Desabafos: !@#$%¨&*

26 08 2008

 

Eu raramente falo palavrões. O máximo que faço é usar um “merda” aqui, um “fucking alguma coisa” acolá, mas, ainda assim, é muito raro falar palavrões.

 

Não podemos culpar o tipo de educação que me foi ministrada, meus pais fizeram o possível. Não tive uma educação reprimida, meu pai sempre soube o valor de um “filho da puta”, minha mãe sempre soube reconhecer a importância de um “caralho” no fim das frases, meus irmãos, desde cedo, sabiam mandar um “vai tomar no cu” impecável. Mas, ainda assim, a minha criação não me ajudou muito a desenvolver esse lado “porra”. Eu? Ah! Em 25 anos de existência, nunca fui capaz de mandar alguém tomar no cu. Patético, eu sei!

 

Em meus surtos de ódio eterno, em meus dias de raiva absurda, naqueles momentos de descontentamento com o mundo e com os seres que nele habitam, eu, tentando mostrar que minha educação se foi junto com qualquer resquício de uma alma interiorana, sou pateticamente incompetente na arte de ser cruel e rude. Alguém pode levar a sério uma pessoa que, num surto de raiva, solta o amedrontador, agressivo e cruel “vá catar coquinho”? (utilizado já no ápice da agressão verbal).

 

Agressões pessoais? Enquanto pessoas normais, que sabem o que é uma sociedade e as regras invisíveis que a regem, sabem que tem momentos que só um “filho da puta” é capaz de resolver, eu, excêntrica e com distúrbios de personalidade, só sou capaz de utilizar termos humilhantes e pejorativos do mesmo naipe de: pastel, pateta e besta.

 

Em meus devaneios noturnos, em meus delírios solitários, quando minha mente viaja livre, sou aquela pessoa cruel, maldosa, antipática e rude, amaldiçoada pelos outros seres humanos, tamanha a minha crueldade e agressividade na hora de dizer um “porra seu filho da puta, não fode”.  Na minha paranóia tão real quanto possa ser uma ilusão criada, vivo dias de antipatia, rudeza e crueldade convincentes.

 

Mas, tendo sido dormida a noite, toca o despertador, a realidade volta com sua repetitividade diária, com seus problemas vazios, com seu passar abstrato de segundos, minutos, horas, anos… E eu continuo sendo aquela pessoa incapaz de mostrar minha indignação mundana com um sonoro “vai tomar no cu”.. LAMENTÁVEL!





Em total reclusão desse lugar chamado mundo virtual

15 05 2008

 

Meus queridos amigos, leitores assíduos, passantes virtuais e pessoas que procuram coisas estranhas e práticas não ortodoxas envolvendo fio terra, pasta de dente, desentupidor de pia, animais e KY gel, é com muito pesar que, por motivo de força maior, comunico meu afastamento do mundo virtual por alguns dias.

 

Lamento por todos os e-mails que não respondi, mas, por favor, não nos tire do seu “favoritos”, seu e-mail é muito importante para nós. Por favor, aguarde seu e-mail será o próximo a ser respondido.

A comunicação será restabelecida, novos textos publicados e os e-mails devidamente respondidos, assim que possível. Até lá.. faça como eu.. leia Clarice.

“Sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, não Lóri mas o seu nome secreto que ela por enquanto ainda não podia usufruir, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiros que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos da gratidão mais límpida, faz de conta que tudo o que tinha não era de faz-de-conta, faz de conta que se descontraíra o peito e a luz dourada a guiava pela floresta de açudes e tranqüilidade, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro - pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver”

[Clarice Lispector: Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres]

 





O interminável final de semana

30 03 2008

Final de semana, música alta, risadas na mesa, discussões bobas de bar, muita gente. Confusão de pessoas, banda ao vivo. Algo como a quarta ou quinta dose da noite.

Ela cantava, junto com a banda, rouca e sem fazer questão de ser afinada, acompanhando a letra de uma das cantoras prediletas: “um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer, me libertei daquela vida vulgar…”

Toca o celular. No identificador de chamadas o número que ela sabia, não traria boas notícias, afinal, ele nunca ligaria naquele dia, naquela hora, daquele número, se não fosse para começar a frase com: “não sei como dizer, mas..”. Ela atende com apreensão, já perguntando:

- O que aconteceu?

- Onde você está?

- Oi?? Não estou te ouvindo direito?

- Nossa! Que barulheira. Está em uma festa?

- Estou em um bar.

- Hum.. bar…

- Sim, por quê? Está acontecendo algo?

Ligação ruim, muito barulho em volta dela, ele diz alguma coisa, ela não escuta direito. Música ao fundo, risadas, gente falando. Enquanto ela caminha em busca de um lugar longe dos amplificadores alguém a chama, lhe diz alguma coisa, ela não presta atenção. O garçom entrega a ela um copo, algum drink de nome desconhecido, cujo único ingrediente realmente sabido é a vodka. Ele continua falando alguma coisa ao telefone, ela sem entender direito vai respondendo com interjeições. Ela vai se afastando da confusão de pessoas, da música e das risadas, quando escuta:

- Ele morreu.

- O que? Acho que não entendi direito.

Ele faz uma pausa e repete a parte final:

- Ele morreu.

Silêncio. Era como se a linha do tempo acabasse, como se o tempo parasse e ela retrocedesse em seus atos e revivesse suas ações, fragmentos da sua vida passada. Uma vida que parecia muito distante, onde ela era agora expectadora e não personagem.

Silêncio, silêncio este só quebrado pela voz preocupada e rouca dele:

- Você está aí? Você está bem? Você me ouviu? Entendeu o que eu disse?

Silêncio dela, por mais alguns eternos segundos:

- Sim… (ela responde ainda meio confusa).

Ele então continuou a falar. Velório, enterro, passagens de avião, conexões, datas, horários, pessoas, lugares, consolo.

Ela diz que já está indo pra casa, desliga o telefone e toma, de uma só vez, a última dose de vodka da noite. Já não escutava mais os risos, parecia não ter mais ninguém naquele bar além dela, mas no meio do silêncio que ela se encontrava, ainda podia ouvir a música ao fundo: “day after day, alone on the hill, the man with the foolish grin is keeping perfectly still. But nobody wants to know him, they can see that he’s just a fool..”

O garçom passa novamente por ela e pergunta se ela quer mais alguma coisa. Ela balança a cabeça afirmamente e diz quase sem voz:

- Whisky duplo, sem gelo.

Tomou o whisky e foi embora, mas o gosto amargo na boca e na vida continuou por todo o interminável final de semana.





Meus dias de camada de ozônio

16 01 2008

Minha mãe sempre teve pânico de dentista e isso acabou resultando na minha criação. Tentando evitar a todo custo que seus pobres filhos sofressem horrores, ela fez tudo o que estava ao seu alcance, utilizando as técnicas milenares: pasta de dente sabor tuti-fruti, escova de dente com cabos coloridos cheios de desenho e doses cavalares de flúor.

Eu, uma compulsiva desde criança, fiquei aficionada por esse negócio de escovar os dentes, tudo culpa da escova com tampinha com glitter e cabo de palhaço, isso sem contar o fato da pasta ter sabor de chiclete. Enfim, eu passava minhas tardes revezando entre a vontade de brincar de boneca e os surtos de “mãe, não tá na hora de escovar os dentes?”. Graças a isso eu tive uma infância anormal, sem ter uma mísera cárie que fosse. Enquanto meus amigos contavam histórias mirabolantes envolvendo o apavorante barulho do motorzinho dos dentistas, eu só tinha pra contar a medíocre aplicação de flúor nos dentes.

Sempre que ia a novos dentistas me sentia um cavalo em exposição, eles chamavam colegas, passantes, secretárias, pacientes, qualquer ser vivo que andasse sobre duas pernas e diziam:

- Olha essa menina.. não tem uma cárie.

- Ela não tem tártaro, como pode? Nadinha!

- Uau! Veja esse canino.. Que canino tem essa garota!

Desde então passei a entender como um mico leão dourado se sentia. E minha vida foi assim, sem maiores emoções. Nem o siso eu precisei arrancar, eles simplesmente nasceram e ocuparam seu lugar no mundo. Mas.. semana passada:

- Olha se alguma coisa me acontecer, saiba que eu gosto muito de você, viu? Sempre gostei.. todas aquelas implicâncias sempre foram gratuitas.

- Do que você está falando sua doida?

- Amanhã tem a cirurgia. E eu não queria tomar a anestesia sem antes te dizer isso.

- Cirurgia? Que cirurgia? O que você tem? Ontem tava tudo bem…

- Pois é, mas em visitas de rotina ao médico a gente descobre cada coisa..

- Mas você vai ficar bem? Tem risco?

- Ah.. cirurgia, né? Sempre tem um risco..

- Você está me deixando assustado.

- Não, não fique.. se tiver chegado minha hora..

- O que você tem Má? Câncer? (insira aqui o nome da doença grave que você citou)

- Não.. um pré-molar..

- O QUE?

Pré-molar, sabe? Um dente..

- Oi?

- Vou ter que arrancar um dente.. um que apareceu do nada.. que está sobrando.. um pré-molar, escondido na gengiva..entre dois pré-molares que já nasceram e ocuparam seu lugar no mundo.

- Sua besta! E eu aqui todo preocupado e a senhorita vai só arrancar um dente? Desde antes do Tiradentes ninguém morreu por isso.

- Ah, mas vai que não é só isso.. vai que isso é só um sinal. Pior, vai que isso é pra despistar algo realmente grave… vai que eu estou lá.. sentada na cadeira e de repente entro em choque, aí vou pro hospital e ninguém sabe o que eu tenho.. aí eu vou ficar agonizando..

- Vou te proibir de assistir Dr. House, está entendendo?

E foi assim que eu tive a minha primeira história de dentista pra contar, com 24 anos, munida de muita coragem e deixando bem claro: “pode usar anestesia sem dó.. doses cavalares.. se for preciso me deixe sem sentir até os dedos dos pés”. E então, eu encarei mais do que os 15 minutos de sempre naquela cadeira.

Não sei como foi, fechei os olhos e me recusei a ver qualquer agulha, três anestesias depois e muito analgésico, só sentia a pressão nos dentes e as palavras reconfortantes da dentista “fica calma, que já está acabando”. Uma hora depois, com a boca incrivelmente torta, muito cimento cirúrgico e a pressão baixa, o sofrimento acabou, ou eu achei que sim, até ouvir as palavrinhas: “agora você vai à farmácia e toma essa injeção”. Mais do que qualquer coisa, eu odeio agulhas, até acupuntura me dá aflição.. arrancasse todos os meus dentes, mas não me pedisse pra tomar uma injeção. Bem, infelizmente meu pai não achou que poderíamos simplesmente ignorar as receitas médicas e me arrastou até a farmácia. Chegando lá a farmacêutica me levou até a temida sala das injeções. Respirei fundo, levantei a manga da blusa, fechei os olhos e disse:

- Pode aplicar no braço direito.

- Não, não.. essa não pode ser aplicada no braço.

- NÃOOO?? (pergunto em aparente desespero)

- Não, mas olha.. no bumbum dói menos, fica tranqüila e abaixa a calça.

Depois que fiz 13 anos pensei que nunca mais ia passar por esse negócio de tomar injeção ali, mas tudo bem.. me conformei. Quando já estava preparada, a farmacêutica disse:

- Acho melhor você se escorar na parede.

- Moça! Assim você está me assustando (digo eu em desespero mais do que evidente)

- Não fique nervosa, vai doer, mas vai ser rápido.

Rápido.. claro, injeção dolorida no dos outros é refresco mesmo. Bem, mas passei o resto do dia tão ocupada com os efeitos da injeção e utilizando bolsa de água quente que até esqueci daquele buraco na boca, buraco este só semelhante aos presentes na camada de ozônio, tirando aquela coisa de filtrar raios nocivos ao ser humano, de resto.. os efeitos ruins deveriam ser o mesmo.

Deus, da próxima vez, por favor, me mande uma cárie.





O ritual exorcista

1 10 2007

Sou a filha do meio, ou seja, na minha infância fui uma pobre criança inocente, vítima das idéias absurdas do meu irmão mais velho.  Ele que estava do meu lado no balanço incentivando a ir “mais forte”, quando tudo despencou e eu obtive as minhas primeiras cicatrizes. Sem as idéias mirabolantes dele também nunca teria quebrado o braço, cortado a perna numa corda de varal, mas principalmente, sem ele nunca teria praticado um ritual exorcista.

Eu era bem novinha, mas bem novinha mesmo.. era nos tempos áureos da Xuxa. Passei por aquela fase de ter o cabelo amarrado daquele jeito ridículo, tinha uma coleção de discos da Xuxa e nas minhas festas de aniversário sempre tocava i-la-riê. Não que eu fosse muito fã da Xuxa, eu sempre gostei mais da Mara Maravilha (mas negarei isso até a morte em conversas formais), mas era febre entre os pais distribuir aos filhos coisas da Xuxa e foi assim, em um natal, que ganhei minha primeira boneca da Xuxa.

Era uma boneca, eu era uma criança, relação perfeita, quer dizer.. quase perfeita.. a maior diversão do meu irmão era me assustar com histórias mirabolantes envolvendo brinquedos que se rebelavam e matavam seus donos enquanto eles dormiam, graças a isso todas as noites eu trancava todos meus brinquedos dentro do guarda-roupa.

Bem, mas a boneca da Xuxa foi um caso especial. Meu irmão dizia algo sobre um pacto com o demônio (eu não sabia o que era um demônio, mas felizmente eu tinha meu irmão mais velho para me explicar direitinho essas coisas. Foi então que fiquei sabendo que demônio era nada mais, nada menos, do que o palhaço assassino - que tinha balões de todas as cores - do filme “It”). Meu irmão me relatou a quantidade de casos confirmados de pessoas que morreram por causa das bonecas. Descreveu com riquezas de detalhes como as crianças foram encontradas ensangüentadas tendo ao seu lado apenas a boneca com as mãos sujas de sangue, então, pela integridade da família ele me disse que eu como dona do brinquedo só poderia tomar uma decisão: “matá-la antes que ela nos matasse”, era por um bem maior, o que eu poderia fazer?

Ele disse que teríamos que fazer um ritual exorcista, fosse lá o que isso significasse eu fiquei feliz, pois ele disse que eu poderia ficar com as roupinhas da boneca.

Naquela noite eu deixei a boneca amarrada, dentro de um saco plástico e a coloquei dentro de uma caixa de sapato, trancando-a dentro do guarda-roupa do meu irmão, para que ela não resolvesse matar a gente naquela noite, se antecipando ao nosso tal ritual exorcista que só poderia ser feito na manhã seguinte.

Pela manhã chamamos o vizinho para participar do ritual. Fizemos um buraco no quintal de casa. Meu irmão providenciou álcool, jornal e uma caixa de fósforo. Encharcamos a boneca de álcool.. e colocamos fogo.. ele disse que eu tinha que cantar i-la-riê para dar certo.. então.. lá estava eu cantando enquanto a boneca pegava fogo.

De repente aparece minha mãe histérica na janela, gritando.. mandando a gente sair de perto do fogo, não sei bem o que ela disse porque tentava me concentrar na letra da música. Quando dei por mim ela já estava do lado da gente com um balde de água e esbravejando.

- Que diabos vocês estão fazendo? Onde conseguiram o álcool? No que estavam botando fogo?

- Mãe, ela ia matar a gente – digo eu orgulhosa por ser uma heroína.

- Ela quem?

- A Xuxa.. ela fez um acordo com o palhaço dos balões coloridos.

- Como é que é?

- Milhares de crianças morreram.. MILHARES!

- Você está me dizendo que você queimou a sua boneca?

- Não foi queimar, foi ritual exor.. exor.. Como é mesmo?

Levei uma bronca enorme da minha mãe, aparentemente o papai Noel tinha gasto uma boa parte do salário dele pra me comprar aquela boneca, mas não tinha problema, afinal, eu e meu irmão tínhamos salvado a família do trágico destino.. morrer e ser encontrada ensangüentada ao lado da boneca da Xuxa. Sim, sim.. a Xuxa, aquela mesmo que tinha feito acordo com o palhaço.

Desde então nunca mais quis saber de nada referente à Xuxa e no natal seguinte escrevi uma cartinha indignada para o papai Noel.. onde já se viu.. me dar de presente uma boneca que já tinha matado milhares de crianças.. que me desse um banco imobiliário então, oras.





Expressões antigas

14 08 2007

Quando eu era criança eu vivia ouvindo aquelas expressões malucas do tempo do Uepa (minha mãe adorava essa) que meus avós, tios, pais e etc. costumavam usar. Mas definitivamente duas me marcaram: tirar água do joelho e subir no telhado.

Tirar água do joelho

Essa eu vivia ouvindo dos meus tios. Era sempre assim, estávamos sentados em alguma festa de família, em algum churrasco, em algum leilão de gado (sim, frequentava leilões), bares, lanchonetes.. e sempre, sempre, SEMPRE.. de repente um dos meus tios dizia:

- Vou tirar água do joelho (e sumia por uns instantes).

Era uma dúvida que me atormentava. Onde eles iam? Como tiravam água do joelho? Depois comecei a reparar que iam ao banheiro, mas ainda não sabia que raios era tirar água do joelho. Até compartilhei toda essa minha angústia com os colegas de escola e nenhum de nós, estudantes da primeira série, tínhamos tirado água do joelho na vida, o que causou um medo geral, porque mais grave do que não saber como tirar água do joelho, era pensar nas conseqüências disso.

A coisa começou a tomar proporções inimagináveis e o pânico tomou conta de toda a série, então, tivemos que contar para a professora que queríamos tirar água do joelho e que precisávamos saber como se fazia isso. Bem, assim que ela conseguiu parar de rir, ela tranqüilizou a todos, explicando que só os tios precisavam tirar água do joelho. E a paz voltou a reinar na vida das crianças da primeira série. 

Subir no telhado

Minha mãe adorava usar essa expressão pra suavizar notícias de morte, mas claro, as únicas perdas que tive na minha infância foram de cachorros, então em um dia, minha mãe tentando suavizar ao máximo a morte da minha cachorrinha predileta, veio delicadamente e disse:

- Olha só minha filha.. a Lili subiu no telhado.

Essa frase foi seguida por minutos de silêncio da minha parte. Eu imaginava como diabos ela tinha conseguido subir no telhado. Mas fiquei toda orgulhosa, Lili era uma super cachorra… me defendia dos ratos que vez ou outra apareciam no quintal e matava baratas. Isso sem dizer no quanto eu admirava Lili, ela conseguia sair de casa sem precisar pedir autorização. Fazia as mais incríveis manobras pra sair de casa, se valendo de todas as artimanhas possíveis. Conseguia abrir a porta da cozinha, corria até a sala para pular a janela e escapar pelas grades do portão da frente. Lili era o máximo, e agora tinha feito mais uma proeza: conseguia subir no telhado, mas também já comecei a pensar que ela devia estar desesperada querendo descer, pensando que ela não sabia como fazer pra sair de lá, já que, pular seria difícil, o telhado era bem mais alto do que a janela da sala. Então eu disse para minha mãe:

- Ah! Então vamos pedir pro Paulinho tirar ela de lá.

- Não, o Paulinho não pode tirar ela de lá.

- Hum.. o papai pode?

- Não.. veja só.. ela não subiu no telhado, no sentido de subir no telhado.

- Ah! Mas você disse que ela subiu no telhado.

- Não, é força de expressão.. eu quis dizer que ela morreu.

- Ela caiu do telhado?

- Não, ela não subiu no telhado…

Então eu comecei a chorar e fui correndo até meu pai:

- Pai, pai.. a Lili morreu… ela caiu do telhado.

- Caiu do telhado?

Desde então minha mãe nunca mais usou essa expressão antes de me dar notícias tristes.





O mês de junho

24 06 2007

Se existe o inferno na terra seu nome é mês de junho, mas um amigo, em um momento “faça você mesmo livros de auto-ajuda”, utilizando a pequena ajuda de um consagrado monstro da literatura internacional, tentando desesperadamente ressuscitar em mim o espírito “Pollyana” (personagem de um livro infantil, cujo título também era – tchan, tchan, tchan - Pollyana), disse: “se apegue a Shakespeare que dizia: ‘Não existe longa noite de trevas que não encontre a luz do sol’..”.

Pois bem, discordo de Shakespeare, esses dias de trevas não só existem, com são popularmente conhecidos como “dias do mês de junho”.

Em meio a frases do tipo “Ma, você está perdendo seu brilho” e entre tantos instrumentos do demônio no plano terreno, tais como: sistemas parando funcionar, Word possuído (faltando só o monitor girar 360 graus), alergias, prazos, crises de TPM, gastrite, chiliques, ataques de mulherisse, estresse, a natureza se manifestando em sua forma mais primitiva, deixando clara a incapacidade humana perante pássaros e outros etc., vou sobrevivendo.

Mas claro que muitos dirão “ah claro Má, porque as coisas estão dando erradas pra você, o mês de junho deve ser banido do calendário, egocêntrica é pouco, não?”. Está certo, seria egocentrismo chamar o mês de junho de ruim apenas por minha causa, mas eis que descubro que o mês de junho é quase uma praga, atingindo muitos outros inocentes e descubro mais… EU NÃO SABIA DE NADA. 

Cena I

 Ué.. aquele ali com aquela garota parece o, espere.. é o… Hum.. e aquela garota, bem.. aquela garota não é a…

- Oi Má! (abraço apertado) que saudades de você! Nunca mais veio nos ver.

- Oi o caramba!! Como você tem coragem de fazer isso com sua namorada? E ainda vem me abraçando? Que cínico!! Porra! Minha amiga.. Cadê ela, hein? Eu acho uma tremenda sacanagem com ela. Poxa! Minha amiga blá blá blá

- Calma, me deixa explicar..

- Explicar nada, vai dizer que não é nada disso que eu estou pensando? Blá blá blá

- Não.. é exatamente isso que você está pensando.

- Blá blá blá (ficha caindo) Oi? O que disse?

- É exatamente isso que está pensando.. Essa é minha nova namorada.. eu e sua amiga terminamos.

- Ops! Eu não sabia de nada…

Cena II

- Alô.

- Oi! Tudo bem com você? Passei pela loja pra falar com você e não te vi…

Ela começa a chorar desesperadamente.

- Nossa! O que foi? Aconteceu alguma coisa?

- Fui demitida (soluços)… há duas semanas já.

- Ops! Eu não sabia de nada. 

Cena III

- Amiga! Que saudades!! Como você está? Eu sei que ando sendo muito relapsa, não tenho vindo pra cá tanto quanto gostaria.. nem ficado tanto tempo… mas eu vou melhorar..

- Agora estou bem, mas queria que você estivesse aqui nesses períodos ruins.

- Por quê? Aconteceu algo?

- Eu perdi o bebê.

- Como?

- Então..tive uma hemorragia, blá blá blá

Penso comigo, “mas que bebê?”, “tinha um bebê?” “nossa, ela tava grávida”. Eu não sabia de nada. 

E pra fechar com chave de ouro: 

Cena IV

- Má, fiquei tão preocupada. Como está tudo? Ele está no hospital?

- Oi?

- É.. deu tudo certo na operação? Ele está internado ainda? Pensei em fazer uma visita..

- Peraí.. do que estamos falando?

- Da operação do seu pai.. queria saber se deu tudo certo.

- Como é que é? Meu pai foi operado?

- Ai! Você não soube o que aconteceu?

- Nãoooo! (em tom desesperado) EU NÃO SABIA DE NADA!! 

And the Oscar goes to…. Maíra Correia pela excelente atuação como pessoa muito perdida, amiga muito relapsa e filha muito desnaturada..





Como quase enfartar sua mãe

17 05 2007

- Você soube o que aconteceu com o seu irmão?

- Pois é.. Ainda bem que não aconteceu nada mais sério.. quer dizer..só com o carro..

- Que carro?

- Como que carro? O palio oras..

- Do que você está falando?

- Do acidente…

- QUE ACIDENTE???

- Do que você estava falando?

- Do problema com o cartão ué

- Ops! Então, o que aconteceu com o cartão mesmo?

- Vocês estão todos me enganando.. ele está no hospital… eu sei que ele está! Ai Meu Deus!! Meu nenê, eu sabia.. eu sabia.. não falei com ele hoje. Que hospital ele está? O que aconteceu? Ele está muito mal, né?

- Nãooo! Ele está bem, não está em hospital nenhum. Só tem uns arranhões.. o olho roxo, nem quis ir no hospital.

- Ai! Como não? Ele pode se sentir bem, mas pode estar com uma hemorragia interna. Estou voltando pra casa AGORA. Será que tem ônibus essa hora? Meu Deus! Meu Deus! O meu nenê.

- Me ouça!!! Ele está bem, ele não tem uma hemorragia interna, NÃO ACONTECEU NADA DEMAIS, só um problema com o carro.

- Que problema?

- Perda total, capotaram…

- Me chama seu irmão agora.

- Ah! Ele não está.

- Sabia! Está internado, está na UTI, você está me enganando. Vocês vivem me escondendo as coisas. Ia me dizer quando? No velório (lágrimas, lágrimas).

Então.. você agradece por terem inventando o celular:

- Ei, onde você está?

- Na rua com os amigos, porque?

- Ligue para sua mãe e diga que não está internado, que não tem uma hemorragia interna e que você está muito bem. Se tiver em mãos seu RG e CPF, passe pra ela, pra ela acreditar mesmo que é você e não alguém contratado por mim pra dizer que você está vivo, se preciso utilize fatos da infância para convencê-la que você é você.

- hahahahahahahahaha. Já ligo.

- Não esqueça da parte “eu estou vivo mãe”, é de suma importância.