Nesses meus vinte e cinco anos de existência, uma grande parcela vivida foi fazendo parte da tal festa da democracia. Muito além de domingos, muito além do título de eleitor aos dezesseis anos. Eu cresci no mundo político.
Tendo uma mãe coordenadora de campanha de diversos candidatos em diversas esferas políticas, palanques sempre fizeram parte da minha vida. Fui a criança bonitinha que entregava flores a candidatos, fui a simpática menina que sorria e entregava santinhos, fui incrivelmente apertada, amassada e abraçada pelo Fleury na campanha pelo governo de São Paulo, fiz inúmeros cata-ventos, distribui brindes, usei camisetas, fui mais apertada, mais espremida e mais abraçada pelo Fleury (foi então que no auge dos meus sete anos.. passei a entender o significado de ODIAR, sentimento nobre que passei a nutrir por cata-ventos, por gente me apertando e pelo futuro governador do Estado).
Hoje em dia, morando em outro Estado, longe de toda a confusão política e da família que se dedica à vida pública, cumpro só meu dever cívico de justificar a minha ausência na minha zona eleitoral. Mas neste domingo de festa da democracia, forças ocultas que regem o universo (também conhecidos como problemas técnicos de alta complexidade), me impediram de comparecer até uma zona eleitoral para justificar o fato de não votar. Foi aí que meu martírio e peregrinação, em busca de regularização do título de eleitor, começaram.
Minha primeira ação foi descobrir onde ficava o TRE em Curitiba. Fácil, não? Eh.. a parte difícil foi me dirigir até os confins do Prado Velho, em busca da Justiça Eleitoral. Se eu reclamava das calçadas íngremes do centro da cidade, definitivamente, foi porque nunca andei por ruelas estranhas com pedrinhas, lama e muito mato ao invés de calçadas, mas respirei fundo e no alto do meu salto 10, me equilibrei entre buracos, pedras e terra que fariam o caminho de Santiago de Compostela parecer fichinha.
Chegando ao TRE, andei por diversas salas, falei com milhares de funcionários, cada um me indicando um andar e uma sala diferente, e então eu entendi o porquê de chamarmos de “zona” eleitoral. Depois de toda minha peregrinação, acabei na zona 002, que, aparentemente, era onde eu deveria ter ido desde o início, já que, é a zona que abriga meu bairro. Quando pensei que meu problema ia finalmente ser resolvido, entram em cena os agentes do demônio no plano terrestre, também chamados de funcionários temporários do TRE:
- Boa tarde, eu não votei no domingo, nem justifiquei. Estou aqui para preencher os papéis e pagar a multa.
- Você mora em que bairro?
- Alto da XV.
- Hum.. eh.. então vota nessa zona mesmo.
- Não, não.. eu voto em São Paulo, mas eu moro aqui.
- Ah, quer transferir seu título? É só depois do dia 10.
PENSAMENTO INSISTENTE: Yeah.. quero transferir, disse que queria justificar pra ter umas preliminares antes.
- Não, não quero transferir.. não votei nem justifiquei domingo, quero quitar minha dívida com a justiça eleitoral.
- Ah! Mas é de São Paulo, aí você tem que ir para São Paulo.
- Não tem nada que eu possa fazer por aqui? Vou ter que viajar mais de 500 km para resolver isso?
- Porque você não votou domingo?
- Não votei porque estou a mais de 500 km de distância da minha zona eleitoral. Não justifiquei porque tinha perdido minha carteira com meus documentos.
- Votar é exercer seu direito bla bla bla a cidadania bla bla bla a democracia bla bla bla.
PENSAMENTO INSISTENTE: Yeah.. ok, ok.. Não votei porque eu tenho problemas com o álcool.. é isso.. driblei a lei seca e acabei bêbada na sarjeta…. incapacitada de exercer a cidadania.. dá pra resolver meu problema agora?
- Olha, desculpa.. mas agora já foi.. quero resolver o problema. O que podemos fazer?
- Peraí, vou chamar o João.
Chega o tal João:
- Pois não?
- Então, eu não votei domingo e não justifiquei, gostaria de regularizar a situação.
- Porque não votou?
PENSAMENTO INSISTENTE: Sou uma pervertida, a orgia sábado foi tão intensa que terminei algemada na cama. Podemos esquecer a parte do sermão de democracia e nos concentrar no MEU PROBLEMA DE AGORA?
- Perdi os documentos.
- Mas votar é exercer seu direito bla bla bla, a democracia bla bla bla bla.
PENSAMENTO INSISTENTE: Yeah.. eu sou um ser humano desprezível me chicoteie.
- Ok, mas agora é tarde! Não posso voltar no tempo e cumprir meu dever cívico, mas o que podemos fazer para regularizar a situação?
- Certo, essa é sua zona eleitoral?
PENSAMENTO INSISTENTE: Se eu gritar que eu voto em São Paulo, talvez todos os funcionários nessa sala escutem, aí depois da quinta pessoa que chamarem pra me atender, não vou mais precisar repetir isso.
- Não, eu voto em São Paulo.
- Você é de São Paulo?
PENSAMENTO INSISTENTE: Puta que pariuuuuuuuu…
Sorriso amarelo:
- Sim, sou de São Paulo, mas moro aqui.
- Ah! Que legal.. e está gostando da cidade? Faz tempo que mora aqui?
PENSAMENTO INSISTENTE: Respire, acalme-se.. acalme-se..
- Sim, sim… já moro aqui há uns sete anos. E então, como resolvemos o problema com o título?
- Sete anos? Não quer transferir o título.
- Não, não.. quero pagar a milionária multa de 3 reais, regularizar minha situação e só.
- Ah.. Então.. eu não sei o que fazer, sabe como é.. funcionário temporário. Você não quer esperar o chefe do cartório? Ele já deve estar chegando, ele saberá o que fazer.
PENSAMENTO INSISTENTE: Que seja! Já vim até os confins da terra mesmo.
- Ok, eu espero.
Sentei em uma cadeira e esperei. Acho que nunca desejei tanto um homem como desejei aquele tal chefe do cartório. Contava os minutos para ele chegar e o fato é que, 1h20 depois, quando, finalmente, o vi entrando por aquela porta, acho que meu coração acelerou e minhas mãos começaram a suar. Senti vontade de apertar aquelas bochechas, bagunçar aqueles 8-12 fios de cabelo que povoam a sua careca e dizer algo como:
- I never wanted anyone as much as you..
João explica minuciosamente meu problema para o tal chefe do cartório e termina dizendo:
- E então chefe, ela tem que ir para São Paulo, né? Tribunal REGIONAL bla bla bla.. jurisdição bla bla bla
- Ahn.. não.. mocinha.. recuperou seus documentos?
- Sim, o número do título é XXXXXXX
- Ok, já entro no sistema e vejo a sua situação eleitoral. Você só vai precisar pagar uma multa.
PENSAMENTO INSISTENTE: Ah.. eu te amo chefe do cartório eleitoral! Se você tivesse uns 40 anos a menos e mais cabelo.. eu casava com você!
- Hum.. ok..
Consulta ao sistema realizada.
- Então.. Maíra, né?
- Isso.
- Então.. consta no sistema que sua situação está regularizada. Você votou domingo.
- Não, não.. não votei… nem justifiquei.
- Não, mas o sistema está dizendo que você votou, tem certeza que não votou?
PENSAMENTOI INSISTENTE: Ah.. de repente né.. vai ver eu uso tóxico.. estava tão drogada que viajei mais de 500 km e votei sem nem me dar conta.
- Olha, eu realmente não votei e não justifiquei, por mais interessante que seja vir até aqui, nesse lugar ermo.. não foi por prazer que o fiz. Eu REALMENTE não cumpri meu dever cívico e vim aqui me acertar com a justiça eleitoral.
- Hum.. alguém votou por você?
- Hein? Nãooo!
- Seu título foi fraudado?
- Ah.. se foi ninguém me ligou avisando que ia fraudar meu título.
- Você realmente não votou?
- Não.
- Bom, sua situação está regularizada, consta tudo normal nos sistemas. Você não precisa fazer nada.
Depois de tantas horas perdidas da minha vida, fiz a única coisa que poderia fazer: usei a agenda do meu celular.
- Ei.. Por acaso você está na PUC?
- Por acaso estou.. alguma a coisa a ver com trabalhar aqui e tal.
- Preciso me lamuriar e tomar um suco. Estou perdida nos confins do Prado Velho. Tem uns minutos?
- Para ouvir você se lamuriar, bebendo suco de morango? Claro!! Porque, não?
E assim terminei meu dia de quitação eleitoral no bloco amarelo, tomando suco e contando minha incrível vida sofrida, afirmando entender o que ACDC quis dizer com “I’m on the highway to hell”… se tem uma auto-estrada para o inferno, definitivamente, ela passa por aquelas ruelas dos confins do Prado Velho.