Novela mexicana – Parte I

31 07 2008

 

Ele estava deitado na cama resmungando e terminando um projeto no seu inseparável notebook. Ela sentada no chão do quarto, bagunçando a coleção de cd´s dele:

- Se você tirar os cd´s da ordem teremos um crime passional aqui. (diz ele com seu conhecido tom ameaçador).

Ela ria:

- Sabe quantas vezes eu já baguncei esses cd´s.. quantas vezes você já me fez essa ameaça e ainda não me aconteceu nada?

- É que eu quero que você seja pega desprevenida. É um plano cruel para ficar a espreita e acabar com sua vida quando menos esperar.

Tomavam cappuccino e iam falando bobagens aleatórias, enquanto perturbavam a paz dos vizinhos com a poluição sonora no apartamento, fazendo uso das mais eficazes armas para conquistar inimizades no condomínio: risadas freqüentes e altas, vídeos do Charlie Brown e Snoopy (por presente dele, acreditando ser gosto pessoal dela) e músicas com o melhor de Weezer (por gosto pessoal dele) e Suzi Quatro (por gosto pessoal dos dois). Até que ele tem a brilhante idéia:

- Ahh! Vamos escrever um texto?

- Um texto? Sobre o que?

- Errr.. Qualquer merda.. pra você por no blog e dizer que escrevemos juntos, destacando que eu sou o tal do cara na sua vida. Uma coisa bem mexicana como você.. e bem humor sarcástico como eu.. ficando meio maluco como nós dois.  Se ficar uma merda não tem problema, os nossos amigos puxa-saco vão adorar a gente escrevendo juntos.

- Ta fazendo isso para que eu pare de bagunçar os cd´s, né?

- Sempre vendo a intenção por trás da ação. Matá-la daria mais trabalho e poderia sujar o carpê de sangue. Depois de um tempo a gente pega amor, sabe? Ahh!! Estou falando de amor pelo carpê, tá? Que fique claro!

- hahahaha… Besta!

 

Rá!!! :-)

 

Novela mexicana – Parte I

Ela estava deitada na cama, lendo. Ele chega sorridente e notoriamente bêbado:

- Oiii…

Silêncio.

- Oieeee (diz ele sentando na cama e tirando os sapatos).

Silêncio.

- Cof, cof…

Silêncio

- Ei.. Cheguei meu amor. (diz enquanto dá um beliscão na perna dela)

Ela larga o livro, levanta os olhos e olha para ele:

- Te conheço? (diz com indiferença).

- Aparentemente não o suficiente pra dizer que me ama.

- Não te amo.

- Ah! Eu sei que ama (diz enquanto a abraça). Nossa! Como estou cansado. Acho que vou dormir.

- Dormir??? Você não está esquecendo de nada?

- Estou?

- Não está?

- Ah sim! É hoje, né? Parabénssssss lindinha!!!

- Parabéns?

- Sim, sim.. Parabéns. Falta um minuto para meia-noite, tecnicamente ainda é seu aniversário. Quantos aninhos mesmo? Com esse rostinho, 18, né?

- Hummm.. O que te importa quantos anos? Você nem lembrava que era hoje.

- Isso quer dizer que deve ser 34… Época da negação.

- Nem isso você é capaz de lembrar. Lembra do meu nome pelo menos?

- Não faça essas acusações injustas… eu lembrei.

- Sei, sei. Agora, né? Mas tudo bem. Não terei mais que brigar com você por isso.

- Claro que não, lembrarei de todos os outros daqui por diante.

- Os daqui em diante eu passarei sem você.

- Como você é malvada… Que a chaga de mil demônios caia sobre você! Que a terra coma sua carne, mas preserve seus olhos, primeiro porque eles são lindos.. E segundo para você ver o horror de sua putrefação. Não existem palavras pra expressar minha tristeza depois disso que você disse.

- Pois pra mim existe. Estou profundamente descontente, afinal, nada significo pra você.

- Muitos outros te darão feliz aniversário atrasado. Você sabe disso. Porque brigar assim comigo?

- É totalmente diferente, você não está no bolo dos “muitos outros”, esperava mais de você.

- Bem, eu nunca quis te decepcionar, mas você exige de minhas forças mais do que posso proporcionar. Vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Eu sou apenas um semi-deus, né. E não vem com essa, não senhora.. Você disse e eu repito: “Não está esquecendo nada?!?”. Achei que você tava falando dos meus chinelos porque eu tava pisando no chão frio, portanto, lembrei sozinho.

- Agora não adianta mais.

- Não diga tal coisa. Não depois destes 78 anos de convivência… Não depois de trocar suas fraldas pela sua incontinência…

- Não me venha com suas piadinhas. Você jogou tudo fora, mas está certo.. não somos nada um do outro mesmo. Nada significo pra você.

- Poxa não fala assim, isso não é coisa de pessoa que tem Jesus no coração!! Não, não.

- Jesus eu tenho.. diria que não tenho você…

- Nossa… Nossaaaaa! Tipo, nossa.. Essa foi desnecessária…

- Não, foi necessária sim. Estou profundamente chateada com você

- Mas meu amor.. Eu passei o dia fora estudando.. Com a cabeça cheia. Só cheguei agora e você já chegou com os dois pés no meu peito.

- O pior é você mentir assim.. EU SEI QUE VOCÊ ESTAVA NO BAR, não minta que é bem pior.

- Mas eu tinha que ir estudar.. Daí estava atordoado. Ah, e mentir faz parte de minha natureza.

- E não acreditar em você faz parte da minha. E não te perdoar e te excluir da minha vida, faz mais parte ainda.

- Mas começou agora, porque você não era assim. Eu aprontava tudo que queria e você continuava me perdoando e me amando…

- Você foi um erro…

- O que posso fazer pra você ver que estou arrependido?

- Não somos mais nada um do outro.. não adianta.

- Flores?!?!

- Não precisa João Carlos.. deixemos como está.

- Xiii.. João Carlos e uma frase de resignação?!? O caso é sério.. Você nunca me chamou de João Carlos antes…

- Não tenho mais porque te dar apelidinhos bregas, fofos e íntimos. Você é um falso.

- Falso nada. Eu estou embriagado e todos sabem que quando a bebida entra a verdade saí, então, por lógica, só pode ser verdade.

- Não há sinceridade nas suas palavras.

- Como não? São tão sinceras quanto palavras minhas podem ser.

- Exato! Por isso mesmo.. não há nada sincero vindo de você.

- Isso magoa!!! Depois de tanta dedicação, de tanto apoio a você.

- Dedicação? Não houve dedicação e a magoada, chateada e ofendida aqui, sou eu.

- Isso daria versos pra uma música… Podíamos ficar milionários.

- Não existe “a gente”. Existe eu e você separadamente.

- Mas aí, nem numa parceria para o estrelato? Podíamos ser como os dois

caras dos Rolling Stones, que não se falam, se odeiam, mas que estão ricos.. Se bem que, eu não te odeio, só você a mim..

- Mas provavelmente o cara dos Stones lembra do aniversário do outro… Antes você me odiasse pelo menos lembraria. Diria “hoje é aniversário daquela desgraçada”, mas lembraria. Humpf!!

 

Por: Dinho e Má =)

 

Será que esse texto terminará assim? Será que eles não confessarão que não terminaram de escrever porque foram ver dvd´s? Será que todo mundo vai notar que as falas do texto são aquelas manjadas, que eles falam todo dia um para o outro? Acompanhe o fim (ou a falta de fim) das histórias desses dois, sempre com personagens excêntricos, falas malucas e DR´s imprevisíveis.. hahaha





Amor em tempos de tevê a cabo

28 07 2008

 

 

Ela estava na sala. Ele na cozinha. Ela gargalhava tendo a tevê como companhia. Ele escutava as risadas enquanto pegava mais uma cerveja:

- O que está fazendo? (pergunta ele surgindo na porta da sala).

- “I’m saying it ‘coz it’s true. Inside of us, we both know that you belong with Victor. Is there a Victor in your class?” (diz ela entre risos).

- Hã?

- “We’ll always have Fresno” (ainda rindo).

- Certo, isso pode fazer sentido aí dentro, mas no mundo aqui fora… Repito a pergunta: O que está fazendo?

- Assistindo Dr. House (diz quase suspirando).

- Não tem nada melhor pra fazer não?

- Devo ter.. não quero me gabar, mas meu namorado é conhecido por ter sempre uma vasta e divertida programação na manga. E aí.. o que vamos fazer hoje?

- Hoje? Nossa! Todas as seqüências de Máquina Mortífera. Imperdível!!

- Máquina Mortífera?

- Ah! Não quero me gabar, mas minha namorada é a melhor.. ela vai alugar os dvd´s.

- Ei! Como assim? Sua namorada não sou eu? Teve um pedido, um sim..  eu estava prestando atenção.. nem estava passando House na tevê.. Hum.. ou estava? Será que na verdade você perguntou se eu queria mais cerveja? Ah! Eu nunca me lembro…

- Na verdade eu te pedi em namoro e você disse você disse: “siiimmmm”, com uma empolgação que me comoveu.. e logo depois você completou com: “… de vodka”.

- Ah! Eu sou assim.. uma romântica, o que posso fazer?

- Mas então, já que concordamos que você é minha namorada, eu repito: minha namorada vai alugar os dvd´s!

- Não vai não! Sua namorada vai assistir Dr. House.

- Hummm.. Será que ainda dá tempo de me arrepender? Será que é um sinal pra terminar com você? Eu posso voltar com a minha ex, pelo menos assim eu teria meu box de Máquina Mortífera. Ah.. bons tempos aqueles de namorada submissa.

- Por mim tudo bem, mas dá pra esperar terminar esse episódio? Adoro a parte que ele diz: We have been blessed with the miracle of a new symptom. Brother, can you testifiy as to why this poor child’s eyeball rolled back into his head?”. Depois você pode me deixar em casa, comprar flores e implorar pra voltar com a sua ex.

- Posso te fazer uma pergunta séria?

- Posso responder com interjeições? Há um sério risco de não prestar atenção na pergunta… Já está na parte do “Come on in, brothers and sister! Welcome to the house of the Lord!” Eu mencionei que me amarro nese episódio?

- Desde que você responda com uma interjeição sincera e séria.

- Como seria uma interjeição séria?

- Só prometa que vai responder com sinceridade.

- Quer trazer uma bíblia para que eu faça o juramento de “dizer a verdade, nada mais que a verdade”?

- Lá está você fazendo piada.

- Ok, desculpe, faça sua pergunta séria que responderei.

- Você me trocaria pelo Dr. House sem titubear, não é?

- Ah! Quer um abraço?

- Você prometeu que ia responder seriamente.

- Ah! Essa é a pergunta séria?

- Me trocaria?

- Você está me perguntando se eu trocaria você por um personagem fictício de uma série norte-americana? Mais sério do que isso só se me pedisse pra escolher entre você e o Pepe Legal.

- Eu sabia! Isso foi um sim.. não foi? Só faltou você completar com “.. de vodka”

 





Aqueles dois

23 07 2008

Ele estava andando pelo shopping quando se deparou com uma criatura muito cheia de trejeitos felizes. Ela vinha saltitando, balançando a cabeça de um lado para o outro, meio que dançando também, e sorria… Ela nem prestou atenção nele e nem percebeu que desde a entrada do shopping, ele a seguia com os olhos.

Ele quase morreu de pavor quando viu que ela tinha um mp3 player e estava lá..  com seus fones de ouvido, cabelos esvoaçantes e boca exageradamente em movimento, cantando com o “mute” acionado, enquanto caminhava em sua direção.

Ele entrou em pânico, estava prestes a se armar em posição de luta, se não fosse o pavor e a sua involuntária rendição aquela cena de comercial de margarina.

Ela de cinco queijos. Ele de calabresa com muita cebola. Os dois de pizza fria com café.

Ela de Woody Allen. Ele de David Lynch. Os dois exatamente de William Wallace gritando FREEEEDOOOOOWWWWW.

Ela de Amelie Poulain. Ele de Star Wars. Os dois de “any of you fuckin pricks move, I’ll execute every motherfuckin last one of .. ya!” em Pulp Fiction.

Ela de cinema. Ele de tevê a cabo. Os dois de finais de semana na maratona cartoon.

Ela de Gabriel García Márquez. Ele de Dostoievski. Os dois com aversão a Paulo Coelho.

Ela de Álvaro de Campos. Ele de Alberto Caeiro. Os dois apaixonados por Fernando Pessoa.

Ela de qualquer coisa com legendas e mais de um capítulo. Ele de Seinfeld. Os dois rindo, segurando uma colher e imitando o Joey falando greeeaa-aaaaat

Ela de Chico. Ele de Led, os dois de Ferris Buller, cantando Twist and shout, enquanto imitam a mesma dancinha.

Ela Clocks, enquanto faz a escova de cabelo de microfone. Ele com cara de mal humorado, enfatizando que detesta Coldplay.  Os dois no carro, desafinados, volume ensurdecedor, fazendo dueto em You give me fever, feeeeverrr“, enquanto ela estala os dedos e ele batuca o volante.

Ela de Regina Spektor. Ele de Hã?? Regina o que???

Ela rindo. Ele tentando convencê-la que aquele é o olhar de furioso dele, não o de poodle sem dono.

Ela bêbada, com um copo de gelo nas mãos, já meio rouca e cantando “1, 2, 3 indiozinhos.. 4, 5, 6 indiozinhos 7, 8, 9, 10 indiozinhos iam navegando pelo rioooo-oooo”. Ele gargalhando, pedindo mais uma caipirinha e dizendo que vai denunciá-la para a FUNAI por maus tratos aos índios e para o MEC pelo péssimo emprego da música em questão.

Ela 20 e poucos anos de orgulho e inconveniência. Ele desde 1979 magoando pessoas com palavras ásperas e mal medidas. Os dois desde vidas passadas, só pode!

Dia desses, ele no hospital, ela também, motivações diferentes, mas os dois estavam lá por uma causa em comum: ele. 

- Estou acordado já faz uns 10 minutos, ouvindo você chorar compulsivamente. Ou eu estou morrendo ou você já descobriu que não vende cerveja na cantina do hospital. Pelo jeito sincero que está chorando acho que a última opção é a mais provável, por mais que eu esteja morrendo.

Ela ri, enxugando as lágrimas:

- Pelo visto você já está fora de perigo.

- Pelo visto você me ama.

- Err.. Na verdade não amo.. Estava chorando porque constatei que vou ter que passar o dia aqui com você e meu… não tem tevê a cabo.  Estou pensando se vale a pena. Deve estar passando os irmãos Winchester essa hora.

- Eu quase ter morrido me livra da bronca por ter deixado você esperando?

- De jeito nenhum! Perdoaria se fizesse igual todo mundo.. se tivesse se atrasado por estar com umas vadias, por estar jogando sinuca ou pela cerveja com o pessoal do trabalho. Essa de apelar para o “eu estava inconsciente” para se livrar de uns esporros, não vai funcionar.





Entre pipoca e lágrimas

15 07 2008

 

Moletom, sofá e Dr. House, ela jurava que nada a faria abandonar os travesseiros e o edredom naquele dia, quer dizer, abriria uma exceção: João, definitivamente, pelo João ela abriria uma exceção, não tiraria as pantufas para correr de encontro a ele.. Ah! Mas pelo João, somente pelo João, seria capaz de apertar o pause do controle remoto. Era isso: dvd´s, moletom, edredom, sofá e o João, entregador de pizza amigo, trazendo o mesmo pedido de sempre: tomate seco com rúcula. Mas..

 

- Alô..

- Vamos sair?

- Não.

- Vamos sair?

- Não.

- VAMOS SAIR?

- Err.. hum.. não!

- Você fez um juramento lembra?

- Amar, respeitar e ser fiel até que a morte nos separe? Hum, não, não.. não era isso. Era? Xiiii… Senhor, perdoai.. eu pequei!

- “Com esse pedaço de carpê nas mãos, tendo Deus como testemunha, eu juro que nunca mais deixarei ninguém do meu círculo de amizade ir ao cinema sozinho”. Lembra-se?

 

Merda! Eu adoro cinema, cadeiras nas últimas fileiras, tela grande, saquinhos de M&M, mas a verdade é que o cinema, pra mim, é uma prova de que seres humanos são feitos para viver em sociedade. Em um dos meus piores pesadelos, estou em um cinema vazio, com um pote de jujubas, assistindo repetidamente Casablanca e chorando ao som de “as time goes by”.

 

Toda imagem de independência, toda a ilusão de auto-suficiência, toda arrogância de “não preciso de você pra nada”, se esfacela diante da bilheteria de um cinema.  Com quem vou rir nos trailers? Quem vai repetir comigo “há-há-há eu não tinha pensado nisso”, naquela mesma propaganda de Seguros do Unibanco? Com quem vou fazer observações (im)pertinentes? Definitivamente, o ser humano não nasceu pra ser só e por mais que os curitibanos (variante da espécie homo sapiens, mas com inúmeras peculiaridades) afirmarem que vão ao cinema sozinho por gosto pessoal, eu acredito que nenhum ser humano pode, REALMENTE, achar DIVERTIDO ir ao cinema sozinho, mas.. sei lá.. talvez a estranha seja eu, afinal, sou excêntrica.. faço solos de air guitar ouvindo Doors. Mas, enfim, convite para cinema é covardia. Como recusar? É uma alma em desespero, clamando por ajuda:

 

- Hum.. e qual é a boa de hoje? Documentário cambojano? As mazelas da Somália? Ou outro incrível filme iraniano sobre tratadores de avestruz? (ele é sempre responsável pelos mais “incríveis” convites, sempre acho que está testando o quanto eu posso suportar).

- A nova animação da Pixar.

 

(Pausa para a confissão pública: eu A-D-O-R-O desenhos).

 

- Está sendo cínico? Está dizendo isso para me fazer ficar feliz, dizer umas interjeições que expressam felicidade e depois acabar com todas minhas ilusões, num ato de puro sadismo?

- Não, estou realmente te chamando para assistir o novo desenho da Pixar.

- Por quê?

- Porque sei que você adora desenhos, oras!

- Hum… Você fez alguma coisa que faria eu te odiar pra sempre e está tentando ser legal para me impedir de te odiar pra sempre?

- Eu sempre faço coisas que fariam você me odiar, mas sabe Deus porque, nunca funciona.

- Eu estou doente, né? Eu estou com os dias contados e você, na sua infinita bondade, está tentando me deixar feliz antes da passagem, confesse!

- Pobre criança inocente! Você sabe que eu nunca faria isso.. minha bondade é extremamente finita, isso seria uma atitude cristã demais pra mim.

- Está precisando de um rim?

- Não, só de companhia para o cinema… e talvez de um fígado, mas creio que você não seja a escolha mais acertada para essa necessidade. Então, 15 minutos?

- Claro! Aí você me espera por mais 1 hora e vamos.

 

E lá estávamos nós e milhares de criança, em uma sala de cinema, comendo pipoca e assistindo Wall-E, quando:

 

- Má, você está chorando?

- Chorando?? Eu?? Eu não tô chorando.

- Então vamos sair daqui correndo para o hospital, deve ter algo estranho, estão saindo lágrimas dos seus olhos, LÁGRIMAS!! Sem você chorarrr.. Um médico, UM MÉDICO. Sococorro! Glândula lacrimal fora de controle!

 

E, em um ataque de fúria, o belisquei.. ferozmente!

E Wall-E fez o que nem a morte do pai do Simba em “Rei Leão” fez.. Patéticas cenas de uma pessoa adulta, chorando assistindo um desenho. Constrangedor! Na próxima vamos ver algo meio “Piaf”, “menos” triste.





Devaneios de domingo

13 07 2008

 

                                 

 

 

 Domingo de meias, nem tristeza, nem felicidade.. nuances de cinza. Traços vermelhos e sonhos em cores em um filme preto e branco. Melancolia? Culpa das trágicas histórias dos filmes anos 50, que pessoas não deveriam, em hipótese alguma, assistir sozinhas em um domingo ou, pelo menos, não sem a companhia de um pote de sorvete de chocolate que fosse.

 

Havia um estranho incomodo no ar. Uma sensação real, rodeada de situações confusas, estrelada por imagens inacreditáveis que nos esmagam com uma força brutal, enfraquecem, desnorteiam, jogam nosso corpo de uma realidade para outra, de um estado para outro, deixam impotente, inerte, irreconhecível. Absurdo? Em um instante paz, calmaria, encantamento… No instante seguinte, chuva, vento, angústia… sentindo em cada pequeno movimento uma pressão enorme que poderia sufocar lentamente.

 

Cada verdade é apenas uma parte de um todo ambivalente, complexo, confuso e contraditório, afinal, cada alma tem um mundo.

 

Não sabia ao certo, mas aquilo dominava seus pensamentos, percorria suas artérias e ocupava todos os átrios e ventrículos do seu coração. Confusão? Todos os sentimentos se misturavam à condição da sua existência e retornavam em outra composição para a atmosfera: suspiros.

 

Era, desde o princípio, previsívelEra o senhor do seu rir e pesar. 

 

A direção constantemente abandonada do nosso destino,

A nossa incerteza pagã sem alegria,

A nossa fraqueza cristã sem fé,

O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,

A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,

A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida…

 

[Passagem das horas - Álvaro de Campos]





Vida independente - Como matar animais ferozes

9 07 2008

 

No auge dos meus dezessete, dezoitos anos.. consegui a minha independência, ainda comprava danoninho e jujuba, ainda vivia do dinheiro dos meus pais, mas tinha me tornado uma adulta que fazia suas próprias compras no mercado e podia almoçar bolacha (não biscoito, que fique claro!) negresco, se eu quisesse.

Morava sozinha e apesar de sofrer com uma forte crise de abstinência provocada pela falta de tevê a cabo, eu superava a infelicidade disto com as festas open bar da USP.

E nessa vida independente e solitária, em um dia de calor senegalês, em um dia de ar condicionado quebrado, em um dia em que me sentia mais ou menos como o vilão de Exterminador do Futuro II, dissolvendo, me partindo em milhares de partículas e me transformando em uma poçinha, eis que tomo a sábia decisão: 

- Vou dormir de janela aberta, não era isso que os antigos faziam em tempos longínquos, em uma vida de privações.. uma existência sem os prazeres do ar condicionado? Isso! Janela aberta, afinal, eu moro no quinto andar, que perigo uma janela aberta teria?

Então, lá estava eu, reclamando insistentemente do calor absurdo, lembrando como minha criação me estragou e eu me tornei uma pessoa que necessita de um ar condicionado no nevar para ter uma boa noite de sono, mas.. em um determinado momento, fui vencida pelo cansaço.. e em meio aos lençóis de algodão e a falta de vento entrando pela janela.. adormeci.

E lá, nos meus devaneios, lá dormindo e sonhando com camelos e o deserto do Saara, eis que de repente sinto algo em minha perna, instintivamente peguei o travesseiro e bati na perna, jogando o que quer que fosse para longe. Cambaleando, levantei e acendi a luz, então me deparo com aquilo: algo preto, rastejando sobre o piso. Dormindo, sonhando, delirando, pensei comigo:

- O que seria isso? Uma borboleta mutante e feia, feia, feia?

Então, saindo do meu estado de transe, deixando para a trás a demência do sono, eis que:

- Aiiiiii.. um morcegooo! Um morcegooo.. UM M-O-R-C-E-G-O (grito, enquanto faço o que qualquer outra mulher destemida faria: subo na cama).

Respiro fundo, tento superar o ataque de pânico e começo a pensar em soluções:

- Posso pular da cama, sair correndo.. trancar o morcego no quarto e dormir na sala. Amanhã eu cuido do morcego (eu = cara de sofredora, voz mansa implorando para um homem tirar aquele bicho asqueroso do meu quarto).

Me pareceu coerente. Então, destemida sai correndo do quarto, enquanto soltava algumas interjeições de pânico. Deitei na sala:

- Merda! Não vou conseguir dormir aqui, sofá desconfortável… Que absurdo! Eu com pânico de um morceguinho?  Que mulherzinha! Claro que eu consigo me livrar de um morcego.

Então, bravamente, armada com uma vassoura, entro no quarto decidida:

- Alguém aqui vai morrer e não serei eu, está me ouvindo Batman?

E lá, senhora de mim, tentava matar, com a vassoura, o morcego que se arrastava pelo chão. Mas no meu planejamento ele morria, não grudava na vassoura:

- Merda! 

E então, provando sua superioridade, provando ser conhecedor de diversas artimanhas para assustar mulheres indefesas, eis que o morcego começa a voar pelo quarto. Mais pânico, mais gritinhos, interjeições e corrida destemida até a sala, enquanto trancava a porta do quarto.

Corajosa, independente, senhora de mim, tomei uma decisão: fui pedir socorro para o ex-namorado e vizinho:

- Tem um monstro no meu quarto!

- Jeito estranho de pedir desculpa e fazer as pazes.

- Estou falando sério.. tem um monstro no meu quarto.

- Se você quer dormir em casa, é só pedir.. não precisa inventar desculpas malucas.

- Tem um animal asqueroso e feroz no meu quarto, vamos lá matá-lo (digo o empurrando até meu apartamento).

- Se você quer que eu durma com você na sua casa, é só precisa pedir.. não preci.. 

- Entra lá no quarto.. tem um morcego horrível… eu espero aqui.

Ele abre a porta, entra e minutos depois sai:

- Certo, não tem nada lá dentro. Isso tudo é porque você quer que eu durma aqui ou porque você quer dormir lá em casa, mas é incapaz de engolir o orgulho e pedir desculpa?

- Como não tem nada lá dentro? Claro que tem… (digo enquanto entro corajosa dentro do quarto).

Olho em volta, vasculho e nada do morcego. Concluo:

- Deve ter saído pela janela, então.. pode ir agora.

- Ahn? Como assim? Você me acorda, me faz vir aqui por nada e nem um pedido de desculpa, nem um assumir que estava mentindo?

- Errr.. não.. TCHAU!…

E ele vai embora, e eu volto para o quarto… e me preparo para voltar a dormir, quando:

- Aiiiii.. um morcego, um morcego.. UM MORCEGOOOO!..

Novamente, destemida, senhora de mim, adulta e independente, bato na porta desesperadamente:

- Tem um morcego no meu quarto.. verdade.. ele está lá.. ele está lá..

- Má, ou você me pede desculpas e diz que errou e eu deixo você dormir aqui, ou.. você vai para sua casa e sossega e para com essa história de morcego.

- Eu juro que tem um morcego lá.. Por favor, tire ele de lá.. (digo chorosa, puxando-o pelo braço)

- Não tem nada aqu..arghh.. um morcego… não é que era verdade? Me traga uma vassoura.

- Ah!.. Eu já tentei isso.. mas ele não morre..

- Me traga a vassoura.

E então ele, destemido, macho alfa, profundo conhecedor de técnicas de caça, vira a vassoura e com o cabo esmaga a cabeça do morcego.

- Arghhhh!… Que nojooooo…. (digo, sempre primando por comentários coerentes e inteligentes).

- Ele te mordeu?

- Ahn?

- O morcego te mordeu?

- Ihhh… não sei… talvez.. eu estava dormindo, quando senti algo na perna.

- Vamos para o hospital (diz me arrastando)

- Nãooooo.. hospital nãooo…

Patéticas cenas de uma mulher independente, destemida, senhora de si.. em um hospital, tomando injeção por causa de uma maldita noite de calor senegalês, sem ar condicionado.. Ah! A vida independente….