Confissões de uma paulista nostálgica

17 02 2008

Eu sou uma pessoa altamente urbana, daquelas que precisam de uma organização hierárquica atrapalhando a vida e poluição entupindo os poros para ser feliz. 

Gosto de saber que se eu precisar de um restaurante Tailandês às 3 horas da manhã, ele estará lá.. por mais que não faça nenhum sentido, por mais que eu nem goste de comida tailandesa, por mais que seja mais coerente precisar do disk whisky às 3 horas da manhã, a presença do restaurante Tailandês dá a sensação de tranqüilidade, basta você querer e pronto.. lá está ele. 

A exposição em excesso a lugares verdes me angustia, tenho crises de abstinência de civilização em paraísos ecológicos, ataques de pânico ao pensar em lugares onde meus 2 celulares não funcionariam.

Minha idéia de programa relaxante envolve um aglomerado de pessoas, botecos com decoração duvidosa e música em volume ensurdecedor.

Ahhhh! Quem não se acostuma e até chega a se afeiçoar ao trânsito na marginal às 6 horas da tarde? Passa a ser o seu ritual, aquele momento onde secretamente, você pode ouvir todos seus cd´s com músicas ruins, sem o olhar apreensivo da sociedade.

O gás carbônico enchendo nosso pulmão… aquela adrenalina que invade nossas veias de tanto medo de ser vítima de um seqüestro relâmpago… Aquele porra do lado gritando: “OLHA O MINDUIM” “ISQUEIRO DOIS REAL, DOIS REAL, DOIS REAL”… O esquecer de virar a esquerda e ter que andar mais 10 km para conseguir fazer o retorno.

Pessoas amáveis ao seu redor gritando como uma gralha: “VAI SE FODER!”, sem nenhum motivo aparente… Aquelas crateras que brotam no asfalto, acariciando o carro… aquela carreta monstruosa soprando amor na forma de fumaça preta.

Motoqueiros educados fazendo o grande favor de arrancar aquela saliência inútil chamada retrovisor, e depois ainda passam xingando a mãe… O cuidadoso motorista de ônibus, com toda sua habilidade e perícia, dirigindo seu pequeno meio de transporte como se fosse um esguio fusca…

A linha azul do metrô lotada, filas inconcebíveis, mas tudo bem.. você pode tomar alguns cappuccinos enquanto espera para se apertar dentro do vagão e escutar diversos discursos envolvendo “eu podia tá ‘matano’ eu podia tá ‘roubano’, mas tô aqui vendendo essas incríveis balas de goma”… E quando você está estressada.. quando o excesso de civilização e trânsito te incomodam.. você vai pro litoral, junto com todos os outros paulistanos estressados… e lá está o cara do “minduim”, do “isqueiro”… e o engarrafamento..

Tranqüilidade pra que? Viva a vida urbana!





Como água e vinho

21 11 2007

Ela estava no metrô, naquele horário infernal, junto com mais da metade da população da cidade de São Paulo. Ela tentava chegar até a Sé e de repente, no meio de todo aquele barulho e rompendo o som do mp3 ela escuta:

- Mááááá

Ela pensa ser com ela e olha para os lados, mas não vê ninguém conhecido. Está certo que ela tem alguns graus de astigmatismo, está certo que ela detesta lente de contato e por isso só usa óculos, está certo que ela raramente usa óculos socialmente, mas bem.. quantas mil “Mariana”, “Maria” e demais “Ma” existem e quantas mil deveriam estar ali tentando chegar na porta do maldito metrô, não é? Ela continua cantarolando com seu mp3 esperando o próximo metrô, até que é puxada pelo braço:

- Ei Má! Tô te chamando faz mó tempão, cara.. e você nem pra olhar pra mim, meu.. (diz ele com aquele sotaque típico da Mooca).

Ela olha com aquela cara de: “oi?” e ele continua:

- Nojentinha como sempre, né? Desde que te conheci já pensei: “ô mina metidinha” (com o característico sotaque da Mooca cada vez mais acentuado).

Ela olha com a mesma cara de “Oiii?” e ele continua:

- Que isso Má! Você sabe que é brincadeira, né? Nunca te achei metidinha, desde que te conheci pensei “que mina da hora”.

Ela ainda com a cara de “oooiiii????”, resolve perguntar:

- Nos conhecemos?

- Ah! Sempre piadista, né? Não acredito que você não lembra de mim.

Ela olha com aquela cara de pessoa autista, com sono e que, definitivamente, não sabe com quem diabos está falando. Ele, altamente tagarela, não a deixa fazer essa cara de bunda nem por 3 segundos completos, tendo como companhia o silêncio:

- Ow.. menos mal.. Assim fico mais tranqüilo sabendo do bolo que você me deu. Você deve ter sofrido um acidente, ter ficado um tempão em coma e aí acordou com esse probleminha de memória. Dica! Dica! Essa é a hora que você me fala do acidente e mostra as suas cicatrizes, pra não parecer tão feio você não se lembrar de mim. Vai lá!! Nem precisa ser convincente.. eu juro que vou acreditar por mais que você pareça o Cigano Igor “te amo Dara, te odeio Dara” (diz ele fazendo a mesma cara de paisagem e com a mesma entonação). Lembra? Ah, não deve ser da sua época, né? Se bem que.. te conheço há trezentos anos e você sempre vem com aquele papo de que tem 20 e alguma coisa. Mulheres, né? Sempre mentindo a idade.. Mas Má, você está morando aqui de volta?

Ela vai ficando aflita:

- Para! Para! Calma.. calma.. vamos começar do princípio.. QUEM DIABOS É VOCÊ?

E então ele a fez lembrar que ele era aquele paulistano chato, arrogante, metido que ela conheceu uns anos atrás, graças a amigos (será que podemos chamar mesmo de amigos essas pessoas? hahahaha) em comum.

Ele descreveu a roupa que ela estava vestindo naquele dia, enfatizou que a primeira frase que ela disse ao conhecê-lo foi: “Nuuuosssaaa! Que cílios lindos!”..  (ele ainda ri contando essa história por aí).

Ela então se lembrou que ele tinha um cavanhaque que ela achava ridículo. Cavanhaque só é aceitável em duas pessoas: no Brad Pitt (porque afinal de contas é o Brad Pitt, né?) e no Douglas (porque sei lá.. o Douglas pode), isso sem falar naquela toquinha.. ai.. ai.. o que era aquela toquinha que ele usava? Depois ainda se pergunta por que ela esqueceu dele, vê se pode!

Então ela esqueceu que queria chegar logo na Sé, ele esqueceu que tinha que ir trabalhar e foram tomar um café (na Barra Funda, porque ele ainda lembrava que ela adorava um cappuccino que tinha em um café na Barra Funda).

Ela não lembra porque não se deram bem logo de cara. Ele afirma que se deram muito bem logo de cara, ou ela é totalmente falsa, porque parecia muitoo que eles se deram bem…

Hoje ele é a companhia mais agradável, mesmo a arrastando para uns programas de índio e reclamando, reclamando, reclamando.. dando bronca, bronca e mais bronca.

Ele é o responsável pelas gargalhadas mais sinceras. É o despertar da alegria mesmo ligando às 6h da manhã em um sábado e gritando “Bommm diaaaa motivo da minha poesia” pra logo depois ir falando sem parar.. quer dizer.. parando de falar vez ou outra pra ficar cantando “Oohooo oohoooho… ooooho… Ooooo… oooooo… oooooo… Ooooo… oooooo…. oooooo…Somewhere over the rainbow… Way up high..And the dreams that you dreamed of Once in a lullaby-iii iiii iiii iii”, daquele jeito desafiando que só ele sabe.. Mas tudo bem, afinal de contas, ELE pode.. ele tem aquele sotaque da Mooca :-)





E aí.. Será que chove?

24 10 2007

- Alô

- Oi! Quem fala?

- Maíra.

- Oi Maíra, esse número é da Praia Grande, né?

- Não, não.. é de Santos.

- Ah! Mas é perto, não é?

- Sim.. se você for contra o sedentarismo pode até ir a pé. Ah! Por falar em você, quem é você mesmo?

- Então.. a gente não se conhece, eu só to ligando pra saber como está o tempo aí.

- Oi?

- Está sol?

- Está me dizendo que ligou aleatoriamente para um número para perguntar do tempo?

- Sim.. estou.. e também estou perguntando se está sol, lembra-se?

- Está sol sim.. calor.. o bar do Zezinho está bombando, eu acho que você deveria vir.

- Será? O tempo não está com cara de que vai mudar não? A Rosana Jatobá disse que uma frente fria estava se aproximando…

- Quem?

- Você não vê jornal, não Maísa? A Rosana Jatobá…

- É Maíra.

- Sim, sim.. isso que eu quis dizer.. Maíra..

- Você vai pautar a sua vida toda com base na Rosana Jatobá?

E então:

- Má, com quem você está falando?

- Hum.. Boa pergunta.. Ei.. Como é seu nome mesmo?

- Bruno.

- Espere um minutinho Bruno.

- Ok.

- Estou falando com o Bruno.

- E o que ele quer?

- Quer saber se deve ou não vir pra cá.

- Pergunta se ele joga futebol..

- Bruno, você joga futebol?

- Mais ou menos.. Por quê?

- Ele disse “mais ou menos” e perguntou por quê.

- Me passa esse telefone aqui… Pô Bruno.. seu prego.. não acredito que você não quer vir pra cá..

- Quem tá falando?

- Aqui é o Léo. Vem aí meu.. vai ficar fazendo o que por aí?.. Final de semana.. larga de ser fresco…

- Ah não sei.. a previsão do tempo…

- “mimimimimimi a previsão do tempo”.. A previsão do tempo manda na sua vida Bruno? Se a previsão do tempo diz você simplesmente aceita como verdade absoluta? Desligue essa porra desse telefone e vá arrumar as malas agora… Liga quando tiver saindo.. Vê se não demora hein…Tchau…

Tum.. tum..tum…

- Você conhece esse tal de Bruno?

- Eu? Eu não…

- E porque ficou insistindo pra ele vir?

- Ah! Ele joga futebol.. estava mesmo faltando um no time pra esse final de semana…o Rodrigo tá indo pra Sampa hoje.

- Ele não disse que joga, disse “mais ou menos”.

- Pois é.. está faltando um no time adversário…





Sendo paulista em Curitiba..

10 10 2007

História estranha I

- Má, onde você compra?

- Compro o que?

 Ah! Você sabe…

- Não.. não sei.

- A parada, com quem você compra?

- Parada?

- É.. o bagulho.

- Que bagulho?

- Maconha Maíra, maconha..

- Eu não compro maconha.

- Não? Você vende?

- Ficou doido, foi? Não compro, não vendo.. não fumo…

- Ah para Má.. nós sabemos que você é de São Paulo.

- E??

- E você é de São Paulo ué.. e paulistas são assim

- Assim, tipo.. maconheiros?

- Não Má, não.. liberais… você tá parecendo mais uma provinciana.. daqui a pouco vai dizer que não freqüenta raves e que não gosta do “Sabotage”.

- Não gosto de quem?? 

História estranha II

- Nossa! Olha lá o André, ele é lindo!

- Eh.. realmente.. muito bonito.

- Eu venho aqui todos os dias nesse horário para vê-lo, ele sempre pede um maço de cigarros e aquelas balas.

- Desde quando você faz isso?

- Ah! Faz uns meses já..

- E porque você não fala com ele?

- Sei lá, ele poderia me ouvir e responder. Ou pior ainda.. ele poderia me ouvir, me olhar com aquela cara blasé, fazer aquele “humpf”, com olhar superior e não me responder.

- hahahahaha, vai lá garota.. fale com ele.

- E o que eu digo?

- Certo, preste bastante atenção que eu só vou falar uma vez o que deve dizer, hein.. Ta pronta?

- Sim, diga..

- Você chega lá e diz “oi”.

- Sua besta! Pensei que tivesse falando sério.

- Mas eu estou falando sério, chega lá.. sorri.. fala oi.. pergunta se aquelas balinhas são boas.. fala do cigarro, ah é.. você não fuma, bem.. concentre-se nas outras conversas ridículas que puxam papo. Ou então você pode falar que estava pensando em alguma conversa ridícula que inicia papo, mas que não veio nada à mente, aí você pergunta se ele se importa se você falar só oi e der a deixa pra ele.

- Ah claro.. pra você é fácil fazer essas coisas.

- Fácil? Por quê?

- Porque você é paulista né…

- Ah sim.. e isso me dá a incrível habilidade de ler mentes, voar e conversar em filas de cafés sobre balinhas.





Regionalismo

23 09 2007

São seis anos morando em Curitiba. Foram alguns anos vagando por São Paulo, passando férias no Espírito Santo.. alguma coisa eu tinha que ter aprendido. 

“A descoberta do chucrute”

Uma temporada em Joinville, estudantes, sair pra jantar naquela época era parar naquele carrinho de cachorro-quente ali da esquina, pedir um cachorro-quente completo e uma coca-cola. Pois bem… tudo caminhou perfeitamente até o:

- E então, as jovens vão querer o que? (pergunta o senhor do cachorro-quente pra mim e para minha amiga).

- Dois completos e uma coca (diz minha amiga nativa e anfitriã).

Então algumas histórias bizarras, risadas e muitos pagodes do som ambiente da barraquinha de cachorro-quente, depois:

- Má, que cara é essa?

- Hum.. não sei não. Mas acho que esse cachorro-quente está estragado.

- Estragado?

- É.. você não está sentindo esse gosto estranho nele?

- Gosto estranho? Deixa-me ver..

- Ué.. tá normal..

- Normal? Parece que tem algo estragado aí..

- Estragado? Hum.. Ah! Eu esqueci de avisar.. você não gosta de chucrute, não?

- Do que?

- Chucrute, oras.. repolho azedo.

- Ui.. e alguém em sã consciência gosta de repolho azedo? 

“Com uma ou duas vinas?”

- Um cachorro-quente, por favor.

- Com uma ou duas vinas?

- Ah.. sem vina.

- Sem vina??

- Sim.. sim… não gosto muito (não fazendo a menor idéia do que era, mas se fazendo de entendida).

- Está certo.. sem vina, mas de resto completo?

- Sim, sim.. completo..

.Alguns minutos depois:

- Ow.. cadê a salsicha? Meu.. isso aqui é farofa?? Farofa no cachorro-quente???

- Você pediu sem vina.. e completo.

- É.. mas eu não falei nada pra tirar a salsicha. E.. farofa? FAROFA??

*Vina: Nome estranho que deram para a salsicha aqui em Curitiba.

“A perda do penal”

Morava em Ribeirão Preto e tinha uma amiga catarinense. Nunca vi ninguém ficar tão feliz ao descobrir que existia pamonha doce e salgada. Nunca conheci ninguém que falasse tão empolgadamente para os parentes catarinenses sobre o churrasco em São Paulo, falando das carnes e da farofa. Ah sim! Também antes de conhecê-la nunca tinha ouvido falar em penal.

Estávamos saindo da biblioteca quando:

- Ai! Acho que esqueci meu penal.

- Vamos voltar lá pra ver.

Andamos pela biblioteca, pelas mesas que passamos e nada. Então minha amiga resolveu perguntar para um dos funcionários que cuidavam da biblioteca:

- Moço, moço.. O senhor não achou um penal?

- Penal?

- Sim, eu acho que o esqueci aqui. Ninguém entregou um penal para o senhor?

- Minha jovem.. por acaso isso tem alguma coisa a ver com o órgão sexual masculino?

Risos gerais em volta e uma catarinense roxa de vergonha. Como boa amiga que sou, assim que eu consegui parar de rir:

- Não, não..ela quis dizer estojo. Penal é a mesma coisa que estojo, o senhor encontrou algum estojo?

- Ah! Porque não disseram logo que era isso que procuravam?

Nota: Depois desse dia nunca mais a vi falar em “penal”.

“Bolacha ou biscoito?”

- O bisxxxcoito acabou?

- Não é biscoito, é bolacha.. e acabou sim…

- É bisxxcoito.. vocês paulistas não sabem falar nada mesmo.

- É bolacha.. eu já te disse.

- É bisxxcoito, bisxxcoito, bisxxcoito.

- Bolacha, bolacha, bolacha. (discussão muito adulta)

- Bolacha é um tapão, bisxxcoito é bisxxcoito.

- É bolacha Meu Deus! Você não está no Rio..

 - Vem comigo.

- Onde vamos?

- Anda, anda..

Ele me arrasta até o mercado. Até a seção de bolachas.

- Veja, veja! O que está escrito aqui? B-I-S-X-X-X-C-O-I-T-O

- Não.

- Como não? Leia…

- Está escrito B-I-S-C-O-I-T-O.. Esses cariocas.. terminam de falar e continuam chiando.

  

“Mimosa”

- Comprei mimosa.

- Mimosa?

- Sim.. lá em São Paulo vocês não tem mimosa?

- Tem sim.. só na fazenda do meu avô tem um monte.

- Sério?  Quantos pés?

- Quatro.. quatro patas.. cada uma..

- Oi?

- Mimosa.. nome comumente dado as vacas…

- hahahahahaha. Mimosa é uma fruta, Má.

- Fruta?

- É.. isso aqui ó (diz ele trazendo uma sacola de  mexerica).

 

“O quentão curitibano”

- Vamos tomar quentão?

- Vamos..

- Dois quentões, por favor.

- Com ou sem gemada?

- Quer com gemada, Má?

- Argh! Gemada? Não.. de jeito nenhum.

- Dois sem gemada.

- Que foi Má? Que cara é essa?

- Pensei que íamos tomar quentão.

- Então.. não é o que estamos fazendo?

- Não.

- Não?

- Isso é vinho-quente.

- Claro que não.. é quentão.

- É vinho-quente.

- É quentão, Má.

- Certo.. se quentão é vinho-quente, vinho-quente é o que??





Ah! O cinema…

21 07 2007

Eu sempre adorei cinema e sempre assisti quase todo e qualquer tipo de filme.. transitava no mundo dos filmes tchecos, franceses, chineses (não, isso não envolve Jackie Chan), mas também sempre assisti filmes tipo “Duro de matar”.

Provavelmente por ter um pai e dois irmãos, cresci sabendo quem era Charles Bronson e sua contribuição para a produção cinematográfica. Conhecia Texas Ranger e todo e qualquer seriado de ação com muita luta coreografada e diálogos nada trabalhados. Tá.. de Texas Ranger, Charles Bronson e Steven Segal, nunca gostei muito, agora.. Duro de Matar, Rocky, Exterminador do Futuro, Máquina Mortífera.. sempre foram filmes em que assistia com vontade, já que, durante toda minha infância/adolescência, era assim.. todo final de semana alugávamos filmes e como meus irmãos nunca aceitavam assistir  a pequena sereia, eu tinha que ceder.

Mas certos filmes sempre olhei com apreensão e Harry Potter era um deles, nunca quis assistir, nunca quis ler os livros, até que um belo dia estava na casa de um grande amigo, o Adriano. Ele tinha acabado de se mudar pra São Paulo, é paulistano de origem, mas tinha se tornado interiorano por opção, mas o mundo corporativo fez com que ele tivesse que morar novamente na cidade que nunca para. Pois bem, estávamos na casa dele em Pinheiros, era um final de semana de muita chuva, e bem, isso significava caos e pontos de alagamento, então resolvemos que o máximo de contato com o ambiente lá fora, seria com o entregador de pizza, e assim reunimos uma galera ali mesmo.

Eram as primeiras semanas do Adriano na cidade e o apartamento ainda não estava completamente mobiliado, uma vez que, só as coisas de necessidade básica foram compradas, tais como: televisão de 29 polegadas com a tevê a cabo já instalada, home theater e o playstation. Na sala tínhamos almofadas e um belo sofá. Já as acomodações tanto do quarto dele quanto do quarto de hóspedes eram sacos de dormir. Armário, guarda-roupa, cama, fogão, tudo podia esperar… tudo que ele precisava pra viver era a tevê, o playstation e os canais da tevê a cabo.

Depois das cervejas, papo-furado, jogos no playstation e muita risada, a galera foi embora. Ficamos eu, Dani e Adriano zapeando os canais da tevê a cabo e de repente (não sei bem como e porque paramos ali) lá estávamos na HBO vendo Harry Potter e a pedra filosofal, e pior.. gostando. Lá pelo meio do filme acabou a luz do prédio, ainda chovia bastante. Ficamos revoltados por não poder terminar de ver o filme e no outro dia alugamos todos os filmes do Harry Potter já lançados.

Desde então é assim.. estréia um filme do tal bruxinho e lá estou eu em cinemas, disputando lugares com a criançada… e claro, nesse último não foi diferente, lá estava eu assistindo “Harry Potter e a ordem da fênix”, acompanhando atentamente a volta de Voldermort e na expectativa de uma batalha final próxima.

Depois tive que explicar para os nobres amigos que tiveram a boa vontade de me acompanhar, quem eram os tais “trouxas”, o que eram os comensais da morte e porque diabos a tradução de Harry James era Harry Thiago. Saudades do Adriano e da Dani, meus acompanhantes oficias pra ver Harry Potter, mas agradeço a boa vontade de quem nunca assistiu a esse filme e foi só pra fazer companhia. E não se preocupem, os nomes serão mantidos no mais absoluto sigilo… hahahaha





Conto de fadas no metrô

9 07 2007

Eu coleciono amigos de metrô, é sempre assim.. entre uma estação e outra lá estou com um novo amigo de infância por cinco minutos. Eu tento bancar a sociopata da cidade grande, mas de repente lá estão os estranhos falando comigo. Foi assim que fiquei sabendo de toda a vida de uma senhora de quem nem sei o nome, mas sei que tem 3 filhos e veio de Goiânia quando o filho mais velho teve um acidente há anos atrás e os médicos recomendaram que o menino fosse fazer tratamento em São Paulo e, desde então, passaram a morar lá.

Em um desses trajetos do metrô também conheci um cara que me ensinou os melhores lugares na Liberdade para se comprar produtos para se preparar comida japonesa em casa (mas não faço idéia de como chegamos ao assunto “comida japonesa”).

Mas sem dúvida a conversa mais inesquecível de metrô foi há uns meses atrás. Eu ainda pintava meu cabelo de preto e nesse dia resolvi renegar meu cabelo cacheado, tinha feito escova, passado chapinha e utilizado todas as artimanhas modernas pra manter o cabelo liso. Também usava uma faixa vermelha pra evitar que a ventania do dia fizesse com que meu cabelo parecesse um algodão doce. E assim estávamos lá… eu, um amigo paulistano e uma amiga dos tempos de Ribeirão Preto, tentando chegar há um acordo de rota para ir pro Bom Retiro.

Em um determinado momento notei que uma menininha de uns 4 ou 5 anos me olhava fixamente, olhei pra ela, acenei e disse sorrindo:

- Oi.

Ela abraçou a mãe e meio timidamente respondeu meu oi. Continuei brincando com ela, mostrei a língua, então virei e continuei falando com meus amigos e de repente escutei um:

- Moça, moça.

Meu amigo me cutuca e diz:

- Acho que é com você, é aquela menininha pra quem você acenou (nesse momento estava de costas pra ela).

Olhei, era a menininha me chamando, ela pediu para chegar mais perto dela. Fui até lá e disse:

- Oi menininha!

Ela disse séria:

- Posso te fazer uma pergunta?

Achei engraçado, mas sorri e disse que sim, que ela podia perguntar. Então ela diz:

- Você é a Branca de Neve?

Nessa hora o riso foi geral, os paulistanos em volta até esqueceram a pressa, a leitura, o olhar para o nada e começaram a dar risada. Meu amigo e minha amiga gargalhavam. Eu sorri e respondi:

- Lamento, mas eu não sou a Branca de Neve.

- Tem certeza que não é a Branca de Neve?

- Não sou.. nem tenho o vestido.

- Ah! Mas você podia estar fantasiada de gente, né?

Olho para os meus amigos, minha amiga já chorava de tanto rir, volto a olhar para a menininha, me abaixo e digo baixinho pra ela:

- Tá bom, eu sou a Branca de Neve, mas é um segredo que fica só entre a gente, tá?

Ela sorri e diz me abraçando:

- Eu sabia que era.

E então chegou a estação dela e lá se foi a menina…

Enfim, talvez Dove Summer Tone e outros produtos similares, que prometem uma pele naturalmente bronzeada, devessem começar a ter algum papel na minha vida.





O mês de junho

24 06 2007

Se existe o inferno na terra seu nome é mês de junho, mas um amigo, em um momento “faça você mesmo livros de auto-ajuda”, utilizando a pequena ajuda de um consagrado monstro da literatura internacional, tentando desesperadamente ressuscitar em mim o espírito “Pollyana” (personagem de um livro infantil, cujo título também era – tchan, tchan, tchan - Pollyana), disse: “se apegue a Shakespeare que dizia: ‘Não existe longa noite de trevas que não encontre a luz do sol’..”.

Pois bem, discordo de Shakespeare, esses dias de trevas não só existem, com são popularmente conhecidos como “dias do mês de junho”.

Em meio a frases do tipo “Ma, você está perdendo seu brilho” e entre tantos instrumentos do demônio no plano terreno, tais como: sistemas parando funcionar, Word possuído (faltando só o monitor girar 360 graus), alergias, prazos, crises de TPM, gastrite, chiliques, ataques de mulherisse, estresse, a natureza se manifestando em sua forma mais primitiva, deixando clara a incapacidade humana perante pássaros e outros etc., vou sobrevivendo.

Mas claro que muitos dirão “ah claro Má, porque as coisas estão dando erradas pra você, o mês de junho deve ser banido do calendário, egocêntrica é pouco, não?”. Está certo, seria egocentrismo chamar o mês de junho de ruim apenas por minha causa, mas eis que descubro que o mês de junho é quase uma praga, atingindo muitos outros inocentes e descubro mais… EU NÃO SABIA DE NADA. 

Cena I

 Ué.. aquele ali com aquela garota parece o, espere.. é o… Hum.. e aquela garota, bem.. aquela garota não é a…

- Oi Má! (abraço apertado) que saudades de você! Nunca mais veio nos ver.

- Oi o caramba!! Como você tem coragem de fazer isso com sua namorada? E ainda vem me abraçando? Que cínico!! Porra! Minha amiga.. Cadê ela, hein? Eu acho uma tremenda sacanagem com ela. Poxa! Minha amiga blá blá blá

- Calma, me deixa explicar..

- Explicar nada, vai dizer que não é nada disso que eu estou pensando? Blá blá blá

- Não.. é exatamente isso que você está pensando.

- Blá blá blá (ficha caindo) Oi? O que disse?

- É exatamente isso que está pensando.. Essa é minha nova namorada.. eu e sua amiga terminamos.

- Ops! Eu não sabia de nada…

Cena II

- Alô.

- Oi! Tudo bem com você? Passei pela loja pra falar com você e não te vi…

Ela começa a chorar desesperadamente.

- Nossa! O que foi? Aconteceu alguma coisa?

- Fui demitida (soluços)… há duas semanas já.

- Ops! Eu não sabia de nada. 

Cena III

- Amiga! Que saudades!! Como você está? Eu sei que ando sendo muito relapsa, não tenho vindo pra cá tanto quanto gostaria.. nem ficado tanto tempo… mas eu vou melhorar..

- Agora estou bem, mas queria que você estivesse aqui nesses períodos ruins.

- Por quê? Aconteceu algo?

- Eu perdi o bebê.

- Como?

- Então..tive uma hemorragia, blá blá blá

Penso comigo, “mas que bebê?”, “tinha um bebê?” “nossa, ela tava grávida”. Eu não sabia de nada. 

E pra fechar com chave de ouro: 

Cena IV

- Má, fiquei tão preocupada. Como está tudo? Ele está no hospital?

- Oi?

- É.. deu tudo certo na operação? Ele está internado ainda? Pensei em fazer uma visita..

- Peraí.. do que estamos falando?

- Da operação do seu pai.. queria saber se deu tudo certo.

- Como é que é? Meu pai foi operado?

- Ai! Você não soube o que aconteceu?

- Nãoooo! (em tom desesperado) EU NÃO SABIA DE NADA!! 

And the Oscar goes to…. Maíra Correia pela excelente atuação como pessoa muito perdida, amiga muito relapsa e filha muito desnaturada..