O interminável final de semana

30 03 2008

Final de semana, música alta, risadas na mesa, discussões bobas de bar, muita gente. Confusão de pessoas, banda ao vivo. Algo como a quarta ou quinta dose da noite.

Ela cantava, junto com a banda, rouca e sem fazer questão de ser afinada, acompanhando a letra de uma das cantoras prediletas: “um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer, me libertei daquela vida vulgar…”

Toca o celular. No identificador de chamadas o número que ela sabia, não traria boas notícias, afinal, ele nunca ligaria naquele dia, naquela hora, daquele número, se não fosse para começar a frase com: “não sei como dizer, mas..”. Ela atende com apreensão, já perguntando:

- O que aconteceu?

- Onde você está?

- Oi?? Não estou te ouvindo direito?

- Nossa! Que barulheira. Está em uma festa?

- Estou em um bar.

- Hum.. bar…

- Sim, por quê? Está acontecendo algo?

Ligação ruim, muito barulho em volta dela, ele diz alguma coisa, ela não escuta direito. Música ao fundo, risadas, gente falando. Enquanto ela caminha em busca de um lugar longe dos amplificadores alguém a chama, lhe diz alguma coisa, ela não presta atenção. O garçom entrega a ela um copo, algum drink de nome desconhecido, cujo único ingrediente realmente sabido é a vodka. Ele continua falando alguma coisa ao telefone, ela sem entender direito vai respondendo com interjeições. Ela vai se afastando da confusão de pessoas, da música e das risadas, quando escuta:

- Ele morreu.

- O que? Acho que não entendi direito.

Ele faz uma pausa e repete a parte final:

- Ele morreu.

Silêncio. Era como se a linha do tempo acabasse, como se o tempo parasse e ela retrocedesse em seus atos e revivesse suas ações, fragmentos da sua vida passada. Uma vida que parecia muito distante, onde ela era agora expectadora e não personagem.

Silêncio, silêncio este só quebrado pela voz preocupada e rouca dele:

- Você está aí? Você está bem? Você me ouviu? Entendeu o que eu disse?

Silêncio dela, por mais alguns eternos segundos:

- Sim… (ela responde ainda meio confusa).

Ele então continuou a falar. Velório, enterro, passagens de avião, conexões, datas, horários, pessoas, lugares, consolo.

Ela diz que já está indo pra casa, desliga o telefone e toma, de uma só vez, a última dose de vodka da noite. Já não escutava mais os risos, parecia não ter mais ninguém naquele bar além dela, mas no meio do silêncio que ela se encontrava, ainda podia ouvir a música ao fundo: “day after day, alone on the hill, the man with the foolish grin is keeping perfectly still. But nobody wants to know him, they can see that he’s just a fool..”

O garçom passa novamente por ela e pergunta se ela quer mais alguma coisa. Ela balança a cabeça afirmamente e diz quase sem voz:

- Whisky duplo, sem gelo.

Tomou o whisky e foi embora, mas o gosto amargo na boca e na vida continuou por todo o interminável final de semana.





Me fale dos teus silêncios…

12 03 2008

Alguns chamam de manifestação irônica do destino. Alguns chamam de acaso, outros culpam o universo, providência divina, mas na dúvida mesmo, põe no daquela criaturinha que serviu de elo de ligação, tomando as devidas providências para que a vida dessas pessoas, que provavelmente nunca se conheceriam ou se tornariam amigas, pudesse se cruzar. E foi assim que eles passaram de desconhecidos a quase confidentes e foi assim que de conversas amenas sobre o tempo, passaram a discussões, com palavras duras de ambos os lados.

Quem imaginava que ele fosse cruzar a linha das pessoas com quem ela é gentil para o lado daquelas com quem ela pode esbravejar, mostrar indignação e claro, dizer aquelas coisas que faria qualquer outro achar que ela precisa tomar medicação controlada? Quem diria que ela passaria a afetar a vida dele, a ponto de deixá-lo irritado com tanta freqüência? Quem diria que se adorariam e se detestariam em minutos e com intensidades aproximadas? Quem diria que, em muitos dias, as palavras mais gentis e mais ácidas dele seriam para ela? Quem diria que isso poderia afetá-la de verdade?  

O destino? O universo? A ironia da vida? É isso que os aproxima e é o temperamento difícil, complicação e teimosia que os afastam? Ah… faz alguma diferença agora? As brigas freqüentes passaram a dar lugar aos silêncios constrangedores, só quebrados pelo som ao fundo de Massive Attack.





Yin e Yang

6 03 2008

- Acho que você desperta o pior em mim.

- Sério? Eu tento, eu tento, mas certas pessoas como você é difícil de acordar aquele lado negro. Está mais fácil ultimamente, por sorte!! Mas é uma batalha diária.

- E porque você quer meu lado negro sempre presente?

- Odeio pessoas felizes, sorridentes, saltitantes e plenamente realizadas. Essas pessoas que sempre vêem o copo metade cheio me irritam.

- Ah, mas eu vejo o copo SEMPRE cheio.. .Ehh, afinal, só amadores deixam o copo esvaziar… você me ensinou.

- Na verdade eu te ensinei que os amadores deixam o copo sempre cheio e esquentando, profissionais o esvaziam rapidamente, voltam a encher, esvaziam de novo, enchem, esvaziam, enchem, isvachiam, hic, dae a parada roda, roda de samba… Hoje eu vou toma um porre… hic, vomito…. sorriso amarelo, olho vermelho, pela metade, enchem, risada… de cara no chão, mais risadas… zzzzZZZZZ

- Hum.. Então, profissionais enchem e esvaziam tão rapidamente que ninguém vê o copo metade cheio ou metade vazio, igual você quis dizer, manja?

- Na verdade devido à rapidez de se encher e de se esvaziar, na maior parte do tempo ele parece estar no meio… Pense, a cada vez que se enche e se esvazia se passa duas vezes pelo meio… manja?!?! Sempre a média!!! Mas sabe.. eu acho que VOCÊ é que DESPERTA o PIOR em mim.

- Eu?????? Tá dizendo que te faço mal?

- Você não faz mal, você desperta o mal, por ser assim uma pessoa tão feliz… Sabe, tipo, equilíbrio do universo, Yin e Yang, preto e branco, bem e mal, eu e você.

- Mas eu sempre fui assim, você sempre soube que eu era assim.

- Pois é… Continuei com você pelo desafio… Questão de honra sabe? Nada me deixou tão feliz quanto suas semanas de stress, explosão e descontentamento com o mundo, querendo matar as pessoas e tudo. Me deu aquele sentimento de um bom trabalho realizado.

- Deixa eu ver se entendi..seu objetivo na vida é me deixar estressada?..

- ISSOOOOOOOO. Estou no mundo pra fazer a vida dos outros tão medíocres quanto possível. Mas, veja, não rezo pra que as tragédias aconteçam… Só abro os olhos das pessoas do fato que elas vão acontecer… Que você vai ter mais frustrações que alegrias na vida. Que este mundo é uma merda e que a gente está aqui pra nada, a não ser morrer.. Só isso.

- Mas eu ainda não virei uma melancólica.

- Calma… Ainda não terminei meu trabalho com você. Ainda vou te convencer que ser feliz é uma ilusão… Que a felicidade não existe, é coisa dos filmes da Meg Ryan… Quem estava certo era Nelson Rodrigues, Augusto do Anjos, Álvares de Azevedo…

- Vidas passadas explica..

- O que?

- Acho que você viveu no período do romantismo e morreu de tuberculose, por isso deve ser assim hoje.

- Talvez, talvez… Sorte que a tuberculose está voltando mais forte ainda…

- E pena que hoje em dia tem tratamento, né?

- Pois é, malditos médicos… Sempre tentando prolongar a agonia que é a vida…Tentando evitar o inevitável!!! Impedir-nos de descansar no silêncio do nada ter pra fazer…

Ela começa a rir.

- Você é muito engraçado!

- Eu não sou engraçado (diz ele indignado). Ai! Pare de rir, pare de ser feliz.. Ai meu Deus! Como ser melancólico se você não para de sorrir? Vou ter que esfregar Thomas Hobbes e Schopenhauer na sua cara?

Ela continua rindo e o abraça. Ele diz inconsolável:

- Merda! Vou ter que te amarrar e te obrigar a assistir “dançando no escuro”??





Histórias de bar

1 03 2008

Saindo do banheiro:

- Posso te dar um abraço?

- Ãhn?

- Um abraço.. posso te dar um abraço?

- Claro – Se eu deixar ele me abraçar, me livro logo desse maluco, pensa ela.

Mal termina de falar sim e ele já dá um abraço apertado nela.

- Sabia que Júpiter estava me enviando bons raios hoje, além de Marte e os raios enviesados da Lua.

- Oi?

- Marte na casa doze (diz ele, como se ela tivesse feito uma cara de dúvida incrivelmente absurda, diante da clareza do que ele tinha dito).

- Ah sim! – Se eu fizer de conta que sei do que diabos ele está falando ele me solta mais rápido e eu posso voltar pra minha mesa sem ele me seguir, gesticulando e falando animado das casas de não sei onde e o raios de não sei o que, pondera ela.

- Eu sabia que eu ia te encontrar aqui hoje.

- Ah! Não se vanglorie… metade da população local sabe onde me encontrar as sextas-feiras – Merda, eu fui simpática? Eu fui simpática? Ai.. se ele rir e emendar com uma gracinha, eu não vou conseguir voltar pra mesa hoje, droga! Olhar com cara de poucos amigos.. parecer sociopata, vamos lá.. parecer sociopata.. Seria muito brusco dar um empurrão nele e fazer ele me soltar? Acho que ele está me abraçando há mais de 2 minutos já, pensa ela.

- É muito mais do que isso, temos uma ligação cósmica (diz ele a soltando e a olhando nos olhos, como se fizesse a maior revelação do mundo).

- Temos, é? (diz ela no maior cinismo).

- Você pode não acreditar, mas tenho certeza que é você.. estrela diferenciada na casa 11, elemento ar.

Mal dá tempo dela pensar em fazer um comentário e ele já emenda:

- Você é realmente muito, muito interessante mesmo. Seu jeito de alinhar as coisas, assim desse modo, chega até a eternizar o amor numa comunhão de corpo e alma, a sua fragilidade, vulnerável e encantadoramente feminina, me deixa sem forma de ser e estar.

- Uauuu e tudo isso implícito na entonação que dei nas três interjeições que falei? (diz ela sarcástica e impaciente).

- Não, tudo isso nos astros, no universo, nas luas.. tudo conspirando para que nos encontrássemos na porta desse banheiro.

- Amor de porta de banheiro? O amor verdadeiro não precisava vir de cavalo branco, mas com papel toalha e perguntando se lavei as mãos, também acho que não é sonho de ninguém.

Ele ri:

- É sempre incrédula e cínica assim?

- Acho que sim, não viu esses problemas na casa 11?

- Qual a sua lua?

- Minha lua?

- Eh.. qual a sua lua?

Ela fica em silêncio, pensando que isso é o que acontece quando uma mulher infringe as leis elementares que regem o universo e contrariando os padrões mundiais, vai sozinha ao banheiro. O silêncio é interrompido pelo grito indignado dele:

- EU NÃO ACREDITO.. V-o-c-ê   NÃO  s-a-b-e  MESMO qual é sua lua?

- Errr não.. mas eu também nunca soube usar a fórmula de Eron direito.. ameniza?

- Tudo bem.. a gente vai começar a namorar e vamos traçar seu mapa astral e achar sua lua.

- Como é que é?

- Vamos.. ach..

- Não, não.. essa coisa do “vamos namorar”.

- Ah! Independente da nossa vontade.. os astros..

- Mas eu já tenho um namorado.

- Mas vocês vão terminar.

- Ahh, mas eu já me afeiçoei a ele. 

- Mas eu sei que isso não vai durar… vou te deixar com meu telefone… sei que terminaremos juntos (diz ele, enquanto pede uma caneta pro garçom e anota um número de telefone em um guardanapo). Me liga qualquer dia desses, tá?

Ele dá um abraço apertado novamente nela e diz:

- Adorei conhecê-la.

Ela permanece em silêncio, sorri, se vira e vai, finalmente, caminhando até a sua mesa, quando ele a puxa pelo braço e diz:

- Espera um pouco.

- Sim?

- Eh… tem gloss, amiga?

Ela olha espantada e se segura para não rir.

- Como?

- Gloss? Tem gloss? Esqueci o meu…

- Ah.. desculpa! Só tenho batom e vermelho ainda..

- Ah, deixa pra lá.. mas me liga hein…

Ela vira de costas e cai na gargalhada.

- “Amiga, você tem gloss?”.. eu mereço.. eu mereço… (diz ela rindo, amassando o guardanapo e o jogando no chão, enquanto balança a cabeça incrédula). 

- Que demora! A fila do banheiro estava grande assim? (pergunta uma das pessoas da mesa)

- Não, mas se for ao banheiro e alguém falar sobre lua e casas, já oferece logo seu gloss e vá embora.