira e um banquinho, subimos no banquinho e jogamos água por cima do muro, até encher a vasilha de água – diz destemido.

- E a ração?

- Uma coisa de cada vez, uma coisa de cada vez..

E assim, corajosamente, colocamos água para o cachorro.

- Já sei como colocar ração.

- Como?

- Só precisamos distrair o cachorro.

- Ah! E como distraímos uma besta demoníaca faminta?

- Tenho certeza que você vai dar um jeito.

- Eu????

- Eh.. é só você ficar lá na parte da frente da casa e manter o cachorro lá, enquanto eu entro e coloco a ração.

- E como vou manter o cachorro lá? Vou dar minha mão pra ele morder?

- Isso!!! Grande idéia

- Ahn?

- Vá jogando alguma coisa pra ele comer..

E assim fiquei, na parte da frente da casa, jogando pedaços de pão para o cachorro, enquanto meu amigo entrava cuidadosamente e colocava ração para o cachorro. Missão cumprida.

Dois dias depois, pensei novamente:

- Merda! Tenho que dar comida pro cachorro.. vou ligar para o… Ahhh! O que eu sou? Uma franguinha? Desde quando tenho medo de cachorros ferozes e com dentes afiados?

E, numa técnica milenar, aprendida nos filmes do Karatê Kid, fiquei por minutos, encarando o cachorro por cima do muro, ele me encarando e latindo, eu o encarando e cogitando latir e assim foi até que ele parasse de latir e de avançar sobre a grade. Então, determinada, entrei pelo portão, peguei o saco de ração e o cachorro voltou a latir e a rosnar, eu olhava pra ele, ele olhava pra mim.. ou ele avançava em mim.. ou eu avançava nele, mas não ia sair de lá sem colocar comida e água, já tinha decidido e eu sou conhecida pela minha teimosa. E pronto, lá estava eu, senhora de mim novamente, uma pessoa capaz de colocar água e ração para um cachorro sem a ajuda de terceiros.





Só sei que foi assim…

7 12 2007

* Uma chuva que não para, uma pessoa de cabelo cacheado parecendo um poodle alvoroçado, lutando para não ser transformada em um algodão doce, nessa linda cidade cinzenta; 

* Chuva que não para causando a destruição de um pobre guarda-chuva inocente; 

* Saindo da faculdade, uma chuva que não para, um guarda-chuva quebrado e um dilema: “será isso um cabelo ou um algodão doce?” e eis que surge ele:

- Vim te buscar (diz ele sorrindo, na maior pose “o salvador do mundo”).

A princípio veio a felicidade, mas depois de alguns segundos:

- Auwww, SUA DOIDA! Você me beliscou.. eu venho te buscar nessa chuva danada e você me belisca? Cadê aquela coisa de amor, gratidão e etc?

- Isso é uma moto (diz ela indignada).

- Não?!?! Sério mesmo? Quando eu comprei me disseram que era um liquidificador! Achei mesmo estranho aquela parte de ter que abastecer, mas agora que você está dizendo isso.. sabe que começa a fazer sentindo? (pausa) (pausa) Meu Deus! Meu Deus! É  u-m-a  m-o-t-o!!

- Engraçadinho!! Você sabe que eu detesto motos naturalmente, mas hoje ainda tem o fato de estar chovendo.

- Imaginei mesmo que isso fosse te deixar não tão feliz, então olha o que eu trouxe pra você.. (diz ele entregando um capacete cor-de-rosa com umas borboletinhas desenhadas).

- Você comprou um capacete cor-de-rosa pra mim? (pergunta ela rindo).

- É.. e pipoca doce daqueles saquinhos cor-de-rosa também.

- Hahahahaha.. Quantos anos você acha que eu tenho, hein?

- Ah!! Essa é difícil, viu.. 5?? 

* Chegando em casa ensopada e cheia de trabalhos pra terminar e tchan-tchan-tchan (onomatopéia de suspense) acabou a luz. Patéticas cenas de uma mulher independente sem uma lanterna ou uma mísera vela que fosse.. escovando os dentes, tomando banho, tirando a maquiagem.. tendo como única fonte de luz o mega visor do celular…





Meus dias de médica

26 11 2007

Eu sou uma quase médica.. tirando o diploma e a falta do CRM, claro. Mas isso é secundário, afinal, morei por dois anos com um médico, vai dizer que isso não me torna apta a clinicar?

Bem, eu morava em Ribeirão Preto e era difícil viver naquele calor senegalês, principalmente porque eu nasci com certas frescuras.. uma delas é ser altamente sensível a temperaturas elevadas, mas sensível de tal forma que o calor absurdo me faz ter alergia.

Morando com um médico com acesso aos mais diversos tipos de amostra grátis, eu tinha em meu armário um vasto estoque de remédios para alergia, para aqueles dias de calor acima dos 40º em Ribeirão.

Um belo dia Dona Lúcia (nossa faxineira) chegou em casa e o médico e adulto lá de casa saia apressado pela porta da frente, enquanto me fazia as recomendações de sempre: “se comporte”, “vê se não chega atrasada na aula”, “não vá ficar até tarde na rua.. é perigoso”, “nada de parar no Pingüim”, “qualquer coisa me bipa, QUALQUER COISA MESMO, TA?.. “Dona Lúcia, toma conta dessa menina. Não deixe ela almoçar salgadinhos”. E lá se foi ele para mais um plantão de 24 horas.

Dona Lúcia olhava aflita, então eu perguntei:

- Aconteceu alguma coisa Dona Lúcia?

-Ah! Não sei.. acho que estou com um problema na perna..

- Que problema?

- Não faço idéia.. queria que o Doutor visse. Está doendo um pouco, parece que estou sendo espetada por diversas agulhas, está coçando..

- Hum.. coçando.. Deixe-me ver, Dona Lúcia. (digo senhora de mim, com plena certeza que vou olhar e saber dar um diagnóstico).

- E então.. o que acha que é? (pergunta ela confiante)

- Alergia (digo com a convicção de uma médica chefe)

- Será?

- Claro! Olha.. tem uma ferida na sua perna.. está coçando.. é alergia.. Peraí que vou te dar um remédio.

Sigo até meu armário de amostras grátis e dou a Dona Lúcia minha última caixinha de claritin, explicando a dosagem e por quanto tempo ela teria que tomar. Dona Lúcia me ligou no dia seguinte só pra agradecer meu diagnóstico, o remédio.. repetiu diversas vezes como eu era um anjo.

No dia seguinte, depois que o Doutor chegou do plantão, dormiu e deixou de ser um zumbi para voltar à vida:

- Má, eu notei que a última caixinha de amostra grátis que eu te dei não está mais no armário do banheiro. A alergia atacou de novo?

- Não.. eu dei o remédio para a Dona Lúcia.

- Para a Dona Lúcia?

- É.. ela estava com alergia.

- Estava?

- Sim.. tinha uma feridinha na pele..estava coçando..

- Você está me dizendo que não sabia o que ela tinha e deu um remédio pra ela tomar?

- Não, estou dizendo que diagnostiquei alergia.

- Ai meu Deus!!! Quer dizer que coçou é alergia agora? Não sei quem é mais doida.. você por dar remédios ou ela por tomar os remédios que você dá..

- Com certeza ela.. além de tomar o que eu receito me liga para agradecer e ainda pergunta se eu posso dar uma olhada no filho dela, que está reclamando de um problema nas costas…

- - -

PS: Pesquisa do blog de hoje “eu só quero saber onde comprar cloro”… Fiquei com dó da pessoa.. devia estar há horas “conversando” com o google e nada dele falar especificamente sobre onde comprar cloro. Ai, ai.. esse google é um fanfarrão!!





Relato de um dia na minha vida curitibana

2 11 2007

Dizia o jornalista Fernando Pessoa Ferreira que “a maior atração turística de Curitiba é o inverno, que começa em fevereiro e termina em dezembro. Nos outros meses, chove”. Eu diria que nem precisa muito, diria que o período de inverno é alternado com o período de verão, que por sua vez é alternado com o período de tempestades, tudo no mesmo dia.

Claro que o verão termina às 18 horas e as tempestades começam justamente nesse horário, porque é o horário que estou saindo do trabalho. Trata-se de um problema claramente pessoal, porque já foi comprovado: quando saio mais cedo do trabalho, os temporais também começam mais cedo e o frio começa a ressurgir quando estou num dia de roupas de verão.

Apesar de ter 24 anos eu sofro de uma menopausa precoce, enfim, sinto um calor senegalês até nos dias suavemente quentes de Curitiba, então na bela segunda-feira de sol e calor intenso lá estava eu vestida moda praia.. de vestido frente única de cores mais alegres e vibrantes. Tudo ia muito bem até as 18 horas, quando de repente.. 4 quarteirões de casa eu fui surpreendida por uma mega tempestade com ventos fortes e granizo e logo na segunda-feira de cabelo bom. Sabe qual a probabilidade de uma pessoa de cabelo cacheado estar feliz com seu cabelo sem ter feito escova ou estar usando presilhinhas? As chances de isso acontecer são mínimas.. MÍNIMAS!

Era uma batalha árdua, a chuva vinha de todos os lados e o guarda-chuva e nada seriam a mesma coisa, quer dizer.. ele impedia que minha bolsa fosse completamente encharcada, mas de resto não tinha mais solução.

Em uma tentativa desesperada parei em um ponto de ônibus, mas ao contrário do que você, nobre pessoa que não conhece Curitiba profundamente pensa, nem todos os pontos de ônibus da cidade são aqueles tubos que você vê em postal. Obviamente que o que eu tinha a disposição era um daqueles pontos meio cobertos, mas que não resolviam todos meus problemas e até causavam mais alguns.

Ali fiquei um tempo, esperando a chuva dar uma amenizada. A chuva estava forte e a água nas ruas interditaria muitos aeroportos por muito tempo. Os carros passavam por ali em alta velocidade espirrando água para todos os lados, para todos os SEUS lados também, você já estava quase ensopada, mas do outro lado da rua vi uma situação ainda pior.

Os excêntricos curitibanos são assim, uma estranha tribo que se alimenta de pinhão, não sabem dirigir em dias chuvosos, não falam com estranhos, mal falam com conhecidos, mas residem em casas iguais às nossas e insistem em ter uma vida igual a nossa. É notória a falta de habilidade do curitibano em dirigir com chuva. Tenho amigos que tentam fazer um projeto de lei que proíbe os nativos de dirigirem em dias chuvosos ou com umidade superior a 70%. Enquanto isso não acontece somos obrigados a ver o trânsito caótico e congestionamentos em dias chuvosos, além de aturar os carros passando praticamente em cima das calçadas, lavando ponto de ônibus e passantes.

Bem na frente do ponto de ônibus que estava tinha um posto de gasolina. Um moço com um guarda-chuva esperava para atravessar a rua quando passou um carro e jogou rios de água para os lados. O pobre moço ficou todo ensopado, atingido dos pés até o rosto. Indignado ele fechou o guarda-chuva e foi-se embora no meio do temporal, se estivesse de óculos sei que poderia ter visto claramente o movimento labial dele com vários xingamentos impronunciáveis.

Era preciso aceitar a realidade: A CHUVA NÃO IA PARAR. Estava perto de casa mesmo, já estava ensopada mesmo, a chuva de granizo já tinha parado. O que mais eu tinha a perder? Fui andando para casa e então descobri que tinha muito mais a perder sim: os sapatos.

Já tinha visto rios com menos água e correnteza do que nas ruas perto de casa e foi assim.. caminhando e travando uma batalha particular pra manter os sapatos no meu pé, até que não teve jeito, a natureza se manifestou mostrando sua supremacia arrastando meu sapato pela enxurrada. Como qualquer mulher teimosa e inconformada, fui atrás do sapato numa perseguição alucinada, sendo esta uma das cenas mais deploráveis da minha vida (só não menos ridícula do que quando tive que tirar um pardal morto do meu salto), o alcancei alguns metros à frente, preso entre galhos, folhas e lama.

Daí por diante desisti de ser uma dama, desisti de tentar salvar minha bolsa da chuva. Há um quarteirão de casa fechei o guarda-chuva e com os sapatos em mãos, fui caminhando descalça até minha casa… e lá se foi uma segunda-feira linda e ensolarada.. e lá se foi um dia de cabelo bom… e assim começou uma gripe.. os dias seguintes a segunda-feira foram assim, calor senegalês até certo período da tarde, temporais o resto do dia.. uma gripe só não agravada graças a auto-medicação. Uma alergia por causa do calor iniciada, mas tudo bem, afinal, eu tinha salvado seus sapatos…

- - -

PS: Ah! Saudades da mordomia da casa dos pais. Saudades da vida de paulista mimada.. Saudades da vida com carro!





Regionalismo

23 09 2007

São seis anos morando em Curitiba. Foram alguns anos vagando por São Paulo, passando férias no Espírito Santo.. alguma coisa eu tinha que ter aprendido. 

“A descoberta do chucrute”

Uma temporada em Joinville, estudantes, sair pra jantar naquela época era parar naquele carrinho de cachorro-quente ali da esquina, pedir um cachorro-quente completo e uma coca-cola. Pois bem… tudo caminhou perfeitamente até o:

- E então, as jovens vão querer o que? (pergunta o senhor do cachorro-quente pra mim e para minha amiga).

- Dois completos e uma coca (diz minha amiga nativa e anfitriã).

Então algumas histórias bizarras, risadas e muitos pagodes do som ambiente da barraquinha de cachorro-quente, depois:

- Má, que cara é essa?

- Hum.. não sei não. Mas acho que esse cachorro-quente está estragado.

- Estragado?

- É.. você não está sentindo esse gosto estranho nele?

- Gosto estranho? Deixa-me ver..

- Ué.. tá normal..

- Normal? Parece que tem algo estragado aí..

- Estragado? Hum.. Ah! Eu esqueci de avisar.. você não gosta de chucrute, não?

- Do que?

- Chucrute, oras.. repolho azedo.

- Ui.. e alguém em sã consciência gosta de repolho azedo? 

“Com uma ou duas vinas?”

- Um cachorro-quente, por favor.

- Com uma ou duas vinas?