Aqueles dois

23 07 2008

Ele estava andando pelo shopping quando se deparou com uma criatura muito cheia de trejeitos felizes. Ela vinha saltitando, balançando a cabeça de um lado para o outro, meio que dançando também, e sorria… Ela nem prestou atenção nele e nem percebeu que desde a entrada do shopping, ele a seguia com os olhos.

Ele quase morreu de pavor quando viu que ela tinha um mp3 player e estava lá..  com seus fones de ouvido, cabelos esvoaçantes e boca exageradamente em movimento, cantando com o “mute” acionado, enquanto caminhava em sua direção.

Ele entrou em pânico, estava prestes a se armar em posição de luta, se não fosse o pavor e a sua involuntária rendição aquela cena de comercial de margarina.

Ela de cinco queijos. Ele de calabresa com muita cebola. Os dois de pizza fria com café.

Ela de Woody Allen. Ele de David Lynch. Os dois exatamente de William Wallace gritando FREEEEDOOOOOWWWWW.

Ela de Amelie Poulain. Ele de Star Wars. Os dois de “any of you fuckin pricks move, I’ll execute every motherfuckin last one of .. ya!” em Pulp Fiction.

Ela de cinema. Ele de tevê a cabo. Os dois de finais de semana na maratona cartoon.

Ela de Gabriel García Márquez. Ele de Dostoievski. Os dois com aversão a Paulo Coelho.

Ela de Álvaro de Campos. Ele de Alberto Caeiro. Os dois apaixonados por Fernando Pessoa.

Ela de qualquer coisa com legendas e mais de um capítulo. Ele de Seinfeld. Os dois rindo, segurando uma colher e imitando o Joey falando greeeaa-aaaaat

Ela de Chico. Ele de Led, os dois de Ferris Buller, cantando Twist and shout, enquanto imitam a mesma dancinha.

Ela Clocks, enquanto faz a escova de cabelo de microfone. Ele com cara de mal humorado, enfatizando que detesta Coldplay.  Os dois no carro, desafinados, volume ensurdecedor, fazendo dueto em You give me fever, feeeeverrr“, enquanto ela estala os dedos e ele batuca o volante.

Ela de Regina Spektor. Ele de Hã?? Regina o que???

Ela rindo. Ele tentando convencê-la que aquele é o olhar de furioso dele, não o de poodle sem dono.

Ela bêbada, com um copo de gelo nas mãos, já meio rouca e cantando “1, 2, 3 indiozinhos.. 4, 5, 6 indiozinhos 7, 8, 9, 10 indiozinhos iam navegando pelo rioooo-oooo”. Ele gargalhando, pedindo mais uma caipirinha e dizendo que vai denunciá-la para a FUNAI por maus tratos aos índios e para o MEC pelo péssimo emprego da música em questão.

Ela 20 e poucos anos de orgulho e inconveniência. Ele desde 1979 magoando pessoas com palavras ásperas e mal medidas. Os dois desde vidas passadas, só pode!

Dia desses, ele no hospital, ela também, motivações diferentes, mas os dois estavam lá por uma causa em comum: ele. 

- Estou acordado já faz uns 10 minutos, ouvindo você chorar compulsivamente. Ou eu estou morrendo ou você já descobriu que não vende cerveja na cantina do hospital. Pelo jeito sincero que está chorando acho que a última opção é a mais provável, por mais que eu esteja morrendo.

Ela ri, enxugando as lágrimas:

- Pelo visto você já está fora de perigo.

- Pelo visto você me ama.

- Err.. Na verdade não amo.. Estava chorando porque constatei que vou ter que passar o dia aqui com você e meu… não tem tevê a cabo.  Estou pensando se vale a pena. Deve estar passando os irmãos Winchester essa hora.

- Eu quase ter morrido me livra da bronca por ter deixado você esperando?

- De jeito nenhum! Perdoaria se fizesse igual todo mundo.. se tivesse se atrasado por estar com umas vadias, por estar jogando sinuca ou pela cerveja com o pessoal do trabalho. Essa de apelar para o “eu estava inconsciente” para se livrar de uns esporros, não vai funcionar.





Devaneios de domingo

13 07 2008

 

                                 

 

 

 Domingo de meias, nem tristeza, nem felicidade.. nuances de cinza. Traços vermelhos e sonhos em cores em um filme preto e branco. Melancolia? Culpa das trágicas histórias dos filmes anos 50, que pessoas não deveriam, em hipótese alguma, assistir sozinhas em um domingo ou, pelo menos, não sem a companhia de um pote de sorvete de chocolate que fosse.

 

Havia um estranho incomodo no ar. Uma sensação real, rodeada de situações confusas, estrelada por imagens inacreditáveis que nos esmagam com uma força brutal, enfraquecem, desnorteiam, jogam nosso corpo de uma realidade para outra, de um estado para outro, deixam impotente, inerte, irreconhecível. Absurdo? Em um instante paz, calmaria, encantamento… No instante seguinte, chuva, vento, angústia… sentindo em cada pequeno movimento uma pressão enorme que poderia sufocar lentamente.

 

Cada verdade é apenas uma parte de um todo ambivalente, complexo, confuso e contraditório, afinal, cada alma tem um mundo.

 

Não sabia ao certo, mas aquilo dominava seus pensamentos, percorria suas artérias e ocupava todos os átrios e ventrículos do seu coração. Confusão? Todos os sentimentos se misturavam à condição da sua existência e retornavam em outra composição para a atmosfera: suspiros.

 

Era, desde o princípio, previsívelEra o senhor do seu rir e pesar. 

 

A direção constantemente abandonada do nosso destino,

A nossa incerteza pagã sem alegria,

A nossa fraqueza cristã sem fé,

O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,

A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,

A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida…

 

[Passagem das horas - Álvaro de Campos]





Em total reclusão desse lugar chamado mundo virtual

15 05 2008

 

Meus queridos amigos, leitores assíduos, passantes virtuais e pessoas que procuram coisas estranhas e práticas não ortodoxas envolvendo fio terra, pasta de dente, desentupidor de pia, animais e KY gel, é com muito pesar que, por motivo de força maior, comunico meu afastamento do mundo virtual por alguns dias.

 

Lamento por todos os e-mails que não respondi, mas, por favor, não nos tire do seu “favoritos”, seu e-mail é muito importante para nós. Por favor, aguarde seu e-mail será o próximo a ser respondido.

A comunicação será restabelecida, novos textos publicados e os e-mails devidamente respondidos, assim que possível. Até lá.. faça como eu.. leia Clarice.

“Sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, não Lóri mas o seu nome secreto que ela por enquanto ainda não podia usufruir, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiros que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos da gratidão mais límpida, faz de conta que tudo o que tinha não era de faz-de-conta, faz de conta que se descontraíra o peito e a luz dourada a guiava pela floresta de açudes e tranqüilidade, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro - pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver”

[Clarice Lispector: Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres]

 






Da importância de se ler Charles Dickens

3 05 2008

 

 Ela estava dormindo, tendo seus sonhos sem sentido, quando começou a ouvir “She needs him, yeah… that’s why she’ll be back again.. Can’t find a better man.. Can’t find a better man.. CAN’T FIND A BETTER MAN”. Ela, de olhos fechados, com a cabeça enfiada no travesseiro, tateia ao seu redor, em busca daquele aparelho demoníaco, responsável pelo brusco despertar e, ainda sonolenta, desliga o celular enquanto resmunga: “merda de despertador”. Ela resmunga mais alguma coisa, ajeita o travesseiro e se enrola no edredom. Não se sabe se minutos ou segundos depois, mas o fato é que o celular voltou a tocar insistentemente. Ela abre os olhos, resmunga mais alguma coisa, dessa vez olha o visor, vê números desconhecidos e, ainda meio sonolenta, atende:

 

 - Se você não for um amigo(a) íntimo(a), com muita liberdade para me ligar a essas horas ou um desconhecido portador de alguma informação importantíssima, eu vou amaldiçoá-lo até a quinta geração por me acordar.

 

 - Você está namorando?

 

 - Ãhn?

 

 - Está namorando?

 

 - Não, estou dormindo (diz ela, sem entender muito bem o que está acontecendo).

 

 - Não perguntei nesse momento, não perguntei se interrompi alguma coisa. Perguntei se tem compromisso firmado, em alguma esfera, com algum indivíduo.

 

 - Quem fala?

 

 - Como quem fala? VOCÊ NÃO SABE QUEM ESTÁ FALANDO??

 

 - Não sei nem se eu estou falando ou sonhando. Que horas são? Pode me ligar depois do meio-dia? Não, não.. depois das 14h.. Isso, depois das 14h, decidido!

 

 - Eu estava pensando em você e me perguntando por que a gente terminou e não consegui encontrar a resposta. Você se lembra?

 

 - Não lembro nem que namoramos.

 

 - Eu estava saindo com uma garota e estava fazendo uma analogia envolvendo o David Copperfield e de repente ela fez gestos estranhos de empolgação feminina, enquanto repetia “eu A-DO-RO-OOO aquele mágico, pena que o Fantástico não passa mais aquele quadro com ele”. Assim, com essa ênfase no “adoro” e tudo.

 

 - Não sei se você está bêbado ou se eu estou dormindo, mas era para essa conversa ter sentido?

 

 - Ela começou a falar coisas do mágico, do Fantástico e eu pensei “Meu Deus! Com que tipo de mulher eu ando saindo?”. E enquanto ela falava de mágicas e de modelos norte-americanos, eu comecei a pensar em você e comecei a me perguntar por que diabos terminamos. Não consegui encontrar um motivo, tive que te ligar.

 

 - Definitivamente, não foi por eu não conhecer a obra de Charles Dickens. Posso voltar a dormir agora?

 

 - Lembrou que namoramos?

 

 - Sim, você tem o perfil exato para ser meu namorado. Ligar de madrugada para falar da sua atual e Charles Dickens, é algo que só um excêntrico faria. Sendo você maluco e excêntrico, só pode ter sido e/ou está prestes a se tornar meu namorado.

 

 - Então você também acha que deveríamos voltar?

 

 - Sim, eu deveria voltar a dormir, você deveria voltar a.. a.. hum.. passar para o próximo nome da agenda de ex-namorada?

 

 - Você continua com um humor ácido.

 

 - E você continua com a péssima mania de me ligar de madrugada.

 

 - Por isso terminamos?

 

 - Se bem me lembro, você que terminou comigo. Será que é porque eu fui e continuo sendo ácida?

 

 - Eu terminei com você?

 

 - Sim, foi quando eu descobri o sorvete de chocolate suíço com avelã, assisti compulsivamente “Sociedade dos poetas mortos” e me dediquei aos cd´s de jazz.

 

 - Até parece. Você disse um “tudo bem” e seguiu sua vida como se nada tivesse acontecido.

 

 - Jura que não lembra porque terminamos? Pelo ressentimento por eu não ter tentado o suicídio, parece que você se lembra bem do fim da relação.

 

 - O ressentimento é por você não ter me ligado 28 vezes, num intervalo de 2 horas, para dizer que queria voltar.

 

 - Eu acredito no livre arbítrio e você me disse ter certeza que era aquilo que queria, enfatizando que não ia me procurar e que eu deveria fazer o mesmo.

 

 - Eu queria que tivesse me ligado 28 vezes, aliás, 2 bastariam. A gente merecia um fim melhor, um motivo melhor.

 

 - Então está me ligando para que a gente termine decentemente?

 

 - Não, estou ligando para que a gente namore.

 

 - Namore e depois termine decentemente?

 

 - Não, só namore… O que me diz?

 

- Digo que, definitivamente, você gosta muito de Charles Dickens.





Relatos de uma obsessivo-compulsiva

19 11 2007

Eu admito, sou uma pessoa cheia de “obsessões”. Sempre foi assim, nos diversos períodos da minha vida, o que sempre mudou foi o objeto que despertava meu sentimento obsessivo. Lembro-me quando comecei a ter obsessão por tintas de cabelo, coisas da idade, provavelmente. Todo mês era uma cor diferente, não importava as leves nuances de diferença entre o vermelho acaju e o castanho médio avermelhado intenso, eu simplesmente tinha que pintar e repintar, com tintas com fotos diferentes da caixinha anterior.

Um pouco depois a tintura passou a perder a graça, talvez pela falta de inovação nas cores, já tinha passado por tudo, repito TUDO, até uma coloração meio laranja consegui certa vez. Passei a adotar as mesmas cores básicas então: vermelho, castanho e preto é o máximo de variação agora.

No momento mesmo, metade de mim é castanho (a tal da “cor natural”), a outra metade preta, porque resolvi que não quero mais cabelo preto. Essa minha cor “morena jambo” em contraste com o cabelo preto sempre faz surgir àquela piadinha “ahhh, tá virando EMO, hein Má”. Então resolvi poupar as pessoas de ouvirem minha resposta raivosa “você vê alguma franjinha aqui? NÃO! Então, não sou EMO. Ah! E também detesto Simple Plan”.

Saí da compulsão desenfreada por tintas e então vieram os esmaltes,  passei a ter esmalte de todas as cores, várias tonalidades de vermelho, preto black (existe outro tipo de preto?) café, café rubro, marrom alguma coisa e até um amarelo “não me perca na neve” entrou nessa brincadeira. Ainda adoro esmaltes, mas novamente a variação de cores diminuiu drasticamente.

Atualmente o que me ajuda a satisfazer meu novo vício é a Saraiva. Tornei-me uma compulsiva por livros, admito que a primeira coisa que penso em feriados, antes do “vou viajar”, é “será que tem promoções na Saraiva? Nessa época muitos títulos estão pela metade do preço, parcelados sem juros em não sei quantas vezes em todos os cartões. Ai, ai (suspiros) Frete grátis para todo o Brasil”.

Normalmente essas visitas ao site da livraria terminam em muitas encomendas. No último feriado não foi diferente, mais cinco livros para devorar, dentre eles best-sellers que fariam com que muitos balançassem a cabeça, descrentes.. mas o importante é que apesar de me manter lendo o Jabor.. eu ainda não me rendi a Paulo Coelho.

- - -

PS: Créditos de mudança de layout para Eduardo, que resolveu fazer mais do que dizer “eita que visualzinho adolescente o desse blog, favor tirar aquelas coisas em verde.. deixar mais clean.. e tags menina! Blogueira que é blogueira usa tags”.. Ufa! Ainda bem que não sou blogueira.. e ainda bem que Edu é praticante da máxima “quando a gente quer alguma coisa, a gente mesmo faz”

PS2: Invejinha da vida paulistana, infelizmente dizer que sou muito apegada as minhas raízes e que me guio pelo calendário oficial da cidade de São Paulo não funcionou.. mas uma bela continuidade de feriado para quem está refletindo na praia :-)





A página 161

27 10 2007

Edoardo Vilhena, conhecido por Doda, o cara do Bloda, tentando saber se as lendas urbanas que contam por aí, envolvendo teorias de que sou “simpática” e algumas outras coisas positivas (não positivistas por que positivismo é uma doutrina e blá blá blá e sim.. eu já aprendi Ju!) é real mesmo e o quanto isso é apenas crendice popular, sempre (nosso sempre aqui é algo em torno de 2, 3 vezes) me desafia com essas coisas de corrente de blog (acabo de descobrir a classificação “meme”.. veja só!).

Bem, como eu ainda não quero mostrar a realidade nua e crua para o Doda, como eu ainda acho que se ele tem alguma ilusão de “boa gente” isso deve ser mantido..  

1 - Pegar um livro próximo (apaguei o parêntese original do meme porque ele ofendia minha inteligência – Eu poderia me dar o trabalho de procurar o complemento para oferecer a você, caro leitor, a possibilidade de saber se isso ofende a sua inteligência ou se o Doda é um QI acima da média, mas.. não estou querendo me dar mais trabalho);

2 - Abrir na página 161;

3 - Procurar a 5ª frase completa;

4 - Postar essa frase em seu blog;

5 - (apaguei o quinto passo pelo mesmo motivo que apaguei o parêntese do primeiro item – Novamente você, caro leitor.. vai ter que ficar sem saber o que diabos era o item 5, reclamações sobre isso AQUI);

6 - Repassar para outros 5 blogs.

Bom, eu comecei a ler esse livro há algum tempo atrás, mas na minha última viagem resolvi levá-lo para ler no ônibus, claro que isso não deu certo.. Às vezes a pessoa precisa simplesmente aceitar.. EU NÃO CONSIGO LER EM ÔNIBUS.. obviamente deve ser bloqueio por ter crescido ouvindo “não leia no carro que isso vai te deixar cega!”, enfim, não só não consegui ler o livro como fiz inúmeros amigos de 6 horas (tempo que durou a última viagem de ônibus), enquanto aguardava chegar ao meu destino. Na volta o livro foi esquecido, mas agora o tenho de novo em minhas mãos.


Livro
: A gente se acostuma a tudo (não, não é auto-ajuda, é um livro de crônicas reunidas).


Autor
: João Ubaldo Ribeiro


Página 161, quinta frase blá blá blá
 
“Se eu fosse Nelson Rodrigues, teria a coragem de dizer que mora um puxa-saco na alma de cada um de nós, mesmo que, em alguns casos, bem pequenininho”. 

(Trecho da crônica “Que tal uma tolerância zero para nós?” – Relato da subserviência à autoridade.. Acho que muito se aplica, afinal, olha eu aqui cedendo a autoridade do Doda e cumprido uma ordem dele, mesmo declarando por aí que “não gosto desse papo de meme”).

Ah sim.. temos o repassar.. Está lendo isso aqui? Está de passagem? Caiu aqui procurando “site do pastor alemao tarado” (hãn? O cachorro?? Ah! Meu invejável público de leitores!) não importa, esteja a vontade para relatar a sua página 161 para a gente.





Insônia

25 05 2007

Ando tendo crises de insônia, provavelmente praga das pessoas amigas que sofriam desse mal e que buscavam apoio no meu ser e eu só conseguia falar “aham” enquanto ouvia as crises existenciais delas. Isso quando não caia, sem o menor remorso, no sono, enquanto ouvia idéias geniais que surgiam as 3h49 da madrugada.

Desisti de tentar lutar e aceitei o fato.

Insônia: Fase I - Manchetes desprezadas 

Madrugada, cappuccino e jornais. Você começa a ler todas as matérias banais que desprezou anteriormente.. Agora entre uma página e outra você se depara com a linda frase:

“A rede mundial pasteurizou muitos costumes locais, mas as janelas da alma continuam a ser abertas de formas diferentes no Ocidente e no Oriente.”  

“Hein?”

Pois é.. foi o que me perguntei também. Fui ler a matéria, as janelas da alma, pareceu algo apropriado para combater a insônia.

E olha só que pesquisa toda importante, fala dos emoticons nos diferentes lugares, por exemplo: 

“Os desenhos dos internautas japoneses expressam os sentimentos de seus autores por meio dos olhos. Os americanos expressam a alegria e a tristeza modificando a posição da boca dos seus emoticons”. 

Conclusão 1: Que coca-cola e McDonald´s o que.. a americanização se vê pelo uso de posição da boca em emoticons.

Conclusão 2: Meus amigos japoneses têm razão em me odiar, primeiro não quero jogar Sudoku. Depois não quero me livrar das tralhas no fim do ano e como tiro de misericórdia isso.. não destaco os olhos em emoticons. Poxa vida!! Uso o tal dos dois pontinhos sempre, eu sou um horror de pessoa! Uma ocidentalzinha egocêntrica e medíocre.

Outra super interessante, nojenta e “Uiiiii” notícia:

”Artista pretende comer cão de raça da realeza britânica em protesto”

É o típico protesto realmente fundamental para a vida humana, a matéria inclusive descreve que o ator pretende comer o cãozinho da raça welsh corgi pembroke cozido.

Conclusão 1: Uiiiii

Conclusão 2: Argh!!

Conclusão 3: Credooo!

 Insônia: Fase II - Poker online e messenger

Depois de ter lido toda e qualquer bobagem presente nos jornais online, hora de aceitar o convite para uma disputa de poker. Você sente que começa a melhorar no jogo. Antes você só sabia o que era uma seqüência, agora você sabe até o que é um Royal Street Flash, mais umas noites de insônia e você já estará fazendo aquelas coisas que o Maverick fazia.

Mesmo vendo você no “ocupado”, aquele cara que é irmão da prima do vizinho da sua amiga entra no messenger, com o singelo apelido de “Hamlet”, e resolve te dizer oi.. Você em um dia simpático e sociável, responde:

- Olá! “ser ou não ser, eis a questão”?

- Qualé Mah, eu sou homem pô! Que tá com essas aí de me chamar de viado? Sou homem ca**, vem cá que te provo.

- Eu estava falando da frase mais célebre dessa peça.

 - Que?

- Hamlet…

- Ah.. é um filme..

- Filme?

- Vai dizer que nunca viu Hamlet? Muito lokooo! Participação de Mel Gibson, e Glenn Close. Pelo menos desses você já ouviu falar, neh?

- Sim, e você já ouviu falar de William Shakespeare, né?

- Claro!!! É o cara que faz o tio do tal Hamlet.

- É.. de certa forma.. de certa forma..

 Insônia: Fase III - Literatura

Você resolve se entregar aos prazeres da aquisição de cultura, e lá está você, mais uma vez, entretida com Gabriel García Márquez, o escritor que figura entre os autores dos últimos títulos literários que você adquiriu.

E assim vai.. páginas de:

 “…mas se alguma coisa haviam aprendido juntos era que a sabedoria nos chega quando já não serve pra nada”

E mais:

“Deixavam passar o tempo como dois velhos esposos escaldados pela vida, para lá das armadilhas da paixão, para lá das troças brutais das ilusões e das miragens dos desenganos, para lá do amor. Pois tinham vivido juntos o suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte…”.

O sono começa a te dominar…  e entre o “nada que se faça na cama é imoral se contribui para perpetuar o amor” e outras frases soltas, filosóficas e sacanas do “O amor nos tempos do cólera” você desmaia debruçada no livro, só volta a si um tempo depois, com a música brega do despertador do seu celular…