Em total reclusão desse lugar chamado mundo virtual

15 05 2008

 

Meus queridos amigos, leitores assíduos, passantes virtuais e pessoas que procuram coisas estranhas e práticas não ortodoxas envolvendo fio terra, pasta de dente, desentupidor de pia, animais e KY gel, é com muito pesar que, por motivo de força maior, comunico meu afastamento do mundo virtual por alguns dias.

 

Lamento por todos os e-mails que não respondi, mas, por favor, não nos tire do seu “favoritos”, seu e-mail é muito importante para nós. Por favor, aguarde seu e-mail será o próximo a ser respondido.

A comunicação será restabelecida, novos textos publicados e os e-mails devidamente respondidos, assim que possível. Até lá.. faça como eu.. leia Clarice.

“Sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, não Lóri mas o seu nome secreto que ela por enquanto ainda não podia usufruir, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiros que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos da gratidão mais límpida, faz de conta que tudo o que tinha não era de faz-de-conta, faz de conta que se descontraíra o peito e a luz dourada a guiava pela floresta de açudes e tranqüilidade, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro - pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver”

[Clarice Lispector: Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres]

 






Conversas de MSN

6 05 2008

 

 Porque eu tenho conversas tão poéticas, com dizeres tão belos, tão carregados de amor, fraternidade, luz, paz e sacanagem, que deixariam com inveja Fernando Pessoa, envergonhariam Vinicius de Moraes e deixariam vermelho Nelson Rodrigues… Abaixo trechos de conversas bizarras, com conteúdo chulo e sem nenhuma relevância.

 

 - Logo vi que era uma alma bondosa…com esse rostinho angelical, que não sabe o que é melanina…

- Já vai começar a me chamar de branquela?

- Mas você é branquela..

- Preconceito de cor é inafiançável, sabia? INAFIANCÁVEL! Hmpf!!!

- Se você fumar um e ficar com o olho vermelho, passa por albina facinho, facinho..

- hahahaha… Já te disseram que você é muito gentil? Diz sempre essas coisas tão bonitas pras garotas?

- Sou assim… Bruto… Rústico. Já tá caidinha por mim… fale a verdade!

- Ah.. e quem não estaria? São muitas palavras bonitas.. e sabe, né? Eu sou uma sentimental….

- Imagine quando experimentar os 5 minutos de prazer (já contando as preliminares, claro!) total e ininterrupto!! O melhor que a endorfina pode te proporcionar… Sou assim… Uma máquina de sexo. Vai querer uma senha? (sabe, a procura é grande).

- Uauuu.. 5 minutos completos? Você é um profissional do amor. Seu talento na empresa está sendo subutilizado…

- 5 minutos!! Realmente formidável… Cheguei há 6 minutos uma vez… Mas é que o cinto emperrou, e demorei pra tirar as calças… Se eu estivesse usando ceroulas, ia pra uns 6 minutos e meio, fácil, fácil… Uma eternidade, praticamente.

- O importante é que os 5 minutos de prazer absoluto foram mantidos. Você é assim.. quase um..um.. um.. Alexandre Frota? Estou desinformada dos reis do pornô.. desculpe..hahahahaha

- O Frotinha é bom, mas John Holmes é o meu herói… Um cara, digamos, de enorme talento. Destaque para o “enorme”

- hahaha.. tudo bem.. quando eu quiser agradá-lo eu cito John Holmes e falo que devem ter o mesmo enorme talento…

- Que nada… esse meu pintinho de comer cú de canarinho nunca fez mal pra ninguém… Aliás, não quero falar sobre isso… 

- hahahahaha.. Dá pra você parar de me fazer rir? Eu tô trabalhando, pô!

- Tá… Eu tenho esse pintinho de nada, você ri, e ainda acha ruim?!?!

- Quer que eu diga umas frases de consolo, envolvendo metáforas péssimas sobre tamanho da varinha? hahaha

- Que falta de sensibilidade! É pequeno, mas é meu. Tem um valor sentimental…é coisa pouca, mas já me quebrou algum galho… Sua BRUTA!!

 

 - - -

 - A gente vai ser assim também, né?

- Assim também como?

- Assim como esses outros malucos da América Latina. Como o Chávez, o Evo, o Lula. De repente estaremos no poder.

- Não será de repente, todo o plano estratégico está traçado. Estamos só na primeira fase…Mas você não será presidente de um paíseco como o Brasil. Nós vamos alçar vôos mais altos. Será Estados Unidos. Será China. De repente você pode é ser a nova ditadora de Cuba.

- E você acha que daria certo?

- Ainda não, porque você é bonitinha, engraçadinha e boazinha demais para ser uma déspota. Mas eu já estou trabalhando nisso.. você é meu projeto.

- Posso comandar um país escandinavo? Posso? Posssoo?

- Por alguma razão especial?

- Claro que sim.. pela figura bonitinha que eles fazem no mapa..

- huahuahuahuahuahuahua.. besta!

 

- - -

- Vejo que está mesmo focado em me arrumar um novo namorado.

- Já arrumei: Sr. X. Fiquei bem feliz só de pensar na probabilidade de vocês namorarem, ficarem, ou alguma expressão genérica do tipo. Enfim: Correrem pelos parreirais de Santa Felicidade de mãos dadas.

- hahahaha.. Notou que tenta me arrumar um namorado desde que eu tinha um namorado?

- Hum.. é.. Tem o Sr. Y. também, mas acho que o Sr. X. tem mais o seu perfil, vocês se entendem melhor. Mas pode ser qualquer um dos dois. Ambos topariam facinho (não ao mesmo tempo, portanto, não se empolgue).

- hahahahaha.. Ahh!! Que desmancha prazer.. só porque comecei a ter umas idéias com isso.. Tem certeza que não topariam? De repente né… você podia dar uma sondada…hahahahaha

- Não custa perguntar, mas acho que seria complicado. Quem sabe com mais um cabrito, um pastor alemão… e muito, muito KY gel!!

- hahahaha.. Você acha que consegue um cabrito fácil? hahaha

- Posso dar meus pulos. Quer um par de botas 7 léguas também (conhece a teoria?)

- Não.. mas tenho certeza que vai resolver isso..

- Então… o esquema é colocar as botas 7 léguas nas patas de trás do bichinho aí ele fica tentando se livrar, meio rebolando, saca? Não fica tão passivo na relação.

- hahahahahahahahaha…. nunca mais vou conseguir olhar um pobre cabrito sem lembrar de você.

- Porque logo o cabrito? Podia ser a bota sete léguas, né?





Da importância de se ler Charles Dickens

3 05 2008

 

 Ela estava dormindo, tendo seus sonhos sem sentido, quando começou a ouvir “She needs him, yeah… that’s why she’ll be back again.. Can’t find a better man.. Can’t find a better man.. CAN’T FIND A BETTER MAN”. Ela, de olhos fechados, com a cabeça enfiada no travesseiro, tateia ao seu redor, em busca daquele aparelho demoníaco, responsável pelo brusco despertar e, ainda sonolenta, desliga o celular enquanto resmunga: “merda de despertador”. Ela resmunga mais alguma coisa, ajeita o travesseiro e se enrola no edredom. Não se sabe se minutos ou segundos depois, mas o fato é que o celular voltou a tocar insistentemente. Ela abre os olhos, resmunga mais alguma coisa, dessa vez olha o visor, vê números desconhecidos e, ainda meio sonolenta, atende:

 

 - Se você não for um amigo(a) íntimo(a), com muita liberdade para me ligar a essas horas ou um desconhecido portador de alguma informação importantíssima, eu vou amaldiçoá-lo até a quinta geração por me acordar.

 

 - Você está namorando?

 

 - Ãhn?

 

 - Está namorando?

 

 - Não, estou dormindo (diz ela, sem entender muito bem o que está acontecendo).

 

 - Não perguntei nesse momento, não perguntei se interrompi alguma coisa. Perguntei se tem compromisso firmado, em alguma esfera, com algum indivíduo.

 

 - Quem fala?

 

 - Como quem fala? VOCÊ NÃO SABE QUEM ESTÁ FALANDO??

 

 - Não sei nem se eu estou falando ou sonhando. Que horas são? Pode me ligar depois do meio-dia? Não, não.. depois das 14h.. Isso, depois das 14h, decidido!

 

 - Eu estava pensando em você e me perguntando por que a gente terminou e não consegui encontrar a resposta. Você se lembra?

 

 - Não lembro nem que namoramos.

 

 - Eu estava saindo com uma garota e estava fazendo uma analogia envolvendo o David Copperfield e de repente ela fez gestos estranhos de empolgação feminina, enquanto repetia “eu A-DO-RO-OOO aquele mágico, pena que o Fantástico não passa mais aquele quadro com ele”. Assim, com essa ênfase no “adoro” e tudo.

 

 - Não sei se você está bêbado ou se eu estou dormindo, mas era para essa conversa ter sentido?

 

 - Ela começou a falar coisas do mágico, do Fantástico e eu pensei “Meu Deus! Com que tipo de mulher eu ando saindo?”. E enquanto ela falava de mágicas e de modelos norte-americanos, eu comecei a pensar em você e comecei a me perguntar por que diabos terminamos. Não consegui encontrar um motivo, tive que te ligar.

 

 - Definitivamente, não foi por eu não conhecer a obra de Charles Dickens. Posso voltar a dormir agora?

 

 - Lembrou que namoramos?

 

 - Sim, você tem o perfil exato para ser meu namorado. Ligar de madrugada para falar da sua atual e Charles Dickens, é algo que só um excêntrico faria. Sendo você maluco e excêntrico, só pode ter sido e/ou está prestes a se tornar meu namorado.

 

 - Então você também acha que deveríamos voltar?

 

 - Sim, eu deveria voltar a dormir, você deveria voltar a.. a.. hum.. passar para o próximo nome da agenda de ex-namorada?

 

 - Você continua com um humor ácido.

 

 - E você continua com a péssima mania de me ligar de madrugada.

 

 - Por isso terminamos?

 

 - Se bem me lembro, você que terminou comigo. Será que é porque eu fui e continuo sendo ácida?

 

 - Eu terminei com você?

 

 - Sim, foi quando eu descobri o sorvete de chocolate suíço com avelã, assisti compulsivamente “Sociedade dos poetas mortos” e me dediquei aos cd´s de jazz.

 

 - Até parece. Você disse um “tudo bem” e seguiu sua vida como se nada tivesse acontecido.

 

 - Jura que não lembra porque terminamos? Pelo ressentimento por eu não ter tentado o suicídio, parece que você se lembra bem do fim da relação.

 

 - O ressentimento é por você não ter me ligado 28 vezes, num intervalo de 2 horas, para dizer que queria voltar.

 

 - Eu acredito no livre arbítrio e você me disse ter certeza que era aquilo que queria, enfatizando que não ia me procurar e que eu deveria fazer o mesmo.

 

 - Eu queria que tivesse me ligado 28 vezes, aliás, 2 bastariam. A gente merecia um fim melhor, um motivo melhor.

 

 - Então está me ligando para que a gente termine decentemente?

 

 - Não, estou ligando para que a gente namore.

 

 - Namore e depois termine decentemente?

 

 - Não, só namore… O que me diz?

 

- Digo que, definitivamente, você gosta muito de Charles Dickens.