Meus dias de médica

26 11 2007

Eu sou uma quase médica.. tirando o diploma e a falta do CRM, claro. Mas isso é secundário, afinal, morei por dois anos com um médico, vai dizer que isso não me torna apta a clinicar?

Bem, eu morava em Ribeirão Preto e era difícil viver naquele calor senegalês, principalmente porque eu nasci com certas frescuras.. uma delas é ser altamente sensível a temperaturas elevadas, mas sensível de tal forma que o calor absurdo me faz ter alergia.

Morando com um médico com acesso aos mais diversos tipos de amostra grátis, eu tinha em meu armário um vasto estoque de remédios para alergia, para aqueles dias de calor acima dos 40º em Ribeirão.

Um belo dia Dona Lúcia (nossa faxineira) chegou em casa e o médico e adulto lá de casa saia apressado pela porta da frente, enquanto me fazia as recomendações de sempre: “se comporte”, “vê se não chega atrasada na aula”, “não vá ficar até tarde na rua.. é perigoso”, “nada de parar no Pingüim”, “qualquer coisa me bipa, QUALQUER COISA MESMO, TA?.. “Dona Lúcia, toma conta dessa menina. Não deixe ela almoçar salgadinhos”. E lá se foi ele para mais um plantão de 24 horas.

Dona Lúcia olhava aflita, então eu perguntei:

- Aconteceu alguma coisa Dona Lúcia?

-Ah! Não sei.. acho que estou com um problema na perna..

- Que problema?

- Não faço idéia.. queria que o Doutor visse. Está doendo um pouco, parece que estou sendo espetada por diversas agulhas, está coçando..

- Hum.. coçando.. Deixe-me ver, Dona Lúcia. (digo senhora de mim, com plena certeza que vou olhar e saber dar um diagnóstico).

- E então.. o que acha que é? (pergunta ela confiante)

- Alergia (digo com a convicção de uma médica chefe)

- Será?

- Claro! Olha.. tem uma ferida na sua perna.. está coçando.. é alergia.. Peraí que vou te dar um remédio.

Sigo até meu armário de amostras grátis e dou a Dona Lúcia minha última caixinha de claritin, explicando a dosagem e por quanto tempo ela teria que tomar. Dona Lúcia me ligou no dia seguinte só pra agradecer meu diagnóstico, o remédio.. repetiu diversas vezes como eu era um anjo.

No dia seguinte, depois que o Doutor chegou do plantão, dormiu e deixou de ser um zumbi para voltar à vida:

- Má, eu notei que a última caixinha de amostra grátis que eu te dei não está mais no armário do banheiro. A alergia atacou de novo?

- Não.. eu dei o remédio para a Dona Lúcia.

- Para a Dona Lúcia?

- É.. ela estava com alergia.

- Estava?

- Sim.. tinha uma feridinha na pele..estava coçando..

- Você está me dizendo que não sabia o que ela tinha e deu um remédio pra ela tomar?

- Não, estou dizendo que diagnostiquei alergia.

- Ai meu Deus!!! Quer dizer que coçou é alergia agora? Não sei quem é mais doida.. você por dar remédios ou ela por tomar os remédios que você dá..

- Com certeza ela.. além de tomar o que eu receito me liga para agradecer e ainda pergunta se eu posso dar uma olhada no filho dela, que está reclamando de um problema nas costas…

- - -

PS: Pesquisa do blog de hoje “eu só quero saber onde comprar cloro”… Fiquei com dó da pessoa.. devia estar há horas “conversando” com o google e nada dele falar especificamente sobre onde comprar cloro. Ai, ai.. esse google é um fanfarrão!!





Como água e vinho

21 11 2007

Ela estava no metrô, naquele horário infernal, junto com mais da metade da população da cidade de São Paulo. Ela tentava chegar até a Sé e de repente, no meio de todo aquele barulho e rompendo o som do mp3 ela escuta:

- Mááááá

Ela pensa ser com ela e olha para os lados, mas não vê ninguém conhecido. Está certo que ela tem alguns graus de astigmatismo, está certo que ela detesta lente de contato e por isso só usa óculos, está certo que ela raramente usa óculos socialmente, mas bem.. quantas mil “Mariana”, “Maria” e demais “Ma” existem e quantas mil deveriam estar ali tentando chegar na porta do maldito metrô, não é? Ela continua cantarolando com seu mp3 esperando o próximo metrô, até que é puxada pelo braço:

- Ei Má! Tô te chamando faz mó tempão, cara.. e você nem pra olhar pra mim, meu.. (diz ele com aquele sotaque típico da Mooca).

Ela olha com aquela cara de: “oi?” e ele continua:

- Nojentinha como sempre, né? Desde que te conheci já pensei: “ô mina metidinha” (com o característico sotaque da Mooca cada vez mais acentuado).

Ela olha com a mesma cara de “Oiii?” e ele continua:

- Que isso Má! Você sabe que é brincadeira, né? Nunca te achei metidinha, desde que te conheci pensei “que mina da hora”.

Ela ainda com a cara de “oooiiii????”, resolve perguntar:

- Nos conhecemos?

- Ah! Sempre piadista, né? Não acredito que você não lembra de mim.

Ela olha com aquela cara de pessoa autista, com sono e que, definitivamente, não sabe com quem diabos está falando. Ele, altamente tagarela, não a deixa fazer essa cara de bunda nem por 3 segundos completos, tendo como companhia o silêncio:

- Ow.. menos mal.. Assim fico mais tranqüilo sabendo do bolo que você me deu. Você deve ter sofrido um acidente, ter ficado um tempão em coma e aí acordou com esse probleminha de memória. Dica! Dica! Essa é a hora que você me fala do acidente e mostra as suas cicatrizes, pra não parecer tão feio você não se lembrar de mim. Vai lá!! Nem precisa ser convincente.. eu juro que vou acreditar por mais que você pareça o Cigano Igor “te amo Dara, te odeio Dara” (diz ele fazendo a mesma cara de paisagem e com a mesma entonação). Lembra? Ah, não deve ser da sua época, né? Se bem que.. te conheço há trezentos anos e você sempre vem com aquele papo de que tem 20 e alguma coisa. Mulheres, né? Sempre mentindo a idade.. Mas Má, você está morando aqui de volta?

Ela vai ficando aflita:

- Para! Para! Calma.. calma.. vamos começar do princípio.. QUEM DIABOS É VOCÊ?

E então ele a fez lembrar que ele era aquele paulistano chato, arrogante, metido que ela conheceu uns anos atrás, graças a amigos (será que podemos chamar mesmo de amigos essas pessoas? hahahaha) em comum.

Ele descreveu a roupa que ela estava vestindo naquele dia, enfatizou que a primeira frase que ela disse ao conhecê-lo foi: “Nuuuosssaaa! Que cílios lindos!”..  (ele ainda ri contando essa história por aí).

Ela então se lembrou que ele tinha um cavanhaque que ela achava ridículo. Cavanhaque só é aceitável em duas pessoas: no Brad Pitt (porque afinal de contas é o Brad Pitt, né?) e no Douglas (porque sei lá.. o Douglas pode), isso sem falar naquela toquinha.. ai.. ai.. o que era aquela toquinha que ele usava? Depois ainda se pergunta por que ela esqueceu dele, vê se pode!

Então ela esqueceu que queria chegar logo na Sé, ele esqueceu que tinha que ir trabalhar e foram tomar um café (na Barra Funda, porque ele ainda lembrava que ela adorava um cappuccino que tinha em um café na Barra Funda).

Ela não lembra porque não se deram bem logo de cara. Ele afirma que se deram muito bem logo de cara, ou ela é totalmente falsa, porque parecia muitoo que eles se deram bem…

Hoje ele é a companhia mais agradável, mesmo a arrastando para uns programas de índio e reclamando, reclamando, reclamando.. dando bronca, bronca e mais bronca.

Ele é o responsável pelas gargalhadas mais sinceras. É o despertar da alegria mesmo ligando às 6h da manhã em um sábado e gritando “Bommm diaaaa motivo da minha poesia” pra logo depois ir falando sem parar.. quer dizer.. parando de falar vez ou outra pra ficar cantando “Oohooo oohoooho… ooooho… Ooooo… oooooo… oooooo… Ooooo… oooooo…. oooooo…Somewhere over the rainbow… Way up high..And the dreams that you dreamed of Once in a lullaby-iii iiii iiii iii”, daquele jeito desafiando que só ele sabe.. Mas tudo bem, afinal de contas, ELE pode.. ele tem aquele sotaque da Mooca :-)





Relatos de uma obsessivo-compulsiva

19 11 2007

Eu admito, sou uma pessoa cheia de “obsessões”. Sempre foi assim, nos diversos períodos da minha vida, o que sempre mudou foi o objeto que despertava meu sentimento obsessivo. Lembro-me quando comecei a ter obsessão por tintas de cabelo, coisas da idade, provavelmente. Todo mês era uma cor diferente, não importava as leves nuances de diferença entre o vermelho acaju e o castanho médio avermelhado intenso, eu simplesmente tinha que pintar e repintar, com tintas com fotos diferentes da caixinha anterior.

Um pouco depois a tintura passou a perder a graça, talvez pela falta de inovação nas cores, já tinha passado por tudo, repito TUDO, até uma coloração meio laranja consegui certa vez. Passei a adotar as mesmas cores básicas então: vermelho, castanho e preto é o máximo de variação agora.

No momento mesmo, metade de mim é castanho (a tal da “cor natural”), a outra metade preta, porque resolvi que não quero mais cabelo preto. Essa minha cor “morena jambo” em contraste com o cabelo preto sempre faz surgir àquela piadinha “ahhh, tá virando EMO, hein Má”. Então resolvi poupar as pessoas de ouvirem minha resposta raivosa “você vê alguma franjinha aqui? NÃO! Então, não sou EMO. Ah! E também detesto Simple Plan”.

Saí da compulsão desenfreada por tintas e então vieram os esmaltes,  passei a ter esmalte de todas as cores, várias tonalidades de vermelho, preto black (existe outro tipo de preto?) café, café rubro, marrom alguma coisa e até um amarelo “não me perca na neve” entrou nessa brincadeira. Ainda adoro esmaltes, mas novamente a variação de cores diminuiu drasticamente.

Atualmente o que me ajuda a satisfazer meu novo vício é a Saraiva. Tornei-me uma compulsiva por livros, admito que a primeira coisa que penso em feriados, antes do “vou viajar”, é “será que tem promoções na Saraiva? Nessa época muitos títulos estão pela metade do preço, parcelados sem juros em não sei quantas vezes em todos os cartões. Ai, ai (suspiros) Frete grátis para todo o Brasil”.

Normalmente essas visitas ao site da livraria terminam em muitas encomendas. No último feriado não foi diferente, mais cinco livros para devorar, dentre eles best-sellers que fariam com que muitos balançassem a cabeça, descrentes.. mas o importante é que apesar de me manter lendo o Jabor.. eu ainda não me rendi a Paulo Coelho.

- - -

PS: Créditos de mudança de layout para Eduardo, que resolveu fazer mais do que dizer “eita que visualzinho adolescente o desse blog, favor tirar aquelas coisas em verde.. deixar mais clean.. e tags menina! Blogueira que é blogueira usa tags”.. Ufa! Ainda bem que não sou blogueira.. e ainda bem que Edu é praticante da máxima “quando a gente quer alguma coisa, a gente mesmo faz”

PS2: Invejinha da vida paulistana, infelizmente dizer que sou muito apegada as minhas raízes e que me guio pelo calendário oficial da cidade de São Paulo não funcionou.. mas uma bela continuidade de feriado para quem está refletindo na praia :-)





A cantada infalível

10 11 2007

A invenção da cantada infalível

- Bolei um xaveco infalível!

- Ah é? Me diz como é, vamos ver se é bom mesmo..

- Tá, mas é com signos..

- Ihh…

- Não faça essa cara.. é muito boa mesmo!

- Fale então..

- Eu chego para a menina e digo: “Nossa! Hoje sonhei que ia conhecer uma menina do signo de peixes..” Aí a menina responde: “Ahhh, mas eu não sou de peixes”. Então eu faço aquela cara de cocker e digo “Tá bom vai.. eu te dou uma chance”.

- Hahahaha… 

A utilização da cantada infalível

Ele chega ao bar e decide falar com uma moça qualquer:

- Como a vida é engraçada, né?

- Oi? (ela olha para os lados) é comigo?

- Sim, sim.. com você.. Olha só..Eu sonhei que hoje a noite ia conhecer uma menina do signo de peixes…

Então a menina responde curiosa, pasma e toda interessada:

- Nossa!! Sério?? Eu sou de peixes..

Então ele, super nervoso, totalmente sem graça:

- Xiii.. fudeu! Pra essa eu não sei a resposta…

- - -

PS1: Obrigada, Daniel! :-)  

PS2: Coisas que levam a gente a não atualizar o blog com a freqüência de sempre:

“Maíra, eu quero isso para amanhã. Amanhã.”

“Má, phodeu! Tem que entregar essa semana. Não escrevemos uma linha. Não temos um tema, tem que ser apresentado!”

“Vamos ao shopping?”

“Cinema hoje?”

“Má, dá pra você revisar minha dissertação? Não sei lidar com os labirintos do word, normalização..”.. “Isso te custará algumas xibocas”.. “Tá, mas olha.. preciso dela pronta na quinta”.. “O que?? Pra quinta.. tipo.. amanhã?”

“Preguiça, preguiça, PREGUIÇA!!!”





Relato de um dia na minha vida curitibana

2 11 2007

Dizia o jornalista Fernando Pessoa Ferreira que “a maior atração turística de Curitiba é o inverno, que começa em fevereiro e termina em dezembro. Nos outros meses, chove”. Eu diria que nem precisa muito, diria que o período de inverno é alternado com o período de verão, que por sua vez é alternado com o período de tempestades, tudo no mesmo dia.

Claro que o verão termina às 18 horas e as tempestades começam justamente nesse horário, porque é o horário que estou saindo do trabalho. Trata-se de um problema claramente pessoal, porque já foi comprovado: quando saio mais cedo do trabalho, os temporais também começam mais cedo e o frio começa a ressurgir quando estou num dia de roupas de verão.

Apesar de ter 24 anos eu sofro de uma menopausa precoce, enfim, sinto um calor senegalês até nos dias suavemente quentes de Curitiba, então na bela segunda-feira de sol e calor intenso lá estava eu vestida moda praia.. de vestido frente única de cores mais alegres e vibrantes. Tudo ia muito bem até as 18 horas, quando de repente.. 4 quarteirões de casa eu fui surpreendida por uma mega tempestade com ventos fortes e granizo e logo na segunda-feira de cabelo bom. Sabe qual a probabilidade de uma pessoa de cabelo cacheado estar feliz com seu cabelo sem ter feito escova ou estar usando presilhinhas? As chances de isso acontecer são mínimas.. MÍNIMAS!

Era uma batalha árdua, a chuva vinha de todos os lados e o guarda-chuva e nada seriam a mesma coisa, quer dizer.. ele impedia que minha bolsa fosse completamente encharcada, mas de resto não tinha mais solução.

Em uma tentativa desesperada parei em um ponto de ônibus, mas ao contrário do que você, nobre pessoa que não conhece Curitiba profundamente pensa, nem todos os pontos de ônibus da cidade são aqueles tubos que você vê em postal. Obviamente que o que eu tinha a disposição era um daqueles pontos meio cobertos, mas que não resolviam todos meus problemas e até causavam mais alguns.

Ali fiquei um tempo, esperando a chuva dar uma amenizada. A chuva estava forte e a água nas ruas interditaria muitos aeroportos por muito tempo. Os carros passavam por ali em alta velocidade espirrando água para todos os lados, para todos os SEUS lados também, você já estava quase ensopada, mas do outro lado da rua vi uma situação ainda pior.

Os excêntricos curitibanos são assim, uma estranha tribo que se alimenta de pinhão, não sabem dirigir em dias chuvosos, não falam com estranhos, mal falam com conhecidos, mas residem em casas iguais às nossas e insistem em ter uma vida igual a nossa. É notória a falta de habilidade do curitibano em dirigir com chuva. Tenho amigos que tentam fazer um projeto de lei que proíbe os nativos de dirigirem em dias chuvosos ou com umidade superior a 70%. Enquanto isso não acontece somos obrigados a ver o trânsito caótico e congestionamentos em dias chuvosos, além de aturar os carros passando praticamente em cima das calçadas, lavando ponto de ônibus e passantes.

Bem na frente do ponto de ônibus que estava tinha um posto de gasolina. Um moço com um guarda-chuva esperava para atravessar a rua quando passou um carro e jogou rios de água para os lados. O pobre moço ficou todo ensopado, atingido dos pés até o rosto. Indignado ele fechou o guarda-chuva e foi-se embora no meio do temporal, se estivesse de óculos sei que poderia ter visto claramente o movimento labial dele com vários xingamentos impronunciáveis.

Era preciso aceitar a realidade: A CHUVA NÃO IA PARAR. Estava perto de casa mesmo, já estava ensopada mesmo, a chuva de granizo já tinha parado. O que mais eu tinha a perder? Fui andando para casa e então descobri que tinha muito mais a perder sim: os sapatos.

Já tinha visto rios com menos água e correnteza do que nas ruas perto de casa e foi assim.. caminhando e travando uma batalha particular pra manter os sapatos no meu pé, até que não teve jeito, a natureza se manifestou mostrando sua supremacia arrastando meu sapato pela enxurrada. Como qualquer mulher teimosa e inconformada, fui atrás do sapato numa perseguição alucinada, sendo esta uma das cenas mais deploráveis da minha vida (só não menos ridícula do que quando tive que tirar um pardal morto do meu salto), o alcancei alguns metros à frente, preso entre galhos, folhas e lama.

Daí por diante desisti de ser uma dama, desisti de tentar salvar minha bolsa da chuva. Há um quarteirão de casa fechei o guarda-chuva e com os sapatos em mãos, fui caminhando descalça até minha casa… e lá se foi uma segunda-feira linda e ensolarada.. e lá se foi um dia de cabelo bom… e assim começou uma gripe.. os dias seguintes a segunda-feira foram assim, calor senegalês até certo período da tarde, temporais o resto do dia.. uma gripe só não agravada graças a auto-medicação. Uma alergia por causa do calor iniciada, mas tudo bem, afinal, eu tinha salvado seus sapatos…

- - -

PS: Ah! Saudades da mordomia da casa dos pais. Saudades da vida de paulista mimada.. Saudades da vida com carro!