Chuva de verão

31 12 2007

Ele foi como uma chuva de verão: surgiu de repente e com a intensidade de uma tempestade tropical.

Ela não gostou dele de início, não que tenha desgostado de fato, mas por mais que ele soasse literário, soubesse usar o pretérito mais que perfeito e em uma avaliação parcial, parecesse simpático, ela, ainda assim, achava que ele era como qualquer outro. Ou melhor, ela achava que ele era mais um curitibano mal humorado que achava que paulistas migravam para Curitiba com o intuito de perturbar a paz em elevadores, roubar empregos e jogar papel pelas calçadas. Mesmo assim, ela não foi mais nem menos simpática do que normalmente seria com qualquer outro. 

Em qualquer situação normal ela nunca falaria com ele. Em qualquer situação normal, ele nunca falaria com ela.

Ele era uma mistura das histórias de Goethe com um toque de Hemingway. Tinha o sarcasmo digno de muitos poetas clássicos e o humor pastelão de comédias antigas.  

Ela era quase um filme de Luís Bruñuel, uma pintura de Dali, um evento surreal. Era dramática de um jeito mexicano, caótica, egocêntrica, mimada, prolixa e a linearidade não estava presente no seu dia-a-dia.

Ele não gosta de cachorros. Ela brinca até com o cachorro da ajuda do Word, e fala toda empolgada com quem estiver por perto “ele está abanando o rabinho pra mim”, daquele jeito patético e com entonações entusiasmadas que só ela é capaz de conseguir, falando dessas coisas malucas e sem nenhuma relevância. 

Ele é preto e branco. Ela é em cores.  

Ela, algumas vezes, chegou a achá-lo antipático, arrogante e presunçoso. Chegou a detestar o jeito dele falar… a fazendo parecer dependente e vulnerável, mas então ele mescla seu surto de arrogância com belas frases poéticas e ela fica intrigada demais para conseguir criticá-lo por mais de duas linhas. 

Não se sabe como se tornaram amigos, a ponto do absurdo dela sentir falta de perturbar a paz dele e ele sentir falta de ter a paz interrompida por ela, se tornar verdade.

 Só não digo que ele e ela são opostos por completo, pois possuem a teimosia, o orgulho e a utopia de auto-suficiência como semelhanças. 

Mas uma coisa é certa, por mais que, como toda chuva de verão, ele passe.. ela nunca mais olhará uma sanduicheira da mesma maneira. 

PS: Informamos que esta é uma obra de ficção, sendo os personagens inventados.. e/ou originados de delírios.





Adeus dias de poodle

17 12 2007

A genética explica: mulheres possuem genes com a característica dominante para “não vou me conformar” e é por isso que fazemos as coisas mais absurdas do mundo, lutando bravamente contra todos os outros genes dominantes.. imagino como deveriam ser infelizes as mulheres quando ainda não havia tinta para cabelo, esmalte, chapinha, progressiva e creme para pentear.

Bem, eu tenho cabelo cacheado e como toda mulher de cabelo cacheado.. eu implico com isso. Não é que eu não goste do meu cabelo, o problema é o aquecimento global, a umidade em excesso, o calor em excesso, o derretimento das calotas polares, o vento, as tempestades naturais.. e, claro, o impacto direto disso no meu cotidiano e no consumo de creme para pentear.

Então, em uma tentativa desesperada e depois de muitos anos tomando coragem eu decidi: vou tomar medidas drásticas. E não havia namorado, mãe, amigo, papagaio, passante, Léo, Marcos .. que me fariam desistir.

Meu cabelo, obviamente reagindo e tentando implorar de modo velado, que eu não fizesse nada, resolveu me mostrar que poderíamos viver em harmonia.. Passou as duas últimas semanas apenas fazendo seu papel: cacheando de forma regular e não me forçando a tomar medidas emergenciais, como por exemplo, o uso de presilhinhas. Por um momento eu quase me rendi, mas continuei firme e forte no meu propósito, ou pelo menos parte de mim, afinal, sofro de múltiplas personalidades.

Como toda mulher adulta e independente resolvi que ia tomar uma decisão totalmente baseada na lógica: “vou ligar, se tiver horário eu faço.. se não tiver não faço”. Tinha horário, então, querendo confirmar se era uma vontade do cosmo ou apenas um desejo insano da minha parte, tentei outra tática avançada presente em todo livro sobre tomada de decisão para o empreendedor moderno: “cara eu faço, coroa eu não faço”.

Ok, ok, tirando mãe, namorado, amigos, passantes, papagaio, Léo e Marcos .. tudo dizia que eu deveria fazer, eram as forças ocultas agindo sobre a agenda do cabeleireiro, era o universo mostrando toda sua superioridade agindo sobre uma moedinha… o que eu poderia fazer além de me render?

Chegando ao salão o cabeleireiro começou:

- Aii.. seu cabelo é lindo, lindo, LINDO! Tão cacheado.. tão lindamente cacheado, tão “definidamente” cacheado. Não faz isso não Má, não faz!

- Não começa! Já me decidi..

Então começamos.. lava daqui.. lava dali.. Xampu para abrir sei-lá-o-que.. para fechar não-sei-dá-onde, sei que 3 horas depois e muito sofrimento na hora de secar o cabelo com o secador na temperatura “torradeira”, eu estava de cabelo liso… sabe? O vento movimenta.. e então ele volta para o lugar.. era assim.. uma coisa de liberdade, mas no segundo dia já fui ficando estressada.. essa coisa de ficar sem lavar o cabelo é uma coisa que incomoda, no terceiro dia eu já tava com crise de abstinência de xampu, só resisti pela esperança da realização do sonho do franjinha própria.

Pronto, depois de alguns dias, já com o cabelo podendo ser lavado e tudo:

- Vim cortar.

- Hum.. o que quer fazer Má?

- Sei lá.. dar uma repicada..

- Repicada?

- É.. pra dar um volume..

- Volume?

- É.. pra ver se cacheia…

- Cachear?? Você não fez escova pra ter cabelo liso?

- Não.. foi disputa interna de poder.. só queria mostrar para o meu cabelo que quem manda nesse corpo sou eu… e aí.. o que dá pra fazer?

- - -

AVISO AOS NAVEGANTES:

Prezados freqüentadores assíduos (e/ou ocasionais) deste blog, informamos que a Senhorita Maíra entrou em total reclusão deste lugar chamado blogosfera e coisas afins. Agradecemos desde já a sua compreensão e informamos que as relações serão normalizadas assim que possível… Enquanto não voltamos com nossa programação normal.. releia os posts antigos, reclame, comente.. mande e-mail, pois sua opinião é muito importante para nós. Por favor, não nos retire do seu “favoritos”, seu comentário será o próximo a ser lido. Por favor.. aguarde..

PS: A programação normal retorna em janeiro, uma vez que.. nesse momento estou vegetando na praia e pegando aquele bronzeado cor-de-rosa.

PS2: O Léo se comprometeu atender você, ó meu caro leitor.. e não se acanhe não.. Não.. não.. mesmo você, ó estranha pessoa que procura por “deuses pelados dando o cu”. Dê um pulo lá no blog do Léo que ele vai ser gentil hahahaha





Conversas de farmácia

16 12 2007

Era mais um dia como outro qualquer na capital paranaense… Estava frio, cinza, uma garoa fina e gelada caia ininterruptamente (nossa, deve ter algum erro no meio dessa palavra!!!).

Ela estava na seção de anti-gripais de uma farmácia qualquer, com a sua eterna dúvida: “qual comprimido levo?”. Enquanto ela analisava diversas cartelinhas, fazia cara de pensativa e espirrava, espirrava, espirrava, ouviu um “Ei!”. Ela levantou os olhos e olhou para sua frente, onde estava moço do “ei”, que continuou:

- Você não pretende levar isso, pretende?

- Oi? (ela olha para os lados). É comigo?

- Sim, sim.. com você mesmo. Não pretende levar isso, né?

- Ah! Pretendo sim. Se eu não tomar uma providência essa gripe vai entrar na minha declaração de Imposto de Renda deste ano como dependente. E outra, se tem uma coisa que eu aprendi nesses anos todos de vida é que as porcarias sintéticas servem justamente para isso: aliviar essa sensação de mal estar.

- Você deveria confiar mais nos seus leucócitos.

- Como?

- Seus leucócitos, oras.. Eles mesmos cuidarão para eliminar os invasores do seu organismo.

- Diga-me, você sempre se intromete nas compras das pessoas ou tem visto muita propaganda de paracetamol, onde pessoas espirram e lá vem o ator perguntar “é gripe?”.

Ele sorri encabulado e diz:

- Ah! Desculpe-me! É que vi sua cara de dúvida olhando para as cartelinhas, senti a obrigação de te reconfortar, te avisar dos leucócitos, mas principalmente, dizer que não se mistura medicação que contenha paracetamol.

- É médico? Enfermeiro? Hipocondríaco?

- hahahaha. Estudo Medicina. Estou no terceiro ano.

- Sabia! Deve tomar cuidado, viu? Está claramente sofrendo de obsessão.

- Não diga - risos - És psicóloga?

- Praticamente. Passar no vestibular me torna apta a exercer a profissão, mesmo que eu tenha optado por outro curso, não?

- Depende, o que cursou?

- Administração.

- Ah sim! Praticamente cursos “cromátides-irmãs”.

Ela sorri:

- Sua sorte é que eu sempre gostei muito de biologia, mas vou te contar uma coisa.. pessoas normais não iam rir dessa piadinha e nem entender que está falando de divisão celular, meiose e blá blá blá. Outro sinal claro de obsessão.

- Desculpe - risos -, eu não reparei que tinha dito isso em voz alta. Vem sempre aqui?

- Só quando preciso de remédios, absorventes, tinta pra cabelo, lenços de papel, ou quando preciso de um médico e não quero ir para o hospital. É comprovado.. é só a gente ficar em uma seção da farmácia misturando medicamento, que algum surge do além para falar em leucócitos.

- Hahahaha. Você é sempre engraçada assim?

- Provavelmente não.. deve ser o que acontece quando se mistura medicação com paracetamol.





Só sei que foi assim…

7 12 2007

* Uma chuva que não para, uma pessoa de cabelo cacheado parecendo um poodle alvoroçado, lutando para não ser transformada em um algodão doce, nessa linda cidade cinzenta; 

* Chuva que não para causando a destruição de um pobre guarda-chuva inocente; 

* Saindo da faculdade, uma chuva que não para, um guarda-chuva quebrado e um dilema: “será isso um cabelo ou um algodão doce?” e eis que surge ele:

- Vim te buscar (diz ele sorrindo, na maior pose “o salvador do mundo”).

A princípio veio a felicidade, mas depois de alguns segundos:

- Auwww, SUA DOIDA! Você me beliscou.. eu venho te buscar nessa chuva danada e você me belisca? Cadê aquela coisa de amor, gratidão e etc?

- Isso é uma moto (diz ela indignada).

- Não?!?! Sério mesmo? Quando eu comprei me disseram que era um liquidificador! Achei mesmo estranho aquela parte de ter que abastecer, mas agora que você está dizendo isso.. sabe que começa a fazer sentindo? (pausa) (pausa) Meu Deus! Meu Deus! É  u-m-a  m-o-t-o!!

- Engraçadinho!! Você sabe que eu detesto motos naturalmente, mas hoje ainda tem o fato de estar chovendo.

- Imaginei mesmo que isso fosse te deixar não tão feliz, então olha o que eu trouxe pra você.. (diz ele entregando um capacete cor-de-rosa com umas borboletinhas desenhadas).

- Você comprou um capacete cor-de-rosa pra mim? (pergunta ela rindo).

- É.. e pipoca doce daqueles saquinhos cor-de-rosa também.

- Hahahahaha.. Quantos anos você acha que eu tenho, hein?

- Ah!! Essa é difícil, viu.. 5?? 

* Chegando em casa ensopada e cheia de trabalhos pra terminar e tchan-tchan-tchan (onomatopéia de suspense) acabou a luz. Patéticas cenas de uma mulher independente sem uma lanterna ou uma mísera vela que fosse.. escovando os dentes, tomando banho, tirando a maquiagem.. tendo como única fonte de luz o mega visor do celular…





A saia amarela

1 12 2007

- E as compras de Natal? Já fez?

- Sim, sim.. já fiz as compras.. comprei até presente pra namorada.

- Namorada?

- Sim, pra namorada.. não que eu tenha uma…mas vai que eu dou sorte até o fim do ano, né? E vai que ela gosta de amarelo…

- Amarelo? Porque não comprou algo preto? Para não errar apele para o básico.

- Porque a mulher da minha vida gosta de amarelo… e usa saia.

- Saia? Amarela? Fiquei curiosa pra ver esse achado.

- Sinto muito, mas só a mulher da minha vida vai poder abrir esse embrulho.. e acho que você não é ela.

- Por quê? Sou baixa demais pra ser ela? Não fico bem de amarelo?

- Não, não.. não é isso..

- Então o que é?

- Você nunca quis ser a mulher da minha vida. E acho que eu te vi de amarelo umas três vezes na vida.

- Ora essa! Mas se você me desse uma saia amarela poderia me ver de amarelo mais algumas vezes.

- Mas então você teria que se tornar a mulher da minha vida pra usar a saia.

- E para isso o que teria que fazer?

- Humm.. A mulher da minha vida é ruiva.

- Não, não.. Você sabe que não posso ser ruiva. Lembra da última vez que tentei? Cabelo vermelho, bochechas rosadas.. Quando colocava uma blusa vermelha me sentia um fósforo…

- Mas você não vai usar vermelho.. vai usar amarelo.. lembra?

- O resto da vida? Andarei sempre de amarelo? E a blusa? Não quer q eu ande só com a saia, quer?

- Olhe, mesmo eu que não tenho o menor senso estético.. sei que vermelho e amarelo não combinam, certo?

- Eh, eu acho que não usaria vermelho e amarelo.

- Vai ficar ruiva então?

- O que tem de errado com o cabelo preto?

- De errado.. errado mesmo.. nada, mas a mulher da minha vida.. essa é ruiva.. o que posso fazer?… Se você tivesse sardas então…

- Ruiva.. sardas e amarelo.. Parabéns..

- Ué.. pelo que?

- Acabo de desistir de ser a mulher da sua vida. Não tem nada aí para ex- futuras mulheres da sua vida, que não são ruivas, não tem sardas.. e só tem uma blusa amarela?

- Bom, já que mencionou.. tem um presente que não tenho pra quem dar.. e pelo jeito que andam as coisas.. não conseguirei achar até o natal. Gosta de saia amarela?