Final de semana, música alta, risadas na mesa, discussões bobas de bar, muita gente. Confusão de pessoas, banda ao vivo. Algo como a quarta ou quinta dose da noite.
Ela cantava, junto com a banda, rouca e sem fazer questão de ser afinada, acompanhando a letra de uma das cantoras prediletas: “um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer, me libertei daquela vida vulgar…”
Toca o celular. No identificador de chamadas o número que ela sabia, não traria boas notícias, afinal, ele nunca ligaria naquele dia, naquela hora, daquele número, se não fosse para começar a frase com: “não sei como dizer, mas..”. Ela atende com apreensão, já perguntando:
- O que aconteceu?
- Onde você está?
- Oi?? Não estou te ouvindo direito?
- Nossa! Que barulheira. Está em uma festa?
- Estou em um bar.
- Hum.. bar…
- Sim, por quê? Está acontecendo algo?
Ligação ruim, muito barulho em volta dela, ele diz alguma coisa, ela não escuta direito. Música ao fundo, risadas, gente falando. Enquanto ela caminha em busca de um lugar longe dos amplificadores alguém a chama, lhe diz alguma coisa, ela não presta atenção. O garçom entrega a ela um copo, algum drink de nome desconhecido, cujo único ingrediente realmente sabido é a vodka. Ele continua falando alguma coisa ao telefone, ela sem entender direito vai respondendo com interjeições. Ela vai se afastando da confusão de pessoas, da música e das risadas, quando escuta:
- Ele morreu.
- O que? Acho que não entendi direito.
Ele faz uma pausa e repete a parte final:
- Ele morreu.
Silêncio. Era como se a linha do tempo acabasse, como se o tempo parasse e ela retrocedesse em seus atos e revivesse suas ações, fragmentos da sua vida passada. Uma vida que parecia muito distante, onde ela era agora expectadora e não personagem.
Silêncio, silêncio este só quebrado pela voz preocupada e rouca dele:
- Você está aí? Você está bem? Você me ouviu? Entendeu o que eu disse?
Silêncio dela, por mais alguns eternos segundos:
- Sim… (ela responde ainda meio confusa).
Ele então continuou a falar. Velório, enterro, passagens de avião, conexões, datas, horários, pessoas, lugares, consolo.
Ela diz que já está indo pra casa, desliga o telefone e toma, de uma só vez, a última dose de vodka da noite. Já não escutava mais os risos, parecia não ter mais ninguém naquele bar além dela, mas no meio do silêncio que ela se encontrava, ainda podia ouvir a música ao fundo: “day after day, alone on the hill, the man with the foolish grin is keeping perfectly still. But nobody wants to know him, they can see that he’s just a fool..”
O garçom passa novamente por ela e pergunta se ela quer mais alguma coisa. Ela balança a cabeça afirmamente e diz quase sem voz:
- Whisky duplo, sem gelo.
Tomou o whisky e foi embora, mas o gosto amargo na boca e na vida continuou por todo o interminável final de semana.
Blá blá blá