Como cuidar de cachorros – Lição I

30 06 2008

 

 Eu adoro cachorro, de todos os tipos, tamanhos, raças.. eu simplesmente ADORO cachorros. Quando criança eu morava em um lugar que meu pai transformou em uma quase chácara. Já tive os mais diversos bichos de estimação, só não tive um golfinho porque meu pai disse que não era viável criar um golfinho na piscina. Em compensação já tive patos, ganso, coelhos, tartarugas, cavalos (mas esses não ficavam no quintal, mas sim na fazenda), mas sempre gostei mais de cachorro… e é assim até hoje.

Tirando Lênin, um pastor alemão que já me mordeu uma vez, já mordeu meu irmão mais velho uma vez, já mordeu meu primo uma vez, já mordeu meu irmão caçula 4934894034 vezes e já mordeu/assustou/arranhou/avançou em alguns passantes, os cachorros lá de casa sempre foram conhecidos por aquele jeito de cachorro bobão e pacato até que:

- Ah! Você ficou sabendo o que aconteceu com o Neto?

- Ahn?

- O Neto..coitado! Morreu em um acidente de moto..

- Ahn??

- O Neto.. não lembra dele?

- Quem??

- O filho da Maria.

- Maria?

- Ah! Enfim.. ela te deu o cachorro.

- Hein?? Cachorro???

E foi assim que de repente lá em casa passou a ter uma criatura que alguns chamavam de cachorro, outros de criatura demoníaca. Um fila enorme e incrivelmente sociopata, que ficava isolado no outro lado do quintal de casa, afastado por um muro e dois portões do convívio social, sendo alimentado só pelo meu pai e privado de carinhos na barriga e brincadeiras com bolinhas, por se tratar de um cachorro incrivelmente bravo. E assim seguimos nossas vidas, eu já não morava mais com meu pai e nas raras vezes que estava lá de passagem, nem chegava perto do cachorro.. sabia de sua existência pelos latidos altos e em som grave e vivia bem assim.. até que meu pai fez uma operação e eu era a única pessoa passando uns dias em casa, então, ou eu alimentava o cachorro ou ele morria de fome. Confesso que cogitei deixar o cachorro morrer de fome cada vez que ele rosnava pra mim e avançava sobre a grade, mas eu lembrei que eu adoro cachorros, então, pensei:

- Que isso.. medo eu tenho de ratos, que são animais ferozes e perigosos, vê se eu vou ter medo de um simples cachorro.

E assim, munida de muita coragem, atravessei o portão que liga o quintal social ao quintal dos cachorros e senhora de mim, peguei o saco de ração com a bravura de uma guerreira dos tempos romanos, pelo menos por breves momentos, até o cachorro começar a latir, rosnar e bater na grade do outro portão, então, como qualquer mulherzinha que se preze, larguei o saco de ração e sai de lá antes que ele descobrisse que era maior do que a grade que nos separava.

Depois dessa tentativa frustrada, como mulher adulta, independente e auto-suficiente que sou, fiz o que qualquer outra faria no meu lugar: chamei um homem.

- Ei! O que está fazendo?

- Nada. Por quê? Tá querendo fazer alguma coisa?

-Sim, estava pensando em alimentar uma criatura com corpo de cachorro e fúria de leão, está afim?

- Oi??

- Não consigo dar comida pro cachorro, ele me detesta!

- Que patinha!! – diz ele rindo – Já estou indo.

Então ele, ser do sexo masculino, senhor de si, corajoso e macho pra caramba, atravessou aquele portão, com a determinação de um William Wallace, lutando por suas crenças e menos de um minuto depois:

- Meu! Aquilo não é um cachorro… não vai dar não, Má.. não tenho coragem de encostar na grade pra por ração.. nem água.

 - Ahh.. mas o que fazemos então? Não podemos deixar o cachorro morrer de fome.. chamamos os bombeiros?

- Hum… eu tenho um plano.

- Qual?

- A gente pega uma mangueira e um banquinho, subimos no banquinho e jogamos água por cima do muro, até encher a vasilha de água – diz destemido.

- E a ração?

- Uma coisa de cada vez, uma coisa de cada vez..

E assim, corajosamente, colocamos água para o cachorro.

- Já sei como colocar ração.

- Como?

- Só precisamos distrair o cachorro.

- Ah! E como distraímos uma besta demoníaca faminta?

- Tenho certeza que você vai dar um jeito.

- Eu????

- Eh.. é só você ficar lá na parte da frente da casa e manter o cachorro lá, enquanto eu entro e coloco a ração.

- E como vou manter o cachorro lá? Vou dar minha mão pra ele morder?

- Isso!!! Grande idéia

- Ahn?

- Vá jogando alguma coisa pra ele comer..

E assim fiquei, na parte da frente da casa, jogando pedaços de pão para o cachorro, enquanto meu amigo entrava cuidadosamente e colocava ração para o cachorro. Missão cumprida.

Dois dias depois, pensei novamente:

- Merda! Tenho que dar comida pro cachorro.. vou ligar para o… Ahhh! O que eu sou? Uma franguinha? Desde quando tenho medo de cachorros ferozes e com dentes afiados?

E, numa técnica milenar, aprendida nos filmes do Karatê Kid, fiquei por minutos, encarando o cachorro por cima do muro, ele me encarando e latindo, eu o encarando e cogitando latir e assim foi até que ele parasse de latir e de avançar sobre a grade. Então, determinada, entrei pelo portão, peguei o saco de ração e o cachorro voltou a latir e a rosnar, eu olhava pra ele, ele olhava pra mim.. ou ele avançava em mim.. ou eu avançava nele, mas não ia sair de lá sem colocar comida e água, já tinha decidido e eu sou conhecida pela minha teimosa. E pronto, lá estava eu, senhora de mim novamente, uma pessoa capaz de colocar água e ração para um cachorro sem a ajuda de terceiros.





A fase da negação

27 06 2008

 

Estavam no bar. Ele a olhava fixamente com um sorriso de canto de lábio, ela ria e falava compulsivamente sobre papéis, mundo corporativo, frio, cor-de-rosa e insanidades aleatórias, de maneira completamente não linear.

- Desisto! Quem é ele? (diz ele batendo na mesa e interrompendo uma das histórias dela)

- Ah! Você não conhece.. é aquele boy novo daquele…

- Não, não é disso que estou falando. Quero saber quem é o cara.

- Ahn? Cara? Que cara?

- O cara por quem você está apaixonada.

- Eu?? Apaixonada? – diz entre risos – Eu não tô apaixonada.

- Sim, está.. mas não descobri ainda por quem. Eu conheço? Não, não devo conhecer.. senão já teria notado.

- Eu não to apaixonada, meuuu!

- Ihhh… ele é casado?

- Hein? Não!!! Ele não é casado.

- Rá! Se tem um ele que não é casado é sinal de que tem um ELE que é solteiro. Qual é o problema então?

- Problema? Que problema? Não tem problema nenhum.

- Então porque não estão namorando? (pausa) (pausa) Xiiiii…

- O que? O que?

- Você realmente gosta dele, né?

- Mas quer merda!!! Não tô apaixonada.

- Se não estivesse apaixonada, estaria namorando.

- Ahn?? Não é o contrário?

- Seria, mas você tem um modo de funcionamento muito peculiar. Qual o problema com esse cara? Aliás, qual a razão totalmente sem sentido, mas que na sua mente parece ter coerência?

- Se eu estivesse apaixonada eu saberia, não?

- Mas você sabe que está, mas está na fase da negação.

- Negação?

- Sim, por causa do funcionamento peculiar, racionalidade, medo e coisas que soam e cheiram a certezas. Você está e tenta se convencer que não está… sei lá.. aquelas coisas de gostar do controle da situação, não pisar em ovos.

- Quantas cervejas você tomou antes que eu chegasse?

- Não o suficiente para não perceber que está mudando de assunto.

- Não estou apaixonada.

- Então prove!

- Como?

- Fique com um cara hoje.

Ela ri:

- Quem? Você? Se for essa sua técnica de convencimento já digo que foi uma péssima abordagem.

- Por quê? Você quer ficar comigo? Ai Meu Deus! Sou eu? Você está apaixonada por mim? É.. por isso tem demorado pra retornar as minhas ligações.. é isso.. antes você não estava apaixonada, podia me ligar compulsivamente, agora me ama.. não quer que eu perceba e tenta me evitar para que eu não note o sentimento mais profundo.

- Quer me fazer ficar com você e ainda tentando me fazer pensar que sou eu que quero porque estou apaixonada por você, mas não sei lidar com isso?

- Não! Eu sei que está apaixonada.. e sei que não é por mim, mas não custava tentar. Mas e aí.. vai ficar com o cara?

- Cara? Que cara? O por quem estou apaixonada?

- Ah! Então você está apaixonada…

- Não sei.. você disse que estou…

- Se não está marque de sair por uma semana com aquele cara que te mandou aquela cantada escrita no guardanapo.

- O que escreveu “se você querer”??

- Exato!

- Olha..o “se você querer” eu relevava.. o “encomodar” eu deixava passar.. mas, definitivamente, o “entertida”.. ah não.. não tem como.

- A-hááááá.. Já sei!! É o João.

- Hein?!?! Não!!!!

- Hmmm… é… não, não é o João mesmo… o João eu conheço. Quando vou conhecer esse tal cara??

- Gente! Desculpe o atraso, maldito trânsito, maldito horário comercial, malditas calçadas, salto quebrado. Merda! Garçom.. uma caipirinha de rum, capricha no limão (diz, enquanto puxa uma cadeira e se junta a eles). Ihh.. que caras são essas? Do que estão falando?

- Ela está apaixonada! – diz ele com olhar cínico e com o maldito sorriso de canto de lábio.

- Apaixonada?!?!? Por quem??

- Não conhecemos, mas ele não é casado.. é o que sei.

- EU NÃO TÔ APAIXONADA!

- Xiii… A fase da negação, é?

- Exato! A negação… Garçom… mais uma cerveja e Cranberries de música de fundo, porque temos aqui uma mulher apaixonada!





Em uma segunda dessas

24 06 2008

 

 

Ele entra pela porta, sorridente, sem camisa e batucando em uma maleta que estava em suas mãos:

- Amor!!! (diz enquanto pula em cima do sofá e a abraça) Pergunta onde eu estava.

Ela fecha o livro que estava lendo:

- Hum.. tá.. espera aí… Pode fingir que está entrando novamente? Pra dar mais realismo.

- Está bem, recomeçando (diz ele se levantando, abrindo a porta e fazendo a mesma entrada).

Dessa vez nem dá tempo dele dizer nada:

- PORRA!! Posso saber onde diabos o SENHOR ESTAVA???

- Ow, quando você vai parar de se intrometer na vida dos outros?!?! Que coisa. Porra!!! Assim você me sufoca… não me dá espaço.. Se eu quisesse que você soubesse onde eu estava, teria te contado, porraaa. Puta que pariu, viu!!!

- Então não fala porraaaaaa… Não quero mais saber da sua vida.. Vai catar coquinho.

- Catar coquinho??? – diz ele gargalhando - Você fica tão fofa nervosa.

- Se liga ow..QUEM TÁ NERVOSA AQUI, HEIN..HEIN, HEIN??

- Devo ser eu, desculpa, é que tomei muitas porradas no futebol.

- Hum… Você estava jogando, é verdade.. segunda é dia de futebol, estava no contrato, letras miúdas, tinha esquecido. Fez muitos gols?

- Onde você pensou que eu estivesse? Na esbórnia? Por isso mantenho este meu porte físico de Deus Grego!!! Poxa, mas é claro que fiz gols né. Fora o espetáculo. Mas foi bem isso, era eu passar pelos caras pra tomar porrada.

- É duro ser artilheiro. Quantos gols fez?

- Pois é.. o que compensa a dor de ser perseguido em campo é o salário. Fiz a incrível quantia de UMMMMM golaçooooo.

- Quase o novo ídolo do ataque palestrino (diz ela entre risos cínicos).

- Mas nem só de gol é feito o futebol!!! Já diria nosso excelentíssimo técnico, o senhor Parreira: “Gol é um detalhe”. E as assistências?!?! E o espetáculo?!!?

- Ah! Quer dizer que teve espetáculo??

- Err.. na verdade não, mas os três pontos foram nossos. Nosso time ganhou de 8×4!!! E o negócio é o seguinte, além de jogar muito, sou o capitão do time e ainda o cara, apesar de mais velho, com mais fôlego.

- Fico só imaginando o nível dos outros jogadores.

- É ruim, é muito ruim. Um dia você tem que ir lá ver.

- Tudo bem, e se pagar umas cervejas eu até bato palmas, grito seu nome e digo que você joga muitooooo.

- Dois minutos me vendo jogar e você não vai agüentar, você vai gritar. Nem que seja da bolada. Hoje quebrei dois no jogo. De raiva mesmo, estava sendo perseguido em campo.

- Não sabe que essa é a sina dos craques? Tipo..ser perseguido em campo..

- Ah é??!?! Acha mesmo que sou um craque, amor??

- Err.. não,  mas o seu time deve ter usado a seguinte tática..espalharam por aí, em conversas informais, que você era o craque do time para os marcadores adversários te perseguirem em campo..Com isso confundiram o pessoal e deixaram as reais estrelas livres pra brilhar.

- Hmpf! VÁ CATAR COQUINHO!





Uma lição de amizade

15 06 2008

  

- Como foi de dia dos namorados?

- Com muita DR.. O ponto alto da noite foi a vitória do Palmeiras sobre o Cruzeiro.

- Veja pelo lado bom: Você pode ficar encalhada, mas ao menos o Palmeiras ganhou. Uma tiazona que torce pra um time campeão é melhor que uma tiazona que torce pra um time fracassado…. Ou não… Ah! Deve ser.

- Sim.. sim.. e não foi um completo fracasso, eu ainda tenho com quem discutir relação, com quem brigar..

- Sexo, briga… são conceitos parecidos, pelo menos.. soco, pulo, grito… saca? Mas se é difícil manter um namorado você podia só engravidar.. pelo menos constitui família.

- Você sempre querendo me engravidar (no bom sentido hahaha).

- No bom sentido não! No ótimo sentido. Quem vai fazer o trabalho, é algo indiferente. Me paga uma pizza e umas cervejas, me fala umas coisas bonitas no ouvido e pronto. Resolvo isso. Ou então terceirizo pra alguém… Candidatos é o que não faltam.

- hahahahaha.. muito obrigada por dizer que eu só preciso embebedar alguém.. está ficando cada vez mais animador.

- Não que seja extremamente necessário embebedar pra conseguir. Mas torna tudo mais fácil. E além do mais, ficar bêbado é bom, seja lá qual for o motivo. Neste caso, seria por uma boa causa.

- Pois é.. beber é sempre bom.. embebedar uma pessoa em uma medida desesperada pra conseguir sexo que soa meio deprimente..

- Se não funcionar, sempre há a possibilidade de pagar por sexo. Fique fria. Algum jeito a gente dá.

- Obrigada, fico aliviada em saber que se eu não conseguir nada, você está aí pra me dar cobertura hahaha.





12 de junho

12 06 2008

 

Aqui jaz um texto!

 

(mas os comentários moram no meu coração - entra música brega.. hahaha)





Desígnios celestes

11 06 2008

 

 

Ele era daqueles que acreditam em destino, universo ou coisa que o valha. Ela? Debochada, ria toda vez que ele afirmava que ela na vida dele não era por acaso e dizia, sem a menor dor na consciência, que o destino era uma desculpa que damos quando não queremos acreditar que tudo é acidental, inclusive ela, que por ventura, acabou fazendo parte da vida dele.

 

Ele insistia no universo, nos porquês, em motivos especiais… Ora contente por toda a conspiração do universo e as forças ocultas que comandam a vida, terem colocado ela em seu caminho, ora impaciente, inquieto e enfatizando a crueldade do destino, do universo, ou coisa que o valha:

 

- Porque isso? Chega a me dar raiva..  eu deveria perguntar para o destino ou universo ou coisa que o valha pra descobrir porque essas coisas (coisas = ela = maluca = complicada =  confusa = geniosa) acontecem… mas eu encaro que nada é por acaso..

Ela ora séria, ora rindo cínica:

- Ah sim… tudo está escrito e eu estou na sua vida por um motivo altamente relevante… não é mesmo?

- Não está tudo escrito, mas o universo coloca em sua frente aquilo que você pede pra ele.

- Hum.. e você queria uma paulista chata, metida e nojentinha pra te azucrinar todo dia? Humm.. ou o tal do universo que confundiu tudo? Serei eu uma prova de que o sistema de distribuição do universo tem suas falhas?

- Não.. eu queria outra coisa.. quer dizer.. Ah! Não vou dar esse mole todo de ficar te contando tudo que eu desejo.

- Eh.. está certo..  até porque quem tem que saber tudo isso é o universo, não?

- Sim… e vai que não é você.. Vai que você só me distrai enquanto o que eu quero de verdade chega.

- Ahn?.. Hum… está bem,  eu não to fazendo nada mesmo.. eu posso ficar aqui um tempo te distraindo até o universo mandar o pacote certo.  

 

Ele? Ele ainda acredita no universo, destino ou coisa que o valha. Ele deve ter encontrado uns porquês para aceitar todas as peças do destino.

 

Ela? Debochada, incrédula e cínica. Duvida do universo, mas passou a acreditar que nada é por acaso. Primeiro o sistema educacional e os professores de literatura, depois ele e sua paixão por textos da Clarice. Acidental? Não, definitivamente, não.. nada na vida é por acaso… Ela duvida de muitas coisas, mas passou a acreditar na Clarice Lispector e nos seus desígnios.





Desabafos de uma mulher de cabelo cacheado

3 06 2008

 

 Eu sou uma mulher incrivelmente excêntrica. Enquanto mulheres normais têm fixação por sapatos, roupas, bolsas, eu estou em um grupo isolado, de mulheres compulsivas por óleos de banho, xampu, creme e esmaltes.

 

Conheço os esmaltes pelos seus singelos nomes, tais como: “cor-de-rosa algodão doce”, “castanha do Pará”, “beijo”, “calda de chocolate quente”, tendo inventando as mais bizarras misturas com tudo quanto é tipo de cores. Acompanho todo o lançamento de cores das novas estações e já comprei tanto esmalte de uma mesma vez, que a atendente da farmácia chegou a perguntar se eu era manicure.

 

Tenho uma compulsão semelhante por creme e xampu. Sou do tipo que demora séculos para comprar xampu. Por mais que esteja no mercado só de passagem, por mais que o plano inicial fosse só comprar detergente, chocolate e vodka, por mais que só tenha recebido uma ligação do namorado no meio do caminho e ele tenha pedido pra comprar xampu e sabonete, por mais que eu saiba que ele não consegue diferenciar um “Palmolive” de um “Ox plants” para cabelos oleosos, ainda assim, eu demoro escolhendo xampu.

 

Já é notória essa minha compulsão. Os amigos mais chegados, os irmãos, os pais e o atendente do delivery da farmácia já sabem que faz toda a diferença eu dizer que quero a marca Y com a embalagem verde escuro e que não, o verde claro não é a mesma coisa.

 

Então, já sabendo dessa minha compulsão, nesses anos e anos de “aturamento” mútuo, é sempre assim: ele viaja e ao invés de me trazer camisetas, badulaques, artesanatos, postais e qualquer outra coisa semelhante, ele me traz xampu. Já se viu perdido em lojas alemãs, em busca do xampu de aroma mais agradável e ideal para meu fresco e temperamental cabelo cacheado. Já gastou horrores em xampu francês para chegar aqui e eu olhar com apreensão. Já teve que aprender a falar “xampu sem sal” em diversos idiomas. Já foi para o Pantanal e foi em busca de empórios botânicos locais, atrás de novas embalagens e fragrâncias. E, dessa vez, não foi diferente:

 

- Eu trouxe um presente pra você.. acho que desse você vai gostar.

Abro a embalagem e..

- Xampu para cabelos étnicos??? Hahaha.. Pô! Precisa avacalhar, assim? Precisa?

- Ah! Eu juro que tentei, andei a cidade inteira atrás da frase “para cabelos cacheados” na embalagem. Mas a vendedora me jurou que você adoraria esse.

 

E foi assim que me vi com um novo tipo de xampu estranho e para cabelos étnicos, feito à base de cupuaçu e castanha… E, sempre que eu o uso, é desse mesmo jeito.. eu tento convencer meu cabelo que ele é um yorkshire.. e não um poodle, mas não tem jeito… meu cabelo nunca mais foi o mesmo depois que se descobriu “étnico”…

 

PS: Assédio moral, assédio moral, ASSÉDIO MORAL.. Ahn.. nada não.. só cumprindo uma promessa de aparecer entre os sites relevantes sobre o assunto, quando estiverem fazendo buscas no google. Posso não ter escrito sobre o assunto, mas aí está na relação de termos :-p

 

PS2: Meus queridos leitores pervertidos e sedentos de pornografia, esclareço que os dizeres envolvendo clubes de swing e MILHARES era apenas uma brincadeira, mas agradeço todos os convites e indicações (um abraço pro pessoal de Camboriú que gentilmente me convidou pra ir num tal de Liberty) de clubes… mas, lamento.. EU NÃO SOU FREQÜENTADORA DE CLUBES DE SWING.





Os últimos dias

2 06 2008

ACONTECIMENTO SURREAL I:

Na rodoviária, eu e o Alexandre, no maior visual ressaca-poser-óculos-escuros-atraso-ônibus, tentando desesperadamente achar a passagem dentro da minha bolsa, quando, de repente, surge uma mulher baixinha com uma cruz nas mãos:

- Porque Deus descerá e lançará sobre vocês, SEUS PAGÃOS, sua ira blá blá blá.

- Má, eu acho que nós somos os pagãos. Ela está apontando a cruz pra gente. Será que a gente vai dissolver igual nos filmes?

E a mulher continua:

- Porque os pagãos que usam Ray-ban enfrentarão a fúria do senhor. Porque esses pagãos não tementes ao senhor sairão da sua vida de pecado e serão purificados pelo fogo eterno.

- Má, definitivamente, ela não gostou dos nossos óculos escuros. Devemos dizer que é a última moda?

- Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum….

- Má, falta muito pra achar essa passagem? A mulher está se aproximando mais da gente.. eu acho que ela pensa que se encostar na gente com aquela cruz.. a gente vai virar pó.

E quando, finalmente, consigo achar a passagem, a mulher já está batendo no Alexandre com a bolsa, enquanto aponta a cruz e grita trechos da bíblia, dizendo que Deus não terá piedade dos pagãos que usam Ray-ban.

Alexandre se converteu e desde esse dia, não usa mais óculos escuros.. hahaha

 

ACONTECIMENTO SURREAL II:

Não, eu não estava no Taiti tomando coquetéis. Não, eu não estava numa comunidade de pescadores, entrando em contanto com meu eu interior. Não, eu não estava em uma tenda com cristais ouvindo Enya e meditando. Não, eu não estava na Holanda, verificando se a liberação de sexo nos parques realmente estava valendo. Estava bancando a enfermeirinha (no diminutivo não por usar cinta liga e generosos decotes, mas sim por ser incompetente demais para ser chamada de enfermeira). E foi em um desses dias de hospital:

- Quer colocar um pijama?

- Chame a enfermeira.

- Por quê? Está sentindo alguma coisa? Dor? Ai Meu Deus! Os pontos abriram? Banheiro? É ISSO? VONTADE DE IR AO BANHEIRO? A SONDA.. Ai Meu Deus.. A SONDA! (sempre calma, centrada, sabendo se comportar de forma muito prestativa no hospital, sem entrar em pânico).

- Não, não estou sentido nada.. só quero por um pijama.

- Ahh! Mas isso eu consigo fazer.. se não envolve agulhas e sangue.. está tudo bem.

- Não, chame a enfermeira.

- Por quê?

- Porque eu estou pelado.

- hahahaha.. Grande coisa.. como se eu não já tivesse visto milhares de homens pelados.

Silêncio constrangedor, silêncio constrangedor, silêncio constrangedor, um pai com cara de pânico.

- Err.. quer dizer.. tipo assim.. claro que milhares é um número meramente figurativo, não condizendo com a realidade.. obviamente foi um total exagero, sendo a realidade um número infinitas vezes menor.

Silêncio constrangedor, silêncio constrangedor, silêncio constrangedor, um pai com cara de pânico.

- Vou chamar a enfermeira.

 

ACONTECIMENTO SURREAL III:

Eu demoro horrores no banho. Não tem jeito. Não têm aquecimento global, meio ambiente, campanhas de conscientização sobre uso comedido da água, que me façam conseguir tomar banho em cinco minutos. Em cinco minutos eu consigo lavar a cabeça com xampu e olhe lá. E estava assim, no meio de um banho, quando ouvi o grito vindo da sala:

- Maíraaaaaaaa.

Pronto, já imaginei desgraças homéricas. Já imaginei pontos abertos, sangue pela casa, dores horríveis, pessoa desesperada precisando de ajuda. Bravamente, desliguei o chuveiro, me enrolei na toalha e saí andando descalça, molhando todo o chão da casa e com uma toquinha de banho cor-de-rosa com florzinha, na cabeça. Chegando na sala:

- Olha quem veio nos visi….

E lá estou eu.. de toalha, toca cor-de-rosa com florzinhas, pé no chão… com os amigos do trabalho dele me olhando.