Mah e suas aleatórias divagações

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Ensaio sobre a semi-cegueira

Fevereiro 16, 2009 · 8 Comentários

 

Minha mãe sempre foi o tipo mãe zelosa, sempre foi daquela espécie preocupada, sempre teve aquelas crises hipocondríacas pensando nos males que podiam assolar sua prole, por isso se havia um médico especialista em alguma coisa, lá estávamos eu e meus irmãos sendo examinados.  Partindo da máxima “quem procura acha”, claro que foi descoberto um tal astigmatismo e fui obrigada a conviver desde cedo com os males das armações e lentes.

 

Nunca fui fã de óculos, minha mãe tentava de tudo para me empolgar: armações cor-de-rosa, caixinhas decoradas, mas, ainda assim, eu detestava usar óculos. Felizmente existem os médicos, seres especializados, que sabem como tratar crianças:

- É o seguinte.. ou você usa óculos ou você vai ficar cega… e ficar cega quer dizer que nunca mais você vai poder assistir a pequena sereia.

 

Desde então usava óculos compulsivamente, tinha tanto pânico que às vezes chorava porque minha mãe não me deixava dormir de óculos. Inocentemente, achava que se eu usasse muito, aos 11 anos eu já teria me livrado de todos aqueles graus naquelas lentes… doce ilusão!

 

O tempo foi passando e eu descobri que assim como irmãos, astigmatismo é para sempre. Mas a puberdade traz mais do que espinhas e a primeira menstruação, junto com ela vem a sabedoria. Foi neste período que descobri que não usar óculos não me deixaria cega de fato, sem eles só deixaria de enxergar de maneira definida. Acreditando que enxergar bem não é tão importante assim, fiz o que qualquer outra adolescente com horror a óculos faria no meu lugar: deixei de usar. Ia no oftalmologista uma vez por ano, fazia os exames e matinha o mesmo grau, as vezes aumentava um 0,25 aqui outro acolá, até chegar aos meus 19 anos e o problema estabilizar. Desde então mantenho os mesmos 3 graus, que me deixam semi-cega a uma certa distância.

 

Tentei me afeiçoar aos óculos, tentei usar lentes de contato, mas meus esforços foram em vão… eu continuava detestando usar óculos e descobri que qualquer coisa no meu olho me dava aflição. Toda vez que tinha que fazer o exame de pressão do olho era um parto, quando o oftalmologista resolvia que precisava pingar algum colírio era um drama mexicano. A vida estudantil e corporativa me obrigou a usar óculos com mais freqüência, mas mantinha minha postura de evitar óculos nos acontecimentos sociais. Continuei com o ritual de aparecer no oftalmologista uma vez por ano, mas neste ano:

- Consultório médico, boa tarde.

- Boa tarde.. eu gostaria de marcar uma consulta com o Dr. X

- O Dr. X está de férias, as consultas estão sendo agendadas a partir do dia 27. Quer marcar para o dia 27?

- Não.. eu preciso com urgência.. estou com um problema nos olhos.

- Que tipo de problema?

- Não faço a menor idéia, mas já faz algumas semanas.. e tem piorado.. definitivamente é um problema.. e, definitivamente, não se resolve sozinho.

- Você tem o número pessoal dele?

- Tenho sim…

- Então ligue na residência dele para ver se ele pode te receitar alguma coisa.

Ligo para meu oftalmologista de quase toda a vida:

- Olá Dr. X, aqui é a Maíra, eu sei que está de férias, mas estou com um problema nos olhos, gostaria de saber se não pode me atender.

- Para você querer uma consulta com urgência deve ser um problema grave mesmo. Quais os sintomas?

- Tenho quase certeza que é um tumor pressionando o nervo óptico.

- Tenho quase certeza que você está abusando da tevê.

- Não!!! Tirando raras exceções eu costumo usar óculos para assistir tevê.. não é isso..

- Não é o assistir tevê o problema, é assistir séries médicas… Dr. House?

- Ahn.. Sim.. e Grey´s Anatomy.

- Quais os sintomas?

- Arde bastante, coça, lacrimeja e a vista embaça com freqüência.

- Os dois olhos?

- Acho que sim, mas o direito está bem pior.

- Vamos dar uma olhada nisso então. Amanhã às 15 horas?

- Ok..

 

Chego ao consultório, faço todos os exames possíveis e imagináveis e lá vem o grande diagnóstico: eu estou morrendo. Tá, não estou morrendo, mas estou ficando cega. Ok, não estou ficando cega, pelo menos não mais do que já sou, mas coça, arde e embaça. O oftalmologista me diagnostica como tendo uma infecção alérgica, mas no fundo eu acho que ele está querendo me poupar.. no fundo eu sei que ele não quer dizer que é o efeito dos meus 26 anos… no fundo eu sei que devo ter catarata..

 

Saio de lá com meus dois colírios, que devem ser usados três vezes ao dia nas próximas quatro semanas e a proibição de usar qualquer tipo de maquiagem nos olhos pelo próximo mês. E assim vou levando minha vida de privações.. sem cílios alongados e tentando desesperadamente me livrar dessa aflição com colírios, me esforçando para pingar as gotinhas nos olhos e não nas pálpebras, usando os amigos em beneficio próprio e na falta deles em algum dos três horários diários, pedindo ajuda para entregadores desconhecidos que tocam a campainha.

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Os diferentes gostos de domingo

Novembro 20, 2008 · 17 Comentários

Vovô e Nico

Vovô e Nico

 

Certas coisas cheiravam a certezas e tinham gosto de domingo, naquele tempo em que domingo ainda era feliz, naqueles dias que domingo significava respirar tão fundo e balançar na rede. Dias de acordar às 5 horas da manhã e ir até a mangueira, com aqueles olhinhos curiosos e uma caneca com açúcar e canela em mãos, maravilhada com a descoberta de que o leite não vinha em saquinhos.

 

Dias de jabuticaba no pé, vaga-lumes, visitas as plantações de café, passeios de camionete, cavalos selados, alface fresco na horta… Assim foi minha infância, grande parte dela passada em companhia do meu avô, por aqueles pastos, por aquele pomar com jabuticabas e mangas… e por mais urbana que eu seja, são aqueles dias de caçada de vaga-lumes, de andar de trator, de abrir porteiras e passear por entre os pastos, que ficaram na memória como as mais doces recordações do meu avô.

 

É o cheiro de pé de pitanga que sinto todo domingo e por mais que aquela primeira cadeira do lado esquerdo da mesa esteja vazia, são as mesmas histórias que ecoam pela minha mente quando olho pra ela.

 

Era sempre assim, ele sentava com uma latinha de cerveja com água tônica ou uma taça de vinho e repetia aquela história de como subiu naquele navio aos 16 anos e de repente estava no Brasil. As risadas ainda podem ser ouvidas ao fundo, quando ele narrava o inconcebível episódio do frango assado que ele esqueceu na mala. A história das três namoradas antes da vovó, o namoro com a vovó no cinema, as balinhas para distrair os cunhados, o casamento em Aparecida, naquele tempo onde não existiam estradas e os carros andavam só a 30 km por hora. O sorriso de canto de lábio e as histórias das caçadas de tatu, de espingardas e de laxantes em garrafas de café… Ah! As histórias com gosto de domingo!

 

As plantações, as idas até a máquina de arroz, as brincadeiras na palha, olhar admirada todo aquele maquinário que te fazia se sentir uma formiguinha, ficar toda orgulhosa no colo do seu avô, enquanto ele te ensinava como o arroz da palha, de repente, está dentro de um saco e voltar para casa senhora de si, carregando aquele primeiro pacote de arroz que você empacotou, como quem carrega o pote de ouro do fim do arco-íris.

 

Férias tinham gosto de bolo de milho e pamonha, naquelas tardes em que seu avô chegava com as espigas que tinha apanhado antes da colheita de verdade… e lá estava sua avó na beira do fogão, ensinando as mil coisas que você poderia fazer com o milho, quando, na verdade, você a olhava arteira, imaginando se não poderia roubar um ou outro milho para dar para os cavalos.

 

Domingo tinha um som peculiar… som de bolero, som de músicas antigas, som de Mercedita tocada na vitrola. Domingo tinha som de vovô… sentado naquele mesmo sofá, tentando entender as particularidades do controle remoto,  aquele aparato semi-alienígena. Você sentava no tapete e ria, explicando como ligar. Depois ele veio a se tornar o expert dos controles remotos e descobriu as maravilhas da tevê a cabo e vocês passavam o dia vendo aqueles programas portugueses, onde você não entendia nenhuma das piadas e ele ria e falava daqueles “alfacinhas de Algarve”.

 

Os dias de shopping tinham gosto de reclamações, onde ele, impaciente, implorava para sua avó comprar logo o que tinha que comprar, mesmo quando ele não ia junto para as compras, ele reclamava quando demoravam… e esperava, sentado naquela poltrona em frente a porta de entrada, só para dizer : “caipiras que são assim, não podem ficar na cidade grande que já se deslumbram”.

 

Vovô adorava comprar carros, sua maior diversão era escolher camionetes, negociava por meses antes de comprar de fato. Adorava gado, cavalos, leilões e plantações. Vovô adorava dar bezerros de presente… e vovô adorava domingos.

 

E foi em uma terça que prometemos estar no final de semana naquele hospital, e foi em uma terça que minha mãe disse que ele tinha que melhorar porque  no final de semana o levaríamos para casa. E foi em uma terça que ele sorriu e brincou pela última vez e foi em uma terça que ele balbuciou umas poucas palavras, as últimas palavras ditas. Mas esperou o domingo… aquele domingo que prometemos ir ao hospital para levá-lo pra casa e foi em um domingo que o cheiro de pitanga deu lugar ao cheiro mórbido das flores, e foi em um domingo que as gargalhadas deram lugar aos olhos inchados e ao choro. E foi em um domingo que cumprimos nossa promessa, e foi em um domingo que o levamos pra casa, mas não do jeito que queríamos, mas foi em um domingo… assim que chegamos no hospital, porque os domingos eram os nossos domingos… porque minha mãe tinha dito e prometido que meu irmão estaria lá… naquele domingo… e que o levaria pra casa… foi em um domingo.. o último domingo.

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O ritual exorcista

Outubro 1, 2007 · 18 Comentários

Sou a filha do meio, ou seja, na minha infância fui uma pobre criança inocente, vítima das idéias absurdas do meu irmão mais velho.  Ele que estava do meu lado no balanço incentivando a ir “mais forte”, quando tudo despencou e eu obtive as minhas primeiras cicatrizes. Sem as idéias mirabolantes dele também nunca teria quebrado o braço, cortado a perna numa corda de varal, mas principalmente, sem ele nunca teria praticado um ritual exorcista.

Eu era bem novinha, mas bem novinha mesmo.. era nos tempos áureos da Xuxa. Passei por aquela fase de ter o cabelo amarrado daquele jeito ridículo, tinha uma coleção de discos da Xuxa e nas minhas festas de aniversário sempre tocava i-la-riê. Não que eu fosse muito fã da Xuxa, eu sempre gostei mais da Mara Maravilha (mas negarei isso até a morte em conversas formais), mas era febre entre os pais distribuir aos filhos coisas da Xuxa e foi assim, em um natal, que ganhei minha primeira boneca da Xuxa.

Era uma boneca, eu era uma criança, relação perfeita, quer dizer.. quase perfeita.. a maior diversão do meu irmão era me assustar com histórias mirabolantes envolvendo brinquedos que se rebelavam e matavam seus donos enquanto eles dormiam, graças a isso todas as noites eu trancava todos meus brinquedos dentro do guarda-roupa.

Bem, mas a boneca da Xuxa foi um caso especial. Meu irmão dizia algo sobre um pacto com o demônio (eu não sabia o que era um demônio, mas felizmente eu tinha meu irmão mais velho para me explicar direitinho essas coisas. Foi então que fiquei sabendo que demônio era nada mais, nada menos, do que o palhaço assassino – que tinha balões de todas as cores – do filme “It”). Meu irmão me relatou a quantidade de casos confirmados de pessoas que morreram por causa das bonecas. Descreveu com riquezas de detalhes como as crianças foram encontradas ensangüentadas tendo ao seu lado apenas a boneca com as mãos sujas de sangue, então, pela integridade da família ele me disse que eu como dona do brinquedo só poderia tomar uma decisão: “matá-la antes que ela nos matasse”, era por um bem maior, o que eu poderia fazer?

Ele disse que teríamos que fazer um ritual exorcista, fosse lá o que isso significasse eu fiquei feliz, pois ele disse que eu poderia ficar com as roupinhas da boneca.

Naquela noite eu deixei a boneca amarrada, dentro de um saco plástico e a coloquei dentro de uma caixa de sapato, trancando-a dentro do guarda-roupa do meu irmão, para que ela não resolvesse matar a gente naquela noite, se antecipando ao nosso tal ritual exorcista que só poderia ser feito na manhã seguinte.

Pela manhã chamamos o vizinho para participar do ritual. Fizemos um buraco no quintal de casa. Meu irmão providenciou álcool, jornal e uma caixa de fósforo. Encharcamos a boneca de álcool.. e colocamos fogo.. ele disse que eu tinha que cantar i-la-riê para dar certo.. então.. lá estava eu cantando enquanto a boneca pegava fogo.

De repente aparece minha mãe histérica na janela, gritando.. mandando a gente sair de perto do fogo, não sei bem o que ela disse porque tentava me concentrar na letra da música. Quando dei por mim ela já estava do lado da gente com um balde de água e esbravejando.

- Que diabos vocês estão fazendo? Onde conseguiram o álcool? No que estavam botando fogo?

- Mãe, ela ia matar a gente – digo eu orgulhosa por ser uma heroína.

- Ela quem?

- A Xuxa.. ela fez um acordo com o palhaço dos balões coloridos.

- Como é que é?

- Milhares de crianças morreram.. MILHARES!

- Você está me dizendo que você queimou a sua boneca?

- Não foi queimar, foi ritual exor.. exor.. Como é mesmo?

Levei uma bronca enorme da minha mãe, aparentemente o papai Noel tinha gasto uma boa parte do salário dele pra me comprar aquela boneca, mas não tinha problema, afinal, eu e meu irmão tínhamos salvado a família do trágico destino.. morrer e ser encontrada ensangüentada ao lado da boneca da Xuxa. Sim, sim.. a Xuxa, aquela mesmo que tinha feito acordo com o palhaço.

Desde então nunca mais quis saber de nada referente à Xuxa e no natal seguinte escrevi uma cartinha indignada para o papai Noel.. onde já se viu.. me dar de presente uma boneca que já tinha matado milhares de crianças.. que me desse um banco imobiliário então, oras.

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Expressões antigas

Agosto 14, 2007 · 13 Comentários

Quando eu era criança eu vivia ouvindo aquelas expressões malucas do tempo do Uepa (minha mãe adorava essa) que meus avós, tios, pais e etc. costumavam usar. Mas definitivamente duas me marcaram: tirar água do joelho e subir no telhado.

Tirar água do joelho

Essa eu vivia ouvindo dos meus tios. Era sempre assim, estávamos sentados em alguma festa de família, em algum churrasco, em algum leilão de gado (sim, frequentava leilões), bares, lanchonetes.. e sempre, sempre, SEMPRE.. de repente um dos meus tios dizia:

- Vou tirar água do joelho (e sumia por uns instantes).

Era uma dúvida que me atormentava. Onde eles iam? Como tiravam água do joelho? Depois comecei a reparar que iam ao banheiro, mas ainda não sabia que raios era tirar água do joelho. Até compartilhei toda essa minha angústia com os colegas de escola e nenhum de nós, estudantes da primeira série, tínhamos tirado água do joelho na vida, o que causou um medo geral, porque mais grave do que não saber como tirar água do joelho, era pensar nas conseqüências disso.

A coisa começou a tomar proporções inimagináveis e o pânico tomou conta de toda a série, então, tivemos que contar para a professora que queríamos tirar água do joelho e que precisávamos saber como se fazia isso. Bem, assim que ela conseguiu parar de rir, ela tranqüilizou a todos, explicando que só os tios precisavam tirar água do joelho. E a paz voltou a reinar na vida das crianças da primeira série. 

Subir no telhado

Minha mãe adorava usar essa expressão pra suavizar notícias de morte, mas claro, as únicas perdas que tive na minha infância foram de cachorros, então em um dia, minha mãe tentando suavizar ao máximo a morte da minha cachorrinha predileta, veio delicadamente e disse:

- Olha só minha filha.. a Lili subiu no telhado.

Essa frase foi seguida por minutos de silêncio da minha parte. Eu imaginava como diabos ela tinha conseguido subir no telhado. Mas fiquei toda orgulhosa, Lili era uma super cachorra… me defendia dos ratos que vez ou outra apareciam no quintal e matava baratas. Isso sem dizer no quanto eu admirava Lili, ela conseguia sair de casa sem precisar pedir autorização. Fazia as mais incríveis manobras pra sair de casa, se valendo de todas as artimanhas possíveis. Conseguia abrir a porta da cozinha, corria até a sala para pular a janela e escapar pelas grades do portão da frente. Lili era o máximo, e agora tinha feito mais uma proeza: conseguia subir no telhado, mas também já comecei a pensar que ela devia estar desesperada querendo descer, pensando que ela não sabia como fazer pra sair de lá, já que, pular seria difícil, o telhado era bem mais alto do que a janela da sala. Então eu disse para minha mãe:

- Ah! Então vamos pedir pro Paulinho tirar ela de lá.

- Não, o Paulinho não pode tirar ela de lá.

- Hum.. o papai pode?

- Não.. veja só.. ela não subiu no telhado, no sentido de subir no telhado.

- Ah! Mas você disse que ela subiu no telhado.

- Não, é força de expressão.. eu quis dizer que ela morreu.

- Ela caiu do telhado?

- Não, ela não subiu no telhado…

Então eu comecei a chorar e fui correndo até meu pai:

- Pai, pai.. a Lili morreu… ela caiu do telhado.

- Caiu do telhado?

Desde então minha mãe nunca mais usou essa expressão antes de me dar notícias tristes.

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