Minha mãe sempre teve pânico de dentista e isso acabou resultando na minha criação. Tentando evitar a todo custo que seus pobres filhos sofressem horrores, ela fez tudo o que estava ao seu alcance, utilizando as técnicas milenares: pasta de dente sabor tuti-fruti, escova de dente com cabos coloridos cheios de desenho e doses cavalares de flúor.
Eu, uma compulsiva desde criança, fiquei aficionada por esse negócio de escovar os dentes, tudo culpa da escova com tampinha com glitter e cabo de palhaço, isso sem contar o fato da pasta ter sabor de chiclete. Enfim, eu passava minhas tardes revezando entre a vontade de brincar de boneca e os surtos de “mãe, não tá na hora de escovar os dentes?”. Graças a isso eu tive uma infância anormal, sem ter uma mísera cárie que fosse. Enquanto meus amigos contavam histórias mirabolantes envolvendo o apavorante barulho do motorzinho dos dentistas, eu só tinha pra contar a medíocre aplicação de flúor nos dentes.
Sempre que ia a novos dentistas me sentia um cavalo em exposição, eles chamavam colegas, passantes, secretárias, pacientes, qualquer ser vivo que andasse sobre duas pernas e diziam:
- Olha essa menina.. não tem uma cárie.
- Ela não tem tártaro, como pode? Nadinha!
- Uau! Veja esse canino.. Que canino tem essa garota!
Desde então passei a entender como um mico leão dourado se sentia. E minha vida foi assim, sem maiores emoções. Nem o siso eu precisei arrancar, eles simplesmente nasceram e ocuparam seu lugar no mundo. Mas.. semana passada:
- Olha se alguma coisa me acontecer, saiba que eu gosto muito de você, viu? Sempre gostei.. todas aquelas implicâncias sempre foram gratuitas.
- Do que você está falando sua doida?
- Amanhã tem a cirurgia. E eu não queria tomar a anestesia sem antes te dizer isso.
- Cirurgia? Que cirurgia? O que você tem? Ontem tava tudo bem…
- Pois é, mas em visitas de rotina ao médico a gente descobre cada coisa..
- Mas você vai ficar bem? Tem risco?
- Ah.. cirurgia, né? Sempre tem um risco..
- Você está me deixando assustado.
- Não, não fique.. se tiver chegado minha hora..
- O que você tem Má? Câncer? (insira aqui o nome da doença grave que você citou)
- Não.. um pré-molar..
- O QUE?
- Pré-molar, sabe? Um dente..
- Oi?
- Vou ter que arrancar um dente.. um que apareceu do nada.. que está sobrando.. um pré-molar, escondido na gengiva..entre dois pré-molares que já nasceram e ocuparam seu lugar no mundo.
- Sua besta! E eu aqui todo preocupado e a senhorita vai só arrancar um dente? Desde antes do Tiradentes ninguém morreu por isso.
- Ah, mas vai que não é só isso.. vai que isso é só um sinal. Pior, vai que isso é pra despistar algo realmente grave… vai que eu estou lá.. sentada na cadeira e de repente entro em choque, aí vou pro hospital e ninguém sabe o que eu tenho.. aí eu vou ficar agonizando..
- Vou te proibir de assistir Dr. House, está entendendo?
E foi assim que eu tive a minha primeira história de dentista pra contar, com 24 anos, munida de muita coragem e deixando bem claro: “pode usar anestesia sem dó.. doses cavalares.. se for preciso me deixe sem sentir até os dedos dos pés”. E então, eu encarei mais do que os 15 minutos de sempre naquela cadeira.
Não sei como foi, fechei os olhos e me recusei a ver qualquer agulha, três anestesias depois e muito analgésico, só sentia a pressão nos dentes e as palavras reconfortantes da dentista “fica calma, que já está acabando”. Uma hora depois, com a boca incrivelmente torta, muito cimento cirúrgico e a pressão baixa, o sofrimento acabou, ou eu achei que sim, até ouvir as palavrinhas: “agora você vai à farmácia e toma essa injeção”. Mais do que qualquer coisa, eu odeio agulhas, até acupuntura me dá aflição.. arrancasse todos os meus dentes, mas não me pedisse pra tomar uma injeção. Bem, infelizmente meu pai não achou que poderíamos simplesmente ignorar as receitas médicas e me arrastou até a farmácia. Chegando lá a farmacêutica me levou até a temida sala das injeções. Respirei fundo, levantei a manga da blusa, fechei os olhos e disse:
- Pode aplicar no braço direito.
- Não, não.. essa não pode ser aplicada no braço.
- NÃOOO?? (pergunto em aparente desespero)
- Não, mas olha.. no bumbum dói menos, fica tranqüila e abaixa a calça.
Depois que fiz 13 anos pensei que nunca mais ia passar por esse negócio de tomar injeção ali, mas tudo bem.. me conformei. Quando já estava preparada, a farmacêutica disse:
- Acho melhor você se escorar na parede.
- Moça! Assim você está me assustando (digo eu em desespero mais do que evidente)
- Não fique nervosa, vai doer, mas vai ser rápido.
Rápido.. claro, injeção dolorida no dos outros é refresco mesmo. Bem, mas passei o resto do dia tão ocupada com os efeitos da injeção e utilizando bolsa de água quente que até esqueci daquele buraco na boca, buraco este só semelhante aos presentes na camada de ozônio, tirando aquela coisa de filtrar raios nocivos ao ser humano, de resto.. os efeitos ruins deveriam ser o mesmo.
Deus, da próxima vez, por favor, me mande uma cárie.
Blá blá blá