O ritual exorcista

1 10 2007

Sou a filha do meio, ou seja, na minha infância fui uma pobre criança inocente, vítima das idéias absurdas do meu irmão mais velho.  Ele que estava do meu lado no balanço incentivando a ir “mais forte”, quando tudo despencou e eu obtive as minhas primeiras cicatrizes. Sem as idéias mirabolantes dele também nunca teria quebrado o braço, cortado a perna numa corda de varal, mas principalmente, sem ele nunca teria praticado um ritual exorcista.

Eu era bem novinha, mas bem novinha mesmo.. era nos tempos áureos da Xuxa. Passei por aquela fase de ter o cabelo amarrado daquele jeito ridículo, tinha uma coleção de discos da Xuxa e nas minhas festas de aniversário sempre tocava i-la-riê. Não que eu fosse muito fã da Xuxa, eu sempre gostei mais da Mara Maravilha (mas negarei isso até a morte em conversas formais), mas era febre entre os pais distribuir aos filhos coisas da Xuxa e foi assim, em um natal, que ganhei minha primeira boneca da Xuxa.

Era uma boneca, eu era uma criança, relação perfeita, quer dizer.. quase perfeita.. a maior diversão do meu irmão era me assustar com histórias mirabolantes envolvendo brinquedos que se rebelavam e matavam seus donos enquanto eles dormiam, graças a isso todas as noites eu trancava todos meus brinquedos dentro do guarda-roupa.

Bem, mas a boneca da Xuxa foi um caso especial. Meu irmão dizia algo sobre um pacto com o demônio (eu não sabia o que era um demônio, mas felizmente eu tinha meu irmão mais velho para me explicar direitinho essas coisas. Foi então que fiquei sabendo que demônio era nada mais, nada menos, do que o palhaço assassino - que tinha balões de todas as cores - do filme “It”). Meu irmão me relatou a quantidade de casos confirmados de pessoas que morreram por causa das bonecas. Descreveu com riquezas de detalhes como as crianças foram encontradas ensangüentadas tendo ao seu lado apenas a boneca com as mãos sujas de sangue, então, pela integridade da família ele me disse que eu como dona do brinquedo só poderia tomar uma decisão: “matá-la antes que ela nos matasse”, era por um bem maior, o que eu poderia fazer?

Ele disse que teríamos que fazer um ritual exorcista, fosse lá o que isso significasse eu fiquei feliz, pois ele disse que eu poderia ficar com as roupinhas da boneca.

Naquela noite eu deixei a boneca amarrada, dentro de um saco plástico e a coloquei dentro de uma caixa de sapato, trancando-a dentro do guarda-roupa do meu irmão, para que ela não resolvesse matar a gente naquela noite, se antecipando ao nosso tal ritual exorcista que só poderia ser feito na manhã seguinte.

Pela manhã chamamos o vizinho para participar do ritual. Fizemos um buraco no quintal de casa. Meu irmão providenciou álcool, jornal e uma caixa de fósforo. Encharcamos a boneca de álcool.. e colocamos fogo.. ele disse que eu tinha que cantar i-la-riê para dar certo.. então.. lá estava eu cantando enquanto a boneca pegava fogo.

De repente aparece minha mãe histérica na janela, gritando.. mandando a gente sair de perto do fogo, não sei bem o que ela disse porque tentava me concentrar na letra da música. Quando dei por mim ela já estava do lado da gente com um balde de água e esbravejando.

- Que diabos vocês estão fazendo? Onde conseguiram o álcool? No que estavam botando fogo?

- Mãe, ela ia matar a gente – digo eu orgulhosa por ser uma heroína.

- Ela quem?

- A Xuxa.. ela fez um acordo com o palhaço dos balões coloridos.

- Como é que é?

- Milhares de crianças morreram.. MILHARES!

- Você está me dizendo que você queimou a sua boneca?

- Não foi queimar, foi ritual exor.. exor.. Como é mesmo?

Levei uma bronca enorme da minha mãe, aparentemente o papai Noel tinha gasto uma boa parte do salário dele pra me comprar aquela boneca, mas não tinha problema, afinal, eu e meu irmão tínhamos salvado a família do trágico destino.. morrer e ser encontrada ensangüentada ao lado da boneca da Xuxa. Sim, sim.. a Xuxa, aquela mesmo que tinha feito acordo com o palhaço.

Desde então nunca mais quis saber de nada referente à Xuxa e no natal seguinte escrevi uma cartinha indignada para o papai Noel.. onde já se viu.. me dar de presente uma boneca que já tinha matado milhares de crianças.. que me desse um banco imobiliário então, oras.





Expressões antigas

14 08 2007

Quando eu era criança eu vivia ouvindo aquelas expressões malucas do tempo do Uepa (minha mãe adorava essa) que meus avós, tios, pais e etc. costumavam usar. Mas definitivamente duas me marcaram: tirar água do joelho e subir no telhado.

Tirar água do joelho

Essa eu vivia ouvindo dos meus tios. Era sempre assim, estávamos sentados em alguma festa de família, em algum churrasco, em algum leilão de gado (sim, frequentava leilões), bares, lanchonetes.. e sempre, sempre, SEMPRE.. de repente um dos meus tios dizia:

- Vou tirar água do joelho (e sumia por uns instantes).

Era uma dúvida que me atormentava. Onde eles iam? Como tiravam água do joelho? Depois comecei a reparar que iam ao banheiro, mas ainda não sabia que raios era tirar água do joelho. Até compartilhei toda essa minha angústia com os colegas de escola e nenhum de nós, estudantes da primeira série, tínhamos tirado água do joelho na vida, o que causou um medo geral, porque mais grave do que não saber como tirar água do joelho, era pensar nas conseqüências disso.

A coisa começou a tomar proporções inimagináveis e o pânico tomou conta de toda a série, então, tivemos que contar para a professora que queríamos tirar água do joelho e que precisávamos saber como se fazia isso. Bem, assim que ela conseguiu parar de rir, ela tranqüilizou a todos, explicando que só os tios precisavam tirar água do joelho. E a paz voltou a reinar na vida das crianças da primeira série. 

Subir no telhado

Minha mãe adorava usar essa expressão pra suavizar notícias de morte, mas claro, as únicas perdas que tive na minha infância foram de cachorros, então em um dia, minha mãe tentando suavizar ao máximo a morte da minha cachorrinha predileta, veio delicadamente e disse:

- Olha só minha filha.. a Lili subiu no telhado.

Essa frase foi seguida por minutos de silêncio da minha parte. Eu imaginava como diabos ela tinha conseguido subir no telhado. Mas fiquei toda orgulhosa, Lili era uma super cachorra… me defendia dos ratos que vez ou outra apareciam no quintal e matava baratas. Isso sem dizer no quanto eu admirava Lili, ela conseguia sair de casa sem precisar pedir autorização. Fazia as mais incríveis manobras pra sair de casa, se valendo de todas as artimanhas possíveis. Conseguia abrir a porta da cozinha, corria até a sala para pular a janela e escapar pelas grades do portão da frente. Lili era o máximo, e agora tinha feito mais uma proeza: conseguia subir no telhado, mas também já comecei a pensar que ela devia estar desesperada querendo descer, pensando que ela não sabia como fazer pra sair de lá, já que, pular seria difícil, o telhado era bem mais alto do que a janela da sala. Então eu disse para minha mãe:

- Ah! Então vamos pedir pro Paulinho tirar ela de lá.

- Não, o Paulinho não pode tirar ela de lá.

- Hum.. o papai pode?

- Não.. veja só.. ela não subiu no telhado, no sentido de subir no telhado.

- Ah! Mas você disse que ela subiu no telhado.

- Não, é força de expressão.. eu quis dizer que ela morreu.

- Ela caiu do telhado?

- Não, ela não subiu no telhado…

Então eu comecei a chorar e fui correndo até meu pai:

- Pai, pai.. a Lili morreu… ela caiu do telhado.

- Caiu do telhado?

Desde então minha mãe nunca mais usou essa expressão antes de me dar notícias tristes.