Uma das mudanças mais gritantes que senti ao sair da minha vida paulista/paulistana para viver no curitibano life style foi o banheiro feminino. Em São Paulo e adjacências o banheiro feminino é uma instituição, é quase uma versão feminina e menos informal da maçonaria. Se em São Paulo tem sempre aquela que bebeu uma taça de Martini e está chorando no chão do banheiro, sendo consolada por passantes que retocavam a maquiagem, se aqui tem conselhos sobre cabelo, esmaltes, dicas sentimentais e conversas amenas, em Curitiba é no máximo um “está na fila?” e um silêncio profundo, não importando se vão ficar lado a lado por 5 minutos ou meia hora. Eu sentia falta da animação dos banheiros femininos, em Curitiba existem mulheres que vão SOZINHAS ao banheiro.. imagine.. SOZINHAS!
Era sexta-feira, eu tinha vestido o meu maior estilo roqueira-clichê, fui contra tudo e contra todas as infecções alérgicas nos olhos e caprichei no lápis, no rímel e na sombra preta, na doce ilusão de que iria para um daqueles porões claustrofóbicos com bebida barata e banda com vocalistas gritando “rock n´roll”, enquanto aconteciam solos intermináveis de guitarra. Mas:
- Má, mudanças de planos, vamos para um pagode ai.
- Oi? Pagode? Comoooo assimmmm vamos pro pagode? Vamos quem?
- Vamos todos, ora essa.
- Todos não… Não é só porque uma droga é legalizada que eu vou usar.. ou no caso.. ouvir..
- “Mimimimi.. olhe pra mim.. como seu sou fresca”. Larga a mão, que temos convites VIPS e chopp na faixa.
Sou famosa na minha seleta roda de amigos por topar quase todo e qualquer programa de índio. Já me arrastaram para rodeios, shows estranhos, peças esquisitas, mudanças, doação de sangue e festinhas infantis. Não tive outra opção a não ser encarar mais essa: pagode com bebida de consolo.
Estava meio emburrada e reclamando que se soubesse que ia acabar no pagode, não teria gastado tanto tempo montando meu visual “ainda no punk”. Mas ao chegar no bar, meu rosto se iluminou: “Sexta de samba de raiz e chorinho”.
- Como assim pagode? Olha lá.. samba de raiz e chorinho – Digo demonstrando empolgação.
- Ah.. sei lá o que era.. só escutei o convites-VIP-bebida liberada. Podiam dizer que as coelhinhas da playboy estariam fazendo stripper que eu não teria prestado atenção. Ahn.. quer dizer… coelhinhas fazendo stripper eu prestaria atenção, bem, enfim, podiam dizer que o Coverdale estaria presente que eu não prestaria atenção. Hum.. quer dizer, o Deus estaria presente.. ok.. prestaria atenção. Enfim, sei la… vamos dizer que eu sabia que não era pagode e sim samba de raiz, mas que menti para te fazer uma surpresa e te ver feliz assim.
- Verdade?
- Ahn.. não…
Cartola, Noel, Demônios da Garoa e vez ou outra um Art Popular pra fazer a alegria daqueles 3 ou 4 que pediam pra tocar “pimpolho”. Aproveitávamos toda aquela bebida liberada… Até que a vontade de fazer xixi e os efeitos do rímel, do lápis e da sombra preta nos olhos com infecção alérgica me fizeram ir até o banheiro. Como de praxe, arrastando toda e qualquer garota que estivesse na mesa comigo. Enquanto umas usavam o banheiro eu tentava, desesperadamente,dar um jeito de continuar maquiada e coçar e lavar os olhos ao mesmo tempo. Nisso a confraria “banheiro feminino” entrou em ação:
- Aiii.. que linda a sua maquiagemmm.. você mesmo que se maquiou? (perguntou uma passante ao lado que também tentava retocar a maquiagem)
- Sim, agora estou tentando desesperadamente mantê-la, mas os olhos estão me atrapalhando com essa coisa de coçar e lacrimejar, estou até cogitando arrancá-los e colocar uns olhos de vidro. Enxergar não é assim tãoooo importante, é?
- O que você tem?
- Não sei ao certo.. alergia.. possessão, semi-cegueira, catarata.
- Ah.. eu tenho um colírio na bolsa quer? Um daqueles bem naturais, que só limpam o olho.. nenhuma contra-indicação (diz a menina desconhecida da pia ao lado).
Síndrome da cidade grande atacando: Alucinógeno em forma de colírio.. vou ficar locona, vou ficar cega, vou morrer, vou parar no hospital e o oftalmologista vai ficar histérico dizendo que não se aceita colírios de estranhos:
- Ahn.. quero sim.. (digo vencida pelo meu espírito interiorano-crédulo-ingênuo, afinal, pior do que estava não ficaria e se a cegueira fosse o efeito colateral para não coçar e lacrimejar mais, estava valendo).
Uma das garotas pingou o colírio enquanto a outra, com um pedaço de papel higiênico, limpava as gotas que escorriam, para não estragar muito a maquiagem. Nesse meio tempo as amigas que me acompanhavam ao banheiro já estavam presentes na força-tarefa junto a pia e já me ajudavam a retocar a maquiagem. Medida paliativa incrivelmente eficaz, os olhos já não ardiam e a maquiagem estava impecável. Depois da operação salvamento de maquiagem, partimos para a próxima missão da confraria do banheiro feminino:
- Está meio desanimado aqui. A música é boa,o lugar é bom, a bebida ta gelada… mas cadê o pessoal dançando? – diz uma das desconhecidas do banheiro.
- É verdade. Cadê o samba no pé? – pergunta minha amiga já meio enrolando as palavras, devido ao excesso de chopp liberado.
- Isso ai!!! Cadê a roda de samba? Vamos organizar o movimento “samba no pé já!” – Digo também meio enrolando as palavras, mas com a maquiagem impecável.
- Vamos dançar? – diz a moça do colírio.
- Ah… eu tenho vergonha! – diz outra moça desconhecida que lavava as mãos.
- Vergonha? Comooo assim vergonha? Vamos Lá, senta na nossa mesa e ficamos todos juntos (falo solidária).
Não sei precisar como e porque, mas de repente várias mesas se juntaram com a minha mesa e formamos uma roda de samba, a princípio com cinco garotas e eu, roqueira assumida, sem nenhum samba no pé, liderava o grupo de dança. De repente uma legião de pessoas, incluindo homens, mulheres e “em cima do muro” estavam dançando. Minha mesa começou a encher de mais desconhecidos e de repente tudo se transformou em uma festa privativa, com cerca de sessenta amigos de infância e milhares de trocas de telefones. Já pedíamos músicas pra banda e fazíamos os refrões junto com o maestro Zezinho.
Maestro Zezinho me ensinou alguma coisa sobre como tocar pandeiro e ensinou um dos amigos que me acompanhavam o que era uma cuíca. O fato é que no fim da noite, já sem nenhuma vergonha na cara e sentindo os efeitos do chopp liberado, terminei com um microfone nas mãos, junto com o Thiaguinho (semi-desconhecido, mas meu novo parceiro musical. Naquele momento éramos quase como Tom e Vinicius, só que sem o uísque) fazendo três ou quatro duetos, incluindo “moro em Jaçanã e se eu perder esse trem que sai agora às onze horas.. só amanhã de manhã”.