O homem sem vícios

25 02 2008

- Oi! Você atendeu…

- Desculpa, não sabia que não era pra atender.. se você ligar de novo eu corrijo esse deslize.

- Não, não.. não estou dizendo que você não deveria ter atendido. Só estou em choque.

- Por quê? Achou que era contra meus princípios atender ao telefone? Achou que eu não fosse capaz de atender essa engenhoca cheia de botões? Achou que eu não sabia que quando esse aparelho emite um som eu tenho que levantar o fone da base e falar alô?

- Não, acredito muito na sua capacidade, se bem que.. você não falou “alô”, aliás, você nunca diz “alô” ao telefone… De qualquer forma, estou impressionado porque é sábado à noite e você está em casa.. atendendo ao telefone. O que está havendo? Acabou o estoque de vinho natal? O Bacardi lemon já não tem o mesmo gosto? A vida sem mim ficou tão divertida e fácil de ser vivida que não precisa mais refugiar-se da dura realidade no álcool?

- Faço minhas as suas palavras. Porque você está me ligando num sábado à noite sem falar coisas desconexas de forma enrolada?

- Não sem um quê de vergonha venho confessar não mais ser o homem que um dia fui… Temo que não mais seja da vida boêmia, que não mais feste all night long com meus amigos, com as bebidas, a jogatina e alguns outros vícios…

- É cada piada que a gente tem q ouvir viu.. Aham..parou de beber até o próximo porre.. parou de jogar até perder a cueca, novamente, na mesa de poker.. parou de levar pessoas puras para o mau caminho..até a última alma boa se corromper..

- Quisera eu que você estivesse certa… Não se pode confiar num homem que não tem vícios, é alguém sem raízes, sem chão, sem nada em que se agarrar, sem honra!!! E esse sou eu agora… Não, não sofra… Continue sua vida, não me estenda a mão, não me dê a chance de puxá-la para este mundo em preto e branco no qual passei a viver!!! Vá, be free my girl, be free…

- Livre? Não me iluda, parece que nunca estarei livre de você.. Olha você me ligando no sábado à noite.

- Somos iguais minha cara.. Você precisa de mim, ninguém mais te entende. Porque você acha que ninguém fala contigo? Eu só falo contigo porque ninguém fala comigo também, aí tenho que apelar.

- Hum..na verdade muita gente fala comigo…

- Estou falando de gente normal né.. destrambelhados não contam. Por você ser assim também, chama esse tipo de pessoa.

- Tipo assim.. você??

- Não, comigo foi o sono, fui pego desprevenido e nunca mais consegui me livrar..

- Você deveria me agradecer, se não sou eu você viveria uma vida de prostração.

- Eu sou introspectivo.. eu sempre quis uma vida de prostração, mas não.. você me obriga a fazer aquele negócio de socialização, falar com outras pessoas.. não suporto isso.

- Ah! Mas eu lhe dei a chance de se livrar de mim.

- Ah! Agora é tarde.. já me afeiçoei a você.

- Você se afeiçoou a mim? Pensei que na sua vida só tivesse conseguido se apegar as Bohemias.

- O que?!?! Tem Bohemia aí?!?! Entendi direito? Estou passando aí daqui meia hora.

- Como assim? E a prostração? E o homem sem vícios?

- Eu tentei.. eu tentei..

- Não, pelo que entendi você estava tentando se livrar de mim.

- Sim, mas junto a isso está à bebida, a jogatina e os outros vícios, então, como não tem jeito.. você é meu destino.. só posso abraçá-lo e tentar ser feliz, me conformar em passar o resto da vida escutando você cantar as malditas músicas do Jack Johnson..

E por quase um sábado inteiro, ele foi um homem sem nenhum vício. E por quase um sábado inteiro, ele não precisou ouvir “Sitting, waiting, wishing”.





Confissões de uma paulista nostálgica

17 02 2008

Eu sou uma pessoa altamente urbana, daquelas que precisam de uma organização hierárquica atrapalhando a vida e poluição entupindo os poros para ser feliz. 

Gosto de saber que se eu precisar de um restaurante Tailandês às 3 horas da manhã, ele estará lá.. por mais que não faça nenhum sentido, por mais que eu nem goste de comida tailandesa, por mais que seja mais coerente precisar do disk whisky às 3 horas da manhã, a presença do restaurante Tailandês dá a sensação de tranqüilidade, basta você querer e pronto.. lá está ele. 

A exposição em excesso a lugares verdes me angustia, tenho crises de abstinência de civilização em paraísos ecológicos, ataques de pânico ao pensar em lugares onde meus 2 celulares não funcionariam.

Minha idéia de programa relaxante envolve um aglomerado de pessoas, botecos com decoração duvidosa e música em volume ensurdecedor.

Ahhhh! Quem não se acostuma e até chega a se afeiçoar ao trânsito na marginal às 6 horas da tarde? Passa a ser o seu ritual, aquele momento onde secretamente, você pode ouvir todos seus cd´s com músicas ruins, sem o olhar apreensivo da sociedade.

O gás carbônico enchendo nosso pulmão… aquela adrenalina que invade nossas veias de tanto medo de ser vítima de um seqüestro relâmpago… Aquele porra do lado gritando: “OLHA O MINDUIM” “ISQUEIRO DOIS REAL, DOIS REAL, DOIS REAL”… O esquecer de virar a esquerda e ter que andar mais 10 km para conseguir fazer o retorno.

Pessoas amáveis ao seu redor gritando como uma gralha: “VAI SE FODER!”, sem nenhum motivo aparente… Aquelas crateras que brotam no asfalto, acariciando o carro… aquela carreta monstruosa soprando amor na forma de fumaça preta.

Motoqueiros educados fazendo o grande favor de arrancar aquela saliência inútil chamada retrovisor, e depois ainda passam xingando a mãe… O cuidadoso motorista de ônibus, com toda sua habilidade e perícia, dirigindo seu pequeno meio de transporte como se fosse um esguio fusca…

A linha azul do metrô lotada, filas inconcebíveis, mas tudo bem.. você pode tomar alguns cappuccinos enquanto espera para se apertar dentro do vagão e escutar diversos discursos envolvendo “eu podia tá ‘matano’ eu podia tá ‘roubano’, mas tô aqui vendendo essas incríveis balas de goma”… E quando você está estressada.. quando o excesso de civilização e trânsito te incomodam.. você vai pro litoral, junto com todos os outros paulistanos estressados… e lá está o cara do “minduim”, do “isqueiro”… e o engarrafamento..

Tranqüilidade pra que? Viva a vida urbana!





A volta…

12 02 2008

Um vazio, uma angustia, um sentimento de perda, uma certa tristeza em acordar e não sentir-se completo… Todos sintomas que te dominaram neste dias sem mim, não é verdade querido amigo/leitor?!?! Sei como é ficar sem meus conselhos, sem minhas palavras de acalento, sem minhas histórias mirabolantes, deve ter sido o inferno… Por tudo que o fiz sofrer peço desculpas, mas não foi por vontade própria, estava vivendo um momento entre mim e eu mesma, momento este deveras revelador.. onde vivencie o azul mais azulado do céu, o canto cantado dos pássaros, o nascer tão belo do sol… Ouvi com clareza a voz vinda dos cristais, o grito sofrido das flores.. 

Mas se você não percebeu todo o sofrimento na minha ausência, se não viu que tive que ser rápida, fulminante, mais ligeira que o arrependimento de me ir, que não poderia parar para olhar pra trás pois senão não teria a força necessária para continuar meu caminho. Se não percebeste nada disto é porque não me tens no mesmo apreço que te tenho, não me consideras como te considero, não me entendes como te entendo, não me olhas com os mesmos olhos caridosos e compreensivos que te olho…

Tive sim que sair de supetão, mas não por outro motivo que não fosse o fato de viajar, aproveitar o carnaval, voltar, ter preguiça, viajar, voltar.. preguiça, preguiça, preguiça.. e agora.. tendo o ciclo se encerrado, neste momento, saio desse plano Kármico superior e retorno ao blog, já mais madura, afinal, foi neste dia cabalístico que há 25 anos atrás.. eu nascia. 

PS: Agradeço toda preocupação com a minha pessoa no post dramático. Agradeço as palavras de acalento. Agradeço as pessoas que me ofereceram sorvete, vodka, chão da sala, cafuné, Djavan. Agradeço também, você, caro amigo.. que me ofereceu o chão da sua cozinha e o gás, caso eu ainda não tivesse feito nada. hahaha

PS2: É o que dizem: “quem tem amigos, tem tudo”, por isso agradeço as mensagens tão simpáticas me chamando de quase trintona. Agradeço pelos potes de Renew. Agradeço pelos potes de Crhonos da natura. Agradeço pelo Gressim 2000. Agradeço pela bengala. Agradeço pelas flores de plásticos e o cartão destacando minha incompetência para cuidar de plantas, enfim, agradeço todas essas demonstrações explícitas de carinho em forma desses presentes maravilhosos, neste dia festivo de aniversário…