A festa da democracia

7 10 2008

 

Nesses meus vinte e cinco anos de existência, uma grande parcela vivida foi fazendo parte da tal festa da democracia. Muito além de domingos, muito além do título de eleitor aos dezesseis anos. Eu cresci no mundo político.

 

Tendo uma mãe coordenadora de campanha de diversos candidatos em diversas esferas políticas, palanques sempre fizeram parte da minha vida. Fui a criança bonitinha que entregava flores a candidatos, fui a simpática menina que sorria e entregava santinhos, fui incrivelmente apertada, amassada e abraçada pelo Fleury na campanha pelo governo de São Paulo, fiz inúmeros cata-ventos, distribui brindes, usei camisetas, fui mais apertada, mais espremida e mais abraçada pelo Fleury (foi então que no auge dos meus sete anos.. passei a entender o significado de ODIAR, sentimento nobre que passei a nutrir por cata-ventos, por gente me apertando e pelo futuro governador do Estado).

 

Hoje em dia, morando em outro Estado, longe de toda a confusão política e da família que se dedica à vida pública, cumpro só meu dever cívico de justificar a minha ausência na minha zona eleitoral. Mas neste domingo de festa da democracia, forças ocultas que regem o universo (também conhecidos como problemas técnicos de alta complexidade), me impediram de comparecer até uma zona eleitoral para justificar o fato de não votar. Foi aí que meu martírio e peregrinação, em busca de regularização do título de eleitor, começaram.

 

Minha primeira ação foi descobrir onde ficava o TRE em Curitiba. Fácil, não? Eh.. a parte difícil foi me dirigir até os confins do Prado Velho, em busca da Justiça Eleitoral. Se eu reclamava das calçadas íngremes do centro da cidade, definitivamente, foi porque nunca andei por ruelas estranhas com pedrinhas, lama e muito mato ao invés de calçadas, mas respirei fundo e no alto do meu salto 10, me equilibrei entre buracos, pedras e terra que fariam o caminho de Santiago de Compostela parecer fichinha.

 

Chegando ao TRE, andei por diversas salas, falei com milhares de funcionários, cada um me indicando um andar e uma sala diferente, e então eu entendi o porquê de chamarmos de “zona” eleitoral. Depois de toda minha peregrinação, acabei na zona 002, que, aparentemente, era onde eu deveria ter ido desde o início, já que, é a zona que abriga meu bairro. Quando pensei que meu problema ia finalmente ser resolvido, entram em cena os agentes do demônio no plano terrestre, também chamados de funcionários temporários do TRE:

- Boa tarde, eu não votei no domingo, nem justifiquei. Estou aqui para preencher os papéis e pagar a multa.

- Você mora em que bairro?

- Alto da XV.

- Hum.. eh.. então vota nessa zona mesmo.

- Não, não.. eu voto em São Paulo, mas eu moro aqui.

- Ah, quer transferir seu título? É só depois do dia 10.

PENSAMENTO INSISTENTE: Yeah.. quero transferir, disse que queria justificar pra ter umas preliminares antes.

- Não, não quero transferir.. não votei nem justifiquei domingo, quero quitar minha dívida com a justiça eleitoral.

- Ah! Mas é de São Paulo, aí você tem que ir para São Paulo.

- Não tem nada que eu possa fazer por aqui? Vou ter que viajar mais de 500 km para resolver isso?

- Porque você não votou domingo?

- Não votei porque estou a mais de 500 km de distância da minha zona eleitoral. Não justifiquei porque tinha perdido minha carteira com meus documentos.

- Votar é exercer seu direito bla bla bla a cidadania bla bla bla a democracia bla bla bla.

PENSAMENTO INSISTENTE: Yeah.. ok, ok.. Não votei porque eu tenho problemas com o álcool.. é isso.. driblei a lei seca e acabei bêbada na sarjeta…. incapacitada de exercer a cidadania.. dá pra resolver meu problema agora?

- Olha, desculpa.. mas agora já foi.. quero resolver o problema. O que podemos fazer?

- Peraí, vou chamar o João.

Chega o tal João:

- Pois não?

- Então, eu não votei domingo e não justifiquei, gostaria de regularizar a situação.

- Porque não votou?

PENSAMENTO INSISTENTE: Sou uma pervertida, a orgia sábado foi tão intensa que terminei algemada na cama. Podemos esquecer a parte do sermão de democracia e nos concentrar no MEU PROBLEMA DE AGORA?

- Perdi os documentos.

- Mas votar é exercer seu direito bla bla bla, a democracia  bla bla bla bla.

PENSAMENTO INSISTENTE: Yeah.. eu sou um ser humano desprezível me chicoteie.

- Ok, mas agora é tarde! Não posso voltar no tempo e cumprir meu dever cívico, mas o que podemos fazer para regularizar a situação?

- Certo, essa é sua zona eleitoral?

PENSAMENTO INSISTENTE: Se eu gritar que eu voto em São Paulo, talvez todos os funcionários nessa sala escutem, aí depois da quinta pessoa que chamarem pra me atender, não vou mais precisar repetir isso.

- Não, eu voto em São Paulo.

- Você é de São Paulo?

PENSAMENTO INSISTENTE: Puta que pariuuuuuuuu…

Sorriso amarelo:

- Sim, sou de São Paulo, mas moro aqui.

- Ah! Que legal.. e está gostando da cidade? Faz tempo que mora aqui?

PENSAMENTO INSISTENTE: Respire, acalme-se.. acalme-se..

- Sim, sim… já moro aqui há uns sete anos. E então, como resolvemos o problema com o título?

- Sete anos? Não quer transferir o título.

- Não, não.. quero pagar a milionária multa de 3 reais, regularizar minha situação e só.

- Ah.. Então.. eu não sei o que fazer, sabe como é.. funcionário temporário. Você não quer esperar o chefe do cartório? Ele já deve estar chegando, ele saberá o que fazer.

PENSAMENTO INSISTENTE: Que seja! Já vim até os confins da terra mesmo.

- Ok, eu espero.

 

Sentei em uma cadeira e esperei. Acho que nunca desejei tanto um homem como desejei aquele tal chefe do cartório. Contava os minutos para ele chegar e o fato é que, 1h20 depois, quando, finalmente, o vi entrando por aquela porta, acho que meu coração acelerou e minhas mãos começaram a suar. Senti vontade de apertar aquelas bochechas, bagunçar aqueles 8-12 fios de cabelo que povoam a sua careca e dizer algo como:

- I never wanted anyone as much as you..

João explica minuciosamente meu problema para o tal chefe do cartório e termina dizendo:

- E então chefe, ela tem que ir para São Paulo, né? Tribunal REGIONAL bla bla bla.. jurisdição bla bla bla

- Ahn.. não.. mocinha.. recuperou seus documentos?

- Sim, o número do título é XXXXXXX

- Ok, já entro no sistema e vejo a sua situação eleitoral. Você só vai precisar pagar uma multa.

PENSAMENTO INSISTENTE: Ah.. eu te amo chefe do cartório eleitoral! Se você tivesse uns 40 anos a menos e mais cabelo.. eu casava com você!

- Hum.. ok..

 

Consulta ao sistema realizada.

- Então.. Maíra, né?

- Isso.

- Então.. consta no sistema que sua situação está regularizada. Você votou domingo.

- Não, não.. não votei… nem justifiquei.

- Não, mas o sistema está dizendo que você votou, tem certeza que não votou?

PENSAMENTOI INSISTENTE: Ah.. de repente né.. vai ver eu uso tóxico.. estava tão drogada que viajei mais de 500 km e votei sem nem me dar conta.

- Olha, eu realmente não votei e não justifiquei, por mais interessante que seja vir até aqui, nesse lugar ermo.. não foi por prazer que o fiz. Eu REALMENTE não cumpri meu dever cívico e vim aqui me acertar com a justiça eleitoral.

- Hum.. alguém votou por você?

- Hein? Nãooo!

- Seu título foi fraudado?

- Ah.. se foi ninguém me ligou avisando que ia fraudar meu título.

- Você realmente não votou?

- Não.

- Bom, sua situação está regularizada, consta tudo normal nos sistemas. Você não precisa fazer nada.

 

Depois de tantas horas perdidas da minha vida, fiz a única coisa que poderia fazer: usei a agenda do meu celular.

- Ei.. Por acaso você está na PUC?

- Por acaso estou.. alguma a coisa a ver com trabalhar aqui e tal.

- Preciso me lamuriar e tomar um suco. Estou perdida nos confins do Prado Velho. Tem uns minutos?

- Para ouvir você se lamuriar, bebendo suco de morango? Claro!! Porque, não?

 

E assim terminei meu dia de quitação eleitoral no bloco amarelo, tomando suco e contando minha incrível vida sofrida, afirmando entender o que ACDC quis dizer com “I’m on the highway to hell”… se tem uma auto-estrada para o inferno, definitivamente, ela passa por aquelas ruelas dos confins do Prado Velho.  





Desilusão ortográfica

2 10 2008

 

 

- Hum… Como é mesmo o seu nome?

- Maíra.

- Ahn?

- M-A-Í-R-A

- Maira?

- Não, não.. Maíííra

- Com “y”?

- Não, com “i”.

- Tem acento?

- Tem sim..

- Onde?

- Ahn.. (Maííííra.. vai ter acento onde? No “r”?Ta.. seja simpática, seja simpática.. sorria) No “i”.

- Mas qual dos dois?

- Oi? (cara de: “comoo assimmm? Como qual dos dois? Dois o que? Que outro “i” teria em Maíra?”)

- Qual dos dois acentos?

- Como assim? (Será uma piadinha daquelas corporativas? Será que eu devo dar uma risadinha? Ninguém pensaria em acento circunflexo em um ‘i’, pensaria?).

- O pinginho ou o risquinho?

- Ahn? (digo com cara de apavorada.. é uma piada.. só pode ser uma piada.. ta bom.. vou dar uma daquelas risadas forçadas.. decidido.. pareça natural.. pareça natural!)

- No “i”.. (diz impaciente.. no maior estilo: “é tão difícil assim responder qual dos dois acentos?”)  o acento é o pinguinho ou o risquinho? (diz enquanto deve pensar: “detesto essas garotas imbecis… vou ter que desenhar?”)

- Hun?.. (cara de medo, muito medo). Acento agudo… (digo tomada pelo pânico).

- O risquinho, né?

- Yeah.. intimamente ele é chamado assim..

- Oi?

- Nada, nada (não é uma piada.. Aiii! Pensamento insistente: “Meu Deus.. me tira daquiiiiiiiiiii”)





Como lidar com vegetarianos psicóticos

11 09 2008

 

- O que você está fazendo? (pergunta ele em tom visivelmente apreensivo).

- Abrindo uma caixinha de leite (ela responde com a famosa expressão “já vai começar”).

- Isso não é leite!! (diz com o conhecido tom de desprezo)

- ÉÉÉÉÉ.. malditas redes de supermercado nos alienando e nos fazendo acreditar que dentro de caixinhas de leite tem leite.

- Você sabe que isso não é leite de verdade, isso aí é conservante puro.

- Na verdade eu ADORO mesmo é o gosto de conservante, se eu pudesse compraria só o conservante, mas o leite vem junto, o que eu posso fazer?

- Você está se matando! Não vê isso?

- Eu sei.. era tomar leite ou me enforcar, fui pelo caminho menos doloroso, admito!

- Você não dá valor a nada mesmo… (diz enquanto abre a geladeira). Ai! M-e-u   D-e-u-s!!! (diz como quem não acredita no que vê).

- O que? O que? O QUE?

- Carne?!?!? Como você pode apoiar o assassinato de animais?

- Não é assassinato, é cadeia alimentar.

- Ahn?

- Veja bem, estou só cumprindo meu papel social. Como representante da espécie homo sapiens é meu dever comer carne. Comer a comida da comida é que seria errado.

- Oi??

- Você prega tanto a defesa dos animais e o que faz? Desequilibra o mundo comendo alface. Como predador natural das vacas é seu dever cívico comer um bife diariamente. Se o ecossistema está assim é por culpa de pessoas como você, que são incapazes de pensar no bem-estar dos animais.

- Eu desregulo o ecossistema??? Eu não respeito os animais? E-U?

- Obviamente. Temos os vegetais (produtores) na base da pirâmide, depois temos os animais herbívoros, acima os predadores, divididos em grupos, e no topo do grupo dos predadores, temos a espécie humana e você está desregulando a pirâmide! Você não se aceita e tenta ocupar o segundo nível trófico,  você é um ser humano e se vê como uma vaca. Tem medo de assumir suas responsabilidades no mundo.

- Maaa-aa-s-ss… ahn.. eu faço isso pelos animais!

- Não, você finge que seus motivos são puros, finge que faz isso para salvar o mundo, mas na verdade está comendo a comida da comida e provocando desequilíbrios ambientais, não se envergonha? Não duvido que o mico leão dourado esteja ameaçado de extinção por sua culpa. Não duvido que os leões estejam desaparecendo das savanas porque as pessoas estão comendo a comida da comida deles. Detesto essas pessoas sem consciência ecológica. Cenoura free!!! Parem com o desequilíbrio ambiental.. comam carne!!!

- Ma-a-a.. - sss

- Nada de “mimimimi.. mas, mas”, senta aí que eu vou te fritar um bife.





Me, myself and chuveiros

9 09 2008

 

Você tenta ser uma mulher superior, independente, senhora de si, corajosa e cool, mas acontece que vez ou outra, o inevitável acontece e você, a garota imperturbável com seu ar de mulher independente, acaba desabando diante do pior problema que uma mulher pode enfrentar depois da falta de creme para pentear: chuveiros.

 

Eu sou uma garota mimada, com os privilégios de quem tem um pai e dois irmãos. Assim, acabei sendo criada dentro de uma bolha, vivendo em um mundo cor-de-rosa, onde problemas elétricos eram inexistentes e nunca fui preparada para usar uma chave de fenda ou reconhecer uma chave allen 1/8.

 

Não sei se são as leis de Murphy agindo, não sei se meu apartamento está localizado justo no limite da declinação mais meridional da elíptica do sol, não sei se eu tenho mais problemas com chuveiros ou se eu só PASSEI A PRESTAR ATENÇÃO NOS PROBLEMAS DE CHUVEIRO, mas o fato é que eu tenho a síndrome da mulher que mora sozinha e, cotidianamente, tenho que lidar com isso. E enquanto estava no ritual matinal envolvendo xampu, cremes e sabonete, me deparei com a falta d´agua. Como qualquer mulher calma e centrada:

 

- Merdaaaaaa! Eu não acredito que acabou a água justo agora. Como diabos a água acaba sem nenhum aviso prévio? Ah não.. eu vou ligar para o síndico agora.. onde já se viu!!! Vou passar o dia com a cabeça cheia de xampu??? Merda! Merda! Merda! Merdaaaa! (resmungo enquanto saio do chuveiro, me enrolando na toalha e procurando pela toquinha de banho rosa com borboletinhas)

 

Antes de mostrar toda minha indignação para com a autoridade do prédio, resolvo abrir toda e qualquer torneira existente em casa e, para meu espanto, em todas a água saia abundantemente, então, seguidora da filosofia que uma garota deve aprender a lidar com seus problemas e desgostos sem que isso acabe em Djavan e chocolate, totalmente independente e senhora de mim, disco os números da salvação, também conhecidos como número de telefone de um representante do sexo masculino:

 

- Socorrooo! Deus está me punindo porque não consigo tomar banho em 10 minutos!

- Porque sempre parece que estamos no meio da conversa quando eu atendo uma ligação sua?

- Está dizendo que nunca sou clara o suficente?

- Não, estou dizendo que você começa a conversa do meio então parte para o começo, volta para o meio, fala compulsivamente e então temos o fim. Mas você não ser clara o suficiente seria minha próxima colocação.

- A minha cabeça está cheia de xampu, poderíamos nos concentrar nos meus problemas e depois nas suas reclamações a meu respeito?

- Sempre egocêntrica.. “meus sentimentos”, “minhas falas”, “meu cabelo cheio de xampu”. Ahn? Cabelo cheio de xampu?!? Porque você saiu do chuveiro para me telefonar?

- Foi uma mensagem do Senhor, Ele se manifestou para Maomé, para Paulo.. parece que chegou a minha vez.

- Oi??

- Meu chuveiro parou de funcionar, tenho que explicar tudo???

- Hum.. o que houve? Queimou?

- Não! Se fosse isso teria terminado de lavar a cabeça, né? Essa coisa de frescura com água gelada é coisa de franguinha! A água acabou.

- Então você se enganou com a mensagem do Senhor para você.  Está claro que ele queria que você ligasse para a SANEPAR.

- Não, porque antes Ele me fez abrir todas as torneiras e a água é abundante, menos no chuveiro, que continua com suas cinco fileirinhas de água e pingos caindo num intervalo de 6 segundos.

- Ai, ai.. você é muito maluca! Posso ver isso a tarde?

- Hum.. já está no trabalho?

- Yeah…

- E as prioridades?

- Tenho certeza que seu chuveiro sabe que ele é muito importante pra mim, mas ele tem que compreender que há homens engravatados sentados em uma sala esperando por uma apresentação em ppt.

- Tudo bem.. eu dou um jeito..

- Nãooo! Se você me disser que vai mexer no chuveiro eu dou uma desculpa e saio agora. É mais fácil do que te salvar de um prédio em chamas.

- Engraçadinho!  Não vou arrumar.. quer dizer.. só vou arrumar uma maneira paliativa de lavar a cabeça.

 

Patéticas cenas de uma mulher na área de serviço do seu apartamento, debruçada sobre o tanque, lavando a cabeça.

 

A tarde ele chega, abre o chuveiro e:

- Certo, o fluxo de água parece bem normal pra mim.

- O que você fez?

- Mexi naquela torneirinha mágica ali e a água começou a sair. Não é bárbaro?

- Deve ser sua máscula presença intimidando o chuveiro.

E tudo funcionou normalmente, até aquele outro dia. Novamente, os mesmos números da salvação:

- Casa comigo?

- Casar? Ué.. pensei que você achasse que o casamento cria semi-zumbis e destrói a forma humana das pessoas.

- Hum.. e acho, mas a gente não precisa casar, podemos só morar juntos. O que acha? Quando traz suas coisas? Hoje?

- Você andou bebendo?

- Eu acho que minha samambaia está precisando de uma figura paternal em casa.

- Doida! (diz gargalhando). Posso saber o que você aprontou?

- Meu chuveiro só funciona com você em casa. O que posso fazer? Ou me mudo, ou paro de tomar banho, ou caso com você. Pareceu o menos complicado, odeio encaixotar coisas e tenho a síndrome de abstinência de sabonetes e xampu… sou asseada o que posso fazer?

- Sempre sentimental!

 

Ferramentas,  fitas, registros e algum tempo depois, o problema foi totalmente resolvido.

 





Síndrome da cidade grande

2 09 2008

 

Eu sou distraída demais para ser paranóica. Autista demais para me preocupar com os perigos da cidade grande e muito amante de música para prestar atenção nas pessoas mal encaradas.

Enquanto meus amigos andam pelas ruas olhando pessoas suspeitas e procurando possíveis rotas de fuga no caso de assalto, eu ando por aí com fones nos ouvidos, cantarolando The Clash.

 

Ao invés de fazer igual todo ser humano paranóico normal e sair de casa em horários diferentes, por rotas diferentes.. eu caminho pelas mesmas calçadas todos os dias, converso com os mesmos guardadores de carros e mostro a língua para o mesmo dono de bar amigo.

 

Se todo mundo sabe que não se deve falar com estranhos, se o certo é segurar a bolsa e sair correndo desesperadamente no primeiro “oi” ou “bom dia” que seja, eu não só respondo, como, algumas vezes, já acabei na “casa do pão de queijo”, tomando cappuccino com desconhecidos, enquanto esperava o ônibus na Marginal Tietê.

 

Por não ser quase nada paranóica, por não me imaginar sendo picada em pedacinhos e desovada num córrego qualquer, as pessoas a minha volta passam a ser paranóicas por mim. Minha mãe tem crises de desespero quando estou andando sozinha pelas ruas de São Paulo, me liga compulsivamente e manda zilhões de sms me mandando tomar cuidado. Quando chego tarde em casa, ela já está em agonia contando quantas horas faltam pra poder dar queixa de desaparecimento, isso sem contar nas vezes que se sente tentada a ligar para o namorado, sogra, cunhada, número qualquer rabiscado num guardanapo, quando não consegue falar comigo.

 

Os amigos entram em pânico e só faltam saltar diante de mim, como se fossem me proteger num tiroteio, quando alguém me dá “bom dia” e eu respondo. E depois escuto broncas no maior estilo “parece que não tem amor à vida”, como se sempre depois do “bom dia” viessem facadas, tiros e socos.

 

Ainda não sei se eu sou paranóica de menos ou se o mundo está paranóico demais, mas dia desses:

- Má, lembra daquele cara no bar?

- Vejamos.. tinha um bar, tinha umas caipirinhas, tinha um drink com sol de limão.. e um cara? Ah sim.. acho que, definitivamente, tinha um cara.

- Ah! Aquele paulistano bonitinho.. o que fez a piada com o canudinho, lembra?

- Hum.. aquele cara com quem você ficou?

- Sim!! Esse cara!

- Certo.. o que tem ele?

- Ele me ligou hoje.

- Ah! Que legal!

- Não é legal.. ele me convidou para sair, acredita?

- O que? Que absurdooo! O que ele está pensando, né? Te liga e depois te convida pra sair? Eu falava uns desaforos. Se ainda por cima ele te der bombons e quiser te pagar cerveja, sei lá.. acho que você deve dar um tapa na cara dele.

- Estou falando sério.. estou com medo.

- Ahn.. desculpe.. me chame de imbecil, mas eu ainda não consegui alcançar o pensamento, medo do que?

- Vai que o cara é um psicopata, vai que o “quer sair comigo” é um eufemismo para “matar, estuprar e picar em pedacinhos”.

- Ahn? Você acha que o cara é meio psicótico? Ele fez alguma coisa estranha?

- Aí que está o problema… nada estranho, muito pelo contrário.. ele parece ser bem legal, divertido e educado.

- Certo, então você pensa que o cara é um psicótico porque ele não parece nada psicótico, é isso?

- E os psicóticos por acaso parecem ser psicóticos?

- Bom, se é pra ficar paranóica assim.. então não saia com ele, oras!

- Ah! Mas eu quero muito sair com ele.

- Então saia com ele, oras!!!

- Err, você tem razão… vou marcar num lugar público.. é isso! Vou ligar pra ele.

Algumas horas depois chega o sms:

- Estou com o cara, por enquanto está tudo bem. Ele tem um carro X da cor Y e o número da placa é WRC678, se eu não der sinal de vida em 1 hora, ligue para a polícia.

Uma hora depois ela liga:

- Ai, pronto.. estou em casa, deu tudo certo, o cara não fez nada. Ai!! Que sufoco!

- Ahn? Ele é gente boa, legal e não te matou e nem te colocou no porta-malas e você está arrependida de sair com ele?

- Ah! Dessa vez tive sorte, mas da próxima vez posso não ter tanta sorte… melhor parar de viver perigosamente assim..





Pessoas reais num mundo surreal II

27 08 2008

 

3h00 da madrugada, toca o telefone. Todos os toques possíveis depois:

- Ahn… Alô

- Eu já falei para você parar de atender esses inconvenientes que te ligam de madrugada.

- Se você parasse de ligar eu não precisaria atender.

- Aí eu deixaria o caminho livre para outros ligarem e você sabe como eu sou possessivo. Você amar outro eu relevo, mas outros te acordando com o estridente barulho do telefone? Não suportaria.

- Não se preocupe, não existe outro além de você, ninguém é tão inconveniente.

- Quer namorar comigo?

- Ahn?

- Namorar.. quer namorar comigo?

- Ah! Claro que sim.. Opa! Espere.. VOCÊ JÁ NÃO TEM UMA NAMORADA?

- Não se preocupe com isso.. eu conheço um cara que conhece uns caras..

- Ahn?

- Ninguém nunca vai suspeitar.. O corpo pode ser desovado em um beco qualquer..

- Boa noite..

- Nãoooo! Espereeeee… me empresta seu carro?

- Essa hora? Pra que?

- Pra desovar o corpo, oras! Se usasse meu carro seria suspeito. Ninguém nunca suspeitaria de você, pra cometer um crime passional tem que ter sentimentos, ninguém acreditaria que você tem sentimentos.

- BOA NOITE.

- Hum.. ou eu poderia só terminar com ela. Que tal? Algo como: “o problema não é você, sou eu”.

- Você está me ligando pra ensaiar como terminar com a sua namorada?

- Devo fazer a moda antiga?

- O que?

- Terminar com ela. Não está prestando atenção na conversa?

- Eh.. Não! Posso voltar a dormir agora?

- Devo ignorá-la igual qualquer macho Neanderthal? Hum.. ou como homem moderno e sentimental que sou.. devo mandar um sms dizendo “acabou.. não me procure mais”? Isso seria rude, não? Talvez só mudar o status do relacionamento no orkut.. de “namorando” para “solteiro”. Sutil, não? E alguém vai acabar avisando pra ela que o namorado dela agora é solteiro.

- Posso voltar a dormir agora?

- Você não está ajudando, sabia?

- Eh..eu sei.. POSSO VOLTAR A DORMIR AGORA?

- Ok, me empresta o carro?





Novela mexicana – Season Finale

4 08 2008

 

Para quem perdeu a incrível parte inicial dessa incrível história com personagens excêntricos e autores de nomes duplos, eis aqui o tutorial de procedimentos:

Opção 1: Use o botão de rolagem do seu mouse e vá até o post anterior.

Opção 2: Em “bobagens fresquinhas”  clique em: “novela mexicana – Parte I”

Opção 3: CLIQUE AQUI

 

Em caráter excepcional teremos PS´s antes do texto.

PS: Informamos que, inicialmente, o nome masculino a ser utilizado seria Rodolfo José, mas como todos os PMNI (personagens masculinos não identificados) e PCIP (personagens com identidade preservada) recebem o nome de “João”, decidiu-se manter a coerência.

PS2: A personagem feminina não foi nomeada por discordância entre os autores.

PS3: Dinho e Má foram mantidos como autores também nesta parte final, o que explica muita, MUITA coisa..

PS4: Ahn.. eu adoro PS´s

 

Novela mexicana – Season Finale

Ele, em uma tentativa desesperada, tenta apelar para os bons momentos:

- Você poderia parar de me atacar e destacar as minhas qualidades, né? Tudo de bom que já fizemos juntos.

- Ok.. vou destacar como você é, mas lembre-se: você que está pedindo.

- Não, mudei de idéia.. Sério, não precisa. Depois desse tempo todo né.. não precisa por em palavras esse sentimento que nutre por mim.

- Nutria, você foi capaz de destruir tudo.

- Já sei! Já sei!

- O que?

- Já tenho uma explicação. Que outra coisa poderia causar esquecimento?

Hein, é isso, foi o álcool!! É culpa do álcool, bebi demais.. Só pode ser isso!!! Uísque maldito

- Não tente justificar o que não tem justificativa. Eu nunca vou te perdoar

- Mas meu amor, você tem que ser a pessoa nobre desta relação, tem que ser a pessoa que está acima da mesquinhez da vida. Saber perdoar e aceitar os outros com seus erros humanos.

- Eu te aceitava com todos seus defeitos porque eu acreditava que havia uma consideração e uma relação ali. Mas também não tenho nada que te perdoar, você não significa mais nada pra mim.. você é só um cara aí, não tinha obrigação de lembrar de nada.

- Poxa! Cadê a paixão enfurecida das palavras?!? Cadê a raiva? Briga comigo, me xinga… Mas não diga que sou só “um cara aí”.

- Perdi a vontade de brigar com você. Brigava porque gostava, agora tanto faz, né?

- Não, não diga isso!!! The dream can not be over!!! Paul is still alive… Existe uma chance, onde há vida há esperança…

- Não tenho mais vontade, O que posso fazer?

- A vontade não pode desaparecer de uma hora pra outra… Algo assim não some, não posso conceber como verdade.

- Não, não foi de uma hora pra outra.. foi cada dia um pouquinho.. até que eu pude enxergar a verdade.. você não me ama.

- Claro que eu te amo.

- Deixei de acreditar nisso…

- As coisas não deixam de ser verdade só porque você parou de acreditar nelas.

- Não era verdade, era uma ilusão.

- Não era e não é!!! Algo tão concreto, tão diário, como você pode dizer que era ilusão?

- Porque se fosse de verdade você lembraria, se importaria.. éramos um passatempo diário um para o outro.

- Passatempo diário? Não senhora! Eu me importo, veja quanto tempo estou aqui tentando dizer que me importo!!! Se não me importasse estaria aqui?

- Sim, devido ao passatempo diário.. Você não deve ter mais nada pra fazer.

- Que é isso!!! Tenho uma prova hoje… outra amanhã, outra na quarta.. Estou correndo risco de reprovação por você, sabia?

- João Carlos, dizer que eu sou mais importante do que uma prova não ameniza nada.. Sabemos que você colocaria qualquer coisa na frente das provas..

- É, realmente não foi um argumento lá muito forte. Mas ainda assim me importo, me importo tanto que faria qualquer coisa pra você me perdoar.

- Qualquer coisa?

- Sim, qualquer coisa…

- Olha só.. vai ter um espetáculo de balé essa semana.. um pessoal da Escandinava..

- Balé? Você sabe que eu odeio balé.

- Sabia! Você não se importa mesmo.

- Desculpe, desculpe. Claro que me importo. Se você quer ..

- A propósito.. cada ingresso custa R$360,00.

- O que? Tudo isso? A não, não, não.. R$360,00 pra ver escandinavos vestindo malhas e saltitando num palco ao som de música estranha?

- Tudo bem, tudo bem.. Se você acha que eu não mereço um agrado às vezes.. que nada significo.

- Ok, ok.. Nós vamos.

- Promete?

- Prometo..

- Jura que vamos? Você não mudará de idéia? Olha que você está dando sua palavra, hein.

- Nós vamos, não mudarei de idéia.

- Ah.. Eu te amo!

- Você sabe que eu também te amo. Não sei como pude esquecer esse dia.. até porque você faz aniversário exatamente um mês depois de mim… (pausa) Ei… espere um minuto.. (pausa).. Estamos em julho. Seu aniversário é um mês depois do meu.. Até onde me lembro nasci em outubro.

- Ok, ok, admito. Hoje não é meu aniversário.

- Que mente diabólica! Que mente diabólica!

- Eu não fiz nada. Você que veio me dando parabéns e implorando perdão por ter esquecido.

- E o que diabos eu tava esquecendo?

- De colocar o lixo pra fora ué… chega bêbado da rua e já quer ir dormir? A propósito.. que fique claro.. nós vamos no balé escandinavo. Foi promessa.. e sabemos que você sempre cumpre suas promessas…

- Mas.. masss..

- Nada de “mas.. mas”.. e vá por o lixo pra fora..e tomar um banho… que você está cheirando a cigarro e bebida.





Amor em tempos de tevê a cabo

28 07 2008

 

 

Ela estava na sala. Ele na cozinha. Ela gargalhava tendo a tevê como companhia. Ele escutava as risadas enquanto pegava mais uma cerveja:

- O que está fazendo? (pergunta ele surgindo na porta da sala).

- “I’m saying it ‘coz it’s true. Inside of us, we both know that you belong with Victor. Is there a Victor in your class?” (diz ela entre risos).

- Hã?

- “We’ll always have Fresno” (ainda rindo).

- Certo, isso pode fazer sentido aí dentro, mas no mundo aqui fora… Repito a pergunta: O que está fazendo?

- Assistindo Dr. House (diz quase suspirando).

- Não tem nada melhor pra fazer não?

- Devo ter.. não quero me gabar, mas meu namorado é conhecido por ter sempre uma vasta e divertida programação na manga. E aí.. o que vamos fazer hoje?

- Hoje? Nossa! Todas as seqüências de Máquina Mortífera. Imperdível!!

- Máquina Mortífera?

- Ah! Não quero me gabar, mas minha namorada é a melhor.. ela vai alugar os dvd´s.

- Ei! Como assim? Sua namorada não sou eu? Teve um pedido, um sim..  eu estava prestando atenção.. nem estava passando House na tevê.. Hum.. ou estava? Será que na verdade você perguntou se eu queria mais cerveja? Ah! Eu nunca me lembro…

- Na verdade eu te pedi em namoro e você disse você disse: “siiimmmm”, com uma empolgação que me comoveu.. e logo depois você completou com: “… de vodka”.

- Ah! Eu sou assim.. uma romântica, o que posso fazer?

- Mas então, já que concordamos que você é minha namorada, eu repito: minha namorada vai alugar os dvd´s!

- Não vai não! Sua namorada vai assistir Dr. House.

- Hummm.. Será que ainda dá tempo de me arrepender? Será que é um sinal pra terminar com você? Eu posso voltar com a minha ex, pelo menos assim eu teria meu box de Máquina Mortífera. Ah.. bons tempos aqueles de namorada submissa.

- Por mim tudo bem, mas dá pra esperar terminar esse episódio? Adoro a parte que ele diz: We have been blessed with the miracle of a new symptom. Brother, can you testifiy as to why this poor child’s eyeball rolled back into his head?”. Depois você pode me deixar em casa, comprar flores e implorar pra voltar com a sua ex.

- Posso te fazer uma pergunta séria?

- Posso responder com interjeições? Há um sério risco de não prestar atenção na pergunta… Já está na parte do “Come on in, brothers and sister! Welcome to the house of the Lord!” Eu mencionei que me amarro nese episódio?

- Desde que você responda com uma interjeição sincera e séria.

- Como seria uma interjeição séria?

- Só prometa que vai responder com sinceridade.

- Quer trazer uma bíblia para que eu faça o juramento de “dizer a verdade, nada mais que a verdade”?

- Lá está você fazendo piada.

- Ok, desculpe, faça sua pergunta séria que responderei.

- Você me trocaria pelo Dr. House sem titubear, não é?

- Ah! Quer um abraço?

- Você prometeu que ia responder seriamente.

- Ah! Essa é a pergunta séria?

- Me trocaria?

- Você está me perguntando se eu trocaria você por um personagem fictício de uma série norte-americana? Mais sério do que isso só se me pedisse pra escolher entre você e o Pepe Legal.

- Eu sabia! Isso foi um sim.. não foi? Só faltou você completar com “.. de vodka”

 





Vida independente - Como matar animais ferozes

9 07 2008

 

No auge dos meus dezessete, dezoitos anos.. consegui a minha independência, ainda comprava danoninho e jujuba, ainda vivia do dinheiro dos meus pais, mas tinha me tornado uma adulta que fazia suas próprias compras no mercado e podia almoçar bolacha (não biscoito, que fique claro!) negresco, se eu quisesse.

Morava sozinha e apesar de sofrer com uma forte crise de abstinência provocada pela falta de tevê a cabo, eu superava a infelicidade disto com as festas open bar da USP.

E nessa vida independente e solitária, em um dia de calor senegalês, em um dia de ar condicionado quebrado, em um dia em que me sentia mais ou menos como o vilão de Exterminador do Futuro II, dissolvendo, me partindo em milhares de partículas e me transformando em uma poçinha, eis que tomo a sábia decisão: 

- Vou dormir de janela aberta, não era isso que os antigos faziam em tempos longínquos, em uma vida de privações.. uma existência sem os prazeres do ar condicionado? Isso! Janela aberta, afinal, eu moro no quinto andar, que perigo uma janela aberta teria?

Então, lá estava eu, reclamando insistentemente do calor absurdo, lembrando como minha criação me estragou e eu me tornei uma pessoa que necessita de um ar condicionado no nevar para ter uma boa noite de sono, mas.. em um determinado momento, fui vencida pelo cansaço.. e em meio aos lençóis de algodão e a falta de vento entrando pela janela.. adormeci.

E lá, nos meus devaneios, lá dormindo e sonhando com camelos e o deserto do Saara, eis que de repente sinto algo em minha perna, instintivamente peguei o travesseiro e bati na perna, jogando o que quer que fosse para longe. Cambaleando, levantei e acendi a luz, então me deparo com aquilo: algo preto, rastejando sobre o piso. Dormindo, sonhando, delirando, pensei comigo:

- O que seria isso? Uma borboleta mutante