
Oi? Humana? Demasiadamente humana?

Oi? Humana? Demasiadamente humana?
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Já é notório o meu dom de atrair gente esquisita, maluca e com traumas irreversíveis. Você, por exemplo, se você vem aqui, lê, acha relativa graça, mas não tem vontade nenhuma de manter qualquer tipo de contato comigo, não precisa se preocupar.. você está no grupo de pessoas normais, imune aos feromônios que exalo.
Se você lê o blog, acha que sou razoavelmente inteligente, razoavelmente engraçada e quer manter um relativo contato, desde que isso não envolva uma maior aproximação porque “uiiii… credo, contato humano”, você está no grupo dos esquisitos.
Agora, se você vem aqui.. lê todos os textos, sente uma imensa vontade de falar comigo, começa a achar que somos almas gêmeas, me escreve e tem vontade de estabelecer um vínculo de verdade comigo.. Ah.. aí não tem como negar, meu caro.. você está no grupo dos malucos. E se a vida imita a arte, a arte imita o mundo corporativo, então, é óbvio que essa classificação de excentricidade, que muito em breve será chamada por especialistas de “escala Maíra”, também se aplica na minha vida em tons pastéis.
Tentando mostrar serviço e resolver o maior número de problemas, sem ter que levar nada para a minha supervisora, chego na minha mesa e tem um ser sentado lá, como esse ano foi determinado como o ano de excelência em atendimento, faço o que qualquer outra assalariada faria no meu lugar: sorrio.
- O senhor está me esperando?
- Sim, estou… eu gostaria de fazer uma reclamação..
Faço minha melhor cara de mega executiva solidária e enquanto o cliente vai expondo todo seu descontentamento, vou concordando e fazendo minha melhor expressão de “entendo senhor, claro que é um absurdo o funcionário só te dizer onde está o papel higiênico.. Como assim ele não foi lá, entregou na sua mão e ainda se ofereceu para limpar a sua bunda? Realmente, realmente, na próxima reunião será exposto essa má vontade, chamaremos a atenção do funcionário e além dele limpar a sua bunda, ele ainda passará talco”.
Feito isso, com toda a simpatia que meu teto salarial pode comprar, resolvo o problema, dou um chaveirinho de brinde para o cliente e seguimos nossas vidas, só não imaginava que seguiríamos juntos a MINHA vida, afinal, ninguém tinha me dito que aquele cliente na verdade era um ser que precisa de muita medicação controlada e que de tempos em tempos, resolve fazer terapia lá na empresa, grudando em pobres e inocentes funcionárias novatas.
No outro dia o cliente estava lá e no outro, no outro e no outro.. sempre para falar comigo, sempre sentando na minha mesa e falando do sol, da lua, do arco-íris, dos meus olhos e citando Camões.
Como toda relação que se inicia, no começo tudo são flores, depois é assim.. você não sabe que você é a relação mais estável do cara e começam as brigas:
- Ahn.. então João, hoje eu estou fazendo trabalho administrativo.. eu não vou poder te atender.
- Eu sei que você está mentindo pra mim.. você está me dispensando para atender outro. Qual o nome dele? Me diz… qual o nome dele?
- Ahn… the boss, ser que determina em que setor estarei, mas não se preocupe.. tem gente no meu lugar, eles vão atender você.
João, ainda assim, não desistia, ia à empresa todo o dia, sentava e ficava fazendo anotações em seu caderninho, quando conseguia uma brecha, sentava na minha mesa e falava do sol, da lua… e fazia planos para o nosso relacionamento, sua primeira providência seria comprar um apartamento, porque ele não queria namorar (oi?) por muito tempo comigo, queria compromisso sério.
Meu trabalho consiste em, basicamente, saber as taxas de juros, aplicações rentáveis e lidar com pessoas e lidar com pessoas é uma coisa deveras complicada, uma vez que, ao contrário de plantas, elas costumam falar, ter chiliques, gritar e te chamar de vaca-vadia-filha-da-puta… o que já fez com que eu chorasse no banheiro por duas vezes. Tentando amenizar essa minha vida sofrida, enquanto não me transformo em alguém com tanto sentimento quanto uma minhoca, ou até que autorizem o estapeamento de clientes, mudei de setor e passei a atender só com hora marcada. O que não ameniza tanto assim, mas diminui um pouco a gritaria. Não que seja uma coisa muito seletiva, se um bêbado estiver passando, resolver entrar, olhar pra mim e resolver perguntar para alguém: “como é que eu faço para falar com aquela moça branca com aquelas roupas sem graça em tom pastel?”, vão lhe dizer que só precisar marcar horário e eu o atenderei. Então, é evidente que não me livrei do João. Ele marcava dois, três horários, para falar comigo DIARIAMENTE e continuava com as anotações em seu caderninho.
Como atender bem para atender sempre é nosso foco, a empresa tem um tal de canal direto com o cliente, ou seja, o cliente liga, faz a reclamação e em até 24h a pessoa citada na reclamação tem que telefonar para o cliente e dar uma posição do que vai fazer para resolver o problema. João, não contente em me ver todo o dia, falar comigo todo o dia e fazer anotações sobre mim todo o dia, também passou a telefonar para o serviço de reclamações, diariamente tinha uma reclamação direta a minha pessoa e diariamente eu tinha que ligar para o João e sempre que ligava:
- Ah.. princesa.. que bom é ouvir a sua voz.. pensei que você não fosse mais me ligar hoje.
- Então João, você abriu uma reclamação dizendo que eu não esclareci suas dúvidas acerca do…
- Ah.. não vamos falar dessas coisas.. me diga.. como foi o seu dia?
E, a última do nosso relacionamento complicado:
- Ma.. você tem uma reclamação de cliente para responder.
- Ah não, não, não.. de novo? Quantas reclamações do João ainda vou ter que responder? Não são conversas gravadas? Ninguém ouve ele falando dos meus olhos, da lua, de Camões? O cliente ser maluco não tira a obrigatoriedade das respostas?
- Ma, VÁ responder a reclamação, porque se passar o prazo de respostas bla bla bla o ranking interno bla bla bla, perda de colocação bla bla bla, multas etc, etc e etc.
RECLAMAÇÃO DO DIA: Cliente diz que funcionária ao invés de voltar sua atenção para todos que a estavam esperando, estava flertando com um cliente. Reclamante diz que funcionária ficou quase uma hora atendendo uma mesma pessoa, cliente diz que funcionária pegou na mão do cliente e ficou jogando charme, desrespeitando o local de trabalho, com esse claro comportamento amoral.
Com muito ódio no coração, ligo para dar minha posição sobre a reclamação:
- Alô.
- Oi João aqui é a…
- Eu sei que é você. O QUE VOCÊ QUER? Como tem a cara de pau de me ligar?
- Bem, estou ligando em resposta a sua reclamação..
- Ah.. é muito fácil você me ligar agora, né? Depois do que fez… Vai pedir desculpas? Você acha que resolve?
- Ahn.. na verdade não vou pedir desculpas, porque eu não fiz nada.
- Típico de você, nunca faz nada mesmo. Vai negar que estava flertando com o cliente?
- Ahn. Vou…
- Não minta, Maíra.. NÃO minta! Eu vi você pegando na mão dele…
- Sim, realmente… na verdade eu causei um derrame nele e fiz com que ele perdesse o movimento da mão direita, ficando impossibilitado de assinar, só para poder pegar nas mãos deles, com a desculpa de que precisava colher uma digital. Sou assim.. o que posso fazer? Tenho esse tesão incontrolável por quem tem mais de sessenta.
Meu chefe me olha por cima dos óculos com aquela cara de: “que merda essa garota está fazendo?”.
Continuo, desaforada:
- E quer saber? Pra mim chega… me esqueça.. NÃO ME PROCURE mais…
- EU QUE NÃO QUERO MAIS SABER DE VOCÊ. (Tum-tum-tum)
Como pessoa adulta e centrada que sou, faço o que qualquer outra faria no meu lugar:
- FREEEEEEDOOOOOOOOOWWWWWWWWW
Até ser surpreendida pelo olhar intimidador do meu chefe de “que merda você fez? Essas conversas são gravadas, atender bem para atender sempre”.
- Ahn.. mando flores? Bombons? Digo que sempre o amei?
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A senhora calmamente responde:
E a senhora continua sentada na minha mesa. O cliente que estou atendendo fica constrangido com a presença da desconhecida ao lado e continua com sua expressão “hein” e eu continuo, solidária, respondendo com minhas expressões “excelência em atendimento”, “hein ao cubo”. Gentilmente, peço licença para a senhora e peço para o senhor me acompanhar e termino de atendê-lo em outra mesa, quando retorno a minha mesa, lá está a senhora, ainda me esperando. Sento na minha cadeira, mantendo o sorriso que prometi em contrato, ceder para a empresa, mas mal dá tempo de perguntar como poderia ajudar:
- Porque você estava atendendo ele? (pergunta a cliente indignada)
- Oi?
- Porque você me deixou esperando para atender ele? Porque você o atendeu primeiro? Eu estou aqui te esperando.
- Senhora, quando a senhora chegou aqui eu já estava atendendo aquele senhor, eu a avisei e a senhora disse que iria esperar. Mas no que posso ajudá-la?
- Eu tive um sonho…
Faço minha cara blasé de mega executiva, enquanto balanço afirmamente a cabeça, afinal, atendimento é nosso foco, e de sonhos para vendas, investimentos, carta de 100 mil em aplicações e metas do mês batidas em uma tarde, é um pulo.
- Quer dizer.. na verdade foi uma visão..
- Entendo (ainda fazendo minha melhor cara mega executiva, tentando manter o tal sorriso corporativo)
- E Jesus apareceu pra mim nessa visão, ele me mandou vir aqui.
- Ok.. e como podemos ajudá-la senhora? (pergunto séria, mantendo, ainda, minha melhor expressão executiva)
- ELE me disse que eu tenho 500 mil em aplicações financeiras aqui nessa empresa.
- Ahn.. entendo… Jesus te disse que você tem 500 mil aqui. (tento impedir o arqueamento das sobrancelhas e o surgimento da expressão: “mais hein?”)
- Sim, eu vim buscar meu dinheiro.
- Ok, me empresta seu CPF e seu RG que eu vou consultar no sistema para a senhora (de repente.. quem vê cara, vê maluco, mas não vê saldo de aplicação).
Consulto, basicamente, TODOS os sistemas imagináveis, até o fatídico:
- Ahn.. lamento senhora, mas a senhora não tem 500 mil, inclusive, a senhora nem sequer é nossa cliente.
- JESUS ME DISSE.. D-I-S-S-E.. Ele me mostrou.. ele me mostrou o mármore do chão e tudo.. EU V-I. Jesus me M-O-S-T-R-O-U.
- Lamento senhora, talvez a senhora esteja se confundindo.. inclusive no chão é granito e não mármore. É a prova irrefutável, com certeza trata-se de outra empresa.
- Vocês estão me roubando (diz já exaltada)… O diabo é o rei da mentira e você, com suas artimanhas, está tentando me enganar, assim como a serpente bla bla bla.
- Senhora, por favor, acalme-se. Lamento, mas no CPF da senhora não tem nada. De repente, está no nome de Jesus, como ele não deve ter CPF, por ser uma entidade.. vamos tentar buscar pelo nome, Jesus de Nazareth? Emanuel Jesus? Emanuel Carpinteiro? José tinha sobrenome?
- Você está me achando com cara de palhaça? VOCÊ ACHA QUE EU SOU MALUCA?
- Senhora, por favor, pare de gritar.
- EU GRITO EM NOME DO SENHOR, PORQUE O SENHOR MANDOU EVANGELIZAR.
Nesse momento o caos foi instaurado, a cliente histérica não parava de gritar e entoar cânticos, enquanto repetia como tínhamos roubado 500 mil dela, tentei de todas as formas acalmar a senhora, mas infelizmente não tinha nenhum bastão ou um vidro de prozac em mãos. Meu chefe resolve entrar em ação:
- Senhora, peço que a senhora se retire, a senhora está atrapalhando o funcionamento da empresa e incomodando os clientes.
- Daqui eu não saio sem meus 500 mil, quero ver quem me tira daqui. Porque Abraão bla bla bla bla.
E mais gritos histéricos. Então, o chefe do departamento jurídico, resolve tentar controlar a situação, tentando falar com a senhora, o que não apenas não surtiu nenhum efeito. Como, ainda por cima, ele teve que travar uma luta com ela para recuperar as correspondências que o carteiro estava entregando para ele.. e que a senhora, acreditando ser aquilo papéis do demônio, resolveu tomar das suas mãos.
Com dois chefes do alto escalão, mais dois seguranças tentando controlar a situação, sem nenhum resultado minimamente positivo, chamo a polícia. Meu novo futuro chefe, figura única, chefe do empresarial, irritado com os gritos da cliente, que ecoavam por todos os andares do prédio, resolve nos agraciar com sua presença, chega perto da cliente, que ainda gritava histericamente e diz:
- Anda!
A senhora exaltada continua gritando e ele, novamente repete:
- Anda (enquanto aponta a saída).
Neste momento a senhora já não gritava mais… e ele repete pela terceira vez:
- Anda… Rala daqui… RALA!
E ela simplesmente devolve a correspondência do carteiro e vai embora. Meu novo futuro chefe olha pra mim e diz:
- Eu já não falei para você parar de se meter em confusão? Já não te disse que só eu posso descontar minhas frustrações e amenizar minha raiva e loucura, gritando com você?
- Yeah.. eu já sei disso, mas acho que você deve mandar uma cartinha comunicando os clientes também… ou, no mínimo, para o pessoal do hospício ao lado.
- Você está vendo? É por isso que você vai trabalhar comigo no empresarial… com você a diversão nunca acaba..
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Caquética mulher de 26 anos, no final de um sábado corporativo, já sem forças para sorrir
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