É sempre a mesma história todo final de semana: João Paulo ouve o mesmo sermão da mãe, vê o olhar de reprovação da mesma tia-avó, escuta a vizinha mandando a família se apegar a Deus e lá está mais uma corrente de oração em mais um sábado de confraternização etílica junto com o pessoal do escritório.
Sempre antes das 20 horas, Dona Mariluce se joga aos pés do filho e implora para que ele pense no fígado, outrora tão vermelhinho e sorridente como um daqueles cartões smile.
Quase todo domingo, Luís Gustavo, depois de ter tomando um porre, acorda de cueca, esparramado no sofá, com o mesmo olhar de “ressaca introspectiva,” enquanto ouve o mesmo sermão de Dona Marlene.
Mas, ora essa, nós somos aquilo que fazemos repetidamente. Excelência, então, não é um modo de agir, mas um hábito.
Quando Aristóteles (Ari, para os íntimos) proferiu esta grande máxima da filosofia, nunca imaginaria que tal citação, sem maiores pretensões artísticas, se tornaria uma verdade etílica universal. Afinal, o fígado, tal qual qualquer órgão do corpo humano, carece exercícios cotidianos a fim de apresentar um bom desempenho.
Assim como aquele tio de meia idade que, no auge do mais familiar dos churrascos de domingo, se escala pra pelada da gurizada a fim de “fazer bonito” relembrando a saudosa época em que jogou de volante nos áureos tempos do combate Barreirinha (quando era conhecido pela alcunha de “Zezão quebra-osso”), e que, irremediavelmente acaba, após alguns (poucos) minutos de profunda humilhação, por ser hospitalizado às pressas com uma torção no joelho esquerdo, uma hérnia de disco, e um princípio de parada cardíaca, as atividades de devassidão (leia-se aqui bebedeira) devem ser devidamente exercitadas. Como manter um fígado funcionando devidamente se você não o faz trabalhar?
A bebedeira de final de semana não é só mais um ato mundano, não é apenas uma forma da secretária quase aposentada e reprimida fazer um striptease em meio ao pessoal do escritório. A bebedeira é medicinal! Terapêutica!
Porém, evidentemente, a não ser que estejamos na Sibéria (neste caso, recomenda-se vodka sem gelo, a não ser que esta já tenha virado gelo, que, não se havendo alternativa, pode ser facilmente comido), obviamente as condições normais de pressão e temperatura hão de ser respeitadas.
Muito embora a palavra “limite” enseje um significado tanto quanto subjetivo quando não empregada para fins matemáticos, principiantes devem se portar como tais, e, a fim de não terem seus currículos vergonhosamente maculados, até mesmo antigos medalhistas devem conservar certa parcimônia em questões etílicas, ao menos quando já desabituados ao mundo de Marlboro.
Tudo isso para que, ao final da empreitada alcoólica, dois martinis não acabem fazendo você se sentar no chão do banheiro e chorar copiosamente enquanto interpreta os maiores sucessos do Roupa Nova, um pouco antes de acordar com a maior ressaca do mundo, em local incerto e não sabido.
Enfim, isso e mais todas aquelas coisas que fazem parte do incerto conjunto de coisas que não deviam acontecer, mas que, acredite: acontecem nas melhores famílias. Nas piores famílias, então, nem se fala…
* Texto escrito em parceria com meu ilustríssimo amigo, conselheiro e fornecedor de grandes idéias, notícias bizarras e demais coisas mundanas.. Marcos Brehm, outrora conhecido por Castor.. e/ou “oww.. eh meu.. você aí ô cor-de-rosa”…
12 respostas Até agora ↓
Castor // Setembro 30, 2008 às 11:14 AM
Excelente! Estou pensando até em fazer comentários com nomes de outras pessoas, pra dar maior audiência ao texto.
Mas, É CLARO que não vou fazer isso.
Que tipo de estelionatário eu seria, se fizesse?
Beijos!!
Ferdinand von Tuts // Setembro 30, 2008 às 11:16 AM
Nossa! Esse é o melhor texto que eu já vi, ao menos ao sul do mundo…
Parabéns, senhorita Maíra!
Este tal Sr. Brehm, então, deve ser uma pessoa fantástica!
Saudações desconhecidas,
Ferdinand
Julius Hidropônicus // Setembro 30, 2008 às 11:18 AM
Realmente, bom demais!
É difícil acreditar que isso foi feito por mãos humanas.
Atenciosamente,
Julius
Francis Shwannerschultig // Setembro 30, 2008 às 11:19 AM
Sensacional!!!!!
Fico sem palavras!!
Dani // Setembro 30, 2008 às 2:47 PM
Amigaa, você já defendeu a carne vermelha, agora está defendendo a bebeira, totalmente baseada em lógica e questões medicinais. Estou achando que a comunidade científica está perdendo alguém que REALMENTE poderia mudar o mundo e tornar a vida nesse tal planeta Terra imensamente mais divertida rs.
Beijos, pra você Mazita e para o Castor, o parceiro literário… mas quem começou com essa de atrofia hepática? tem seu estilo, principalmente depois de uns copos hihihi =)
PS: Achei estranho os nomes completamente estranhos nos comentários.. e a nossa máfia como fica? Mas agora entendi. Fico feliz que continue com o padrão “amigo só insano” rs
Bia // Setembro 30, 2008 às 3:40 PM
hauahauhauhauahauhauahauhauhaahua morri com os comentários hauhauahuhauahauahuahauhuahuahauhuha
sem mais.
Pedro // Setembro 30, 2008 às 5:38 PM
Se um cálice de vinho diariamente é medicinal, porque um porre semanalmente não pode ser? Eu acho que essa vai ser a descoberta deste novo século.. Você realmente leva jeito para a carreira científica. Uma garota a frente do seu tempo hahahaha.
Estão de parabéns! Inclua aí alguns “sensacionais” de minha parte também.
Beijos, Cat
Bruno // Setembro 30, 2008 às 5:51 PM
Beber, cair, levantar
Beber, cair, levantar
Beber, cair, levantar
Eu acho que estou cumprindo o meu dever, enquanto cidadão, de usar o fígado. Claro, respeitando a minha condição sênior hahahaha.
Senhor, abençoai o bacardi nosso de todo sábado.
Bjão, Chamex
Tico // Setembro 30, 2008 às 6:12 PM
acha ?).
Acredite se quiser, meu vôo saiu no horário e chegou no horário, realmente achei que era meu dia de sorte, você, o pessoal, vôos no horário… aí peguei um taxi e ele custou 42 reais, peguei um outro e paguei os mesmo 42 reais (quer dizer, mais outros 42, ah, você entendeu), lembrei logo da minha tia e pedi para ela jogar no bicho…. (típico de tias, né ?) acredita……. claro que naum ganhei… mas aí também é abusar da sorte….. já tinha gasto toda ela te encontrando.. e mesmo se pudesse, não trocaria por ganhar no bicho…….
Continuo não usando meu fígado como se deve, mas não podemos dizer que você não tentou, né? :o))
Brigadão, Má.
Se cuida, ainda adoro você.
André // Setembro 30, 2008 às 6:29 PM
Acho que fiz minha parte no porre do final de semana. A “não-atrofia” está garantida por um mês (tempo aproximado para me livrar de todo o álcool terciário rs)
Te adoro muito, mas fica lugar comum falar isso, já que todo mundo fica aqui “babando seu ovo”, vou falar que te detesto só pra ser especial rs
No mais, nem dá pra perceber que tava de mau humor ontem, sempre mantém o nível intelectual/literário rs
Marcos Rocha // Outubro 1, 2008 às 12:03 AM
Faço coro aos elogios do monte de bêbados que freqüentam esse blog, e dir-lhe-ia mesmo que fico emocionado com a apologia do calice profano. Meu exercitado fígado agradece. Aqueles que dizem que determinadas partes anatomicas do bebado nao tem dono apenas praticam pra si o wishfull thinking. Tá ali a farinha pra não me deixar mentir.
Beijo, e parabens pela dobradinha de bons cidadaos curitibanos gerando textos que acrescentam na vida da gente, tal qual vina acrescenta no pão.
Alexandre // Outubro 3, 2008 às 4:42 PM
Pois é, você realmente tem feito um trabalho impecável no combate a atrofia hepática, mas parece-me que o coração tb é um órgão que necessita de exercícios diários. Que tal pensar nisso Dona Cruela? Huahuahuahuahuahua…
Beijos estalados