Desilusão ortográfica

2 10 2008

 

 

- Hum… Como é mesmo o seu nome?

- Maíra.

- Ahn?

- M-A-Í-R-A

- Maira?

- Não, não.. Maíííra

- Com “y”?

- Não, com “i”.

- Tem acento?

- Tem sim..

- Onde?

- Ahn.. (Maííííra.. vai ter acento onde? No “r”?Ta.. seja simpática, seja simpática.. sorria) No “i”.

- Mas qual dos dois?

- Oi? (cara de: “comoo assimmm? Como qual dos dois? Dois o que? Que outro “i” teria em Maíra?”)

- Qual dos dois acentos?

- Como assim? (Será uma piadinha daquelas corporativas? Será que eu devo dar uma risadinha? Ninguém pensaria em acento circunflexo em um ‘i’, pensaria?).

- O pinginho ou o risquinho?

- Ahn? (digo com cara de apavorada.. é uma piada.. só pode ser uma piada.. ta bom.. vou dar uma daquelas risadas forçadas.. decidido.. pareça natural.. pareça natural!)

- No “i”.. (diz impaciente.. no maior estilo: “é tão difícil assim responder qual dos dois acentos?”)  o acento é o pinguinho ou o risquinho? (diz enquanto deve pensar: “detesto essas garotas imbecis… vou ter que desenhar?”)

- Hun?.. (cara de medo, muito medo). Acento agudo… (digo tomada pelo pânico).

- O risquinho, né?

- Yeah.. intimamente ele é chamado assim..

- Oi?

- Nada, nada (não é uma piada.. Aiii! Pensamento insistente: “Meu Deus.. me tira daquiiiiiiiiiii”)





Como cuidar de cachorros – Lição I

30 06 2008

 

 Eu adoro cachorro, de todos os tipos, tamanhos, raças.. eu simplesmente ADORO cachorros. Quando criança eu morava em um lugar que meu pai transformou em uma quase chácara. Já tive os mais diversos bichos de estimação, só não tive um golfinho porque meu pai disse que não era viável criar um golfinho na piscina. Em compensação já tive patos, ganso, coelhos, tartarugas, cavalos (mas esses não ficavam no quintal, mas sim na fazenda), mas sempre gostei mais de cachorro… e é assim até hoje.

Tirando Lênin, um pastor alemão que já me mordeu uma vez, já mordeu meu irmão mais velho uma vez, já mordeu meu primo uma vez, já mordeu meu irmão caçula 4934894034 vezes e já mordeu/assustou/arranhou/avançou em alguns passantes, os cachorros lá de casa sempre foram conhecidos por aquele jeito de cachorro bobão e pacato até que:

- Ah! Você ficou sabendo o que aconteceu com o Neto?

- Ahn?

- O Neto..coitado! Morreu em um acidente de moto..

- Ahn??

- O Neto.. não lembra dele?

- Quem??

- O filho da Maria.

- Maria?

- Ah! Enfim.. ela te deu o cachorro.

- Hein?? Cachorro???

E foi assim que de repente lá em casa passou a ter uma criatura que alguns chamavam de cachorro, outros de criatura demoníaca. Um fila enorme e incrivelmente sociopata, que ficava isolado no outro lado do quintal de casa, afastado por um muro e dois portões do convívio social, sendo alimentado só pelo meu pai e privado de carinhos na barriga e brincadeiras com bolinhas, por se tratar de um cachorro incrivelmente bravo. E assim seguimos nossas vidas, eu já não morava mais com meu pai e nas raras vezes que estava lá de passagem, nem chegava perto do cachorro.. sabia de sua existência pelos latidos altos e em som grave e vivia bem assim.. até que meu pai fez uma operação e eu era a única pessoa passando uns dias em casa, então, ou eu alimentava o cachorro ou ele morria de fome. Confesso que cogitei deixar o cachorro morrer de fome cada vez que ele rosnava pra mim e avançava sobre a grade, mas eu lembrei que eu adoro cachorros, então, pensei:

- Que isso.. medo eu tenho de ratos, que são animais ferozes e perigosos, vê se eu vou ter medo de um simples cachorro.

E assim, munida de muita coragem, atravessei o portão que liga o quintal social ao quintal dos cachorros e senhora de mim, peguei o saco de ração com a bravura de uma guerreira dos tempos romanos, pelo menos por breves momentos, até o cachorro começar a latir, rosnar e bater na grade do outro portão, então, como qualquer mulherzinha que se preze, larguei o saco de ração e sai de lá antes que ele descobrisse que era maior do que a grade que nos separava.

Depois dessa tentativa frustrada, como mulher adulta, independente e auto-suficiente que sou, fiz o que qualquer outra faria no meu lugar: chamei um homem.

- Ei! O que está fazendo?

- Nada. Por quê? Tá querendo fazer alguma coisa?

-Sim, estava pensando em alimentar uma criatura com corpo de cachorro e fúria de leão, está afim?

- Oi??

- Não consigo dar comida pro cachorro, ele me detesta!

- Que patinha!! – diz ele rindo – Já estou indo.

Então ele, ser do sexo masculino, senhor de si, corajoso e macho pra caramba, atravessou aquele portão, com a determinação de um William Wallace, lutando por suas crenças e menos de um minuto depois:

- Meu! Aquilo não é um cachorro… não vai dar não, Má.. não tenho coragem de encostar na grade pra por ração.. nem água.

 - Ahh.. mas o que fazemos então? Não podemos deixar o cachorro morrer de fome.. chamamos os bombeiros?

- Hum… eu tenho um plano.

- Qual?

- A gente pega uma mangueira e um banquinho, subimos no banquinho e jogamos água por cima do muro, até encher a vasilha de água – diz destemido.

- E a ração?

- Uma coisa de cada vez, uma coisa de cada vez..

E assim, corajosamente, colocamos água para o cachorro.

- Já sei como colocar ração.

- Como?

- Só precisamos distrair o cachorro.

- Ah! E como distraímos uma besta demoníaca faminta?

- Tenho certeza que você vai dar um jeito.

- Eu????

- Eh.. é só você ficar lá na parte da frente da casa e manter o cachorro lá, enquanto eu entro e coloco a ração.

- E como vou manter o cachorro lá? Vou dar minha mão pra ele morder?

- Isso!!! Grande idéia

- Ahn?

- Vá jogando alguma coisa pra ele comer..

E assim fiquei, na parte da frente da casa, jogando pedaços de pão para o cachorro, enquanto meu amigo entrava cuidadosamente e colocava ração para o cachorro. Missão cumprida.

Dois dias depois, pensei novamente:

- Merda! Tenho que dar comida pro cachorro.. vou ligar para o… Ahhh! O que eu sou? Uma franguinha? Desde quando tenho medo de cachorros ferozes e com dentes afiados?

E, numa técnica milenar, aprendida nos filmes do Karatê Kid, fiquei por minutos, encarando o cachorro por cima do muro, ele me encarando e latindo, eu o encarando e cogitando latir e assim foi até que ele parasse de latir e de avançar sobre a grade. Então, determinada, entrei pelo portão, peguei o saco de ração e o cachorro voltou a latir e a rosnar, eu olhava pra ele, ele olhava pra mim.. ou ele avançava em mim.. ou eu avançava nele, mas não ia sair de lá sem colocar comida e água, já tinha decidido e eu sou conhecida pela minha teimosa. E pronto, lá estava eu, senhora de mim novamente, uma pessoa capaz de colocar água e ração para um cachorro sem a ajuda de terceiros.





Conversas de MSN

6 05 2008

 

 Porque eu tenho conversas tão poéticas, com dizeres tão belos, tão carregados de amor, fraternidade, luz, paz e sacanagem, que deixariam com inveja Fernando Pessoa, envergonhariam Vinicius de Moraes e deixariam vermelho Nelson Rodrigues… Abaixo trechos de conversas bizarras, com conteúdo chulo e sem nenhuma relevância.

 

 - Logo vi que era uma alma bondosa…com esse rostinho angelical, que não sabe o que é melanina…

- Já vai começar a me chamar de branquela?

- Mas você é branquela..

- Preconceito de cor é inafiançável, sabia? INAFIANCÁVEL! Hmpf!!!

- Se você fumar um e ficar com o olho vermelho, passa por albina facinho, facinho..

- hahahaha… Já te disseram que você é muito gentil? Diz sempre essas coisas tão bonitas pras garotas?

- Sou assim… Bruto… Rústico. Já tá caidinha por mim… fale a verdade!

- Ah.. e quem não estaria? São muitas palavras bonitas.. e sabe, né? Eu sou uma sentimental….

- Imagine quando experimentar os 5 minutos de prazer (já contando as preliminares, claro!) total e ininterrupto!! O melhor que a endorfina pode te proporcionar… Sou assim… Uma máquina de sexo. Vai querer uma senha? (sabe, a procura é grande).

- Uauuu.. 5 minutos completos? Você é um profissional do amor. Seu talento na empresa está sendo subutilizado…

- 5 minutos!! Realmente formidável… Cheguei há 6 minutos uma vez… Mas é que o cinto emperrou, e demorei pra tirar as calças… Se eu estivesse usando ceroulas, ia pra uns 6 minutos e meio, fácil, fácil… Uma eternidade, praticamente.

- O importante é que os 5 minutos de prazer absoluto foram mantidos. Você é assim.. quase um..um.. um.. Alexandre Frota? Estou desinformada dos reis do pornô.. desculpe..hahahahaha

- O Frotinha é bom, mas John Holmes é o meu herói… Um cara, digamos, de enorme talento. Destaque para o “enorme”

- hahaha.. tudo bem.. quando eu quiser agradá-lo eu cito John Holmes e falo que devem ter o mesmo enorme talento…

- Que nada… esse meu pintinho de comer cú de canarinho nunca fez mal pra ninguém… Aliás, não quero falar sobre isso… 

- hahahahaha.. Dá pra você parar de me fazer rir? Eu tô trabalhando, pô!

- Tá… Eu tenho esse pintinho de nada, você ri, e ainda acha ruim?!?!

- Quer que eu diga umas frases de consolo, envolvendo metáforas péssimas sobre tamanho da varinha? hahaha

- Que falta de sensibilidade! É pequeno, mas é meu. Tem um valor sentimental…é coisa pouca, mas já me quebrou algum galho… Sua BRUTA!!

 

 - - -

 - A gente vai ser assim também, né?

- Assim também como?

- Assim como esses outros malucos da América Latina. Como o Chávez, o Evo, o Lula. De repente estaremos no poder.

- Não será de repente, todo o plano estratégico está traçado. Estamos só na primeira fase…Mas você não será presidente de um paíseco como o Brasil. Nós vamos alçar vôos mais altos. Será Estados Unidos. Será China. De repente você pode é ser a nova ditadora de Cuba.

- E você acha que daria certo?

- Ainda não, porque você é bonitinha, engraçadinha e boazinha demais para ser uma déspota. Mas eu já estou trabalhando nisso.. você é meu projeto.

- Posso comandar um país escandinavo? Posso? Posssoo?

- Por alguma razão especial?

- Claro que sim.. pela figura bonitinha que eles fazem no mapa..

- huahuahuahuahuahuahua.. besta!

 

- - -

- Vejo que está mesmo focado em me arrumar um novo namorado.

- Já arrumei: Sr. X. Fiquei bem feliz só de pensar na probabilidade de vocês namorarem, ficarem, ou alguma expressão genérica do tipo. Enfim: Correrem pelos parreirais de Santa Felicidade de mãos dadas.

- hahahaha.. Notou que tenta me arrumar um namorado desde que eu tinha um namorado?

- Hum.. é.. Tem o Sr. Y. também, mas acho que o Sr. X. tem mais o seu perfil, vocês se entendem melhor. Mas pode ser qualquer um dos dois. Ambos topariam facinho (não ao mesmo tempo, portanto, não se empolgue).

- hahahahaha.. Ahh!! Que desmancha prazer.. só porque comecei a ter umas idéias com isso.. Tem certeza que não topariam? De repente né… você podia dar uma sondada…hahahahaha

- Não custa perguntar, mas acho que seria complicado. Quem sabe com mais um cabrito, um pastor alemão… e muito, muito KY gel!!

- hahahaha.. Você acha que consegue um cabrito fácil? hahaha

- Posso dar meus pulos. Quer um par de botas 7 léguas também (conhece a teoria?)

- Não.. mas tenho certeza que vai resolver isso..

- Então… o esquema é colocar as botas 7 léguas nas patas de trás do bichinho aí ele fica tentando se livrar, meio rebolando, saca? Não fica tão passivo na relação.

- hahahahahahahahaha…. nunca mais vou conseguir olhar um pobre cabrito sem lembrar de você.

- Porque logo o cabrito? Podia ser a bota sete léguas, né?





Às vezes meio “Felícia”

9 04 2008

 

 Eu sou uma pessoa altamente distraída. Esqueço datas, telefones, nomes, rostos, enfim, se alguma coisa é passível de esquecimento, é bem provável que eu esqueça. Tendo uma vida nômade e falando com qualquer amigo de cinco minutos como se ele fosse à pessoa mais íntima do mundo, tenho sérios problemas para lembrar das pessoas depois e por mais que tenha achado bárbara a conversa envolvendo moscas da Namíbia, eu vou esquecer da pessoa e do assunto, não por implicância pessoal, mas sim devido a algum problema genético que me torna incapaz de decorar nomes e me faz chamar Thiago de Lucas, por meses e perguntar “quem é Juliano”, quando estão falando de um amigo super íntimo.

 

 Os amigos de longa data já sabem que costumo dar feliz aniversário um dia, uma semana, às vezes um mês depois. Só os amigos de verdade entendem que a probabilidade de receber algum sms em branco, pela metade, sem sentido, com o destino errado, é grande, se estivermos falando de mim. Isso sem contar às vezes que demorei pra responder e-mails por perdê-los na imensidão do Outlook, nas vezes que fiz pessoas se perder por não ter o menor senso de localização e todas as vezes que eu disse “ter certeza” e alguma merda acontecer. Tudo isso porque eu sou assim: avoada.

 

 E graças a essas características que eu me tornei assim, uma lenda viva. Já é notória a minha total incapacidade para cuidar de dois tipos de formas vivas: peixes e plantas. Não que eu não goste deles, não que eu seja um ser humano cruel, mas eu SIMPLESMENTE não tenho a capacidade de tomar conta de coisas que não gritem, chorem, soltem grunhidos, mordam meu pé, enfim, que se façam presente.

 

 Já tive cerca de 348473930 peixes nessa minha vida, começando com um beta, peixe altamente fácil de se cuidar, fica ali sozinho num aquário pequeno, não precisando de muitos cuidados, nem todo o aparato de um “aquário de verdade”.

 

Era fácil assim: umas bolinhas da ração por dia e pronto, ele ficaria bem, certo? Certo, Hum… isto é, se não estivermos falando de mim. Eu acho que o alimentava uma vez por semana, era praticamente como ter um abajur, eu até achava bonitinho, mas nunca lembrava que tinha um. Vez ou outra eu lembrava da existência do bichinho aí ia correndo ver se ele permanecia vivo, se a água no aquário ainda não estava verde, enfim, essas coisas de gente responsável.

 

 Às vezes eu lembrava de trocar a água do aquário, mas, infelizmente, só fui descobrir que deveria usar água mineral, uma vez que, água com cloro fazia o bichinho ir desbotando e escamando até a morte, quando eu já tinha desistido de ter peixes.

 

 Bem, certa vez tentei ter um aquário de verdade, com aparato de oxigenação, pedrinhas e decoração ao fundo, e diversas espécies de peixes coloridos. Bom, se eu não conseguia manter um peixe vivo por muito tempo, um monte junto então, nem se fala. Há quem acredite que eu levei os peixinhos a loucura e essa foi a razão principal para pelo menos 3 deles terem saltado do aquário para o tapete, desesperados, e em busca de uma morte digna.

 

 Para o bem da natureza, nunca mais ousei ter peixes novamente. Então, em um dos meus aniversários (acho que ali pelos 18 anos) comecei minha empreitada com plantas. Um amigo me deu um bonsai, evidente que se tratava de um amigo com discernimento, que sabe que eu sou possuidora de uma paciência quase oriental. Eu até me esforcei bastante para cuidar da plantinha, comecei a chamá-lo de Sr. Myagui, às vezes conversava com ele e ouvíamos Nirvana juntos, mas como Sr. Myagui não gritava, não rugia, não latia, não fazia qualquer tipo de barulho para me lembrar que precisava de água e sol, não deu outra: adquiriu uma aparência meio assim marrom e um belo dia minha mãe o jogou no lixo.

 

 Esse mesmo amigo, ainda tentando me provar que eu tinha vocação com jardinagem, resolveu me dar mais uma chance e foi assim que ganhei orquídeas. Resolvi me dedicar a essas e provar que eu era capaz de manter uma planta viva, espalhei post-its no espelho do banheiro com lembretes referentes à água, sol e plantas. Mas nesse caso acho que sufoquei demais meu vasinho com orquídeas, acho que foi tanta água e tanto sol, que apesar de todo meu esforço, lá se foi ela descansar pra sempre no lixo.

  

 Vendo minha boa vontade e toda a sensação de culpa existente no meu ser, meu amigo, novamente, resolveu me provar que plantas eram meu destino e que o culpado tinha sido ele, por me dar plantas “sofisticadas” demais. Foi assim que eu ganhei um vasinho com uns 6 cactos. Rá! Muito fácil. Quem conseguiria matar cactos? Nem precisa de sol, água de vez em quando, até eu, na minha conhecida distração e incompetência, seria capaz de ter cactos, certo? Errado, não sem um quê de vergonha, devo confessar: “doce engano”. No começo tudo bem, água quando eu lembrava e tudo bem, assim foi por uns meses, mas depois.. novamente, sem eles gritando “eu preciso de água”, acabei por esquecer deles e quando me dei conta lá estava eu com um vasinho cheio de plantas murchas e com a já conhecida aparência marrom.

 

Hoje em dia? Ah! Minha fama se espalhou entre os amigos e é assim: flores só de plástico ou de dobraduras e animais só os barulhentos. Porque a Má? Ah! A Má é uma avoada!





Expressões antigas

14 08 2007

Quando eu era criança eu vivia ouvindo aquelas expressões malucas do tempo do Uepa (minha mãe adorava essa) que meus avós, tios, pais e etc. costumavam usar. Mas definitivamente duas me marcaram: tirar água do joelho e subir no telhado.

Tirar água do joelho

Essa eu vivia ouvindo dos meus tios. Era sempre assim, estávamos sentados em alguma festa de família, em algum churrasco, em algum leilão de gado (sim, frequentava leilões), bares, lanchonetes.. e sempre, sempre, SEMPRE.. de repente um dos meus tios dizia:

- Vou tirar água do joelho (e sumia por uns instantes).

Era uma dúvida que me atormentava. Onde eles iam? Como tiravam água do joelho? Depois comecei a reparar que iam ao banheiro, mas ainda não sabia que raios era tirar água do joelho. Até compartilhei toda essa minha angústia com os colegas de escola e nenhum de nós, estudantes da primeira série, tínhamos tirado água do joelho na vida, o que causou um medo geral, porque mais grave do que não saber como tirar água do joelho, era pensar nas conseqüências disso.

A coisa começou a tomar proporções inimagináveis e o pânico tomou conta de toda a série, então, tivemos que contar para a professora que queríamos tirar água do joelho e que precisávamos saber como se fazia isso. Bem, assim que ela conseguiu parar de rir, ela tranqüilizou a todos, explicando que só os tios precisavam tirar água do joelho. E a paz voltou a reinar na vida das crianças da primeira série. 

Subir no telhado

Minha mãe adorava usar essa expressão pra suavizar notícias de morte, mas claro, as únicas perdas que tive na minha infância foram de cachorros, então em um dia, minha mãe tentando suavizar ao máximo a morte da minha cachorrinha predileta, veio delicadamente e disse:

- Olha só minha filha.. a Lili subiu no telhado.

Essa frase foi seguida por minutos de silêncio da minha parte. Eu imaginava como diabos ela tinha conseguido subir no telhado. Mas fiquei toda orgulhosa, Lili era uma super cachorra… me defendia dos ratos que vez ou outra apareciam no quintal e matava baratas. Isso sem dizer no quanto eu admirava Lili, ela conseguia sair de casa sem precisar pedir autorização. Fazia as mais incríveis manobras pra sair de casa, se valendo de todas as artimanhas possíveis. Conseguia abrir a porta da cozinha, corria até a sala para pular a janela e escapar pelas grades do portão da frente. Lili era o máximo, e agora tinha feito mais uma proeza: conseguia subir no telhado, mas também já comecei a pensar que ela devia estar desesperada querendo descer, pensando que ela não sabia como fazer pra sair de lá, já que, pular seria difícil, o telhado era bem mais alto do que a janela da sala. Então eu disse para minha mãe:

- Ah! Então vamos pedir pro Paulinho tirar ela de lá.

- Não, o Paulinho não pode tirar ela de lá.

- Hum.. o papai pode?

- Não.. veja só.. ela não subiu no telhado, no sentido de subir no telhado.

- Ah! Mas você disse que ela subiu no telhado.

- Não, é força de expressão.. eu quis dizer que ela morreu.

- Ela caiu do telhado?

- Não, ela não subiu no telhado…

Então eu comecei a chorar e fui correndo até meu pai:

- Pai, pai.. a Lili morreu… ela caiu do telhado.

- Caiu do telhado?

Desde então minha mãe nunca mais usou essa expressão antes de me dar notícias tristes.





O dia que ganhei um “labrador para apartamento”

2 07 2007

Final de semana, sessão de dvd´s de seriados na casa de um amigo, ele vem todo feliz com um presente que comprou pra mim, certo de que eu ia adorar:

- Não é um labrador, mas é quase… é o animal ideal para apartamentos (diz ele me entregando uma caixa).

Era uma caixa bonita, cheia de furinhos e com um laço de cetim cor-de-rosa. Fico animada, já imagino ser um filhotinho fofo, algo como um beagle, um basset ou um simpático vira-lata. Desfaço o laço, abro a caixa e:

- Aiiii! Um ratoooooo!!! – Grito ao ver aquela coisa se mexendo na caixa.

Eu tenho um medo quase infantil de ratos e claro, de coisas parecidas com ratos… não perdôo nem hamster.. fico tensa se eles não estiverem em gaiolas e bem distantes de mim. Então, claro, o grito desesperado veio acompanhado de toda uma ação de pânico. Joguei a caixa pra cima e subi no sofá.

No chão ficou espalhado aquele monte de papel crepom cor-de-rosa picado, juntamente com aquele animal perigosíssimo que zanzava pelo tapete, meio assustado com a queda que sofreu.

Meu amigo tentava me acalmar:

- Não é um rato.. é um porquinho da índia. Veja.. é um porquinho da índia..

- Tira esse bicho daqui!!! Agora, agora, agoraaaa! - Eu suplicava em desespero.

A família toda e outros amigos que ali estavam se reuniram na porta de entrada da sala pra ver que diabos estava acontecendo e porque eu gritava tanto. O riso era geral.. eu em cima do sofá apavorada por causa de um porquinho da índia e meu amigo agachado pelo chão procurando:

- Sophia, Sophia! (aparentemente o nome que ele tinha dado pro meu porquinho da índia, que parecia, na verdade, ser ela e não ele).

Sophia, o porquinho da índia que foi meu por quase 60 segundos completo, foi apanhada enquanto corria entre os móveis.. foi colocada novamente dentro da caixinha e devolvida para a loja de animais.

E foi assim o dia que ganhei meu “labrador para apartamento”.