Mah e suas aleatórias divagações

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Só um tapinha

Junho 18, 2009 · 13 Comentários

Segundo Nelson Rodrigues, as mulheres normais gostam de apanhar. Como eu faço parte daquele grupo de mulheres excêntricas, não gosto nem um pouco dessa coisa de apanhar, por mais atrativo que possa parecer levar uns sopapos, ficar roxa, vermelha, machucada e etc.. Socos, tapas e pontapés, nunca me trouxeram nem uma sensação prazerosa. Talvez por culpa da minha criação, convivendo com dois irmãos, sendo um mais velho, os cascudos eram constantes e como dizem: “quem tem demais não dá valor”, cresci com (pasme!) essa convicção de que apanhar não era nada bacana.

Visto esse meu probleminha em aceitar levar uns tapas, fui eliminando possíveis profissões, tais como: puta, lutadora, atendente de telemarketing.. e resolvi abraçar um desses empregos amenos, que oferecem plano de saúde, hora extra, vale alimentação.. sem pedir nenhum hematoma em troca, até que:

- Má, você já terminou de atender seus clientes de hoje?

- Sim, esse que saiu foi meu último.

- Será que você pode me dar uma ajuda? Aquelas pessoas todas estão esperando para serem atendidas. Pode atender alguns deles pra mim?

Eu, do alto do meu salto dez, com toda aquela bondade corporativa que me é peculiar, resolvo que não custava nada ajudar e vou lá conversar com as pessoas que estão sentadas esperando. E lá estou eu ouvindo todos os infortúnios de um senhor com idade mais ou menos entre meu avô e Matusalém, enquanto faço minha melhor cara de “entendo senhor” e explico o que podemos fazer para resolver o problema, quando, de repente, surge uma mulher histérica, me puxando pelo braço:

- Sua vadia de merda.. o que você tá querendo com meu marido?

Olho assustada procurando as câmeras escondidas, enquanto a senhora histérica continua me xingando de todas as coisas imagináveis.

- Calma senhora.. acalme-se, por favor … vamos sentar e conversar.

- Escuta aqui sua vadiazinha.. tá pensando que é muita coisa porque é bem mais nova do que eu?

E lá estou eu olhando chocada para a mulher, tentando entender que situação surreal era aquela, perdida no meio dos meus devaneios, enquanto tentava fazer minha melhor cara de compreensão, sou surpreendida por um daqueles tapas na cara de barulho estrondoso e efeito altamente dolorido. Como mulher madura, independente, cosmopolita e altamente profissional, faço o que qualquer outra faria: fico nervosa e desando a chorar. Sim, LAMENTÁVEL!

Enquanto o segurança tenta colocar a mulher para fora, um cliente solidário ameaça chamar a polícia se a senhora continuar me importunando.. e de repente me vejo em meio a lencinhos e milhares de copos de água.. enquanto a mulher ainda esbraveja e a polícia chega. Choro, choro e choro compulsivamente e sou consolada por clientes em geral, quando consigo me recompor, atendo mais três clientes que, provavelmente, comovidos com a situação, fecham contratos com valores financeiros altamente satisfatórios. Quando o expediente finalmente encerra, praticamente imploro para meu chefe me colocar em um daqueles serviços burocráticos, me ofereço para verificação de conformidade de processos, tirar xerox, contar envelopes, qualquer coisa maçante, repetitiva e sem contato com nenhum ser humano externo, mas sou obrigada a ouvir:

- Você está doida? Você leva muito jeito com atendimento.. Ok.. você foi agredida hoje, mas veja esses contratos TODOS que você fechou. Os clientes gostam desse seu jeito meigo, foque nisso!

Yeah.. aparentemente eu apanho de uma forma MUITO meiga… SOFRO!

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Pessoas reais num mundo surreal – III

Outubro 28, 2008 · 11 Comentários

 

É quase a mesma coisa toda semana:

- Eu vou ao cinema amanhã.

- Ahn.. legal..

- Às 19 horas.. aquele filme que você queria assistir.. aquele lá.. o “ensaio sobre a cegueira”.

- Hum.. legal..

- Se você quiser ir, não vou por nenhum obstáculo.

- Você está me convidando para ir ao cinema?

- É um lugar público, se você quiser ir o que eu posso fazer? Qualquer um com dinheiro pode comprar ingresso e os lugares não são marcados. O que quer dizer que não importa o que eu quero… você sempre pode acabar sentando perto de mim.

- Pergunto novamente: por acaso isso é um convite para ir ao cinema?

- Por quê? Por acaso você quer ir ao cinema comigo?

- Ahn.. tá.. pode ser…

- Hum… Então talvez eu esteja te convidando…

Quase toda semana é a mesma coisa… Ele a arrasta por toda a minúscula praça de alimentação daquele mesmo shopping, para acabarem no subway. Quase toda semana ele repete o mesmo ritual de olhar o cardápio, perguntar dos lançamentos, para pedir o mesmo pão de queijo e orégano com rosbife. Quase toda semana é igual.. mas.. algumas vezes:

- O que tem nesse sanduíche?

- Tomate seco com mussarela de búfala. Quer?

- Tomate seco? Como assim tomate seco? Tem tomate seco? Porque ninguém perguntou se eu queria tomate seco?

- Ahn… porque você não pediu o de tomate seco.. mas é só uma hipótese.. devaneios dessa mente perturbada aqui.

- Eu acho isso um absurdo (diz ele irritado).. eu vou lá perguntar pro atendente porque ninguém me ofereceu tomate seco.. porque blá blá blá.

- Ta, ta.. toma o meu sanduíche com tomate seco.

- Ahn? Não… eu não gosto de tomate seco.

- Oi?

- Não gosto de tomate seco, oras! Isso é coisa de mulherzinha…

- Então porque todo esse chilique por causa do tomate seco?

- Ora essa. E o meu direito de recusar o tomate seco, como é que fica? Estão cerceando meu direito de dizer não.

- Então, você está bravo não porque queria tomate seco, mas porque não queria.. é isso?

- Hum..é..

- Ohn.. Quer um abraço?

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Pessoas reais num mundo surreal II

Agosto 27, 2008 · 8 Comentários

 

 

3h00 da madrugada, toca o telefone. Todos os toques possíveis depois:

- Ahn… Alô

- Eu já falei para você parar de atender esses inconvenientes que te ligam de madrugada.

- Se você parasse de ligar eu não precisaria atender.

- Aí eu deixaria o caminho livre para outros ligarem e você sabe como eu sou possessivo. Você amar outro eu relevo, mas outros te acordando com o estridente barulho do telefone? Não suportaria.

- Não se preocupe, não existe outro além de você, ninguém é tão inconveniente.

- Quer namorar comigo?

- Ahn?

- Namorar.. quer namorar comigo?

- Ah! Claro que sim.. Opa! Espere.. VOCÊ JÁ NÃO TEM UMA NAMORADA?

- Não se preocupe com isso.. eu conheço um cara que conhece uns caras..

- Ahn?

- Ninguém nunca vai suspeitar.. O corpo pode ser desovado em um beco qualquer..

- Boa noite..

- Nãoooo! Espereeeee… me empresta seu carro?

- Essa hora? Pra que?

- Pra desovar o corpo, oras! Se usasse meu carro seria suspeito. Ninguém nunca suspeitaria de você, pra cometer um crime passional tem que ter sentimentos, ninguém acreditaria que você tem sentimentos.

- BOA NOITE.

- Hum.. ou eu poderia só terminar com ela. Que tal? Algo como: “o problema não é você, sou eu”.

- Você está me ligando pra ensaiar como terminar com a sua namorada?

- Devo fazer a moda antiga?

- O que?

- Terminar com ela. Não está prestando atenção na conversa?

- Eh.. Não! Posso voltar a dormir agora?

- Devo ignorá-la igual qualquer macho Neanderthal? Hum.. ou como homem moderno e sentimental que sou.. devo mandar um sms dizendo “acabou.. não me procure mais”? Isso seria rude, não? Talvez só mudar o status do relacionamento no orkut.. de “namorando” para “solteiro”. Sutil, não? E alguém vai acabar avisando pra ela que o namorado dela agora é solteiro.

- Posso voltar a dormir agora?

- Você não está ajudando, sabia?

- Eh..eu sei.. POSSO VOLTAR A DORMIR AGORA?

- Ok, me empresta o carro?

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Pessoas reais num mundo surreal I

Agosto 10, 2008 · 16 Comentários

 

 

Era mais um final de semana como outro qualquer na capital paranaense. Estava frio, cinza e uma chuva fina e gelada caia ininterruptamente. Era dia de sofá, a preguiça assim determinou.

- Eu escolho o filme hoje.

- De jeito nenhum! Eu escolho o filme hoje.

- Certo, vamos fazer iguais pessoas adultas fariam.

- Hum.. cara ou coroa?

- Não! Isso é para franguinhos e não somos franguinhos. Quer dizer.. você é..

- A quem ta chamando de franguinha, hein? Hein? HEIN?

- Então vamos lá.. eu tenho um desafio pra você. Se você conseguir vencer, eu assisto o que você quiser.. nem que isso envolva aqueles malditos filmes do Harry Potter.

- Fechado!

- Então.. é o seguinte… Faça uma matriz transposta da identidade, ache seu determinante e a sua jacobiana. Chamando o determinante da transposta de “x” e sendo o mesmo um espaço percorrido num tempo “t”, onde “t” seja a jacobiana da matriz. Integre os resultados em função de “t” achando assim a velocidade. Decomponha a velocidade no espaço R3 em seus autovetores originais i, j e k. Após isso, calcule o produto interno do vetor velocidade encontrado com a matriz identidade prévia e me diga o resultado. Fácil assim. Tem 15 minutos!

- Não preciso de 15 minutos, já sei a resposta.

- Já?

- Sim. Jacobiana se fez Jacobiana pela dissecação do seu vetor externo, para, assim, atrair vetores convergente numa soma enlouquecida de operações de vetores que, então, se tornariam internos. Entendo, portanto, que a transposta da matriz é, na verdade, a inversão da identidade da matriz, algo que muito me chocou!!! Pois ao saber que o mesmo, ou mesma, queria decompor o escalar da velocidade em várias posições dos seus autovetores no espaço R3. Fazendo para isso uso, só posso pensar eu, das mais obscuras relações matemáticas. Portanto, me sinto obrigada a ser determinante com a Matriz e sua nova identidade transposta e inversa e devo alertá-lo da impossibilidade da multiplicação de matrizes de raízes diferentes. Mas esclarecendo que se pode, ainda, integrar o “x” bem ao tempo “t”, e, ao integrá-lo, tornar-se-á uma constante em sua vida e assim juntos viverão felizes para sempre, mas sem que ninguém derive, pois a derivada de uma constante nada mais é do que zero!!! E então?

- Sou seu fã, sabia?- diz entre risos - É difícil achar uma outra pessoa com tanto talento para ser excêntrica.

- Uiiii..Que medooo!

- Medo? Por quê?

- Não tenho certeza se quero ter fãs.. Lembra o que aconteceu com o Lennon?

- Ah! Mas eu não te mataria.. Não pelo menos não como fizeram com o Lennon..Você precisa de uma morte digna de você. Algo grandioso. Tinha que ser igual a do Kennedy, assim, na frente de milhões!! A do Lennon nem filmada foi…

- Eh, vendo por esse ângulo…não quero só escrever: “saio da vida pra entrar pra historia”..quero dizer em alto e bom som para as multidões que me amavam..

- Que te amavam não!! Que te amam e amarão, pois você nunca será esquecida. Estará para sempre no coração de todos os que um dia tiveram a felicidade de te conhecer. Será eterna, pois seu nome nunca morrerá. Será passado de geração para geração, na palavra escrita e falada, pois todos lembrarão do tempo em que o mundo tinha você…

- Ehh..e todos te odiarão..e o pior.. você vai usar aquelas roupas cinzas de prisão e bem.. você fica horrível de cinza.

- Bem, na verdade eu sempre fico bonitinho, mas vou ter um uniforme diferente: preto. Pra todos saberem quem foi o causador da maior desgraça da terra. Pra saberem quem destruiu o sonho de milhões. Claro que escreverei um livro sobre minha, ou melhor, nossa vida, que será transformado em filme e ganharei milhões.

- Milhões?

- Sim, até serei entrevistado no programa do Jô, no Late Show, etc. todos querendo entender o porque. Então direi: “Porque antes dela ser do mundo, ela havia sido apenas minha e vocês tiraram isso de mim. Então a tirei de vocês. Espero que gostem da sensação, seus malditos, malditos, todos vocês!!!”.

- Não sabia que era tão possessivo assim comigo.

- Não sou… só um sentimento de posse doentiamente controlado, o resto é cena.. Você sabe que sou um puta de um ator né! Na verdade vou fazer tudo isso pela fama…

- Que isso.. nós sabemos que a culpa irá te corroer e você viverá pra sempre atormentado com a minha presença..

- Ahh! Mas eu já vivo atormentado com sua presença em dias normais..

- Como é que é?

- Err.. nada.. quis dizer que você escolhe o filme.. e aí.. Harry Potter?

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