Sou a filha do meio, ou seja, na minha infância fui uma pobre criança inocente, vítima das idéias absurdas do meu irmão mais velho. Ele que estava do meu lado no balanço incentivando a ir “mais forte”, quando tudo despencou e eu obtive as minhas primeiras cicatrizes. Sem as idéias mirabolantes dele também nunca teria quebrado o braço, cortado a perna numa corda de varal, mas principalmente, sem ele nunca teria praticado um ritual exorcista.
Eu era bem novinha, mas bem novinha mesmo.. era nos tempos áureos da Xuxa. Passei por aquela fase de ter o cabelo amarrado daquele jeito ridículo, tinha uma coleção de discos da Xuxa e nas minhas festas de aniversário sempre tocava i-la-riê. Não que eu fosse muito fã da Xuxa, eu sempre gostei mais da Mara Maravilha (mas negarei isso até a morte em conversas formais), mas era febre entre os pais distribuir aos filhos coisas da Xuxa e foi assim, em um natal, que ganhei minha primeira boneca da Xuxa.
Era uma boneca, eu era uma criança, relação perfeita, quer dizer.. quase perfeita.. a maior diversão do meu irmão era me assustar com histórias mirabolantes envolvendo brinquedos que se rebelavam e matavam seus donos enquanto eles dormiam, graças a isso todas as noites eu trancava todos meus brinquedos dentro do guarda-roupa.
Bem, mas a boneca da Xuxa foi um caso especial. Meu irmão dizia algo sobre um pacto com o demônio (eu não sabia o que era um demônio, mas felizmente eu tinha meu irmão mais velho para me explicar direitinho essas coisas. Foi então que fiquei sabendo que demônio era nada mais, nada menos, do que o palhaço assassino - que tinha balões de todas as cores - do filme “It”). Meu irmão me relatou a quantidade de casos confirmados de pessoas que morreram por causa das bonecas. Descreveu com riquezas de detalhes como as crianças foram encontradas ensangüentadas tendo ao seu lado apenas a boneca com as mãos sujas de sangue, então, pela integridade da família ele me disse que eu como dona do brinquedo só poderia tomar uma decisão: “matá-la antes que ela nos matasse”, era por um bem maior, o que eu poderia fazer?
Ele disse que teríamos que fazer um ritual exorcista, fosse lá o que isso significasse eu fiquei feliz, pois ele disse que eu poderia ficar com as roupinhas da boneca.
Naquela noite eu deixei a boneca amarrada, dentro de um saco plástico e a coloquei dentro de uma caixa de sapato, trancando-a dentro do guarda-roupa do meu irmão, para que ela não resolvesse matar a gente naquela noite, se antecipando ao nosso tal ritual exorcista que só poderia ser feito na manhã seguinte.
Pela manhã chamamos o vizinho para participar do ritual. Fizemos um buraco no quintal de casa. Meu irmão providenciou álcool, jornal e uma caixa de fósforo. Encharcamos a boneca de álcool.. e colocamos fogo.. ele disse que eu tinha que cantar i-la-riê para dar certo.. então.. lá estava eu cantando enquanto a boneca pegava fogo.
De repente aparece minha mãe histérica na janela, gritando.. mandando a gente sair de perto do fogo, não sei bem o que ela disse porque tentava me concentrar na letra da música. Quando dei por mim ela já estava do lado da gente com um balde de água e esbravejando.
- Que diabos vocês estão fazendo? Onde conseguiram o álcool? No que estavam botando fogo?
- Mãe, ela ia matar a gente – digo eu orgulhosa por ser uma heroína.
- Ela quem?
- A Xuxa.. ela fez um acordo com o palhaço dos balões coloridos.
- Como é que é?
- Milhares de crianças morreram.. MILHARES!
- Você está me dizendo que você queimou a sua boneca?
- Não foi queimar, foi ritual exor.. exor.. Como é mesmo?
Levei uma bronca enorme da minha mãe, aparentemente o papai Noel tinha gasto uma boa parte do salário dele pra me comprar aquela boneca, mas não tinha problema, afinal, eu e meu irmão tínhamos salvado a família do trágico destino.. morrer e ser encontrada ensangüentada ao lado da boneca da Xuxa. Sim, sim.. a Xuxa, aquela mesmo que tinha feito acordo com o palhaço.
Desde então nunca mais quis saber de nada referente à Xuxa e no natal seguinte escrevi uma cartinha indignada para o papai Noel.. onde já se viu.. me dar de presente uma boneca que já tinha matado milhares de crianças.. que me desse um banco imobiliário então, oras.
Blá blá blá