“Tem dias que a gente se sente, como quem partiu ou morreu…”

29 01 2008

Sinto esta rouquidão seca em minha garganta que me prende as palavras… Algo, um não sei o que.. me incomoda, distrai-me, rouba-me o pensamento, desconcentro… Procuro algo, olho em volta, mas o que busco está na fuga do meu pensar… inalcançável para os braços, inatingível para as palavras… indescritível para o mundo.. 

Uma coisa é certa.. vão se as coisas, as pessoas, as semanas, ficam apenas as músicas do Chico. 

Quem não inveja a infeliz, feliz
No seu mundo de cetim, assim,
Debochando da dor, do pecado
Do tempo perdido, do jogo acabado
 

E fim… mas essa, essa meus amigos.. Ah! Essa já é outra canção… e amanhã já é outro dia.





Dúvidas.. Dúvidas

21 01 2008

- Ei!! Estamos juntos há um tempo.. temos uma certa intimidade já.. Posso te fazer uma pergunta assim, meio phoda, tipo, meio pessoal mesmo???

- Nossa, tenho medo de dizer que pode e escutar coisas impronunciáveis, mas vai lá.. pergunte. Estou preparada, eu acho..

- Bem, mas você precisa ser sincera, como nunca antes foi na vida.

- Tudo bem, tudo bem. Prometo usar uma sinceridade absoluta, por mais que isso afete sua masculinidade ou te faça chorar.

- Você acha que eu deveria fazer escova definitiva no cabelo?

- Ai..ai – Risos preenchem o silêncio após a indagação - Não me venha com esse papo de que você agora é um daqueles metrosexual. Não, não.. eu não aceitaria você desse jeito.. você não!

- Metrosexual???  Espero que não tenha a ver com o tamanho do dito cujo.

- Eita mentezinha viu! É um termo que inventaram para designar aquele tipo de homem afrescalhado. Homens que se depilam, que se preocupam mais com o cabelo do que qualquer mulher.. que pintam as unhas com os tais esmaltes mais alegres e vibrantes.

- Não, não, não se preocupe. Continuo muito homem, continuo sendo o bom e velho macho as antigas. Continuarei com os velhos hábitos.. Cuspo no chão, coço o ouvido com a unha grande do dedinho e depois cheiro. Raramente tomo banho. Acho barriga de cerveja uma coisa sexy. Como qualquer coisa com as mãos e claro, o clássico que não pode faltar, ajeito o dito cujo em público…

- Certo, mas e a preocupação com o cabelo? A história escova? Estou esperando a explicação lógica.

- Bom, ta bom.. deixa eu tentar explicar.. É que apesar de toda a macheza existente em meu ser, sempre existe aquela parte, mesmo que ínfima dentro de nós, que é a parte feminina.. E essa parte, mesmo que raramente, se manifesta em meu ser.. E se manifestou, mesmo que por um instante.. momentos atrás nesta nossa conversa.. em forma de uma pergunta sobre cabeleireiros… E apesar disto ter acontecido, mesmo que involuntariamente, minha parte máscula, sendo ela 99,87% do meu ser, já tomou as devidas atitudes. Atitude essa que qualquer macho Neanderthal tomaria.. encheu a porção feminina de porrada e mandou ela pros quintos dos infernos do meu ser, mesmo que eles não existam…

Hum.. me perdi na parte da macheza… poderia repetir?

- Engraçadinha!

- Bom, mas fica desse jeito a lá miss cachinhos … você fica tão bonito assim.

- Aí, você gosta do meu cabelo assim então fofa?!? Que bom, porque eu simplesmente A-DO-ROOOOOOOOOO.

- Ah sim bebê.. fica lindo! Todo mundo morre de inveja desses cachos bem definidos e incrivelmente bem tratados. Olha o brilho, a maciez…. seria um pecado desmanchá-los.

- Se fosse só o cabelo lindo, macio e definido né.. olha só o conjunto da obra…

- Pronto.. começou.. não quero discutir sobre seus dotes.. vou dormir.

- Ahh, e que dotes, né? Olha isso.. veja esse músculos.. Vin (o Diesel) se sentiria um nada.

- Pronto, pronto, seu lado macho já assumiu seu corpo.. pode apagar a luz agora?

- I´m the man.. THE MAN, manja? – Hum, mas como será que eu ficaria de cabelo liso?… nossa… que pele horrível essa.. onde será que ela guarda aqueles adesivinhos de limpar a pele?.. Acho que vi por aqui..

- Ainda não apagou a luz.

- Já estou apagando meu bem..já estou indo apagar… – Será na terceira gaveta?… amanhã eu vejo isso.

- -

PS: Por mais interessante que possa ser minha vida, temos aí uma pausa para as crônicazinhas bestas :-p





Meus dias de camada de ozônio

16 01 2008

Minha mãe sempre teve pânico de dentista e isso acabou resultando na minha criação. Tentando evitar a todo custo que seus pobres filhos sofressem horrores, ela fez tudo o que estava ao seu alcance, utilizando as técnicas milenares: pasta de dente sabor tuti-fruti, escova de dente com cabos coloridos cheios de desenho e doses cavalares de flúor.

Eu, uma compulsiva desde criança, fiquei aficionada por esse negócio de escovar os dentes, tudo culpa da escova com tampinha com glitter e cabo de palhaço, isso sem contar o fato da pasta ter sabor de chiclete. Enfim, eu passava minhas tardes revezando entre a vontade de brincar de boneca e os surtos de “mãe, não tá na hora de escovar os dentes?”. Graças a isso eu tive uma infância anormal, sem ter uma mísera cárie que fosse. Enquanto meus amigos contavam histórias mirabolantes envolvendo o apavorante barulho do motorzinho dos dentistas, eu só tinha pra contar a medíocre aplicação de flúor nos dentes.

Sempre que ia a novos dentistas me sentia um cavalo em exposição, eles chamavam colegas, passantes, secretárias, pacientes, qualquer ser vivo que andasse sobre duas pernas e diziam:

- Olha essa menina.. não tem uma cárie.

- Ela não tem tártaro, como pode? Nadinha!

- Uau! Veja esse canino.. Que canino tem essa garota!

Desde então passei a entender como um mico leão dourado se sentia. E minha vida foi assim, sem maiores emoções. Nem o siso eu precisei arrancar, eles simplesmente nasceram e ocuparam seu lugar no mundo. Mas.. semana passada:

- Olha se alguma coisa me acontecer, saiba que eu gosto muito de você, viu? Sempre gostei.. todas aquelas implicâncias sempre foram gratuitas.

- Do que você está falando sua doida?

- Amanhã tem a cirurgia. E eu não queria tomar a anestesia sem antes te dizer isso.

- Cirurgia? Que cirurgia? O que você tem? Ontem tava tudo bem…

- Pois é, mas em visitas de rotina ao médico a gente descobre cada coisa..

- Mas você vai ficar bem? Tem risco?

- Ah.. cirurgia, né? Sempre tem um risco..

- Você está me deixando assustado.

- Não, não fique.. se tiver chegado minha hora..

- O que você tem Má? Câncer? (insira aqui o nome da doença grave que você citou)

- Não.. um pré-molar..

- O QUE?

Pré-molar, sabe? Um dente..

- Oi?

- Vou ter que arrancar um dente.. um que apareceu do nada.. que está sobrando.. um pré-molar, escondido na gengiva..entre dois pré-molares que já nasceram e ocuparam seu lugar no mundo.

- Sua besta! E eu aqui todo preocupado e a senhorita vai só arrancar um dente? Desde antes do Tiradentes ninguém morreu por isso.

- Ah, mas vai que não é só isso.. vai que isso é só um sinal. Pior, vai que isso é pra despistar algo realmente grave… vai que eu estou lá.. sentada na cadeira e de repente entro em choque, aí vou pro hospital e ninguém sabe o que eu tenho.. aí eu vou ficar agonizando..

- Vou te proibir de assistir Dr. House, está entendendo?

E foi assim que eu tive a minha primeira história de dentista pra contar, com 24 anos, munida de muita coragem e deixando bem claro: “pode usar anestesia sem dó.. doses cavalares.. se for preciso me deixe sem sentir até os dedos dos pés”. E então, eu encarei mais do que os 15 minutos de sempre naquela cadeira.

Não sei como foi, fechei os olhos e me recusei a ver qualquer agulha, três anestesias depois e muito analgésico, só sentia a pressão nos dentes e as palavras reconfortantes da dentista “fica calma, que já está acabando”. Uma hora depois, com a boca incrivelmente torta, muito cimento cirúrgico e a pressão baixa, o sofrimento acabou, ou eu achei que sim, até ouvir as palavrinhas: “agora você vai à farmácia e toma essa injeção”. Mais do que qualquer coisa, eu odeio agulhas, até acupuntura me dá aflição.. arrancasse todos os meus dentes, mas não me pedisse pra tomar uma injeção. Bem, infelizmente meu pai não achou que poderíamos simplesmente ignorar as receitas médicas e me arrastou até a farmácia. Chegando lá a farmacêutica me levou até a temida sala das injeções. Respirei fundo, levantei a manga da blusa, fechei os olhos e disse:

- Pode aplicar no braço direito.

- Não, não.. essa não pode ser aplicada no braço.

- NÃOOO?? (pergunto em aparente desespero)

- Não, mas olha.. no bumbum dói menos, fica tranqüila e abaixa a calça.

Depois que fiz 13 anos pensei que nunca mais ia passar por esse negócio de tomar injeção ali, mas tudo bem.. me conformei. Quando já estava preparada, a farmacêutica disse:

- Acho melhor você se escorar na parede.

- Moça! Assim você está me assustando (digo eu em desespero mais do que evidente)

- Não fique nervosa, vai doer, mas vai ser rápido.

Rápido.. claro, injeção dolorida no dos outros é refresco mesmo. Bem, mas passei o resto do dia tão ocupada com os efeitos da injeção e utilizando bolsa de água quente que até esqueci daquele buraco na boca, buraco este só semelhante aos presentes na camada de ozônio, tirando aquela coisa de filtrar raios nocivos ao ser humano, de resto.. os efeitos ruins deveriam ser o mesmo.

Deus, da próxima vez, por favor, me mande uma cárie.





A minha primeira/segunda vez

4 01 2008

Meu pai sempre foi do tipo antigão, quase teve um infarto quando meu irmão caçula passou a usar brinco, lembro-me dele me contando do acontecido “tenho duas filhas agora”. E quando o mesmo irmão resolveu ter cabelo comprido? Quase um novo infarto com direito a ponte de safena e tudo, mas tentando resolver tudo civilizadamente, ele oferecia dinheiro para que meu irmão aceitasse cortar o cabelo (surtindo muito efeito hahaha).

Comigo meu pai sempre foi mais brando. Eu podia ter o cabelo de várias tonalidades (ah! O laranja..) sem ele falar nada. Tudo bem eu ter vários brincos na orelha, afinal, eu sou menina, dizia ele. Tudo bem um piercing, mas o que ele odiava mesmo eram tatuagens. Certa vez resolvi fazer um teste, fiz uma tatoo de henna.. foi ele ver e ter um chilique, mas ainda assim.. meu aniversário.. churrasco.. vinho.. amigas encorajadoras:

- Vamos fazer uma tatuagem..

Fizemos.. quer dizer.. EU fiz. Fiquei umas duas horas enrolando no estúdio, devido ao meu certo temor de agulhas e muita implicância com esse negócio de coisas que me fizessem sentir dor, ainda mais depois da declaração de um amigo tatuado:

- Dor? Imagina Má.. só vão furar sua pele com várias agulhas e injetar tinta lá dentro… porque você acha que isso doeria???

Bem, depois de toda uma preparação psicológica, escolha do desenho e decisão estratégica de “vou fazer na nuca que é mais fácil esconder do meu pai”, fiz minha primeira tatuagem. Dor? Que nada, parecia que o tatuador estava passando um pincel.. não senti ABSOLUTAMENTE nada e ainda chamei de franguinho todos os meus amigos que relataram dores profundas ao fazer tatuagens.

Minha mãe descobriu a tatuagem uns meses depois, ficou um tanto brava, me fazia levantar o cabelo e mostrava o desenho, indignada, para minhas tias, primos, avós, conhecidos, passantes da rua.. mas não contou para meu pai, pois também esperava que ele tivesse um surto.

Uns 3 anos depois meu pai descobriu que eu tinha uma tatuagem. Ao invés do infarto, ao invés da bronca, ao invés de um chilique sem tamanho e gritos com a minha mãe de “olha só a merda que essa menina fez, você não soube educá-la”, só teve umas risadas e a frase “essa minha filha sempre foi doidinha”. Pronto.. superado o problema familiar com tatuagens..

Agora, uns anos depois, com alguns anos há mais.. sem ter mais o cabelo laranja.. sem ter mais um piercing, resolvo fazer uma nova tatuagem.. no tornozelo.. como era o plano inicial. 

Com o apoio de amigos:

“Ah.. faz um Cristo metaleiro sendo crucificado em uma guitarra em chamas..”

“Faz uns crânios com arames farpados e uma AR-15 de fundo a tudo isso… ou uns desenhos totalmente inspirados no estilo asteca de arte, desde que tenha alguma simbologia de morte”.

“Faz uma cobra naja.. começando pelo pé e chegando até as costas”. 

O que eu fiz? Bom.. clichê, coisas de mulherzinha e etc. Borboletas, estrelinhas… e tudo altamente colorido. Acompanhada da minha adulta responsável para casos de alta periculosidade, fomos até o estúdio do tatuador:

- E aí.. quer com dor ou sem dor? (perguntou ele)

- Com dor, por favor, afinal, estou aqui só por causa disso.. sou sadomasoquista.

- Sério??

- Não, se for com dor eu vou furar seus tímpanos só com o poder do meu grito.

Tudo esclarecido. Começamos a tortura chinesa, digo, o processo de fazer desenhos na pele. Era uma dor absurda, eu quis parar na primeira borboleta, mas devido ao apóio de amigos, resisti:

- Vai ficar aí reclamando de dor que nem uma mulherzinha?

Enquanto eu fazia aquela cara de poodle sofredor, de manifestantes contrários a ditadura na época do AI-5, chegou uma turma de pessoas em busca desenhos para tatuagens:

- Oi moça, ta fazendo tatuagem, né? Tá doendo?

- Não, não.. tô só fazendo cena.

- Sério?

- Não.. é como se enfiassem diversas facas na sua pele e ficassem rodando elas lá dentro.

- Uii, então.. eu nem queria mesmo fazer uma tatuagem mesmo, dá pra ir levando com henna.

Fui agüentando a dor profunda, enquanto quase arrancava meus dedos de tanto mordê-los e se não fosse por pessoas tirando das minhas mãos qualquer coisa que eu pudesse quebrar, com certeza, algum estrago eu teria feito.

Depois de 1 hora e 15 minutos de puro sofrimento, o celular toca:

- Onde você está Má?

- To saindo do estúdio do Chicão.

- Quem é Chicão, mocinha?

- O tatuador, oras.

- Tatuador? Como assim tatuador? O que você estava fazendo no tatuador?

- Você não vai acreditar.. sabia que.. veja só, o tatuador faz (tchan, tchan, tchan) tatuagens?!

- VOCÊ FEZ UMA TATUAGEM??? Ai meu deus!!! O que foi que você fez?

- Escrevi seu nome no meu pé, em letras garrafais.

- Seii.. te conhecendo como te conheço, deve ter tatuado meu nome na sola do pé, que é pra viver pisando em mim.

Que gente pateta, né? :-p