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O melhor dos meus enganos
Novembro 8, 2009 · 27 Comentários
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Excêntricas conversas amenas
Outubro 18, 2009 · 18 Comentários
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Lições de moda e comportamento corporativo
Setembro 21, 2009 · 21 Comentários

Oi? Humana? Demasiadamente humana?
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Diga-me o quanto me ama, que te direi o quão insano és
Setembro 3, 2009 · 16 Comentários
Já é notório o meu dom de atrair gente esquisita, maluca e com traumas irreversíveis. Você, por exemplo, se você vem aqui, lê, acha relativa graça, mas não tem vontade nenhuma de manter qualquer tipo de contato comigo, não precisa se preocupar.. você está no grupo de pessoas normais, imune aos feromônios que exalo.
Se você lê o blog, acha que sou razoavelmente inteligente, razoavelmente engraçada e quer manter um relativo contato, desde que isso não envolva uma maior aproximação porque “uiiii… credo, contato humano”, você está no grupo dos esquisitos.
Agora, se você vem aqui.. lê todos os textos, sente uma imensa vontade de falar comigo, começa a achar que somos almas gêmeas, me escreve e tem vontade de estabelecer um vínculo de verdade comigo.. Ah.. aí não tem como negar, meu caro.. você está no grupo dos malucos. E se a vida imita a arte, a arte imita o mundo corporativo, então, é óbvio que essa classificação de excentricidade, que muito em breve será chamada por especialistas de “escala Maíra”, também se aplica na minha vida em tons pastéis.
Tentando mostrar serviço e resolver o maior número de problemas, sem ter que levar nada para a minha supervisora, chego na minha mesa e tem um ser sentado lá, como esse ano foi determinado como o ano de excelência em atendimento, faço o que qualquer outra assalariada faria no meu lugar: sorrio.
- O senhor está me esperando?
- Sim, estou… eu gostaria de fazer uma reclamação..
Faço minha melhor cara de mega executiva solidária e enquanto o cliente vai expondo todo seu descontentamento, vou concordando e fazendo minha melhor expressão de “entendo senhor, claro que é um absurdo o funcionário só te dizer onde está o papel higiênico.. Como assim ele não foi lá, entregou na sua mão e ainda se ofereceu para limpar a sua bunda? Realmente, realmente, na próxima reunião será exposto essa má vontade, chamaremos a atenção do funcionário e além dele limpar a sua bunda, ele ainda passará talco”.
Feito isso, com toda a simpatia que meu teto salarial pode comprar, resolvo o problema, dou um chaveirinho de brinde para o cliente e seguimos nossas vidas, só não imaginava que seguiríamos juntos a MINHA vida, afinal, ninguém tinha me dito que aquele cliente na verdade era um ser que precisa de muita medicação controlada e que de tempos em tempos, resolve fazer terapia lá na empresa, grudando em pobres e inocentes funcionárias novatas.
No outro dia o cliente estava lá e no outro, no outro e no outro.. sempre para falar comigo, sempre sentando na minha mesa e falando do sol, da lua, do arco-íris, dos meus olhos e citando Camões.
Como toda relação que se inicia, no começo tudo são flores, depois é assim.. você não sabe que você é a relação mais estável do cara e começam as brigas:
- Ahn.. então João, hoje eu estou fazendo trabalho administrativo.. eu não vou poder te atender.
- Eu sei que você está mentindo pra mim.. você está me dispensando para atender outro. Qual o nome dele? Me diz… qual o nome dele?
- Ahn… the boss, ser que determina em que setor estarei, mas não se preocupe.. tem gente no meu lugar, eles vão atender você.
João, ainda assim, não desistia, ia à empresa todo o dia, sentava e ficava fazendo anotações em seu caderninho, quando conseguia uma brecha, sentava na minha mesa e falava do sol, da lua… e fazia planos para o nosso relacionamento, sua primeira providência seria comprar um apartamento, porque ele não queria namorar (oi?) por muito tempo comigo, queria compromisso sério.
Meu trabalho consiste em, basicamente, saber as taxas de juros, aplicações rentáveis e lidar com pessoas e lidar com pessoas é uma coisa deveras complicada, uma vez que, ao contrário de plantas, elas costumam falar, ter chiliques, gritar e te chamar de vaca-vadia-filha-da-puta… o que já fez com que eu chorasse no banheiro por duas vezes. Tentando amenizar essa minha vida sofrida, enquanto não me transformo em alguém com tanto sentimento quanto uma minhoca, ou até que autorizem o estapeamento de clientes, mudei de setor e passei a atender só com hora marcada. O que não ameniza tanto assim, mas diminui um pouco a gritaria. Não que seja uma coisa muito seletiva, se um bêbado estiver passando, resolver entrar, olhar pra mim e resolver perguntar para alguém: “como é que eu faço para falar com aquela moça branca com aquelas roupas sem graça em tom pastel?”, vão lhe dizer que só precisar marcar horário e eu o atenderei. Então, é evidente que não me livrei do João. Ele marcava dois, três horários, para falar comigo DIARIAMENTE e continuava com as anotações em seu caderninho.
Como atender bem para atender sempre é nosso foco, a empresa tem um tal de canal direto com o cliente, ou seja, o cliente liga, faz a reclamação e em até 24h a pessoa citada na reclamação tem que telefonar para o cliente e dar uma posição do que vai fazer para resolver o problema. João, não contente em me ver todo o dia, falar comigo todo o dia e fazer anotações sobre mim todo o dia, também passou a telefonar para o serviço de reclamações, diariamente tinha uma reclamação direta a minha pessoa e diariamente eu tinha que ligar para o João e sempre que ligava:
- Ah.. princesa.. que bom é ouvir a sua voz.. pensei que você não fosse mais me ligar hoje.
- Então João, você abriu uma reclamação dizendo que eu não esclareci suas dúvidas acerca do…
- Ah.. não vamos falar dessas coisas.. me diga.. como foi o seu dia?
E, a última do nosso relacionamento complicado:
- Ma.. você tem uma reclamação de cliente para responder.
- Ah não, não, não.. de novo? Quantas reclamações do João ainda vou ter que responder? Não são conversas gravadas? Ninguém ouve ele falando dos meus olhos, da lua, de Camões? O cliente ser maluco não tira a obrigatoriedade das respostas?
- Ma, VÁ responder a reclamação, porque se passar o prazo de respostas bla bla bla o ranking interno bla bla bla, perda de colocação bla bla bla, multas etc, etc e etc.
RECLAMAÇÃO DO DIA: Cliente diz que funcionária ao invés de voltar sua atenção para todos que a estavam esperando, estava flertando com um cliente. Reclamante diz que funcionária ficou quase uma hora atendendo uma mesma pessoa, cliente diz que funcionária pegou na mão do cliente e ficou jogando charme, desrespeitando o local de trabalho, com esse claro comportamento amoral.
Com muito ódio no coração, ligo para dar minha posição sobre a reclamação:
- Alô.
- Oi João aqui é a…
- Eu sei que é você. O QUE VOCÊ QUER? Como tem a cara de pau de me ligar?
- Bem, estou ligando em resposta a sua reclamação..
- Ah.. é muito fácil você me ligar agora, né? Depois do que fez… Vai pedir desculpas? Você acha que resolve?
- Ahn.. na verdade não vou pedir desculpas, porque eu não fiz nada.
- Típico de você, nunca faz nada mesmo. Vai negar que estava flertando com o cliente?
- Ahn. Vou…
- Não minta, Maíra.. NÃO minta! Eu vi você pegando na mão dele…
- Sim, realmente… na verdade eu causei um derrame nele e fiz com que ele perdesse o movimento da mão direita, ficando impossibilitado de assinar, só para poder pegar nas mãos deles, com a desculpa de que precisava colher uma digital. Sou assim.. o que posso fazer? Tenho esse tesão incontrolável por quem tem mais de sessenta.
Meu chefe me olha por cima dos óculos com aquela cara de: “que merda essa garota está fazendo?”.
Continuo, desaforada:
- E quer saber? Pra mim chega… me esqueça.. NÃO ME PROCURE mais…
- EU QUE NÃO QUERO MAIS SABER DE VOCÊ. (Tum-tum-tum)
Como pessoa adulta e centrada que sou, faço o que qualquer outra faria no meu lugar:
- FREEEEEEDOOOOOOOOOWWWWWWWWW
Até ser surpreendida pelo olhar intimidador do meu chefe de “que merda você fez? Essas conversas são gravadas, atender bem para atender sempre”.
- Ahn.. mando flores? Bombons? Digo que sempre o amei?
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Das interações sociais diárias
Agosto 16, 2009 · 19 Comentários
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Feromônios
Agosto 6, 2009 · 17 Comentários
A senhora calmamente responde:
E a senhora continua sentada na minha mesa. O cliente que estou atendendo fica constrangido com a presença da desconhecida ao lado e continua com sua expressão “hein” e eu continuo, solidária, respondendo com minhas expressões “excelência em atendimento”, “hein ao cubo”. Gentilmente, peço licença para a senhora e peço para o senhor me acompanhar e termino de atendê-lo em outra mesa, quando retorno a minha mesa, lá está a senhora, ainda me esperando. Sento na minha cadeira, mantendo o sorriso que prometi em contrato, ceder para a empresa, mas mal dá tempo de perguntar como poderia ajudar:
- Porque você estava atendendo ele? (pergunta a cliente indignada)
- Oi?
- Porque você me deixou esperando para atender ele? Porque você o atendeu primeiro? Eu estou aqui te esperando.
- Senhora, quando a senhora chegou aqui eu já estava atendendo aquele senhor, eu a avisei e a senhora disse que iria esperar. Mas no que posso ajudá-la?
- Eu tive um sonho…
Faço minha cara blasé de mega executiva, enquanto balanço afirmamente a cabeça, afinal, atendimento é nosso foco, e de sonhos para vendas, investimentos, carta de 100 mil em aplicações e metas do mês batidas em uma tarde, é um pulo.
- Quer dizer.. na verdade foi uma visão..
- Entendo (ainda fazendo minha melhor cara mega executiva, tentando manter o tal sorriso corporativo)
- E Jesus apareceu pra mim nessa visão, ele me mandou vir aqui.
- Ok.. e como podemos ajudá-la senhora? (pergunto séria, mantendo, ainda, minha melhor expressão executiva)
- ELE me disse que eu tenho 500 mil em aplicações financeiras aqui nessa empresa.
- Ahn.. entendo… Jesus te disse que você tem 500 mil aqui. (tento impedir o arqueamento das sobrancelhas e o surgimento da expressão: “mais hein?”)
- Sim, eu vim buscar meu dinheiro.
- Ok, me empresta seu CPF e seu RG que eu vou consultar no sistema para a senhora (de repente.. quem vê cara, vê maluco, mas não vê saldo de aplicação).
Consulto, basicamente, TODOS os sistemas imagináveis, até o fatídico:
- Ahn.. lamento senhora, mas a senhora não tem 500 mil, inclusive, a senhora nem sequer é nossa cliente.
- JESUS ME DISSE.. D-I-S-S-E.. Ele me mostrou.. ele me mostrou o mármore do chão e tudo.. EU V-I. Jesus me M-O-S-T-R-O-U.
- Lamento senhora, talvez a senhora esteja se confundindo.. inclusive no chão é granito e não mármore. É a prova irrefutável, com certeza trata-se de outra empresa.
- Vocês estão me roubando (diz já exaltada)… O diabo é o rei da mentira e você, com suas artimanhas, está tentando me enganar, assim como a serpente bla bla bla.
- Senhora, por favor, acalme-se. Lamento, mas no CPF da senhora não tem nada. De repente, está no nome de Jesus, como ele não deve ter CPF, por ser uma entidade.. vamos tentar buscar pelo nome, Jesus de Nazareth? Emanuel Jesus? Emanuel Carpinteiro? José tinha sobrenome?
- Você está me achando com cara de palhaça? VOCÊ ACHA QUE EU SOU MALUCA?
- Senhora, por favor, pare de gritar.
- EU GRITO EM NOME DO SENHOR, PORQUE O SENHOR MANDOU EVANGELIZAR.
Nesse momento o caos foi instaurado, a cliente histérica não parava de gritar e entoar cânticos, enquanto repetia como tínhamos roubado 500 mil dela, tentei de todas as formas acalmar a senhora, mas infelizmente não tinha nenhum bastão ou um vidro de prozac em mãos. Meu chefe resolve entrar em ação:
- Senhora, peço que a senhora se retire, a senhora está atrapalhando o funcionamento da empresa e incomodando os clientes.
- Daqui eu não saio sem meus 500 mil, quero ver quem me tira daqui. Porque Abraão bla bla bla bla.
E mais gritos histéricos. Então, o chefe do departamento jurídico, resolve tentar controlar a situação, tentando falar com a senhora, o que não apenas não surtiu nenhum efeito. Como, ainda por cima, ele teve que travar uma luta com ela para recuperar as correspondências que o carteiro estava entregando para ele.. e que a senhora, acreditando ser aquilo papéis do demônio, resolveu tomar das suas mãos.
Com dois chefes do alto escalão, mais dois seguranças tentando controlar a situação, sem nenhum resultado minimamente positivo, chamo a polícia. Meu novo futuro chefe, figura única, chefe do empresarial, irritado com os gritos da cliente, que ecoavam por todos os andares do prédio, resolve nos agraciar com sua presença, chega perto da cliente, que ainda gritava histericamente e diz:
- Anda!
A senhora exaltada continua gritando e ele, novamente repete:
- Anda (enquanto aponta a saída).
Neste momento a senhora já não gritava mais… e ele repete pela terceira vez:
- Anda… Rala daqui… RALA!
E ela simplesmente devolve a correspondência do carteiro e vai embora. Meu novo futuro chefe olha pra mim e diz:
- Eu já não falei para você parar de se meter em confusão? Já não te disse que só eu posso descontar minhas frustrações e amenizar minha raiva e loucura, gritando com você?
- Yeah.. eu já sei disso, mas acho que você deve mandar uma cartinha comunicando os clientes também… ou, no mínimo, para o pessoal do hospício ao lado.
- Você está vendo? É por isso que você vai trabalhar comigo no empresarial… com você a diversão nunca acaba..
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Meus dias de homem da casa
Junho 12, 2009 · 14 Comentários
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Dos encontros arranjados
Junho 2, 2009 · 12 Comentários
- Um terapeuta ou algo do gênero?
- Não.
- O Eddie Vedder?
- Ahn.. não…
- Jonnhy Depp?
- Não…
- Hum… pronto.. não sei.. Acabaram as opções que despertariam gritinhos empolgados…
- Porque você daria gritinhos empolgados por um terapeuta?
- Ahn..eu te contaria, mas não teríamos a confidencialidade paciente-médico… não me sentiria segura.
- Ele não é terapeuta, não é bonito e sensual como eu, mas é esforçado… e o mais importante.. ele quer muito sair com você.
- Ele quem?
- O rapaz que vou te apresentar.
- Porque vai me apresentar um rapaz?
- Porque você está solteira. Não está? Ao menos estava…
- Estou, mas isso ser uma preocupação na sua vida é que é assustador. Qual é o problema do rapaz? Fala de uma vez. O que tem de errado com ele?
- Nada, justamente por isso que eu quero que você saia com ele.. ele precisa de alguns problemas e defeitos congênitos na vida… o que melhor do que você como namorada?
- Sabe.. é por essas e outras que nunca me pergunto “porque foi que terminamos mesmo?”. Você está sempre por perto me lembrando dos porquês.
- Posso marcar?
- O que?
- Um encontro com o rapaz.
- Ahn… não sei não…
- O que tem a perder? Sabemos que eu fui o único acidente de percurso na sua vida… de resto você manteve o alto nível lá em baixo.
- Vamos direto ao ponto: quantos toblerones e garrafas de vodka isso vai me render?
- Estou te fazendo um favor e ainda tenho que te comprar?
- Yeah… se você quer entrar na cafetinagem.. ao menos algum agrado você tem que dar para suas meninas.
- Ok, temos um acordo… não posso deixar você perder o Marcelo assim.
- Quem?
- Deixa com o pai aqui.
Pronto.. as fezes já tinham sido atiradas no ventilador. Eu, moça ingênua, crédula, romântica.. acreditei mesmo na pureza das intenções de um ex-namorado, que na sua imensa bondade, me daria uma mistura de Jonnhy Depp com Vedder e de brinde.. vodka e chocolate. E então o fatídico:
- Ma, esse é o Marcelo.. Marcelo.. essa é a menina má com quem você queria sair.
Dois beijinhos nas bochechas depois:
- Ahn.. Marcelo.. com licença um instante (digo arrastando o cupido moderno pelo braço) – Ok.. Qual é a pegadinha da vez?
- Hum.. interessante.. agora já sei porque você queria um terapeuta: paranóia em níveis consideráveis.
- Você olhou direito para esse cara?
- Ahn.. acho que sim… o que meus olhos masculinos não conseguiram detectar, mas que aparentemente trata-se de uma obviedade feminina?
- Ele está em um lugar considerável no grupo dos meio que até bonitinhos..
- Entendo… Mea culpa, minha máxima culpa… deve ser realmente desprezível te apresentar pessoas bonitas, né? O que posso fazer? Sou assim.. desapegado… o que importa mesmo é ter saúde, mas espero que você releve eu ter escolhido alguém assim, desconcertantemente apresentável. Agora larga de frescura e vamos lá (diz ele quase me puxando pelos cabelos e me colocando do lado do tal Marcelo).
Estranhamente Marcelo era um rapaz meio que até bonitinho, engraçado, inteligente… e me acompanhou em todas as doses imagináveis de vodka, ypioca e cerveja. Estranhamente nos demos bem e estranhamente eu estava beijando as bochechas do meu ex-namorado dizendo que ele tinha uma superioridade sentimental que eu não tinha, afinal, Marcelo não era emo, não aparentava níveis intoleráveis de esquisitice e nem parecia sofrer com traumas irreparáveis graças a uma família desestruturada. Infelizmente, quem vê cara não vê coração e nem set list. Inocente e bêbada que sou, não notei o risinho sádico que deve ter surgido em algum momento, na cara angelical do meu cupido.
No dia seguinte.. telefone insistente, telefone insistente, telefone insistente:
- Ahn.. huuuummm… aaaaaahhhh (digo, com minha conhecida eloqüência matinal)
- Ma?
- Ahnnnn.. ahhhhhh…. eu… (mais uma demonstração do meu notório bom gosto no uso de palavras)
- É o Marcelo, te acordei?
- Imagina (digo bocejando). Tudo bem?
- Sim.. sim.. estou te ligando para ver se você não quer sair de novo hoje. Ninguém faz desenhos de porta de banheiro nos guardanapos de maneira tão criativa. Me afeiçoei, o que posso fazer?
- Claro, vamos sim… (digo com a minha habitual simpatia de sábado às 15h da madrugada). Aonde vamos?
- Em um lugar que você vai ADORAR. Passo na sua casa para te pegar.
Depois de muitas trocas de roupas e alguns sapatos espalhados pelo chão, tcharannnnn: baile funk.
Desespero, angústia, pânico. É de conhecimento público que pinga, pepsi e música incrivelmente ruim, eu não tolero. Bem.. também é de conhecimento público que em mim habita Dona Sílvia, senhorinha de 80 anos. Dona Sílvia gosta mesmo de um belo botecão, com sua decoração rústica, suas doses duplas e garçons, diversos garçons vindo até a mesa e garantindo o suprimento das coisas básicas: vodka e bolachas de chopp para possíveis guerrinhas com amigos igualmente perturbados.
Mas era isso, lá estava eu, no meio de um baile funk.. estática.. até que começou uma música esquisita.. e todo mundo se organizou num trenzinho, ainda olhava espantada ao meu redor, nem deu tempo de pronunciar nada:
- Vamos Má (diz Marcelo me puxando para o meio daquela confusão esquisita).
Quando começou a tocar Mc Créu, Marcelo se libertou, estou pra dizer que nunca vi ninguém se requebrando daquele jeito. Quando ele tirou a camiseta e amarrou na cabeça, pensei que já tinha chegado ao fundo do poço, mal sabia eu que em bailes funks o chão não é o limite. Quando dei por mim, meu acompanhante já estava em cima do palco, com a camiseta nas mãos, ensaiando diversos passos. Tentei sumir no meio da multidão, mas infelizmente meu desejo de me transformar num avestruz e ter onde enfiar a cara, não foi realizado:
- Mááááá.. sobe aqui no palco Má, vamos mostrar para esses pelegos como se dança.
Pensamento Insistente: Isso não está acontecendo.. isso não está acontecendo.. ISSO NÃO ESTÁ ACONTECENDO…
- Anda Má, sobe aquiiii.
Como mulher inteligente, cosmopolita e com razoáveis gostos, fiz o que qualquer outra faria.. me enfiei no meio da multidão e, discretamente, corri desembestada até a saída.
Lição de vida do dia: Quando me oferecerem namorados, pedir tudo em vodka.
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Das gorjetas
Abril 29, 2009 · 24 Comentários
Era um daqueles dias em que só queriam se lamuriar e afogar todas as mágoas no copo, como, por coincidência, era o dia da dose dupla, acabaram por afogar as mágoas no dobro de copos previstos. Fizeram uma quantidade inimaginável de amigos de cinco minutos, dos quais ela nunca lembrará o nome, por mais que tenha feito associações dos nomes com COISAS que NÃO se esquece, também nunca conseguirá lembrar porque de repente estava abraçando um cara que falava de.. hum.. do que falava mesmo? Mas, enfim… No fim da noite ela era capaz de chamar Odair José de Eddie Vedder. Ele, o adulto responsável, só ria dos absurdos que ela falava, mostrando relativa sobriedade. Até o fatídico:
- Desculpe, vamos fechar o bar.
Quando, por forças ocultas supremas, foram obrigados a se retirar. Ela se levantou e o mundo levantou junto com ela, fazendo movimentos de rotação de todos os graus, ele a abraça e os dois andam cambaleando, até que ele diz:
- Acho que precisamos pedir uma coca-cola.
- Nem pensar… com que cara vamos entrar aqui novamente?
- Como assim?
- Esse é o NOSSO bar… não podemos pedir coca-cola aqui.. vão achar que viramos franguinhos! E ninguém.. ninguém.. mas NINGUÉM mesmo me chama de franguinha.. (diz ela entre gargalhadas… com o dedo em riste, tentando fazer pose-de-não-sei-o-que-mas-com-alguma-autoridade)
- You’re a chicken, Martíra McFly – Diz ele rindo, orgulhoso do seu trocadilho que só mais de três doses poderiam deixar engraçado, enquanto apertava as bochechas da poor girl.
Saíram do bar, o carro estava estacionado logo em frente. Ele olha sério para ela:
- Entre no carro, vou ali buscar uma coca-cola pra senhorita… o que não seria preciso.. se você passasse a noite tomando um ÚNICO tipo de bebida.. mas não… você insiste em misturar destilados, fermentados, água sanitária…
- Humpf… eu posso comprar minha própria coca-cola… EU NÃO ESTOU BÊBADA..
- Claro que não está.. vou ali buscar uma coca-cola pra mim.. só estou te usando como desculpa…
- Ok.. traga uma caipirinha com muito limão pra mim então…
Ele destrava o carro, coloca as chaves na mão dela.. e ainda assim ela consegue derrubar tudo, trancar de novo e fazer o alarme disparar por DUAS vezes. Quando no meio daquela confusão solitária, com aquele objeto demoníaco que muitos chamam de chave, aparece um outro rapaz:
- Ei!… Espere..
Ela se vira, não repara muito no rapaz.. abaixa sua cabeça e começa a revirar sua bolsa:
- Um minuto…
- Mas..
- Não.. não.. calma aí.. espera.. eu já acho…
- Eu só queria..
- Shiiiiuuu.. peraí… segura isso pra mim (diz ela despejando todos os absurdos que sua bolsa estilo malote poderiam abrigar.. até achar a carteira)… Ráááá..
Ela pega algumas moedinhas… gentilmente olha para o moço, fazendo seu olhar mais terno, e lhe entrega as moedinhas… Ele faz sua cara mais “ahn” e estampando uma clara decepção… tenta dizer alguma coisa:
- Ahn.. não.. não é isso.. eu..
- Moço.. desculpa.. mas eu não tenho mais nada… eu só não deixei minhas calças no bar porque eu estou de vestido…
Ele olha as moedinhas na palma da mão, olha para ela daquele jeito consternado enquanto resmunga uma coisa e outra no meio da frase:
- Mas eu só queria pedir seu número de telefone…
- Telefone? Tem que preencher alguma ficha?
- Ficha? Como assim ficha?
- Não sei.. você que está falando de telefone.
Ele continuava olhando para ela com aquele jeito “e-livrai-nos-dessas-pessoas-tresloucadas-amém”:
- Eu sou o João, lembra? Estava no bar com você há 5 minutos atrás.. você saiu e nem pude me despedir… queria o seu telefone.. mas.. ahn.. esquece…
Ela sente a vergonha tomando conta do seu ser, começando pelas bochechas em brasa.. e como pessoa centrada que é, faz o que qualquer outra faria no seu lugar.. respira fundo:
- Ahn…desculpe.. desculpe mesmo.. bem.. você pode ficar com as moedinhas… – Diz entrando desesperadamente dentro do carro, esperando que aqueles vidros insulfilmados a tornassem invisível…. e lá ficou.. até o amigo chegar.
- Ihh.. que cara é essa? Porque está amuada assim ao invés de estar procurando CDs com músicas de temática festiva, enquanto acompanha cantando fora de ritmo?
- Acho que estou muito bêbada…
- O que você aprontou agora?
- Dei gorjeta para o moço que queria meu telefone…
- hahahahahahaha.. não sabia que você pagava… por uma noite de sexo selvagem tá dando quanto em cifrões?
- Que vergonha.. um moço meio que até bonitinho e tudo!
- Ohmm.. Não fique triste babe…olhe eu te trouxe jujubas… e além do mais… no mundo ainda há muitos de nós.. heteros assumidos meio que até bonitinhos… para você traumatizar…
PS: Queridos.. como vocês bem sabem.. minha juventude está sendo sugada pelo mundo corporativo… Passarei o próximo mês confinada em um hotel…num tal de treinamento e em atividades de nomes engraçados, que pregam a integração corporativa… rezem por mim… que ninguém me obrigue a abraçar árvores, entrar em contato com meu interior e usar crachás com desenhinhos em volta
PS2: É provável que eu fique mais desnaturada nesse período, mas acreditem.. se fosse minha escolha.. eu estaria aqui escrevendo para vocês e lendo seus e-mails esquisitos e pornográficos… Não me abandonem… se eu não me afogar na banheira do hotel no fim de 4 semanas.. volto para seus braços.. ou, no mínimo, para a lista de posts recentes…
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As patetices de Maíra
Abril 24, 2009 · 10 Comentários
Telefone insistente, telefone insistente, telefone insistente:
- Alô.
- Bom dia, eu gostaria de falar com a Maíra.
- É ela..
- Maíra? Maíra C. bla bla bla?
- Sim.. isso mesmo.
- Maíra, aqui é a Jaqueline da Seguradora X. Você tem um fiat bla bla bla bla cor X, placa Y, ano tal?
- Ahn… não..
- Não?
- Não.
- Não? Maíra bla bla bla… CPF número xxxxx e RG número xxxxx?
- Hum.. isso…
- E você não tem um fiat bla bla bla bla cor X, placa Y, ano tal?
- Ehhh… Não..
- Errr.. Maíra.. você TEM sim.. está aqui o seguro no seu nome.. lembra? Você teve um acidente com ele… perda total.. Estou te ligando para avisar que a avaliação saiu e o dinheiro referente ao seguro já está disponível.
- Ok.. obrigada, mas realmente eu acho que deve ter algum engano nos dados. – Hum.. Será que eu tenho um carro? Acidente? Meu Deusss! Que acidente? O que mais eu perdi da minha vida? O que mais eu não lembro? Será que eu tenho uma mansão em Búzios? Até que.. tcharamm:
- Pai, a placa do seu carro acidentado era xxxxx?
- Era por quê?
- Ah.. uma moça da seguradora me ligou… O carro estava no meu nome?
- O que você disse?
- Ahn.. que eu não tinha carro nenhum…
- Como não tem? Você não sabe que estava no seu nome? Aii.. liga lá e dá um jeito nisso…
- Como é que eu ia saber que o carro era meu? Eu continuava refém do transporte público.. nunca ninguém me disse nada.. tenho um helicóptero também? Posso comprar um com o dinheiro do seguro?
- Liga lá pra moça e diz que você vai passar uma procuração para o seu irmão receber o dinheiro.. Sua sem juízo.
- Oi.. Jaqueline? Então.. aqui é a Maíra… pois é.. eu tinha um fiat bla bla bla bla cor X, placa Y, ano tal…. desculpe.. coisas do acidente… traumas irreparáveis.. marcas até hoje me acompanham….
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