Mah e suas aleatórias divagações

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Lições de moda e comportamento corporativo

Setembro 21, 2009 · 21 Comentários

1. Nunca use roxo, prefira os tons pastéis
- Como você está bonita hoje…

- Ahn.. obrigada… Mas então Seu Vanderlei… eu estava vendo aqui que a melhor opção para o senhor é a taxa pós.. bla bla bla

- Essa cor te deixa ainda mais bonita..

- Obrigada, mas como eu dizia Seu Vanderlei.. se escolhêssemos a opção VG.. bla bla bla bla

- Você.. assim.. de roxo… parece uma uva..

- O senhor tem mais alguma dúvida ou podemos assinar o contrato?

- Uma uva.. definitivamente, uma uva… queria te espremer para ver se virava vinho….

- O contrato.. rubrique todas as folhas… assine a última…

- Eu adoro vinho, sabia?

2. Nunca use jeans, prefira terninhos de virgem

Chefe: – Você está de férias?

- Oi? Férias? Não, por quê?

- Ahn.. não.. é que… bem.. (diz te olhando dos pés a cabeça)

3. Capriche no make up e se livre da cara de besta

- Desculpe perguntar… mas quantos anos você tem?

- Não.. tudo bem.. eu tenho 26…

- 26? Jura? Pensei que você tivesse uns 20 anos..

- Bondade sua…

- Verdade.. você me lembra muito a minha filha.. ela também é assim.. branca… ela tá morando em Brasília agora…(lágrimas, lágrimas)…

- Ahn.. senhor.. o senhor está bem? Quer água? Chá? Café?

- Posso te dar um abraço?

- Ahn… claro…

4. Nunca use saias, prefira pronomes de tratamento

Telefone insistente, telefone insistente, telefone insistente. Cliente na mesa

- Ai.. desculpa, desculpa, desculpaaa… como posso ajudá-lo?

- Ah.. eu passaria o dia olhando para você.. é tão bonitinho ouvir você falando. Eu não sabia que o nome Eurípedes podia soar tão sexy. Será que você pode dizer de novo?

- Oi?

- Eurípedes… soa bonito quando diz… dá vontade de te morder.

- Ahn… então.. o senhor é da empresa X, não? O William deixou esses papéis comigo e…

- Suas pernas… parecem até de algodão… eu dormiria abraçado a elas.

- Então… o senhor poderia assinar esse documento em três vias para mim?

- Só se disser Eurípedes de novo…

- Aqui, aqui e aqui…

- Você tem namorado?

- Nessas 3 folhas.. onde está marcado o x…

- Claro que tem, né? É uma pena… eu ia te convidar para sair…

- Bem.. acho que é isso.. essa via é do senhor…

- Se bem que.. eu não sou ciumento… a gente podia sair mesmo assim… que horas você sai daqui?
PS: Yeah.. a prova cabal.. sou uma mulher deveras perigosa.. tenho demoníacas borboletas coloridas pintadas na pele.. Tirem as crianças dessa página! hahaha
 
 
Oi? Humana? Demasiadamente humana?

Oi? Humana? Demasiadamente humana?

 

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Diga-me o quanto me ama, que te direi o quão insano és

Setembro 3, 2009 · 16 Comentários

Já é notório o meu dom de atrair gente esquisita, maluca e com traumas irreversíveis. Você, por exemplo, se você vem aqui, lê, acha relativa graça, mas não tem vontade nenhuma de manter qualquer tipo de contato comigo, não precisa se preocupar.. você está no grupo de pessoas normais, imune aos feromônios que exalo.

Se você lê o blog, acha que sou razoavelmente inteligente, razoavelmente engraçada e quer manter um relativo contato, desde que isso não envolva uma maior aproximação porque “uiiii… credo, contato humano”, você está no grupo dos esquisitos.

Agora, se você vem aqui.. lê todos os textos, sente uma imensa vontade de falar comigo, começa a achar que somos almas gêmeas, me escreve e tem vontade de estabelecer um vínculo de verdade comigo.. Ah.. aí não tem como negar, meu caro.. você está no grupo dos malucos. E se a vida imita a arte, a arte imita o mundo corporativo, então, é óbvio que essa classificação de excentricidade, que muito em breve será chamada por especialistas de “escala Maíra”, também se aplica na minha vida em tons pastéis.

Tentando mostrar serviço e resolver o maior número de problemas, sem ter que levar nada para a minha supervisora, chego na minha mesa e tem um ser sentado lá, como esse ano foi determinado como o ano de excelência em atendimento, faço o que qualquer outra assalariada faria no meu lugar: sorrio.

- O senhor está me esperando?

- Sim, estou… eu gostaria de fazer uma reclamação..

Faço minha melhor cara de mega executiva solidária e enquanto o cliente vai expondo todo seu descontentamento, vou concordando e fazendo minha melhor expressão de “entendo senhor, claro que é um absurdo o funcionário só te dizer onde está o papel higiênico.. Como assim ele não foi lá, entregou na sua mão e ainda se ofereceu para limpar a sua bunda? Realmente, realmente, na próxima reunião será exposto essa má vontade, chamaremos a atenção do funcionário e além dele limpar a sua bunda, ele ainda passará talco”.

Feito isso, com toda a simpatia que meu teto salarial pode comprar, resolvo o problema, dou um chaveirinho de brinde para o cliente e seguimos nossas vidas, só não imaginava que seguiríamos juntos a MINHA vida, afinal, ninguém tinha me dito que aquele cliente na verdade era um ser que precisa de muita medicação controlada e que de tempos em tempos, resolve fazer terapia lá na empresa, grudando em pobres e inocentes funcionárias novatas.

No outro dia o cliente estava lá e no outro, no outro e no outro.. sempre para falar comigo, sempre sentando na minha mesa e falando do sol, da lua, do arco-íris, dos meus olhos e citando Camões.

 Como toda relação que se inicia, no começo tudo são flores, depois é assim.. você não sabe que você é a relação mais estável do cara e começam as brigas:

- Ahn.. então João, hoje eu estou fazendo trabalho administrativo.. eu não vou poder te atender.

- Eu sei que você está mentindo pra mim.. você está me dispensando para atender outro. Qual o nome dele? Me diz… qual o nome dele?

- Ahn… the boss, ser que determina em que setor estarei, mas não se preocupe.. tem gente no meu lugar, eles vão atender você.

João, ainda assim, não desistia, ia à empresa todo o dia, sentava e ficava fazendo anotações em seu caderninho, quando conseguia uma brecha, sentava na minha mesa e falava do sol, da lua… e fazia planos para o nosso relacionamento, sua primeira providência seria comprar um apartamento, porque ele não queria namorar (oi?) por muito tempo comigo, queria compromisso sério.

Meu trabalho consiste em, basicamente, saber as taxas de juros, aplicações rentáveis e lidar com pessoas e lidar com pessoas é uma coisa deveras complicada, uma vez que, ao contrário de plantas, elas costumam falar, ter chiliques, gritar e te chamar de vaca-vadia-filha-da-puta… o que já fez com que eu chorasse no banheiro por duas vezes. Tentando amenizar essa minha vida sofrida, enquanto não me transformo em alguém com tanto sentimento quanto uma minhoca, ou até que autorizem o estapeamento de clientes, mudei de setor e passei a atender só com hora marcada. O que não ameniza tanto assim, mas diminui um pouco a gritaria. Não que seja uma coisa muito seletiva, se um bêbado estiver passando, resolver entrar, olhar pra mim e resolver perguntar para alguém: “como é que eu faço para falar com aquela moça branca com aquelas roupas sem graça em tom pastel?”, vão lhe dizer que só precisar marcar horário e eu o atenderei. Então, é evidente que não me livrei do João. Ele marcava dois, três horários, para falar comigo DIARIAMENTE e continuava com as anotações em seu caderninho.

Como atender bem para atender sempre é nosso foco, a empresa tem um tal de canal direto com o cliente, ou seja, o cliente liga, faz a reclamação e em até 24h a pessoa citada na reclamação tem que telefonar para o cliente e dar uma posição do que vai fazer para resolver o problema. João, não contente em me ver todo o dia, falar comigo todo o dia e fazer anotações sobre mim todo o dia, também passou a telefonar para o serviço de reclamações, diariamente tinha uma reclamação direta a minha pessoa e diariamente eu tinha que ligar para o João e sempre que ligava:

- Ah.. princesa.. que bom é ouvir a sua voz.. pensei que você não fosse mais me ligar hoje.

- Então João, você abriu uma reclamação dizendo que eu não esclareci suas dúvidas acerca do…

- Ah.. não vamos falar dessas coisas.. me diga.. como foi o seu dia?

E, a última do nosso relacionamento complicado:

- Ma.. você tem uma reclamação de cliente para responder.

- Ah não, não, não.. de novo? Quantas reclamações do João ainda vou ter que responder? Não são conversas gravadas? Ninguém ouve ele falando dos meus olhos, da lua, de Camões? O cliente ser maluco não tira a obrigatoriedade das respostas?

- Ma, VÁ responder a reclamação, porque se passar o prazo de respostas bla bla bla o ranking interno bla bla bla, perda de colocação bla bla bla, multas etc, etc e etc.

RECLAMAÇÃO DO DIA: Cliente diz que funcionária ao invés de voltar sua atenção para todos que a estavam esperando, estava flertando com um cliente. Reclamante diz que funcionária ficou quase uma hora atendendo uma mesma pessoa, cliente diz que funcionária pegou na mão do cliente e ficou jogando charme, desrespeitando o local de trabalho, com esse claro comportamento amoral.

Com muito ódio no coração, ligo para dar minha posição sobre a reclamação:

- Alô.

- Oi João aqui é a…

- Eu sei que é você. O QUE VOCÊ QUER? Como tem a cara de pau de me ligar?

- Bem, estou ligando em resposta a sua reclamação..

- Ah.. é muito fácil você me ligar agora, né? Depois do que fez… Vai pedir desculpas? Você acha que resolve?

- Ahn.. na verdade não vou pedir desculpas, porque eu não fiz nada.

- Típico de você, nunca faz nada mesmo. Vai negar que estava flertando com o cliente?

- Ahn. Vou…

- Não minta, Maíra.. NÃO minta! Eu vi você pegando na mão dele…

- Sim, realmente… na verdade eu causei um derrame nele e fiz com que ele perdesse o movimento da mão direita, ficando impossibilitado de assinar, só para poder pegar nas mãos deles, com a desculpa de que precisava colher uma digital. Sou assim.. o que posso fazer? Tenho esse tesão incontrolável por quem tem mais de sessenta.

Meu chefe me olha por cima dos óculos com aquela cara de: “que merda essa garota está fazendo?”.

Continuo, desaforada:

- E quer saber? Pra mim chega… me esqueça.. NÃO ME PROCURE mais…

- EU QUE NÃO QUERO MAIS SABER DE VOCÊ. (Tum-tum-tum)

Como pessoa adulta e centrada que sou, faço o que qualquer outra faria no meu lugar:

- FREEEEEEDOOOOOOOOOWWWWWWWWW

Até ser surpreendida pelo olhar intimidador do meu chefe de “que merda você fez? Essas conversas são gravadas, atender bem para atender sempre”.

- Ahn.. mando flores? Bombons? Digo que sempre o amei?

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Das interações sociais diárias

Agosto 16, 2009 · 19 Comentários

Sabe aquelas pessoas que não conseguem sair de casa sem maquiagem? Sabe aquelas mulheres que preferem cortar os pulsos a sair na rua toda descabelada? Ahn.. bem.. eu não sou uma delas… Eu tenho preguiça de me arrumar de manhã.. MUITA PREGUIÇA.

Nos dias corporativos eu até me empenho, coloco minha roupa de virgem, faço uma maquiagem de virgem, uso acessórios de.. ahn.. de Maíra mesmo, afinal, eu não tenho acessórios de virgem discreta, portanto, os brincões, as pulseiras e os colores drag queen, eu mantenho. Mas nos finais de semana? Ah.. nos finais de semana, pela manhã, eu sou abóbora, eu coloco uma calça jeans, um moletom e havaianas.. sim, HAVAIANAS, e saio. Para compor o visual “favela chique”, faço uso do meu óculos escuros cool da 25 de março e com isso, consigo manter aquele meu ar blasé.

E foi assim.. em uma emergência doméstica (como assim não tem óleo em casa? Como assim não vou poder almoçar batata frita? Ahn.. almoçar trakinas morango mais de novo?) que me dignei a sair de casa as 13h da madrugada em um sábado.

Então lá estou eu no meu visual “tio, dá uma moedinha?”, com os fones no ouvido e quase levantando os braços quando o Vedder pede empolgação, quando um cara qualquer vira e diz assim:

- Eu gosto da sua sombra.

- Oi?

- Sua sombra.. eu gosto dela..gosto da forma harmônica e retilínea dela a essa hora da tarde.

- Ahn.. obrigada (digo sem muita convicção).

Qualquer pessoa normal, centrada, saberia que não é preciso manter a conversa,  mas eu, garota excêntrica, acho que minha resposta não foi suficiente e continuo com a conversa de maluco:

- A sua também é muito bonita.

Em uma expressão que misturava surpresa e “ela não entende nada de sombras mesmo”, ele diz:

- Você está dizendo isso só para me agradar.

- Não.. não.. eu.. ahn.. realmente gosto da sua sombra.. ela é.. bem.. ela é assim.. escura? Isso.. escura de uma maneira bem harmônica também.

Ele ri:

- Eh.. mas a sua sombra além desse “escura” (diz ele fazendo as aspas com as mãos).. tem um charme a mais…  gosto de ver as pontas levemente encaracoladas do seu cabelo dessa maneira bidimensional…

- Hum.. porque na sua forma mais clara e não bidimensional não é tão bacana assim, né? Eu sabia que não deveria ter saído de casa sem a chapinha, mas também sabia que não deveria ter saído sem salto… tudo começou errado.

- Uma sombra só é bonita quando seu objeto opaco também é.

- Ahn… obrigada.. eu acho… Bem… a sua forma opaca também é bacana..

- Ah.. você está dizendo isso só para me agradar….

- Juro.. a incidência de luz não seria nada se não tivesse esbarrado em você.

- Aposto que você diz isso para todos!

E vocês ainda com o batido: e aí.. será que chove, né? hahaha

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Feromônios

Agosto 6, 2009 · 17 Comentários

Eu exalo um feromônio que só as pessoas que precisam de medicação controlada podem sentir. Você, por exemplo, oh ser desconhecido que veio parar nesse blog. Tudo bem se você está aqui só de passagem, porque enquanto procurava por alguma pratica sexual pouco ortodoxa, o Google, por razões que a própria razão desconhece, te encaminhou pra cá, isso só prova que você está consumindo sua dose diária de pornografia. Preocupante é se você veio parar aqui, leu mais do que duas linhas, começou a achar interessante e se sentiu compelido a me mandar um e-mail… Aí meu caro, lamento te informar.. mas são os feromônios que eu exalo… te mantendo aqui… 
Sofro muito com essa minha condição de para-raio de maluco, principalmente agora, trabalhando em uma empresa que fica ao lado de um hospício e não, não estou falando metaforicamente.
Final de mês, caótica prospecção de novos clientes e busca desenfreada para atingir as metas financeiras para negócios de valor significativamente mais alto. Estou atendendo um cliente daqueles importantes, quando uma senhora com lá seus 40 anos chega e senta na cadeira ao lado. O cliente olha para mim com aquela cara de “hein”. Na linguagem das expressões, respondo com minha melhor cara de “hein” elevado ao cubo, viro para a senhora e gentilmente pergunto:
- Posso ajudá-la?

- Sim, preciso muito falar com você.

Como servir bem para servir sempre é um dos pilares da empresa, continuo com meu melhor sorriso corporativo:

- Tudo bem senhora, mas a senhora terá que esperar um pouco, porque agora estou atendendo esse senhor. É só comigo?
 

A senhora calmamente responde:

- Sim é só com você, mas eu espero.

E a senhora continua sentada na minha mesa. O cliente que estou atendendo fica constrangido com a presença da desconhecida ao lado e continua com sua expressão “hein” e eu continuo, solidária, respondendo com minhas expressões “excelência em atendimento”, “hein ao cubo”. Gentilmente, peço licença para a senhora e peço para o senhor me acompanhar e termino de atendê-lo em outra mesa, quando retorno a minha mesa, lá está a senhora, ainda me esperando. Sento na minha cadeira, mantendo o sorriso que prometi em contrato, ceder para a empresa, mas mal dá tempo de perguntar como poderia ajudar:

- Porque você estava atendendo ele? (pergunta a cliente indignada)

- Oi?

- Porque você me deixou esperando para atender ele? Porque você o atendeu primeiro? Eu estou aqui te esperando.

- Senhora, quando a senhora chegou aqui eu já estava atendendo aquele senhor, eu a avisei e a senhora disse que iria esperar. Mas no que posso ajudá-la?

- Eu tive um sonho…

Faço minha cara blasé de mega executiva, enquanto balanço afirmamente a cabeça, afinal, atendimento é nosso foco, e de sonhos para vendas, investimentos, carta de 100 mil em aplicações e metas do mês batidas em uma tarde, é um pulo.

- Quer dizer.. na verdade foi uma visão..

- Entendo (ainda fazendo minha melhor cara mega executiva, tentando manter o tal sorriso corporativo)

- E Jesus apareceu pra mim nessa visão, ele me mandou vir aqui.

- Ok.. e como podemos ajudá-la senhora? (pergunto séria, mantendo, ainda, minha melhor expressão executiva)

- ELE me disse que eu tenho 500 mil em aplicações financeiras aqui nessa empresa.

- Ahn.. entendo… Jesus te disse que você tem 500 mil aqui. (tento impedir o arqueamento das sobrancelhas e o surgimento da expressão: “mais hein?”)

- Sim, eu vim buscar meu dinheiro.

- Ok, me empresta seu CPF e seu RG que eu vou consultar no sistema para a senhora (de repente.. quem vê cara, vê maluco, mas não vê saldo de aplicação).

Consulto, basicamente, TODOS os sistemas imagináveis, até o fatídico:

- Ahn.. lamento senhora, mas a senhora não tem 500 mil, inclusive, a senhora nem sequer é nossa cliente.

- JESUS ME DISSE.. D-I-S-S-E.. Ele me mostrou.. ele me mostrou o mármore do chão e tudo.. EU V-I. Jesus me M-O-S-T-R-O-U.

- Lamento senhora, talvez a senhora esteja se confundindo.. inclusive no chão é granito e não mármore. É a prova irrefutável, com certeza trata-se de outra empresa.

- Vocês estão me roubando (diz já exaltada)… O diabo é o rei da mentira e você, com suas artimanhas, está tentando me enganar, assim como a serpente bla bla bla.

- Senhora, por favor, acalme-se. Lamento, mas no CPF da senhora não tem nada. De repente, está no nome de Jesus, como ele não deve ter CPF, por ser uma entidade.. vamos tentar buscar pelo nome, Jesus de Nazareth? Emanuel Jesus? Emanuel Carpinteiro? José tinha sobrenome?

- Você está me achando com cara de palhaça? VOCÊ ACHA QUE EU SOU MALUCA?

- Senhora, por favor, pare de gritar.

- EU GRITO EM NOME DO SENHOR, PORQUE O SENHOR MANDOU EVANGELIZAR.

Nesse momento o caos foi instaurado, a cliente histérica não parava de gritar e entoar cânticos, enquanto repetia como tínhamos roubado 500 mil dela, tentei de todas as formas acalmar a senhora, mas infelizmente não tinha nenhum bastão ou um vidro de prozac em mãos. Meu chefe resolve entrar em ação:

- Senhora, peço que a senhora se retire, a senhora está atrapalhando o funcionamento da empresa e incomodando os clientes.

- Daqui eu não saio sem meus 500 mil, quero ver quem me tira daqui. Porque Abraão bla bla bla bla.

E mais gritos histéricos. Então, o chefe do departamento jurídico, resolve tentar controlar a situação, tentando falar com a senhora, o que não apenas não surtiu nenhum efeito. Como, ainda por cima, ele teve que travar uma luta com ela para recuperar as correspondências que o carteiro estava entregando para ele.. e que a senhora, acreditando ser aquilo papéis do demônio, resolveu tomar das suas mãos.

Com dois chefes do alto escalão, mais dois seguranças tentando controlar a situação, sem nenhum resultado minimamente positivo, chamo a polícia. Meu novo futuro chefe, figura única, chefe do empresarial, irritado com os gritos da cliente, que ecoavam por todos os andares do prédio, resolve nos agraciar com sua presença, chega perto da cliente, que ainda gritava histericamente e diz:

- Anda!

A senhora exaltada continua gritando e ele, novamente repete:

- Anda (enquanto aponta a saída).

Neste momento a senhora já não gritava mais… e ele repete pela terceira vez:

- Anda… Rala daqui… RALA!

E ela simplesmente devolve a correspondência do carteiro e vai embora. Meu novo futuro chefe olha pra mim e diz:

- Eu já não falei para você parar de se meter em confusão? Já não te disse que só eu posso descontar minhas frustrações e amenizar minha raiva e loucura, gritando com você?

- Yeah.. eu já sei disso, mas acho que você deve mandar uma cartinha comunicando os clientes também… ou, no mínimo, para o pessoal do hospício ao lado.

- Você está vendo? É por isso que você vai trabalhar comigo no empresarial… com você a diversão nunca acaba..

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Maíra no país corporativo

Junho 21, 2009 · 24 Comentários

Eu ia viajar nesse final de semana, mas fui convocada para trabalhar em um evento da empresa.. e não.. por “evento da empresa” eu não quero dizer vestido longo, vodka e muito rock, mas sim uniforme, panfletos, sorrisos e prospecção de novos clientes.
Quando finalmente cheguei em casa sexta, fui me arrastando até o quarto, deixando um rastro de sapatos, brincos, meias e roupas, por onde eu passei.. Não tive nem forças para tirar a maquiagem e fui dormir o sono das Isauras. Então, acordo assustada:

- Meus Deus! Onde estou? – Alguns minutos se passam e concluo: “estou no salão”.

Meu cabeleireiro me olha e diz:

- E aí bonitinha! Você está um T-U-D-O hoje.
Entro em pânico:

- Meu Deus! Meu Deus! O que vim fazer aqui? Eu não podia ter vindo pra cá.. eu tenho que trabalhar.. meu chefe vai me matar, minha supervisora vai arrancar meu couro. Tô ferrada.. o que vou dizer? Que explicação vou dar? Que horas são? Ai..ai..

- Calma Ma… relaxa menina.. essa testa não foi feita para ter rugas de preocupação.

- Vou dizer que tive um problema de família.. ahn.. com meu pai.. isso.. Hum.. melhor.. um problema comigo.. isso.. fiquei internada.. passei mal horrores, não pude ligar, decidido! Minha veia atriz mexicana deve servir de alguma coisa.

Então esqueço a preocupação e começo a folhear a revista, quando, de repente, olho no espelho e estou loira e com um corte de cabelo novo. Pânico, pânico, pânico:

- Ohhh my… como assiiiim? Como vou explicar esse novo cabelo se eu estava internada e por isso não pude ir trabalhar? Digo que era um tumor cerebral e depois da cirurgia me deram um cabelo de brinde? Aiii.. meu chefe vai me matar, minha supervisora vai arrancar meu couro.

Então acordo assustada de novo.. e a primeira coisa que vejo é um quadro com fotos na parede do meu quarto.. respiro aliviada… até olhar no relógio e ver que está marcando 14h… levanto desesperada, me arrumo na velocidade da luz e saio pela porta ainda colocando os brincos.. e dou de cara com o vizinho, subindo a escada:

- Ma.. onde tá indo essa hora?

- Trabalhar…

- Trabalhar?

- Eh.. um evento da empresa e bla bla bla…

- Mas Ma.. são 5h da manhã..

- Oi? Não são duas horas da tarde?

Ai..ai… não tenho mais pique para essas raves corporativas… Passei o domingo com ressaca trabalhista… se eu estivesse sentindo meus pés, provavelmente eles estariam doendo agora..
Caquética mulher de 26 anos, no final de um sábado corporativo, já sem forças para sorrir

Caquética mulher de 26 anos, no final de um sábado corporativo, já sem forças para sorrir

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Só um tapinha

Junho 18, 2009 · 13 Comentários

Segundo Nelson Rodrigues, as mulheres normais gostam de apanhar. Como eu faço parte daquele grupo de mulheres excêntricas, não gosto nem um pouco dessa coisa de apanhar, por mais atrativo que possa parecer levar uns sopapos, ficar roxa, vermelha, machucada e etc.. Socos, tapas e pontapés, nunca me trouxeram nem uma sensação prazerosa. Talvez por culpa da minha criação, convivendo com dois irmãos, sendo um mais velho, os cascudos eram constantes e como dizem: “quem tem demais não dá valor”, cresci com (pasme!) essa convicção de que apanhar não era nada bacana.

Visto esse meu probleminha em aceitar levar uns tapas, fui eliminando possíveis profissões, tais como: puta, lutadora, atendente de telemarketing.. e resolvi abraçar um desses empregos amenos, que oferecem plano de saúde, hora extra, vale alimentação.. sem pedir nenhum hematoma em troca, até que:

- Má, você já terminou de atender seus clientes de hoje?

- Sim, esse que saiu foi meu último.

- Será que você pode me dar uma ajuda? Aquelas pessoas todas estão esperando para serem atendidas. Pode atender alguns deles pra mim?

Eu, do alto do meu salto dez, com toda aquela bondade corporativa que me é peculiar, resolvo que não custava nada ajudar e vou lá conversar com as pessoas que estão sentadas esperando. E lá estou eu ouvindo todos os infortúnios de um senhor com idade mais ou menos entre meu avô e Matusalém, enquanto faço minha melhor cara de “entendo senhor” e explico o que podemos fazer para resolver o problema, quando, de repente, surge uma mulher histérica, me puxando pelo braço:

- Sua vadia de merda.. o que você tá querendo com meu marido?

Olho assustada procurando as câmeras escondidas, enquanto a senhora histérica continua me xingando de todas as coisas imagináveis.

- Calma senhora.. acalme-se, por favor … vamos sentar e conversar.

- Escuta aqui sua vadiazinha.. tá pensando que é muita coisa porque é bem mais nova do que eu?

E lá estou eu olhando chocada para a mulher, tentando entender que situação surreal era aquela, perdida no meio dos meus devaneios, enquanto tentava fazer minha melhor cara de compreensão, sou surpreendida por um daqueles tapas na cara de barulho estrondoso e efeito altamente dolorido. Como mulher madura, independente, cosmopolita e altamente profissional, faço o que qualquer outra faria: fico nervosa e desando a chorar. Sim, LAMENTÁVEL!

Enquanto o segurança tenta colocar a mulher para fora, um cliente solidário ameaça chamar a polícia se a senhora continuar me importunando.. e de repente me vejo em meio a lencinhos e milhares de copos de água.. enquanto a mulher ainda esbraveja e a polícia chega. Choro, choro e choro compulsivamente e sou consolada por clientes em geral, quando consigo me recompor, atendo mais três clientes que, provavelmente, comovidos com a situação, fecham contratos com valores financeiros altamente satisfatórios. Quando o expediente finalmente encerra, praticamente imploro para meu chefe me colocar em um daqueles serviços burocráticos, me ofereço para verificação de conformidade de processos, tirar xerox, contar envelopes, qualquer coisa maçante, repetitiva e sem contato com nenhum ser humano externo, mas sou obrigada a ouvir:

- Você está doida? Você leva muito jeito com atendimento.. Ok.. você foi agredida hoje, mas veja esses contratos TODOS que você fechou. Os clientes gostam desse seu jeito meigo, foque nisso!

Yeah.. aparentemente eu apanho de uma forma MUITO meiga… SOFRO!

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Dos encontros arranjados

Junho 2, 2009 · 12 Comentários

Tenho a leve impressão que minhas relações interpessoais mais próximas tem apenas um objetivo de vida: tentar me engravidar (no bom sentido). Desde que fiquei solteira é um aqui e outro ali tentando me arrumar encontros. Se por um lado tem toda aquela coisa bacana nessa atitude, por outro eu acabo me metendo em enrascadas homéricas, não sei escolher minhas amizades, então é de se esperar que minhas amizades não tenham o menor discernimento na hora de escolher homens meio que até bonitinhos com destinação amorosa em potencial.
Mesmo sabendo da dura realidade mundana, eu, garota ingênua, crédula e etc..etc.. inocentemente… fui acreditar quando um ex-namorado da era mesozóica disse:
- Ma, eu preciso te apresentar uma pessoa.
- Um terapeuta ou algo do gênero?
- Não.
- O Eddie Vedder?
- Ahn.. não…
- Jonnhy Depp?
- Não…
- Hum… pronto.. não sei.. Acabaram as opções que despertariam gritinhos empolgados…
- Porque você daria gritinhos empolgados por um terapeuta?
- Ahn..eu te contaria, mas não teríamos a confidencialidade paciente-médico… não me sentiria segura.
- Ele não é terapeuta, não é bonito e sensual como eu, mas é esforçado… e o mais importante.. ele quer muito sair com você.
- Ele quem?
- O rapaz que vou te apresentar.
- Porque vai me apresentar um rapaz?
- Porque você está solteira. Não está? Ao menos estava…
- Estou, mas isso ser uma preocupação na sua vida é que é assustador. Qual é o problema do rapaz? Fala de uma vez. O que tem de errado com ele?
- Nada, justamente por isso que eu quero que você saia com ele.. ele precisa de alguns problemas e defeitos congênitos na vida… o que melhor do que você como namorada?
- Sabe.. é por essas e outras que nunca me pergunto “porque foi que terminamos mesmo?”. Você está sempre por perto me lembrando dos porquês.
- Posso marcar?
- O que?
- Um encontro com o rapaz.
- Ahn… não sei não…
- O que tem a perder? Sabemos que eu fui o único acidente de percurso na sua vida… de resto você manteve o alto nível lá em baixo.
- Vamos direto ao ponto: quantos toblerones e garrafas de vodka isso vai me render?
- Estou te fazendo um favor e ainda tenho que te comprar?
- Yeah… se você quer entrar na cafetinagem.. ao menos algum agrado você tem que dar para suas meninas.
- Ok, temos um acordo… não posso deixar você perder o Marcelo assim.
- Quem?
- Deixa com o pai aqui.
Pronto.. as fezes já tinham sido atiradas no ventilador. Eu, moça ingênua, crédula, romântica.. acreditei mesmo na pureza das intenções de um ex-namorado, que na sua imensa bondade, me daria uma mistura de Jonnhy Depp com Vedder e de brinde.. vodka e chocolate. E então o fatídico:
- Ma, esse é o Marcelo.. Marcelo.. essa é a menina má com quem você queria sair.
Dois beijinhos nas bochechas depois:
- Ahn.. Marcelo.. com licença um instante (digo arrastando o cupido moderno pelo braço) – Ok.. Qual é a pegadinha da vez?
- Hum.. interessante.. agora já sei porque você queria um terapeuta: paranóia em níveis consideráveis.
- Você olhou direito para esse cara?
- Ahn.. acho que sim… o que meus olhos masculinos não conseguiram detectar, mas que aparentemente trata-se de uma obviedade feminina?
- Ele está em um lugar considerável no grupo dos meio que até bonitinhos..
- Entendo… Mea culpa, minha máxima culpa… deve ser realmente desprezível te apresentar pessoas bonitas, né? O que posso fazer? Sou assim.. desapegado… o que importa mesmo é ter saúde, mas espero que você releve eu ter escolhido alguém assim, desconcertantemente apresentável. Agora larga de frescura e vamos lá (diz ele quase me puxando pelos cabelos e me colocando do lado do tal Marcelo).
Estranhamente Marcelo era um rapaz meio que até bonitinho, engraçado, inteligente… e me acompanhou em todas as doses imagináveis de vodka, ypioca e cerveja. Estranhamente nos demos bem e estranhamente eu estava beijando as bochechas do meu ex-namorado dizendo que ele tinha uma superioridade sentimental que eu não tinha, afinal, Marcelo não era emo, não aparentava níveis intoleráveis de esquisitice e nem parecia sofrer com traumas irreparáveis graças a uma família desestruturada. Infelizmente, quem vê cara não vê coração e nem set list. Inocente e bêbada que sou, não notei o risinho sádico que deve ter surgido em algum momento, na cara angelical do meu cupido.
No dia seguinte.. telefone insistente, telefone insistente, telefone insistente:
- Ahn.. huuuummm… aaaaaahhhh (digo, com minha conhecida eloqüência matinal)
- Ma?
- Ahnnnn.. ahhhhhh…. eu… (mais uma demonstração do meu notório bom gosto no uso de palavras)
- É o Marcelo, te acordei?
- Imagina (digo bocejando). Tudo bem?
- Sim.. sim.. estou te ligando para ver se você não quer sair de novo hoje. Ninguém faz desenhos de porta de banheiro nos guardanapos de maneira tão criativa. Me afeiçoei, o que posso fazer?
- Claro, vamos sim… (digo com a minha habitual simpatia de sábado às 15h da madrugada). Aonde vamos?
- Em um lugar que você vai ADORAR. Passo na sua casa para te pegar.
Depois de muitas trocas de roupas e alguns sapatos espalhados pelo chão, tcharannnnn: baile funk.
Desespero, angústia, pânico. É de conhecimento público que pinga, pepsi e música incrivelmente ruim, eu não tolero. Bem.. também é de conhecimento público que em mim habita Dona Sílvia, senhorinha de 80 anos. Dona Sílvia gosta mesmo de um belo botecão, com sua decoração rústica, suas doses duplas e garçons, diversos garçons vindo até a mesa e garantindo o suprimento das coisas básicas: vodka e bolachas de chopp para possíveis guerrinhas com amigos igualmente perturbados.
Mas era isso, lá estava eu, no meio de um baile funk.. estática.. até que começou uma música esquisita.. e todo mundo se organizou num trenzinho, ainda olhava espantada ao meu redor, nem deu tempo de pronunciar nada:
- Vamos Má (diz Marcelo me puxando para o meio daquela confusão esquisita).
Quando começou a tocar Mc Créu, Marcelo se libertou, estou pra dizer que nunca vi ninguém se requebrando daquele jeito. Quando ele tirou a camiseta e amarrou na cabeça, pensei que já tinha chegado ao fundo do poço, mal sabia eu que em bailes funks o chão não é o limite. Quando dei por mim, meu acompanhante já estava em cima do palco, com a camiseta nas mãos, ensaiando diversos passos. Tentei sumir no meio da multidão, mas infelizmente meu desejo de me transformar num avestruz e ter onde enfiar a cara, não foi realizado:
- Mááááá.. sobe aqui no palco Má, vamos mostrar para esses pelegos como se dança.
Pensamento Insistente: Isso não está acontecendo.. isso não está acontecendo.. ISSO NÃO ESTÁ ACONTECENDO…
- Anda Má, sobe aquiiii.
Como mulher inteligente, cosmopolita e com razoáveis gostos, fiz o que qualquer outra faria.. me enfiei no meio da multidão e, discretamente, corri desembestada até a saída.
Lição de vida do dia: Quando me oferecerem namorados, pedir tudo em vodka.

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Das gorjetas

Abril 29, 2009 · 24 Comentários

 

Era um daqueles dias em que só queriam se lamuriar e afogar todas as mágoas no copo, como, por coincidência, era o dia da dose dupla, acabaram por afogar as mágoas no dobro de copos previstos. Fizeram uma quantidade inimaginável de amigos de cinco minutos, dos quais ela nunca lembrará o nome, por mais que tenha feito associações dos nomes com COISAS que NÃO se esquece, também nunca conseguirá lembrar porque de repente estava abraçando um cara que falava de.. hum.. do que falava mesmo?  Mas, enfim… No fim da noite ela era capaz de chamar Odair José de Eddie Vedder. Ele, o adulto responsável, só ria dos absurdos que ela falava, mostrando relativa sobriedade. Até o fatídico:

- Desculpe, vamos fechar o bar.

Quando, por forças ocultas supremas, foram obrigados a se retirar. Ela se levantou e o mundo levantou junto com ela, fazendo movimentos de rotação de todos os graus, ele a abraça e os dois andam cambaleando, até que ele diz:

- Acho que precisamos pedir uma coca-cola.

- Nem pensar… com que cara vamos entrar aqui novamente?

- Como assim?

- Esse é o NOSSO bar… não podemos pedir coca-cola aqui.. vão achar que viramos franguinhos! E ninguém.. ninguém.. mas NINGUÉM mesmo me chama de franguinha.. (diz ela entre gargalhadas… com o dedo em riste, tentando fazer pose-de-não-sei-o-que-mas-com-alguma-autoridade)

- You’re a chicken, Martíra McFly – Diz ele rindo, orgulhoso do seu trocadilho que só mais de três doses poderiam deixar engraçado, enquanto apertava as bochechas da poor girl.

Saíram do bar, o carro estava estacionado logo em frente. Ele olha sério para ela:

- Entre no carro, vou ali buscar uma coca-cola pra senhorita… o que não seria preciso.. se você passasse a noite tomando um ÚNICO tipo de bebida.. mas não… você insiste em misturar destilados, fermentados, água sanitária…

- Humpf… eu posso comprar minha própria coca-cola… EU NÃO ESTOU BÊBADA..

- Claro que não está.. vou ali buscar uma coca-cola pra mim.. só estou te usando como desculpa…

- Ok.. traga uma caipirinha com muito limão pra mim então…

Ele destrava o carro, coloca as chaves na mão dela.. e ainda assim ela consegue derrubar tudo, trancar de novo e fazer o alarme disparar por DUAS vezes. Quando no meio daquela confusão solitária, com aquele objeto demoníaco que muitos chamam de chave, aparece um outro rapaz:

- Ei!… Espere..

Ela se vira, não repara muito no rapaz.. abaixa sua cabeça e começa a revirar sua bolsa:

- Um minuto…

- Mas..

- Não.. não.. calma aí.. espera.. eu já acho…

- Eu só queria..

- Shiiiiuuu.. peraí… segura isso pra mim (diz ela despejando todos os absurdos que sua bolsa estilo malote poderiam abrigar.. até achar a carteira)… Ráááá..

Ela pega algumas moedinhas… gentilmente olha para o moço, fazendo seu olhar mais terno, e lhe entrega as moedinhas… Ele faz sua cara mais “ahn” e estampando uma clara decepção… tenta dizer alguma coisa:

- Ahn.. não.. não é isso.. eu..

- Moço.. desculpa.. mas eu não tenho mais nada… eu só não deixei minhas calças no bar porque eu estou de vestido…

Ele olha as moedinhas na palma da mão, olha para ela daquele jeito consternado enquanto resmunga uma coisa e outra no meio da frase:

- Mas eu só queria pedir seu número de telefone…

- Telefone? Tem que preencher alguma ficha?

- Ficha? Como assim ficha?

- Não sei.. você que está falando de telefone.

Ele continuava olhando para ela com aquele jeito “e-livrai-nos-dessas-pessoas-tresloucadas-amém”:

- Eu sou o João, lembra? Estava no bar com você há 5 minutos atrás.. você saiu e nem pude me despedir… queria o seu telefone.. mas.. ahn.. esquece…

Ela sente a vergonha tomando conta do seu ser, começando pelas bochechas em brasa.. e como pessoa centrada que é, faz o que qualquer outra faria no seu lugar.. respira fundo:

- Ahn…desculpe.. desculpe mesmo.. bem.. você pode ficar com as moedinhas…  – Diz entrando desesperadamente dentro do carro, esperando que aqueles vidros insulfilmados a tornassem invisível…. e lá ficou.. até o amigo chegar.

-  Ihh.. que cara é essa? Porque está amuada assim ao invés de estar procurando CDs com músicas de temática festiva, enquanto acompanha cantando fora de ritmo?

- Acho que estou muito bêbada…

- O que você aprontou agora?

- Dei gorjeta para o moço que queria meu telefone…

- hahahahahahaha.. não sabia que você pagava… por uma noite de sexo selvagem tá dando quanto em cifrões?

- Que vergonha.. um moço meio que até bonitinho e tudo!

- Ohmm.. Não fique triste babe…olhe eu te trouxe jujubas… e além do mais… no mundo ainda há muitos de nós.. heteros assumidos meio que até bonitinhos… para você traumatizar…

PS: Queridos.. como vocês bem sabem.. minha juventude está sendo sugada pelo mundo corporativo… Passarei o próximo mês confinada em um hotel…num tal de treinamento e em atividades de nomes engraçados, que pregam a integração corporativa… rezem por mim… que ninguém me obrigue a abraçar árvores, entrar em contato com meu interior e usar crachás com desenhinhos em volta

PS2: É provável que eu fique mais desnaturada nesse período, mas acreditem.. se fosse minha escolha.. eu estaria aqui escrevendo para vocês e lendo seus e-mails esquisitos e pornográficos… Não me abandonem… se eu não me afogar na banheira do hotel no fim de 4 semanas.. volto para seus braços.. ou, no mínimo, para a lista de posts recentes…

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As patetices de Maíra

Abril 24, 2009 · 10 Comentários

 

Telefone insistente, telefone insistente, telefone insistente:

- Alô.

- Bom dia, eu gostaria de falar com a Maíra.

- É ela..

- Maíra? Maíra C. bla bla bla?

- Sim.. isso mesmo.

- Maíra, aqui é a Jaqueline da Seguradora X. Você tem um fiat bla bla bla bla cor X, placa Y, ano tal?

- Ahn… não..

- Não?

- Não.

- Não? Maíra bla bla bla… CPF número xxxxx e RG número xxxxx?

- Hum.. isso…

- E você não tem um fiat bla bla bla bla cor X, placa Y, ano tal?

- Ehhh… Não..

- Errr.. Maíra.. você TEM sim.. está aqui o seguro no seu nome.. lembra? Você teve um acidente com ele… perda total.. Estou te ligando para avisar que a avaliação saiu e o dinheiro referente ao seguro já está disponível.

- Ok.. obrigada, mas realmente eu acho que deve ter algum engano nos dados. – Hum.. Será que eu tenho um carro? Acidente? Meu Deusss! Que acidente? O que mais eu perdi da minha vida? O que mais eu não lembro? Será que eu tenho uma mansão em Búzios? Até que.. tcharamm:

- Pai, a placa do seu carro acidentado era xxxxx?

- Era por quê?

- Ah.. uma moça da seguradora me ligou… O carro estava no meu nome?

- O que você disse?

- Ahn.. que eu não tinha carro nenhum…

- Como não tem? Você não sabe que estava no seu nome? Aii.. liga lá e dá um jeito nisso…

- Como é que eu ia saber que o carro era meu? Eu continuava refém do transporte público.. nunca ninguém me disse nada.. tenho um helicóptero também? Posso comprar um com o dinheiro do seguro?

- Liga lá pra moça e diz que você vai passar uma procuração para o seu irmão receber o dinheiro.. Sua sem juízo.

- Oi.. Jaqueline? Então.. aqui é a Maíra… pois é.. eu tinha um fiat bla bla bla bla cor X, placa Y, ano tal…. desculpe.. coisas do acidente… traumas irreparáveis.. marcas até hoje me acompanham….  

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Os dissabores de Maíra

Abril 8, 2009 · 13 Comentários

 

Talvez por culpa da minha criação, talvez por culpa das campanhas de escovação, talvez por culpa das pastas de dente, talvez por culpa dos bochechos com flúor.. muito comum na minha infância em época escolar.. mas o fato é que me tornei um ser esquisito.. que adora escova de dentes, lançamentos de novos sabores de pastas.. que tem compulsão por comprar listerine de todas as cores… e que já experimentou toda a linha de fio dental johnson e não.. eu não me orgulho disso.

 

O que minha mãe conseguiu ao me transformar em um ser humano neurótico? Bom.. nunca tive uma mínima cárie… há muitos anos que não tenho a menor idéia do que é ter placa e tártaro. Meus dentes do siso simplesmente nasceram sem causar nenhum dano a nenhum dos outros dentes que já ocupavam seu lugar… e se meus dentes fossem mais brancos, seriam da cor da minha pele… O que isso importa? Nada… teria algum significado de preço se eu fosse um cavalo, como sou só um reles ser humano… isso não significa absolutamente nada.. a não ser evidencia que eu sou assim.. neurótica e um tanto compulsiva.

 

Mas se seres humanos normais reclamam das suas cáries, obturações, canal.. tártaro e demais probleminhas dentários rotineiros.. eu sou uma pessoa que sofre horrores com os dentes aparentemente perfeitos.. tudo que eu queria era uma cárie vez ou outra.. uma simples obturação.. mas não… o destino nunca se manifesta sem ironia:

- Maíra aqui é a secretária da Dra Maria. Estou com o resultado dos raios-x. Você poderia vir até o consultório?

Chego no consultório e a doutora começa a me mostrar os raios-x:

- Então Maíra, está vendo isso aqui em cima? É um outro terceiro molar nascendo, já em cima do terceiro molar que já nasceu. Entende? Ele não encontrará espaço e acabará entortando todo o resto.

 - Outro dente? Como assim outro dente? Esse já seria o terceiro dente que eu tiraria.. e eu ainda tenho todos os 32 dentes.. só pode ser brincadeira!

- Você deveria ficar feliz.. tanta gente com os dentes todos cariados.. tanta gente com dentes faltando.. e você tem todos os dentes.. e perfeitos.. e ainda sobrando.

- Eh.. eu sou uma abençoada mesmo.. Sou quase uma ostra produzindo pérolas.. só tirando a parte de não produzir pérolas… só algo inútil e sem valor.. e que ainda me faz tomar anestesia e levar pontos…

 

Então mais uma vez tomo aquele monte de anestesia na gengiva, no céu da boca, quase nas bochechas, pra impedir que eu sinta qualquer coisa… e já que eu já estava por lá mesmo, a dentista resolveu arrancar todos os sisos do lado esquerdo… aproveitando toda a anestesia e o desconforto que já iria sentir depois.

 

Nessa minha nova experiência, descubro uma coisa.. Só tem algo pior do que arrancar terceiros molares inclusos na parte da frente: arrancar terceiros molares inclusos na parte de trás da boca. No maior estilo: desconforto máximo ainda não é o limite, me mantenho com a boca aberta, com corte na gengiva e no céu da boca, enquanto delicadamente a dentista usa aparelhos bizarros para fazer o dente descolar. Claro que toda minha formação neurótica e com dentes fortes e saudáveis não passaria impune, é evidente que até os dentes do siso que são mais fracos por natureza, pareciam imponentes como um canino… e, óbvio, que eu demorei horrores.. deitada naquela cadeira, sentindo nenhuma dor, mas vendo a dentista no maior jeito Stallone Cobra, tentando arrancar todos aqueles dentes estranhamente saudáveis.

 

Quando finalmente consegui me livrar dos dentes, estava com a boca tão torta que parecia que tinha aplicado doses cavalares de botox… estava tão bonita e inchada quanto um peixe boi.. e como se não bastasse tudo isso.. ainda tive que tomar as tais injeções que, teoricamente, me impediriam de ficar roxa e inchada.. mas, definitivamente, o mundo e as medicações não foram feitos para pessoas realmente brancas…  E tudo isso porque? Porque eu sou neurótica demais com escovas de dente e fio dental… ah.. como eu queria ter uma cárie… uma só… de vez em quando… Quão feliz devem ser as pessoas que resolvem tudo com uma simples obturação, não?

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