Moletom, sofá e Dr. House, ela jurava que nada a faria abandonar os travesseiros e o edredom naquele dia, quer dizer, abriria uma exceção: João, definitivamente, pelo João ela abriria uma exceção, não tiraria as pantufas para correr de encontro a ele.. Ah! Mas pelo João, somente pelo João, seria capaz de apertar o pause do controle remoto. Era isso: dvd´s, moletom, edredom, sofá e o João, entregador de pizza amigo, trazendo o mesmo pedido de sempre: tomate seco com rúcula. Mas..
- Alô..
- Vamos sair?
- Não.
- Vamos sair?
- Não.
- VAMOS SAIR?
- Err.. hum.. não!
- Você fez um juramento lembra?
- Amar, respeitar e ser fiel até que a morte nos separe? Hum, não, não.. não era isso. Era? Xiiii… Senhor, perdoai.. eu pequei!
- “Com esse pedaço de carpê nas mãos, tendo Deus como testemunha, eu juro que nunca mais deixarei ninguém do meu círculo de amizade ir ao cinema sozinho”. Lembra-se?
Merda! Eu adoro cinema, cadeiras nas últimas fileiras, tela grande, saquinhos de M&M, mas a verdade é que o cinema, pra mim, é uma prova de que seres humanos são feitos para viver em sociedade. Em um dos meus piores pesadelos, estou em um cinema vazio, com um pote de jujubas, assistindo repetidamente Casablanca e chorando ao som de “as time goes by”.
Toda imagem de independência, toda a ilusão de auto-suficiência, toda arrogância de “não preciso de você pra nada”, se esfacela diante da bilheteria de um cinema. Com quem vou rir nos trailers? Quem vai repetir comigo “há-há-há eu não tinha pensado nisso”, naquela mesma propaganda de Seguros do Unibanco? Com quem vou fazer observações (im)pertinentes? Definitivamente, o ser humano não nasceu pra ser só e por mais que os curitibanos (variante da espécie homo sapiens, mas com inúmeras peculiaridades) afirmarem que vão ao cinema sozinho por gosto pessoal, eu acredito que nenhum ser humano pode, REALMENTE, achar DIVERTIDO ir ao cinema sozinho, mas.. sei lá.. talvez a estranha seja eu, afinal, sou excêntrica.. faço solos de air guitar ouvindo Doors. Mas, enfim, convite para cinema é covardia. Como recusar? É uma alma em desespero, clamando por ajuda:
- Hum.. e qual é a boa de hoje? Documentário cambojano? As mazelas da Somália? Ou outro incrível filme iraniano sobre tratadores de avestruz? (ele é sempre responsável pelos mais “incríveis” convites, sempre acho que está testando o quanto eu posso suportar).
- A nova animação da Pixar.
(Pausa para a confissão pública: eu A-D-O-R-O desenhos).
- Está sendo cínico? Está dizendo isso para me fazer ficar feliz, dizer umas interjeições que expressam felicidade e depois acabar com todas minhas ilusões, num ato de puro sadismo?
- Não, estou realmente te chamando para assistir o novo desenho da Pixar.
- Por quê?
- Porque sei que você adora desenhos, oras!
- Hum… Você fez alguma coisa que faria eu te odiar pra sempre e está tentando ser legal para me impedir de te odiar pra sempre?
- Eu sempre faço coisas que fariam você me odiar, mas sabe Deus porque, nunca funciona.
- Eu estou doente, né? Eu estou com os dias contados e você, na sua infinita bondade, está tentando me deixar feliz antes da passagem, confesse!
- Pobre criança inocente! Você sabe que eu nunca faria isso.. minha bondade é extremamente finita, isso seria uma atitude cristã demais pra mim.
- Está precisando de um rim?
- Não, só de companhia para o cinema… e talvez de um fígado, mas creio que você não seja a escolha mais acertada para essa necessidade. Então, 15 minutos?
- Claro! Aí você me espera por mais 1 hora e vamos.
E lá estávamos nós e milhares de criança, em uma sala de cinema, comendo pipoca e assistindo Wall-E, quando:
- Má, você está chorando?
- Chorando?? Eu?? Eu não tô chorando.
- Então vamos sair daqui correndo para o hospital, deve ter algo estranho, estão saindo lágrimas dos seus olhos, LÁGRIMAS!! Sem você chorarrr.. Um médico, UM MÉDICO. Sococorro! Glândula lacrimal fora de controle!
E, em um ataque de fúria, o belisquei.. ferozmente!
E Wall-E fez o que nem a morte do pai do Simba em “Rei Leão” fez.. Patéticas cenas de uma pessoa adulta, chorando assistindo um desenho. Constrangedor! Na próxima vamos ver algo meio “Piaf”, “menos” triste.