Minha mãe sempre foi o tipo mãe zelosa, sempre foi daquela espécie preocupada, sempre teve aquelas crises hipocondríacas pensando nos males que podiam assolar sua prole, por isso se havia um médico especialista em alguma coisa, lá estávamos eu e meus irmãos sendo examinados. Partindo da máxima “quem procura acha”, claro que foi descoberto um tal astigmatismo e fui obrigada a conviver desde cedo com os males das armações e lentes.
Nunca fui fã de óculos, minha mãe tentava de tudo para me empolgar: armações cor-de-rosa, caixinhas decoradas, mas, ainda assim, eu detestava usar óculos. Felizmente existem os médicos, seres especializados, que sabem como tratar crianças:
- É o seguinte.. ou você usa óculos ou você vai ficar cega… e ficar cega quer dizer que nunca mais você vai poder assistir a pequena sereia.
Desde então usava óculos compulsivamente, tinha tanto pânico que às vezes chorava porque minha mãe não me deixava dormir de óculos. Inocentemente, achava que se eu usasse muito, aos 11 anos eu já teria me livrado de todos aqueles graus naquelas lentes… doce ilusão!
O tempo foi passando e eu descobri que assim como irmãos, astigmatismo é para sempre. Mas a puberdade traz mais do que espinhas e a primeira menstruação, junto com ela vem a sabedoria. Foi neste período que descobri que não usar óculos não me deixaria cega de fato, sem eles só deixaria de enxergar de maneira definida. Acreditando que enxergar bem não é tão importante assim, fiz o que qualquer outra adolescente com horror a óculos faria no meu lugar: deixei de usar. Ia no oftalmologista uma vez por ano, fazia os exames e matinha o mesmo grau, as vezes aumentava um 0,25 aqui outro acolá, até chegar aos meus 19 anos e o problema estabilizar. Desde então mantenho os mesmos 3 graus, que me deixam semi-cega a uma certa distância.
Tentei me afeiçoar aos óculos, tentei usar lentes de contato, mas meus esforços foram em vão… eu continuava detestando usar óculos e descobri que qualquer coisa no meu olho me dava aflição. Toda vez que tinha que fazer o exame de pressão do olho era um parto, quando o oftalmologista resolvia que precisava pingar algum colírio era um drama mexicano. A vida estudantil e corporativa me obrigou a usar óculos com mais freqüência, mas mantinha minha postura de evitar óculos nos acontecimentos sociais. Continuei com o ritual de aparecer no oftalmologista uma vez por ano, mas neste ano:
- Consultório médico, boa tarde.
- Boa tarde.. eu gostaria de marcar uma consulta com o Dr. X
- O Dr. X está de férias, as consultas estão sendo agendadas a partir do dia 27. Quer marcar para o dia 27?
- Não.. eu preciso com urgência.. estou com um problema nos olhos.
- Que tipo de problema?
- Não faço a menor idéia, mas já faz algumas semanas.. e tem piorado.. definitivamente é um problema.. e, definitivamente, não se resolve sozinho.
- Você tem o número pessoal dele?
- Tenho sim…
- Então ligue na residência dele para ver se ele pode te receitar alguma coisa.
Ligo para meu oftalmologista de quase toda a vida:
- Olá Dr. X, aqui é a Maíra, eu sei que está de férias, mas estou com um problema nos olhos, gostaria de saber se não pode me atender.
- Para você querer uma consulta com urgência deve ser um problema grave mesmo. Quais os sintomas?
- Tenho quase certeza que é um tumor pressionando o nervo óptico.
- Tenho quase certeza que você está abusando da tevê.
- Não!!! Tirando raras exceções eu costumo usar óculos para assistir tevê.. não é isso..
- Não é o assistir tevê o problema, é assistir séries médicas… Dr. House?
- Ahn.. Sim.. e Grey´s Anatomy.
- Quais os sintomas?
- Arde bastante, coça, lacrimeja e a vista embaça com freqüência.
- Os dois olhos?
- Acho que sim, mas o direito está bem pior.
- Vamos dar uma olhada nisso então. Amanhã às 15 horas?
- Ok..
Chego ao consultório, faço todos os exames possíveis e imagináveis e lá vem o grande diagnóstico: eu estou morrendo. Tá, não estou morrendo, mas estou ficando cega. Ok, não estou ficando cega, pelo menos não mais do que já sou, mas coça, arde e embaça. O oftalmologista me diagnostica como tendo uma infecção alérgica, mas no fundo eu acho que ele está querendo me poupar.. no fundo eu sei que ele não quer dizer que é o efeito dos meus 26 anos… no fundo eu sei que devo ter catarata..
Saio de lá com meus dois colírios, que devem ser usados três vezes ao dia nas próximas quatro semanas e a proibição de usar qualquer tipo de maquiagem nos olhos pelo próximo mês. E assim vou levando minha vida de privações.. sem cílios alongados e tentando desesperadamente me livrar dessa aflição com colírios, me esforçando para pingar as gotinhas nos olhos e não nas pálpebras, usando os amigos em beneficio próprio e na falta deles em algum dos três horários diários, pedindo ajuda para entregadores desconhecidos que tocam a campainha.
