Meu pai sempre foi do tipo antigão, quase teve um infarto quando meu irmão caçula passou a usar brinco, lembro-me dele me contando do acontecido “tenho duas filhas agora”. E quando o mesmo irmão resolveu ter cabelo comprido? Quase um novo infarto com direito a ponte de safena e tudo, mas tentando resolver tudo civilizadamente, ele oferecia dinheiro para que meu irmão aceitasse cortar o cabelo (surtindo muito efeito hahaha).
Comigo meu pai sempre foi mais brando. Eu podia ter o cabelo de várias tonalidades (ah! O laranja..) sem ele falar nada. Tudo bem eu ter vários brincos na orelha, afinal, eu sou menina, dizia ele. Tudo bem um piercing, mas o que ele odiava mesmo eram tatuagens. Certa vez resolvi fazer um teste, fiz uma tatoo de henna.. foi ele ver e ter um chilique, mas ainda assim.. meu aniversário.. churrasco.. vinho.. amigas encorajadoras:
- Vamos fazer uma tatuagem..
Fizemos.. quer dizer.. EU fiz. Fiquei umas duas horas enrolando no estúdio, devido ao meu certo temor de agulhas e muita implicância com esse negócio de coisas que me fizessem sentir dor, ainda mais depois da declaração de um amigo tatuado:
- Dor? Imagina Má.. só vão furar sua pele com várias agulhas e injetar tinta lá dentro… porque você acha que isso doeria???
Bem, depois de toda uma preparação psicológica, escolha do desenho e decisão estratégica de “vou fazer na nuca que é mais fácil esconder do meu pai”, fiz minha primeira tatuagem. Dor? Que nada, parecia que o tatuador estava passando um pincel.. não senti ABSOLUTAMENTE nada e ainda chamei de franguinho todos os meus amigos que relataram dores profundas ao fazer tatuagens.
Minha mãe descobriu a tatuagem uns meses depois, ficou um tanto brava, me fazia levantar o cabelo e mostrava o desenho, indignada, para minhas tias, primos, avós, conhecidos, passantes da rua.. mas não contou para meu pai, pois também esperava que ele tivesse um surto.
Uns 3 anos depois meu pai descobriu que eu tinha uma tatuagem. Ao invés do infarto, ao invés da bronca, ao invés de um chilique sem tamanho e gritos com a minha mãe de “olha só a merda que essa menina fez, você não soube educá-la”, só teve umas risadas e a frase “essa minha filha sempre foi doidinha”. Pronto.. superado o problema familiar com tatuagens..
Agora, uns anos depois, com alguns anos há mais.. sem ter mais o cabelo laranja.. sem ter mais um piercing, resolvo fazer uma nova tatuagem.. no tornozelo.. como era o plano inicial.
Com o apoio de amigos:
“Ah.. faz um Cristo metaleiro sendo crucificado em uma guitarra em chamas..”
“Faz uns crânios com arames farpados e uma AR-15 de fundo a tudo isso… ou uns desenhos totalmente inspirados no estilo asteca de arte, desde que tenha alguma simbologia de morte”.
“Faz uma cobra naja.. começando pelo pé e chegando até as costas”.
O que eu fiz? Bom.. clichê, coisas de mulherzinha e etc. Borboletas, estrelinhas… e tudo altamente colorido. Acompanhada da minha adulta responsável para casos de alta periculosidade, fomos até o estúdio do tatuador:
- E aí.. quer com dor ou sem dor? (perguntou ele)
- Com dor, por favor, afinal, estou aqui só por causa disso.. sou sadomasoquista.
- Sério??
- Não, se for com dor eu vou furar seus tímpanos só com o poder do meu grito.
Tudo esclarecido. Começamos a tortura chinesa, digo, o processo de fazer desenhos na pele. Era uma dor absurda, eu quis parar na primeira borboleta, mas devido ao apóio de amigos, resisti:
- Vai ficar aí reclamando de dor que nem uma mulherzinha?
Enquanto eu fazia aquela cara de poodle sofredor, de manifestantes contrários a ditadura na época do AI-5, chegou uma turma de pessoas em busca desenhos para tatuagens:
- Oi moça, ta fazendo tatuagem, né? Tá doendo?
- Não, não.. tô só fazendo cena.
- Sério?
- Não.. é como se enfiassem diversas facas na sua pele e ficassem rodando elas lá dentro.
- Uii, então.. eu nem queria mesmo fazer uma tatuagem mesmo, dá pra ir levando com henna.
Fui agüentando a dor profunda, enquanto quase arrancava meus dedos de tanto mordê-los e se não fosse por pessoas tirando das minhas mãos qualquer coisa que eu pudesse quebrar, com certeza, algum estrago eu teria feito.
Depois de 1 hora e 15 minutos de puro sofrimento, o celular toca:
- Onde você está Má?
- To saindo do estúdio do Chicão.
- Quem é Chicão, mocinha?
- O tatuador, oras.
- Tatuador? Como assim tatuador? O que você estava fazendo no tatuador?
- Você não vai acreditar.. sabia que.. veja só, o tatuador faz (tchan, tchan, tchan) tatuagens?!
- VOCÊ FEZ UMA TATUAGEM??? Ai meu deus!!! O que foi que você fez?
- Escrevi seu nome no meu pé, em letras garrafais.
- Seii.. te conhecendo como te conheço, deve ter tatuado meu nome na sola do pé, que é pra viver pisando em mim.
Que gente pateta, né? :-p
Blá blá blá