Me, myself and chuveiros

9 09 2008

 

Você tenta ser uma mulher superior, independente, senhora de si, corajosa e cool, mas acontece que vez ou outra, o inevitável acontece e você, a garota imperturbável com seu ar de mulher independente, acaba desabando diante do pior problema que uma mulher pode enfrentar depois da falta de creme para pentear: chuveiros.

 

Eu sou uma garota mimada, com os privilégios de quem tem um pai e dois irmãos. Assim, acabei sendo criada dentro de uma bolha, vivendo em um mundo cor-de-rosa, onde problemas elétricos eram inexistentes e nunca fui preparada para usar uma chave de fenda ou reconhecer uma chave allen 1/8.

 

Não sei se são as leis de Murphy agindo, não sei se meu apartamento está localizado justo no limite da declinação mais meridional da elíptica do sol, não sei se eu tenho mais problemas com chuveiros ou se eu só PASSEI A PRESTAR ATENÇÃO NOS PROBLEMAS DE CHUVEIRO, mas o fato é que eu tenho a síndrome da mulher que mora sozinha e, cotidianamente, tenho que lidar com isso. E enquanto estava no ritual matinal envolvendo xampu, cremes e sabonete, me deparei com a falta d´agua. Como qualquer mulher calma e centrada:

 

- Merdaaaaaa! Eu não acredito que acabou a água justo agora. Como diabos a água acaba sem nenhum aviso prévio? Ah não.. eu vou ligar para o síndico agora.. onde já se viu!!! Vou passar o dia com a cabeça cheia de xampu??? Merda! Merda! Merda! Merdaaaa! (resmungo enquanto saio do chuveiro, me enrolando na toalha e procurando pela toquinha de banho rosa com borboletinhas)

 

Antes de mostrar toda minha indignação para com a autoridade do prédio, resolvo abrir toda e qualquer torneira existente em casa e, para meu espanto, em todas a água saia abundantemente, então, seguidora da filosofia que uma garota deve aprender a lidar com seus problemas e desgostos sem que isso acabe em Djavan e chocolate, totalmente independente e senhora de mim, disco os números da salvação, também conhecidos como número de telefone de um representante do sexo masculino:

 

- Socorrooo! Deus está me punindo porque não consigo tomar banho em 10 minutos!

- Porque sempre parece que estamos no meio da conversa quando eu atendo uma ligação sua?

- Está dizendo que nunca sou clara o suficente?

- Não, estou dizendo que você começa a conversa do meio então parte para o começo, volta para o meio, fala compulsivamente e então temos o fim. Mas você não ser clara o suficiente seria minha próxima colocação.

- A minha cabeça está cheia de xampu, poderíamos nos concentrar nos meus problemas e depois nas suas reclamações a meu respeito?

- Sempre egocêntrica.. “meus sentimentos”, “minhas falas”, “meu cabelo cheio de xampu”. Ahn? Cabelo cheio de xampu?!? Porque você saiu do chuveiro para me telefonar?

- Foi uma mensagem do Senhor, Ele se manifestou para Maomé, para Paulo.. parece que chegou a minha vez.

- Oi??

- Meu chuveiro parou de funcionar, tenho que explicar tudo???

- Hum.. o que houve? Queimou?

- Não! Se fosse isso teria terminado de lavar a cabeça, né? Essa coisa de frescura com água gelada é coisa de franguinha! A água acabou.

- Então você se enganou com a mensagem do Senhor para você.  Está claro que ele queria que você ligasse para a SANEPAR.

- Não, porque antes Ele me fez abrir todas as torneiras e a água é abundante, menos no chuveiro, que continua com suas cinco fileirinhas de água e pingos caindo num intervalo de 6 segundos.

- Ai, ai.. você é muito maluca! Posso ver isso a tarde?

- Hum.. já está no trabalho?

- Yeah…

- E as prioridades?

- Tenho certeza que seu chuveiro sabe que ele é muito importante pra mim, mas ele tem que compreender que há homens engravatados sentados em uma sala esperando por uma apresentação em ppt.

- Tudo bem.. eu dou um jeito..

- Nãooo! Se você me disser que vai mexer no chuveiro eu dou uma desculpa e saio agora. É mais fácil do que te salvar de um prédio em chamas.

- Engraçadinho!  Não vou arrumar.. quer dizer.. só vou arrumar uma maneira paliativa de lavar a cabeça.

 

Patéticas cenas de uma mulher na área de serviço do seu apartamento, debruçada sobre o tanque, lavando a cabeça.

 

A tarde ele chega, abre o chuveiro e:

- Certo, o fluxo de água parece bem normal pra mim.

- O que você fez?

- Mexi naquela torneirinha mágica ali e a água começou a sair. Não é bárbaro?

- Deve ser sua máscula presença intimidando o chuveiro.

E tudo funcionou normalmente, até aquele outro dia. Novamente, os mesmos números da salvação:

- Casa comigo?

- Casar? Ué.. pensei que você achasse que o casamento cria semi-zumbis e destrói a forma humana das pessoas.

- Hum.. e acho, mas a gente não precisa casar, podemos só morar juntos. O que acha? Quando traz suas coisas? Hoje?

- Você andou bebendo?

- Eu acho que minha samambaia está precisando de uma figura paternal em casa.

- Doida! (diz gargalhando). Posso saber o que você aprontou?

- Meu chuveiro só funciona com você em casa. O que posso fazer? Ou me mudo, ou paro de tomar banho, ou caso com você. Pareceu o menos complicado, odeio encaixotar coisas e tenho a síndrome de abstinência de sabonetes e xampu… sou asseada o que posso fazer?

- Sempre sentimental!

 

Ferramentas,  fitas, registros e algum tempo depois, o problema foi totalmente resolvido.

 





Pessoas reais num mundo surreal II

27 08 2008

 

3h00 da madrugada, toca o telefone. Todos os toques possíveis depois:

- Ahn… Alô

- Eu já falei para você parar de atender esses inconvenientes que te ligam de madrugada.

- Se você parasse de ligar eu não precisaria atender.

- Aí eu deixaria o caminho livre para outros ligarem e você sabe como eu sou possessivo. Você amar outro eu relevo, mas outros te acordando com o estridente barulho do telefone? Não suportaria.

- Não se preocupe, não existe outro além de você, ninguém é tão inconveniente.

- Quer namorar comigo?

- Ahn?

- Namorar.. quer namorar comigo?

- Ah! Claro que sim.. Opa! Espere.. VOCÊ JÁ NÃO TEM UMA NAMORADA?

- Não se preocupe com isso.. eu conheço um cara que conhece uns caras..

- Ahn?

- Ninguém nunca vai suspeitar.. O corpo pode ser desovado em um beco qualquer..

- Boa noite..

- Nãoooo! Espereeeee… me empresta seu carro?

- Essa hora? Pra que?

- Pra desovar o corpo, oras! Se usasse meu carro seria suspeito. Ninguém nunca suspeitaria de você, pra cometer um crime passional tem que ter sentimentos, ninguém acreditaria que você tem sentimentos.

- BOA NOITE.

- Hum.. ou eu poderia só terminar com ela. Que tal? Algo como: “o problema não é você, sou eu”.

- Você está me ligando pra ensaiar como terminar com a sua namorada?

- Devo fazer a moda antiga?

- O que?

- Terminar com ela. Não está prestando atenção na conversa?

- Eh.. Não! Posso voltar a dormir agora?

- Devo ignorá-la igual qualquer macho Neanderthal? Hum.. ou como homem moderno e sentimental que sou.. devo mandar um sms dizendo “acabou.. não me procure mais”? Isso seria rude, não? Talvez só mudar o status do relacionamento no orkut.. de “namorando” para “solteiro”. Sutil, não? E alguém vai acabar avisando pra ela que o namorado dela agora é solteiro.

- Posso voltar a dormir agora?

- Você não está ajudando, sabia?

- Eh..eu sei.. POSSO VOLTAR A DORMIR AGORA?

- Ok, me empresta o carro?





Confissões de uma paulista nostálgica

17 02 2008

Eu sou uma pessoa altamente urbana, daquelas que precisam de uma organização hierárquica atrapalhando a vida e poluição entupindo os poros para ser feliz. 

Gosto de saber que se eu precisar de um restaurante Tailandês às 3 horas da manhã, ele estará lá.. por mais que não faça nenhum sentido, por mais que eu nem goste de comida tailandesa, por mais que seja mais coerente precisar do disk whisky às 3 horas da manhã, a presença do restaurante Tailandês dá a sensação de tranqüilidade, basta você querer e pronto.. lá está ele. 

A exposição em excesso a lugares verdes me angustia, tenho crises de abstinência de civilização em paraísos ecológicos, ataques de pânico ao pensar em lugares onde meus 2 celulares não funcionariam.

Minha idéia de programa relaxante envolve um aglomerado de pessoas, botecos com decoração duvidosa e música em volume ensurdecedor.

Ahhhh! Quem não se acostuma e até chega a se afeiçoar ao trânsito na marginal às 6 horas da tarde? Passa a ser o seu ritual, aquele momento onde secretamente, você pode ouvir todos seus cd´s com músicas ruins, sem o olhar apreensivo da sociedade.

O gás carbônico enchendo nosso pulmão… aquela adrenalina que invade nossas veias de tanto medo de ser vítima de um seqüestro relâmpago… Aquele porra do lado gritando: “OLHA O MINDUIM” “ISQUEIRO DOIS REAL, DOIS REAL, DOIS REAL”… O esquecer de virar a esquerda e ter que andar mais 10 km para conseguir fazer o retorno.

Pessoas amáveis ao seu redor gritando como uma gralha: “VAI SE FODER!”, sem nenhum motivo aparente… Aquelas crateras que brotam no asfalto, acariciando o carro… aquela carreta monstruosa soprando amor na forma de fumaça preta.

Motoqueiros educados fazendo o grande favor de arrancar aquela saliência inútil chamada retrovisor, e depois ainda passam xingando a mãe… O cuidadoso motorista de ônibus, com toda sua habilidade e perícia, dirigindo seu pequeno meio de transporte como se fosse um esguio fusca…

A linha azul do metrô lotada, filas inconcebíveis, mas tudo bem.. você pode tomar alguns cappuccinos enquanto espera para se apertar dentro do vagão e escutar diversos discursos envolvendo “eu podia tá ‘matano’ eu podia tá ‘roubano’, mas tô aqui vendendo essas incríveis balas de goma”… E quando você está estressada.. quando o excesso de civilização e trânsito te incomodam.. você vai pro litoral, junto com todos os outros paulistanos estressados… e lá está o cara do “minduim”, do “isqueiro”… e o engarrafamento..

Tranqüilidade pra que? Viva a vida urbana!





Eis que chega a sexta

1 06 2007

Apesar de toda a programação do final de semana começar a ser planejada no começo da semana, só na quinta-feira decidimos ir ao show do Ira, que será hoje. Então veio a segunda parte do planejamento. Onde comprar ingressos? Eu, essa pessoa a favor da praticidade, comodidade e tudo que a vida moderna pode nos proporcionar, votei no “disk-ingresso”. Meu amigo, um cético, diz não confiar nessas “modernidades”, mas acaba cedendo. Ligo lá.

- Disk-ingresso entregando com segurança, comodidade blá blá blá pra toda Curitiba, Região Metropolitana e todo Brasil blá blá blá. Por favor, para o espetáculo blá blá blá disque 1, para o blá blá blá disque 2, para blá blá blá disque 3..

E assim foi até conseguir a opção de compra pro show do Ira! E então a segunda parte do martírio começa:

- No momento todos os nossos atendentes estão ocupados. Por favor aguarde (tantantantan.. tantantantan… e da-lhe músiquinha chata de espera).

Muitos minutos depois:

- Nossos atendentes continuam ocupados, sua ligação será reencaminhada. Por favor, aguarde (tantantantan.. tantantantan… e da-lhe músiquinha chata de espera).

Minutos, minutos e minutos depois:

- Nossos atendentes estão todos ocupados. Por favor tente mais tarde (tum, tum, tum, tum).

Meia hora depois você tenta novamente e o mesmo ciclo se repete. Mais meia hora e você liga de novo. Dessa vez, no estágio 2 do ciclo, consegue, finalmente, ser atendida e para isso só precisou escutar por 10 minutos a músiquinha chata de espera.Você faz seu pedido e começa a maratona de perguntas, o atendente só falta perguntar a roupa que você estará vestindo na hora que os ingressos forem entregues e você vai respondendo tudo pacientemente. Ele informa que só poderá fazer a entrega no dia seguinte, pela manhã. Você concorda.

Sexta pela manhã e nada.. mas ao meio-dia, eis que surge o motoboy:

- Eu vim fazer uma entrega pra Maiara.

- É Maíra.

- Isso, Maíra.

Você vai pagar e…

- Ih, aqui está escrito que é no Visa, né? Eu não trouxe a maquininha do Visa.. Ihhh.. são 3 ingressos, né? Eu só tenho 1, estou sem mais nada. Esse foi o meu último ponto da entrega hoje. Mas ligaremos pra você mais tarde e estaremos agendando uma outra hora de entrega.

- Como é que é? Agendar outra entrega o caramba meuuu.. o show é hoje se você não sabe… eu quero esse ingresso na minha mão..onde já se viu..uma empresa que trabalha com a venda de ingresso que vem até aqui me entregar as coisas e deixa tudo pelo meio do caminho..

- Sim, sim, eu entendo senhora, mas veja bem.. blá blá blá (desculpas esfarrapadas repletas de “eu esqueci, poxa!”)

Tudo bem, tudo bem.. você respira fundo, calmamente, diz ok e o cara vai embora. Você liga lá para os atendentes, escuta a PORRA da músiquinha por muitos minutos e quando consegue ser atendida, põe pra fora toda sua indignação, revolta e acaba descontando toda sua ira e sintomas da tpm na pobre mocinha que te atendeu. Ela diz que vai dar um jeito, diz que vai ligar para o coordenador das entregas e que em seguida ele te ligará. Uma hora depois:

- Alô.

- Maira?

- É Maíííra.

- Isso. Então Maíra, tivemos um pequeno problema com a entrega dos seus ingressos, mas estaremos enviando novamente o motoboy, até as 19 horas seus ingressos serão entregues.

- Até as 19h o caramba… acho bom essa porra de comodidade funcionar… se esse ingresso não estiver na minha mão até as 16h.. pode ter certeza..perdeu uma cliente pra vida toda.. e ainda faço questão de detonar essa porcaria pra todo mundo… Vou passar o meu dia todo esperando receber esse ingresso? Claro né.. 19 horas.. nem tenho o que fazer.. posso ficar calmamente esperando até a hora que vocês quiserem. Pô.. entrega logo na hora do show.. que isso 19 horas tá muito cedo.

- Ok, ok.. pode ser pelo menos até as 17h?

- Tudo bem.. até as 17h.

15h45 o motoboy chega com seus três ingressos e com a maquininha do cartão. Primeira tentativa: sistema fora. Segunda tentativa: sistema fora. Terceira tentativa: passa o cartão e na hora de imprimir o comprovante (tchan, tchan tchan) acaba o papel da bobina… (ai, ai, ai), o moço diz:

- Ihh.. não tem outra de reserva.

Você olha com descrença e diz indignada:

- Não é possível!!

- Calma.. eu acho que dá pra imprimir uma via pelo menos… aí você assina e tudo beleza, você faz questão da via do cliente? Você não faz questão, né?.

- Ok, ok.

Com todo cuidado é realizada a manobra no papel, visto que automaticamente ele não imprimia nada. Aperta botões daqui.. dali.. etc.. e eis que começa a sair o papel com os dados da compra..quer dizer… só metade sai.. felizmente a parte final, com valores e tal. Mas aí o motoboy reclama:

- Putz, mas essa é a segunda via.

Você assina.. tudo certo.. e finalmente.. você está com os ingressos…

É bom Ira! tocar “envelheço na cidade” pra tanta dor de cabeça ter valido a pena. 

PS: Obviamente que o tal amigo cético, que não acredita na modernidade e no disk-ingresso falou “eu avisei..eu avisei”, complementando que você comprando ingressos é quase um filme do Luís Bunuel, uma pintura de Dalí… um evento surreal…