Ela tinha decidido

17 04 2008

  

 Ela tinha decidido, seria um final de semana de moletom, arrastando meias junto com o Ross, rindo das mesmas piadas e repetindo as mesmas falas de friends. Seria um daqueles finais de semana dela sóbria, embebedada só com as doses de sorvete chambinho. ELA TINHA DECIDIDO, seria um final de semana de total reclusão desse lugar chamado mundo, com edredom e filmes clássicos, sim.. ELA TINHA DECIDIDO.

  

Toca o telefone:

 

- Ei! O que está fazendo? Vamos sair?

 

- Décimo quinto episódio, terceira temporada, “Where Ross and Rachel take a break”. Hoje nada que precise de maquiagem e salto alto.

 

- Fechado! Vamos pro Largo então, você pode andar igual mendiga lá… Passo aí em 15 minutos, já que não vou precisar esperar você se arrumar. Devia ter esses dias de prostração mais vezes, sabia? Te esperar por 1h30 é uma coisa terrível.

 

- Que bom que minha preguiça da raça humana te agrada, mas não vou sair hoje.

 

- Sabemos que você só precisa de um incentivo, sua preguiça de sociabilidade acaba 1 minuto depois de te jogarmos na sociedade.

 

- Ah! Mas hoje não vou sair mesmo, talvez amanhã.

 

- Ih… Posso fazer alguma coisa para te animar? Quer companhia? Quer um abraço? Caipirinha? Sexo??

 

- Sexo???

 

- Sim, pra te animar.. o que for preciso.. O QUE FOR PRECISO!

 

- Besta!

 

- Bom.. se mudar se idéia, se quiser sair ou se quiser fazer sexo, sei lá.. Bom, só me ligar hein.

 

Voltando aos dvd´s, voltando ao “We were on a break!” E mal dá tempo de achar o controle, mal dá tempo de tirar do pause e toca, novamente, o telefone:

 

- O que está fazendo?

 

- Sofá, moletom, sorvete, dvd´s.

 

- Xiiii.. Eu sei do que você precisa.. uma noite de whisky e poker.

 

- Whisky? Poker? Vai querer me levar para um inferninho com prostitutas fazendo striptease também? Eu sou mulherzinha, lembra? Você deveria me oferecer chocolate e filmes da Meg Ryan.

 

- Ah.. mas está faltando um na mesa de poker hoje.

 

- Oi??

 

- Ah! Custa você substituir o João? Eu te ensinei a jogar a toa? Vai ser quase igual ficar andando pela casa deprimida e de meia, mas vai ter uns homens, cigarro e apostas.

 

- Pensei que a sua noite de poker fosse uma noite masculina sagrada.

 

- Sim, é.. mas, bom.. hoje tá liberado aqui..e você sabe jogar, é divertida e cheira bem.. é melhor chamar você do que um cara estranho, que nem sabe jogar.

 

- Tentador, mas deixa para a próxima.

 

- Ah! Você tem que vir. Já te apresentei o Marcelo? Você vai adorar o Marcelo, ele até gosta do Chico, filmes estranhos, você vai adorar mesmo! Não é assim, bonito como eu, mas, bom.. é esforçado, vai… você não pode esnobar o Marcelo assim.

 

- Hum.. valeu mesmo, mas hoje não estou afim.

 

- Merda. Tem alguém pra me indicar então?

 

- Pra você apresentar pro Marcelo?

 

- Ãhn??… Eu quero que o Marcelo se foda. Alguém pra mesa de poker, porra!.

 

- …..

 

Novamente, busca incessante pelo controle, novamente, mal aperta o pause, toca o interfone:

 

- Ô sua vadia! Abre ai pra gente!

 

- Oi? Quem é?

 

- Como quem é? Não reconhece mais suas amigas não? Alguém mais te chama de Vadia?? (diz uma delas).

 

- Abre logoooo! Eu preciso ir ao banheiro, sabe o que é ficar horas dentro desse carro? (diz a outra).

 

Ela abre o portão, elas chegam ao apartamento. Ela pergunta intrigada:

 

- O que estão fazendo aqui suas doidas?

 

- Viemos te buscar, oras! Joga umas coisas dentro da mala e vamos.

 

- Vamos pra onde?

 

- Ah! Vocês fiquem aí conversando que eu vou usar o banheiro (diz a outra impaciente, enquanto vai entrando apartamento adentro).

 

- Mas então, posso saber pra onde pretendem ir?

 

- Definitivamente, pra um lugar onde não se entra de pantufas, então.. vá logo se arrumar (diz, a empurrando para o quarto).

 

- Meu! Só você pra me fazer ficar tanto tempo dentro de um carro, olha.. eu estou com os pés inchados… Ai, ai (reclama a outra, enquanto sai do banheiro).

 

- Você vai ficar aí olhando pra gente? Vai se arrumar logo, deixa que a sua mala eu arrumo, aliás, não era aqui que você guardava uma mala? (diz, enquanto revira o guarda-roupa).

 

- Não era aqui (diz a outra, abrindo outras portas). Nossa!! Olha essa sandália, decidido.. você vai usar essa sandália e aquele vestido preto de cetim.. Hum.. aquilo é cetim? Ah! Enfim, cadê aquele vestido preto?

 

- Está…

 

- Deixa que a gente procura. Vá logo tomar banho e tirar esse moletom, ande! Não podemos nos atrasar.

 

- Nos atrasar pra que?

 

- Vá se arrumar e deixa o resto com a gente…

 

 E foi assim que o final de semana tendo como companhia moletom, dvd´s e sorvete, acabou se transformando em um final de semana de malas, viagens, salto alto, maquiagem, música muito alta e uma considerável taxa de álcool no sangue.





Seja do jeito que for…

11 04 2008

 

 Eles formavam o casal mais improvável da face da terra, era constante a desconfiança de terceiros: “se alguém está ameaçando vocês e os obrigando a namorar, pisquem duas vezes, PISQUEM DUAS VEZES”.

 

 Ele todo sério, certinho, responsável, bom moço, não bebe, não fuma, não usa tóxico, batizado, crismado, freqüentador de missa. Do tipo que acorda cedo para andar de bicicleta, que conhece milhares de cachoeiras e que se vê com os olhos brilhando quando falam em fazer trilhas. Filmes pra ele costumam envolver muito sangue e atuações consagradas de atores do mesmo naipe de Charles Bronson. Só de ouvir falar em filmes em preto e branco e francês, ele a olha com cara de pânico.

 

 Ela? Ah! Ela é urbana, detesta acordar cedo, tem alergia a exposição em excesso ao verde, o pulmão entope com ar puro por muito tempo, é assumidamente fã de botecos, adora filmes em preto e branco, ama o Fellini, não tem absolutamente nada contra o cinema francês e vive citando as falas do Lucca Brasi. Ele, além de não saber quem é Lucca Brasi, acha que o “Leão da Montanha”, este sim, merece ser citado.  

 

 Mas mesmo assim, o casal mais improvável da face da terra namorou por bem mais tempo do que apostaram os mais otimistas. Namoraram até que todas as risadas, as gracinhas, o cantarolar de música brega, as discussões sobre filmes.. virassem nada e passassem a dar lugar a olhares dispersos, sorrisos nervosos, silêncio em frente à tv. Tentando, em vão, encontrar uma palavra que consertasse, um ato que resolvesse, alguma coisa que apagasse. Mas não encontraram nada, não encontram nada que pudesse uni-los novamente, nada além de uma intimidade gasta e silêncio. Não encontraram nada porque simplesmente não havia mais nada? Não se sabe… mas… bem… ah… enfim… terminaram.





Às vezes meio “Felícia”

9 04 2008

 

 Eu sou uma pessoa altamente distraída. Esqueço datas, telefones, nomes, rostos, enfim, se alguma coisa é passível de esquecimento, é bem provável que eu esqueça. Tendo uma vida nômade e falando com qualquer amigo de cinco minutos como se ele fosse à pessoa mais íntima do mundo, tenho sérios problemas para lembrar das pessoas depois e por mais que tenha achado bárbara a conversa envolvendo moscas da Namíbia, eu vou esquecer da pessoa e do assunto, não por implicância pessoal, mas sim devido a algum problema genético que me torna incapaz de decorar nomes e me faz chamar Thiago de Lucas, por meses e perguntar “quem é Juliano”, quando estão falando de um amigo super íntimo.

 

 Os amigos de longa data já sabem que costumo dar feliz aniversário um dia, uma semana, às vezes um mês depois. Só os amigos de verdade entendem que a probabilidade de receber algum sms em branco, pela metade, sem sentido, com o destino errado, é grande, se estivermos falando de mim. Isso sem contar às vezes que demorei pra responder e-mails por perdê-los na imensidão do Outlook, nas vezes que fiz pessoas se perder por não ter o menor senso de localização e todas as vezes que eu disse “ter certeza” e alguma merda acontecer. Tudo isso porque eu sou assim: avoada.

 

 E graças a essas características que eu me tornei assim, uma lenda viva. Já é notória a minha total incapacidade para cuidar de dois tipos de formas vivas: peixes e plantas. Não que eu não goste deles, não que eu seja um ser humano cruel, mas eu SIMPLESMENTE não tenho a capacidade de tomar conta de coisas que não gritem, chorem, soltem grunhidos, mordam meu pé, enfim, que se façam presente.

 

 Já tive cerca de 348473930 peixes nessa minha vida, começando com um beta, peixe altamente fácil de se cuidar, fica ali sozinho num aquário pequeno, não precisando de muitos cuidados, nem todo o aparato de um “aquário de verdade”.

 

Era fácil assim: umas bolinhas da ração por dia e pronto, ele ficaria bem, certo? Certo, Hum… isto é, se não estivermos falando de mim. Eu acho que o alimentava uma vez por semana, era praticamente como ter um abajur, eu até achava bonitinho, mas nunca lembrava que tinha um. Vez ou outra eu lembrava da existência do bichinho aí ia correndo ver se ele permanecia vivo, se a água no aquário ainda não estava verde, enfim, essas coisas de gente responsável.

 

 Às vezes eu lembrava de trocar a água do aquário, mas, infelizmente, só fui descobrir que deveria usar água mineral, uma vez que, água com cloro fazia o bichinho ir desbotando e escamando até a morte, quando eu já tinha desistido de ter peixes.

 

 Bem, certa vez tentei ter um aquário de verdade, com aparato de oxigenação, pedrinhas e decoração ao fundo, e diversas espécies de peixes coloridos. Bom, se eu não conseguia manter um peixe vivo por muito tempo, um monte junto então, nem se fala. Há quem acredite que eu levei os peixinhos a loucura e essa foi a razão principal para pelo menos 3 deles terem saltado do aquário para o tapete, desesperados, e em busca de uma morte digna.

 

 Para o bem da natureza, nunca mais ousei ter peixes novamente. Então, em um dos meus aniversários (acho que ali pelos 18 anos) comecei minha empreitada com plantas. Um amigo me deu um bonsai, evidente que se tratava de um amigo com discernimento, que sabe que eu sou possuidora de uma paciência quase oriental. Eu até me esforcei bastante para cuidar da plantinha, comecei a chamá-lo de Sr. Myagui, às vezes conversava com ele e ouvíamos Nirvana juntos, mas como Sr. Myagui não gritava, não rugia, não latia, não fazia qualquer tipo de barulho para me lembrar que precisava de água e sol, não deu outra: adquiriu uma aparência meio assim marrom e um belo dia minha mãe o jogou no lixo.

 

 Esse mesmo amigo, ainda tentando me provar que eu tinha vocação com jardinagem, resolveu me dar mais uma chance e foi assim que ganhei orquídeas. Resolvi me dedicar a essas e provar que eu era capaz de manter uma planta viva, espalhei post-its no espelho do banheiro com lembretes referentes à água, sol e plantas. Mas nesse caso acho que sufoquei demais meu vasinho com orquídeas, acho que foi tanta água e tanto sol, que apesar de todo meu esforço, lá se foi ela descansar pra sempre no lixo.

  

 Vendo minha boa vontade e toda a sensação de culpa existente no meu ser, meu amigo, novamente, resolveu me provar que plantas eram meu destino e que o culpado tinha sido ele, por me dar plantas “sofisticadas” demais. Foi assim que eu ganhei um vasinho com uns 6 cactos. Rá! Muito fácil. Quem conseguiria matar cactos? Nem precisa de sol, água de vez em quando, até eu, na minha conhecida distração e incompetência, seria capaz de ter cactos, certo? Errado, não sem um quê de vergonha, devo confessar: “doce engano”. No começo tudo bem, água quando eu lembrava e tudo bem, assim foi por uns meses, mas depois.. novamente, sem eles gritando “eu preciso de água”, acabei por esquecer deles e quando me dei conta lá estava eu com um vasinho cheio de plantas murchas e com a já conhecida aparência marrom.

 

Hoje em dia? Ah! Minha fama se espalhou entre os amigos e é assim: flores só de plástico ou de dobraduras e animais só os barulhentos. Porque a Má? Ah! A Má é uma avoada!