Histórias de terça

29 05 2007

Parte I: O telefonema

Terça-feira, bemmmm (enfatizando) de manhã, acordo assustada.. telefone tocando. Tem uma extensão no meu quarto, mas ela estava na mesa do computador. Levanto enrolada no edredom, saio derrubando cadeiras que estavam na minha frente, e pisando nos livros que acabei deixando no chão. Depois de superar todos os obstáculos chego até o aparato telefônico e solto um insosso:

- Oi (raramente atendo com o famoso Alô)

- Bommmmm diaaaaaaaaa! (quase ensurdecedor, escuto do outro lado da linha).

Balanço a cabeça, meio dormindo, meio acordada e respondo o tal bom dia, de forma menos animada.

- Você sabia que Beto Richa (prefeito de Curitiba) trouxe de volta a semana do leite? Sim, sim, no Mercado Municipal agora você pode acompanhar todo o processo de ordenha… blá blá blá.. manteiga  blá blá blá.

Fiquei atordoada com tanta informação… tentei interromper o telefonema no meio pra soltar um belo:

- Hein? Leite? Mercado?

E então.. tchan – tchan – tchan (onomatopéia) me dou conta que é uma gravação. Linda forma de se começar o dia, não? 

Parte II: E o final de semana?

- Má, já programou o final de semana?

- Não né, terça ainda…

- Boliche?

- Oi?

- Vamos no boliche (autoritário, como sempre, não pergunta se eu vou, afirma). Sexta ou sábado? (mas me dá a chance de decidir o dia)

- Sexta tem o show do Ira!

- E você vai? Onde vai ser? Quanto é?

- Não sei, não sei.. e a última pergunta.. Ah, eh, então.. não sei.. só sei que vai ter.. e que é sexta.. e que não é no Master Hall.

- Ah, mas se informa né, você já foi mais eficiente.. tá doido..

- Você deveria se informar e me informar. Hierarquia, sabe?

- Putz! Custa você ver isso pra gente, custa? Vou ter que parar de jogar paciência pra ir atrás disso? Ta doidooo! Você não pode parar o que está fazendo por alguns minutos?

Olho com cara de descrença e desprezo, mas dominada pelo espírito de Dalai Lama, com a paciência emanando de mim, vou me informar sobre o show. Cinco minutos depois:

- Dia 1, sexta, na Hellooch, R$ 60,00; R$ 30,00 para estudantes ou pra quem doar um quilo de alimento não-perecível, exceto sal e açúcar (respondo eficiente).

 Mas….

Me antecipo e interrompo dizendo:

- A Hellooch fica na Rua Des. Westphalen, 4000

- Exatamente isso que ia perguntar hahahaha. Então Má, vou me informar aqui e já te passo as informações.

“Hein?” Pois é, também me pergutei isso.

- Mas que informações??? Mas é um pateta!! Acabo de te dar a ficha completa e você vem me dizer que vai se informar a respeito? A respeito do que sem noção??

- Localização Má, localização.. te conheço né.. você não deve saber qual altura da Westphalen, você é uma perdida.. Vou ver onde exatamente fica a Hellooch, mapas, sabe?

Ele abre sites de mapa, olha, olha, dá diversos “zoom”, solta alguns “maldição”, e me pede pra ficar calma, que está tudo sob controle.  Eu afirmo que estou calma.. ele que não parece muito calmo. Reclama, reclama, reclama.. critica o zoom novamente, fala “maldição” e termina com um:

- Pronto.. já cheguei a uma conclusão

- Qual?

- A Hellooch, de fato.. fica em Curitiba.. pude perceber pelos mapas…

E ele desiste.. é na Westphalen, é o suficiente saber isso.  

Parte III: Sonhos malucos, orkut e indianos

Estava conversando com uma amiga, contando pra ela o incrível sonho desesperador que tive, onde queriam me forçar ir para a Índia e eu tinha surtos dizendo que não ia, nesse mesmo momento abro o Orkut e o que vejo lá? Dois indianos, com jeito de indianos, com cara de indianos, deixando recadinho e pedindo pra ser adicionado. Medo, muito Medo!!! Minha amiga defensora de frases feitas, do tipo “é um sinal”, “nada na vida acontece por acaso”, me manda ignorar os caras pra sempre e nunca, nunca, NUNCA escrever nada a eles.

Outro amigo, guru, chato, reclamão e um tanto autista (hahahahaha) que acompanhava a história do sonho e dos indianos no orkut diz:

E se seu sonho foi premonitório? E se foi um aviso pra você ficar bem longe desses indianos? Pense, seu sonho pode significar um seqüestro forçado (Hein? Todo seqüestro não é forçado?) ou que você vai se apaixonar por um indiano, casar com ele e ser forçada a ir pra Índia.

Outro amigo (menos chato, menos reclamão e nada autista) que também acompanha toda a história, diz:

- Sim, e se sua vida cair em desgraça? Tudo porque você foi gentil.. tudo porque ignorou os sinais.. tudo porque respondeu um maldito scrap. Vale a pena Má? Me diz… não, não.. ME DIZ MÁ, VALE A PENA PARECER SIMPÁTICA POR ESSAS CONSEQUÊNCIAS?

- Tudo bem, tudo bem.. sou uma sociopata mesmo.. mas vou ignorar eles e dizer que vocês mandaram.

Eles concordam.

- Qualquer coisa, se eles insistirem… manda falar comigo. Digo que sorte deles que você os evitou.. e eu que não tive essa sort.. digo.. azar.. e tô aqui.. com você..  até hoje… hahahahaha (completa um dos “amigos”)

Ah! A amizade!!! 

Parte IV – A semana do leite e os amigos das megalópoles

Uma das minhas grandes amigas é bem do tipo urbana, mas urbana mesmo, não que ela seja contra a natureza, ela adora a natureza! É urbana pelo fato de poder pedir comida tailandesa às 3 horas da manhã, por sempre ter morado em grandes cidades, respirado poluição e todas essas coisas. Mas, apesar disso, ela adora o contato com a vida no campo. Lembro que fomos a algumas das tais feiras agropecuárias nessa nossa vida.. e ela simplesmente repetia “uau, cavalos!!!”, “uauuu vacas” e olhava tudo maravilhada, dizendo que só tinha visto essas coisas pela tevê.

E no dia que fomos para uma fazenda? Ah! Ela dava gritos de emoção ao ver vacas no pasto, até achou bárbaro ter sido perseguida por uma.. E quando viu uma galinha então? Ela duvidada da existência de galinhas, acreditava que eram formas de vida criadas em laboratórios e que só podiam ser encontradas na seção de congelados dos mercados.

Já um outro grande amigo, que também estava na fazenda, e também achou bárbaro ver galinhas, não era tão cético, mas acreditava que galinhas eram animais selvagens, e que só podiam ser encontrados na floresta amazônica.

Pois bem, contava a esses dois amigos empolgados com o contato com a natureza, sobre o tal telefonema de manhã, com a gravação falando da semana do leite.. da ordenha de vacas.. contando como fiquei revoltada por ser acordada com isso e ao invés de apoio o que recebo?

 - Mas Má, onde é isso? Como é que é? tem vacas ao vivo?

- De que horas até que horas? A semana inclui final de semana, né? Será que dá pra gente ir?

- Poxa!! Ordenha de vaca, nunca vi uma ordenha de vaca.

- O leite não vem em caixinhaaa???

- Nossa Má! Estávamos mesmo querendo ir pra Curitiba, vamos ver a semana do leite?

Você.. essa pessoa que cresceu numa casa que seu pai transformou em uma semi-chácara, você que já ganhou patos e coelhos de presente. Você, neta de um fazendeiro, que cresceu sabendo o que são vacas, inclusive freqüentou leilões de gado com seu avô, presenciou vacinação contra a febre aftosa e cansou de ver ordenhas de vaca, responde aos amigos:

- Claro!! Mal posso esperar pra ver de onde vem o leite.. E aí, quando vocês chegam?





Insônia

25 05 2007

Ando tendo crises de insônia, provavelmente praga das pessoas amigas que sofriam desse mal e que buscavam apoio no meu ser e eu só conseguia falar “aham” enquanto ouvia as crises existenciais delas. Isso quando não caia, sem o menor remorso, no sono, enquanto ouvia idéias geniais que surgiam as 3h49 da madrugada.

Desisti de tentar lutar e aceitei o fato.

Insônia: Fase I - Manchetes desprezadas 

Madrugada, cappuccino e jornais. Você começa a ler todas as matérias banais que desprezou anteriormente.. Agora entre uma página e outra você se depara com a linda frase:

“A rede mundial pasteurizou muitos costumes locais, mas as janelas da alma continuam a ser abertas de formas diferentes no Ocidente e no Oriente.”  

“Hein?”

Pois é.. foi o que me perguntei também. Fui ler a matéria, as janelas da alma, pareceu algo apropriado para combater a insônia.

E olha só que pesquisa toda importante, fala dos emoticons nos diferentes lugares, por exemplo: 

“Os desenhos dos internautas japoneses expressam os sentimentos de seus autores por meio dos olhos. Os americanos expressam a alegria e a tristeza modificando a posição da boca dos seus emoticons”. 

Conclusão 1: Que coca-cola e McDonald´s o que.. a americanização se vê pelo uso de posição da boca em emoticons.

Conclusão 2: Meus amigos japoneses têm razão em me odiar, primeiro não quero jogar Sudoku. Depois não quero me livrar das tralhas no fim do ano e como tiro de misericórdia isso.. não destaco os olhos em emoticons. Poxa vida!! Uso o tal dos dois pontinhos sempre, eu sou um horror de pessoa! Uma ocidentalzinha egocêntrica e medíocre.

Outra super interessante, nojenta e “Uiiiii” notícia:

”Artista pretende comer cão de raça da realeza britânica em protesto”

É o típico protesto realmente fundamental para a vida humana, a matéria inclusive descreve que o ator pretende comer o cãozinho da raça welsh corgi pembroke cozido.

Conclusão 1: Uiiiii

Conclusão 2: Argh!!

Conclusão 3: Credooo!

 Insônia: Fase II - Poker online e messenger

Depois de ter lido toda e qualquer bobagem presente nos jornais online, hora de aceitar o convite para uma disputa de poker. Você sente que começa a melhorar no jogo. Antes você só sabia o que era uma seqüência, agora você sabe até o que é um Royal Street Flash, mais umas noites de insônia e você já estará fazendo aquelas coisas que o Maverick fazia.

Mesmo vendo você no “ocupado”, aquele cara que é irmão da prima do vizinho da sua amiga entra no messenger, com o singelo apelido de “Hamlet”, e resolve te dizer oi.. Você em um dia simpático e sociável, responde:

- Olá! “ser ou não ser, eis a questão”?

- Qualé Mah, eu sou homem pô! Que tá com essas aí de me chamar de viado? Sou homem ca**, vem cá que te provo.

- Eu estava falando da frase mais célebre dessa peça.

 - Que?

- Hamlet…

- Ah.. é um filme..

- Filme?

- Vai dizer que nunca viu Hamlet? Muito lokooo! Participação de Mel Gibson, e Glenn Close. Pelo menos desses você já ouviu falar, neh?

- Sim, e você já ouviu falar de William Shakespeare, né?

- Claro!!! É o cara que faz o tio do tal Hamlet.

- É.. de certa forma.. de certa forma..

 Insônia: Fase III - Literatura

Você resolve se entregar aos prazeres da aquisição de cultura, e lá está você, mais uma vez, entretida com Gabriel García Márquez, o escritor que figura entre os autores dos últimos títulos literários que você adquiriu.

E assim vai.. páginas de:

 “…mas se alguma coisa haviam aprendido juntos era que a sabedoria nos chega quando já não serve pra nada”

E mais:

“Deixavam passar o tempo como dois velhos esposos escaldados pela vida, para lá das armadilhas da paixão, para lá das troças brutais das ilusões e das miragens dos desenganos, para lá do amor. Pois tinham vivido juntos o suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte…”.

O sono começa a te dominar…  e entre o “nada que se faça na cama é imoral se contribui para perpetuar o amor” e outras frases soltas, filosóficas e sacanas do “O amor nos tempos do cólera” você desmaia debruçada no livro, só volta a si um tempo depois, com a música brega do despertador do seu celular…





Networking

20 05 2007

E-mail 1: Boa Tarde (escreve o nome dela completo), Gostaria de saber se recebeu sua premiação e se ficou satisfeita com os prêmios. Era o que esperava? Aguardo seu retorno.

Att.

C. Departamento Comercial blábláblá. 

Resposta: Boa Tarde! Recebi sim, mas devo dizer que não fiquei satisfeita, esperava um carro, no MÍNIMO, M-I-N-I-M-O, viu? E ai, quando me manda a chave? :-)

Chegaram sim Sr. (ela escreve o nome dele completo), obrigada! Satisfeitíssima! Agradeço também a generosidade da equipe que avalia quem ganha o que aí viu, porque definitivamente, que gente boazinha!!!

Beijos e um lindo dia pra você, pra moça do cafezinho, pro cara da mesa ao lado etc…

PS: Desculpe! Não resisti, eu tive que ser chata, implicante e inconveniente no começo do e-mail para só depois bajular, mas, pelo menos eu bajulei um pouco, certo? 

E-mail 2: Nossa (agora ele escreve só primeiro nome dela), fiquei assustado com as primeiras linhas do seu e-mail, quase derrubo café em cima do micro, imagine só o prejuízo. Fiquei sem falas, quase gaguejando. Mas você é extremamente gentil (fazendo média, aposto!!!) e engraçada (novamente a chama pelo primeiro nome).

Mas na próxima quem sabe não sai um carro, você seria forte candidata a ficar com as chaves dele :-) Ah, adorei o :-),  vou usá-lo daqui por diante, se me permite.

Até falei com a mulher que serve café hoje, obrigado pela dica, senti melhoras significativas no café, antes muito doce (argh!) e claro que desejei o “lindo dia” como sendo meu, não seu. Um beijo e excelente dia!

(Ele assina com nome, sobrenome cargo e demais formalidades). 

Resposta: Permitir o uso dos símbolos gráficos que eu uso, eu até permito, mas só após o pagamento de módicas quantias =P (outro!!).

Não tem vergonha de usar idéias dos outros como sendo suas?

Muito doce? Cadê as soluções simples da vida, como café sem açúcar pra você escolher entre o açúcar e adoçante? (olha eu te dando outra idéia de graça!) Que horror!! Estão te submetendo a condições sub-humanas de trabalho.

Mas é o que eu sempre digo, a moça do cafezinho é quem comanda o verdadeiro andamento da empresa, que gerentes e supervisores o que viu (ops!!), mas duvido que você seja isso ou qualquer coisa similar. Só pode ser um estagiário me escrevendo, cadê a formalidade nesses e-mails? Esperava um Prezada Senhora, no mínimo.. M-I-N-I-M-O.

Beijos, bom dia!!! 

E-mail 3: Xiuuuuu (já começa a fazer abreviações com o nome dela), você quer que alguém saiba disso?

Não tenho vergonha nenhuma, quem pode manda, quem não pode tem boas idéias e repassam aos superiores hierárquicos, sabia?

E você há de convir comigo que alguém que usa esse e-mail (diz ele se referindo ao lindo endereço dela. Ela sempre esquece de usar o e-mail de adulta!!), e deixa uma assinatura com aquelas coisas cor-de-rosa (diz ele se referindo a parte gráfica da assinatura dela. Ela sempre esquece de desativar aquilo), não deve querer ser chamada de senhora, certo? E outra, tenho seu cadastro, lembra? Eu sei sua idade.

(Já assina com abreviações do próprio nome)

PS: Quer colocar a reclamação sobre o café na caixinha de sugestões? Essa eu deixo como idéia sua, e olha que também é uma boa idéia. 

Resposta: Ihh, já tá se colocando como meu superior hierárquico, é?? Tá doido, 3 e-mails enviados e já acha que manda em alguma coisa, MEGALOMANÍACO!!

Que feio!!! Como você fica xeretando minhas informações pessoais assim? Ai de você se usar alguma daquelas informações sigilosas, eu te processo, viu? VIU? VIUUUU? Eu sei dos meus direitos, eu tenho advogados!!! PS: Claro! Eu escrevo aqui a sugestão, você imprime e coloca na caixinha, pode ser? 

E-mail 4: Brava a garota =P (de novo apropriação indébita!). Duvido que tenha mais advogados do que meu departamento jurídico, tolinha.

PS: Já querendo gastar a tinta da minha impressora é abusada? 

Resposta: Abusado é você que xereta minha ficha de cadastro, e fica enchendo meu e-mail. Cadê o seu superior? Chama aí que eu quero reclamar de você!!! Aproveito e falo do café e a gente já resolve isso. 

Alguns e-mails mais, abreviações de nomes, avacalhações e implicâncias pessoais e pronto, viraram amigos. Duvido que ela possa ganhar um carro agora, vão dizer que ela tem contatos com o pessoal da empresa.

Droga!! Dá pra desfazer? hahahaha





Como quase enfartar sua mãe

17 05 2007

- Você soube o que aconteceu com o seu irmão?

- Pois é.. Ainda bem que não aconteceu nada mais sério.. quer dizer..só com o carro..

- Que carro?

- Como que carro? O palio oras..

- Do que você está falando?

- Do acidente…

- QUE ACIDENTE???

- Do que você estava falando?

- Do problema com o cartão ué

- Ops! Então, o que aconteceu com o cartão mesmo?

- Vocês estão todos me enganando.. ele está no hospital… eu sei que ele está! Ai Meu Deus!! Meu nenê, eu sabia.. eu sabia.. não falei com ele hoje. Que hospital ele está? O que aconteceu? Ele está muito mal, né?

- Nãooo! Ele está bem, não está em hospital nenhum. Só tem uns arranhões.. o olho roxo, nem quis ir no hospital.

- Ai! Como não? Ele pode se sentir bem, mas pode estar com uma hemorragia interna. Estou voltando pra casa AGORA. Será que tem ônibus essa hora? Meu Deus! Meu Deus! O meu nenê.

- Me ouça!!! Ele está bem, ele não tem uma hemorragia interna, NÃO ACONTECEU NADA DEMAIS, só um problema com o carro.

- Que problema?

- Perda total, capotaram…

- Me chama seu irmão agora.

- Ah! Ele não está.

- Sabia! Está internado, está na UTI, você está me enganando. Vocês vivem me escondendo as coisas. Ia me dizer quando? No velório (lágrimas, lágrimas).

Então.. você agradece por terem inventando o celular:

- Ei, onde você está?

- Na rua com os amigos, porque?

- Ligue para sua mãe e diga que não está internado, que não tem uma hemorragia interna e que você está muito bem. Se tiver em mãos seu RG e CPF, passe pra ela, pra ela acreditar mesmo que é você e não alguém contratado por mim pra dizer que você está vivo, se preciso utilize fatos da infância para convencê-la que você é você.

- hahahahahahahahaha. Já ligo.

- Não esqueça da parte “eu estou vivo mãe”, é de suma importância.





A vida independente

15 05 2007

Uma das piores coisas de se morar sozinha é ter que encarar problemas gravíssimos, praticamente sem solução, como por exemplo, chuveiros queimados… é o tipo de assunto sério que você só dá valor quando realmente passa por isso. Uma menina mimada, com um pai e dois irmãos, que via chuveiros queimados funcionando magicamente no outro dia, lâmpadas que aparentemente nunca precisavam ser trocadas, torneiras que nunca precisavam ser arrumadas, de repente se depara com isso: o chuveiro queimou e não voltou a funcionar. Então, como qualquer mulher independente, você faz o que qualquer outra faria no seu lugar, liga para um homem:

- O que eu preciso pra trocar um chuveiro?

- Ai, ai, ai (seguido de risos e tom de descrença) o que você vai aprontar menina?

- Arrumar o chuveiro, oras!

- Você mesmo arrumar?

- Claro!

- Vixiii, não faça isso… Espere eu sair do trabalho que eu vejo.

- Relaxa, eu sei o que to fazendo (respondo independente, superior, auto-suficiente e cool) . Só resta saber uma coisa.

- O que?

- O que eu preciso pra arrumar um chuveiro?

- Fora um adulto pra te supervisionar… Veda rosca e um chuveiro novo, aliás.. tem que ver se o problema é a resistência.. aí você só troca ela.

- Engraçadinho! Resistência? Aquela coisa dentro do chuveiro, né?

- Pode chamar assim se quiser (risos do tipo “só você mesmo viu”).

- Não, eu compro um outro mesmo, não complica.. Mas é só isso mesmo que precisa?

- Só ué, hum… uma chave de fenda também.. mas isso você já tem, né?

- Claro que não.. pra que eu teria uma chave de fenda?

- Ai, ai, ai (mais risos).

Depois de olhar a caixinha de energia (não me perguntem por que fui olhar), cheguei a conclusão de que precisava trocar mais uma coisa, então veio a parte dois… descobrir o nome daquilo que eu queria trocar, e novamente, como qualquer mulher moderna:

- Ei.. Como chama aquele trequinho que fica na caixa de luz?

- O fusível?

- Não, não.. esse eu sei qual é.. aquele outro negócio, que liga os fiozinhos.. aquele que você desliga, manja? Tem a chavinha do ligado e desligado (sempre muito precisa nas descrições).

- hahahahaha, o disjuntor?

- Issooo! Obrigada, beijo, tchau.

- Espera! O que você vai fazer?

- Nada, nada.. só queria saber….

Era isso, o disjuntor, eu acreditava que precisava de outro. Era de 40 Amperes, onde já se viu.. 40A… precisava de um mais “potente”.Cheguei naquele ambiente estranho, conhecido como lojas que vendem coisas que eu não uso.

- Boa tarde moço.

- Boa tarde, posso te ajudar?

- Sim, eu preciso de veda rosca, chave de fenda, chuveiro e um disjuntor.

- Certo, disjuntor de quantos Amperes?

- Não sei, de quanto você tem aí?

O moço olha assustado.

Bem, tem de 30, 40, 50..

- Issoooooo! 50… é de 50A que eu quero.

Com todo o equipamento, muito fácil.. só trocar aquilo. Que segredo teria, não? Mas ainda não sabia o que fazer com a tal veda rosca.. problemas a vista. Mas tudo bem, pra tudo se dá um jeito.. Na área de serviço, quando analisava como se substituía o disjuntor (acreditava ser esse o primeiro passo), chega um representante do sexo masculino:

- Que diabos você tá aprontando?

- Vou trocar o disjuntor e o chuveiro – respondo senhora de mim.

- Porque vai trocar o disjuntor?

- Sei lá.. vi que o da caixa de luz lá de baixo é de 50A, aqui no apê tava um de 40A, isso não deve estar certo.

- Meu Deus!!! M-E-OOO D-E-US! Sua doida!!! Tá certo!! É pra cair a energia quando tem sobrecarga, você tá querendo causar um curto? Blá blá blá (sermão, sermão, sermão) blá blá blá… Quem te disse que precisava trocar isso?

- Ninguém ué… mas é que eu não gostei de ter um de 40A, pareceu pouco.

- Doida (risos de descrença). E você já trocou um chuveiro na vida?

- Eh, bem.. então.. não.. estava justamente me perguntando pra que a veda rosca, só me informei até a parte do que eu precisava pra trocar um chuveiro.

- Deixa que eu arrumo isso pra você e esquece essas suas idéias com o disjuntor.

- Você sempre podando minhas idéias, deixa que eu arrumo o chuveiro.

- Idéias não, maluquices… e eu vou trocar esse chuveiro, NÃO DISCUTA.

Chegando no banheiro:

- Nossa! Pra que esse monte de fita isolante aqui? (apontando para a torneira de abrir o chuveiro).

- Porque dá choque.

- E você coloca fita isolante?

- Claro! Uma das poucas coisas que eu sei são as utilidades da fita isolante.

- Você já pensou que se dá choque é por um motivo?

- Sim, implicância pessoal.. ele me odeia!

- Eh, ou os fios do chuveiro estão ligados de forma errada. 

- Hummm… tem um lugar certo pros fios?

- Mas claro! Não está vendo que cada um tem uma cor?

- Pois é, achei tão bonitinho… eu simplesmente adorei esse tom de verde.

- Ai!

Agora sei o porquê dos fios coloridos, pra que a fita veda rosca e o que é um disjuntor, mas continuo sendo a mesma menina mimada que não arruma o próprio chuveiro…





Sete minutos

12 05 2007

- Alô.

- Oi minha Vida!

- Oi.. Nossa! O que aconteceu pra estar me ligando todo amoroso assim há essas horas? Está precisando do que? Sangue? Um rim?

- Boba! Liguei pra dar um oi mesmo.

- Ai, estava saindo, mas em consideração a você vou esperar um pouquinho. Você tem sete minutos. Viu só a consideração? Viu só? VIU SÓ? Sete minutos.. inteiros.. só pra você. Sete minutos do meu tempo, sabe o que significa?

- Uau! Que honra.. Sete míseros minutos.

- Ué, pra quem não tem merecido nem um minuto do meu tempo.. sete está de bom tamanho.

- Que isso! Na verdade você que está se aproveitando… imagina.. ganhará sete minutos do meu tempo.

- Não, não. Porque se você está me ligado essa hora é porque está com tempo ocioso, não está fazendo nada mesmo.. e quer qualquer coisa que te distraia.. qualquer coisa que te impeça de trabalhar, então EU estou te fazendo um favor. De nada, ta?

- Música.

- O que? Quer que eu cante nesses minutos restantes que tenho com você?

- Não.. disse que música me distrai…e se quisesse ouvir música não pediria pra você né..

- Tem certeza? Eu poderia cantar…

- Não, vai que você começa a cantar My Chemical Romance… ou coisa assim…

- Hum.. não gosto disso… lembra que não sou EMO? Eu já te disse isso em torno de umas 4095483664904 vezes…

- Desculpe, é que não dá pra acreditar.. tem o lápis.. o cabelo preto.

- Ehh.. mas não tenho franjinha..

- Você poderia deixar franjinha, né? Ia ficar legal.

- Claroo! Cabelo cacheado e de franjinha. Imagina aqueles cachinhos na minha testa, dias chuvosos… ele todo ouriçado e ainda mais encolhido por causa da umidade.

- Ah! Ia ficar igual ao cabelo daquele cara do Slash. Sou fã do cara.

- Suponhamos que por acaso.. bem hipoteticamente mesmo..eu  resolvesse ter uma franjinha.. ainda assim não seria EMO.. eu escuto Beach Boys.. EMO escuta Beach Boys?

- O que?

- Beach Boys, sabe? “Wouldn’t it be nice if we were older.. Then we wouldn’t have to wait so long …And wouldn’t it be nice to live together.. In the kind of world where we belong.. lalalalala”

- Nossa! (em tom de decepção).

- Desculpe, desculpe.. Se eu te disser que gosto de Ozzy você se sentirá melhor?

- Estava a pouco ouvindo uma dádiva do deus do metal e agora você me vem com isso?

- O que você espera de mim? Alguma vez te enganei?

- Não sei né.. enganou?

- Alguma vez te disse que eu sou igual a você? Eu te falei claramente do meu gosto musical duvidoso.

- Vai dar showzinho já? Vai, vai?

- Eu já assumi publicamente que escuto The Calling.. THE CALLING… E vou dar showzinho sim, tenho três minutos ainda… tenho que fazer alguma coisa…

- Sobe na mesa então…

- Certo, subo na mesa e canto Wouldn’t it be nice?

- Nãooo! Por favor.. não… (em tom de desespero)

- “Happy times together we’ve been spending.. I wish that every kiss was never ending.. Wouldn’t it be niceeeeeeeee..”

- Os sete minutos não acabaram ainda não?

- “Baby then there wouldn’t be a single thing we couldn’t do.. We could be married.. And then we’d be happy.. Wouldn’t it be nice”… Tempo estourado… quer dizer algo em especial?

- Sim, pare de cantar..

- Está insinuando que eu canto mal? Está querendo dizer que não está gostando?

- Não, não.. eu realmente DISSE, foi a mensagem que quis passar ao dizer “pare de cantar”. Preciso ser mais claro?

- Não, não precisa.. seu tempo acabou..

- Não, espere… mais uns minutinhos.

- Sinto muito.. eu disse sete minutos, e já passamos disso.

- Nãooo! Espera vamos cantar.. como é?.. “ Baby… Wouldn’t it be niceeee.. lalala we belong…”.. Alô.. Alô??





Descobrindo uma nova profissão

9 05 2007

Vou sempre a um mercado que é perto de casa, mais do que ser perto, ele é caminho de idas e vindas. Há cerca de dois anos, vez ou outra encontro uma mesma senhora quando estou fazendo compras, desde a primeira vez que nos cruzamos no mercado, ela acredita que eu trabalho lá. Da primeira vez até entendi.. depois de ter passado muitos produtos pra ela no leitor de códigos de barra que notei que tinha esquecido de tirar meu crachá, não era do mercado, mas era um crachá, e que tipo de pessoa anda por aí com um crachá, certo?

Nos nossos outros encontros já não estava mais de crachá, mas já era tarde, já era considerada “a funcionária do mercado”, e por mais que eu tentasse explicar que não trabalhava lá, não havia jeito. Então resolvi aceitar a situação e era assim:

- Nossa, os tomates estão horríveis hoje.

E eu emendava:

- Pois é senhora. O tempo, o tempo está prejudicando as colheitas.

Ou um:

- Mas hoje não é dia de feira no mercado, as terças-feiras são muito melhores para a compra de verduras e legumes.

- Meu marido só usa o creme de barbear Y e não o encontro mais na sua prateleira.

Prontamente, já a encaminhava até o Douglas, o único funcionário do mercado de quem sei o nome, afinal, depois de um tempo se perguntando “onde diabos está aquele creme de cabelo, daquela marca?” a gente aprende pra quem reclamar e já o chama pelo nome.

E foi assim. Reclamações de preços mais baratos em mercados concorrentes, informação de que o mercado cobria ofertas anunciadas. Informações sobre preço. Informações sobre a quantidade de empadinhas em caixinhas de congelados e até cestinhas de compras passaram a ser entregues a mim.

Então ontem, saindo do mercado já, com pressa, só tendo passado pra comprar coisas estritamente necessárias: chocolate, smirnoff e detergente, encontro a senhora, que estava terminando de passar suas compras pelo caixa:

- Mocinha, mocinha! Espere! Preciso que você me ajude a colocar as compras no carrinho e me acompanhe até um táxi.

Estava apressada, disse para ela que a moça do caixa providenciaria alguém pra acompanhá-la até o táxi, mas não teve jeito:

- Não, não, eu prefiro você, será que poderia me ajudar? Eu sei que seu turno já deve ter acabado (eu estava com sacolas e saindo), mas gostaia muito que me ajudasse. 

E sob os risos de incredulidade da mocinha do caixa que a atendia, lá fui eu levar a senhora até o táxi.

Depois de deixá-la no táxi, enquanto o taxista colocava as sacolas no porta-malas, ela apertou minhas bochechas e disse:

- Você é uma gracinha de menina. Tome, para você tomar um refrigerante. – Disse colocando dinheiro no meu bolso.

- Não senhora, não precisa, não estou fazendo mais do que minha obrigação – Disse meio sem jeito.

- Não discuta, pegue esse dinheirinho e vá pra casa se agasalhar, que está frio.

E foi assim que eu ganhei R$15,00 de gorjeta. Um amigo, que me esperava no estacionamento, e acompanhou uma parte da cena, disse quando entrei no carro:

- O que foi isso? Está fazendo uns bicos de empacotadora do mercado pra complementar a renda?

- Eh, e pasme, aparentemente faço muito bem minhas funções, ou é praxe gorjetas altas (mostrando o dinheiro) assim no mercado? Se for, talvez devesse rever minhas escolhas profissionais.

Indicações: Sempre recomendo os interessantes textos do Doda, mas hoje em especial indico seu último post, referente à visita do Papa.





As paranóias do mundo moderno

7 05 2007

X. Acabou de entrar

Alguns minutos depois:

- Porque você está assim comigo? O que eu fiz?

- Assim como? Você não fez nada…

 - Então porque não gosta mais de mim?

- Mas eu gosto de você..

- Não, não gosta.. nem quer falar comigo.

- Mas eu quero falar com você.

- Não quer não, se quisesse tinha me dado oi quando eu entrei.

- Oiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! – Tá bom assim?

- Não, você não quis me dar oi, só o fez agora porque eu pedi, mas não quer falar comigo.

- Me corrija se eu estiver errada, mas se eu não quisesse falar com você.. nesse momento você não estaria recebendo essa mensagem.

- Bem, mas agora não adianta porque eu estou saindo.

- Tudo bem, beijos então :-)

- Você não liga a mínima mesmo..

- Ai..ai.. aiii.. tá bom.. Poxa! Não vai não..

- Falsa ainda por cima.

- Ei, falsa o caramba, vê lá como fala comigo…

- Tava demorando pra começar com o ataque de mulherisse.. Se vai dar showzinho.. sobe em cima da mesa.

 - Eu que tô dando show?

- É você mesmo e além de tudo mente, porque eu sei que você não quer falar comigo de verdade.

- De verdade mesmo.. Fique, por favor..

- Quer mesmo que eu fique?

- Quero sim… Fale comigo!

- Larga de ser mimada, que coisa! Tenho que trabalhar, acha que o mundo gira em torno de você?

X. pode não responder por que parece estar offline.





Ninguém se preocupa!

2 05 2007

Todos os toques possíveis depois:

- Alô.

- Demorou hein..

- Que horas são?

- Umas 3 horas da manhã.

- Aconteceu alguma coisa?

- Sim, estou preocupado..

- Preocupado? Com o que?

- Com você, claro.

- Comigo? O que aconteceu comigo?

- Ainda nada, AINDA, mas do jeito que o mundo está…

- O mundo?

- Sim, ninguém se preocupa…

- Como?

- Ninguém respeita a natureza!

- Oi?

- O caos no clima.. Aquecimento global.. A destruição da camada de ozônio. Imagina só!! Sem filtros para raios UVA e UVB, o que será de você, esse ser tão branquinho, nesse mundo? Fico preocupado.

- Você me ligou pra falar isso?

- Claro! Fico indignado com essas coisas! Ninguém faz nada, ninguém se preocupa, sabe.. O que será de você Meu Deus?

- Não sei o que andou bebendo, mas vá dormir.

- São as pequenas coisas, os pequenos gestos, cadê os sabiás?

- Ok, Ok, Ouu queiii! Que sabiás?

- Como assim que sabiás? Não conhece aquela fábula do sabiá que ia jogando pouquinhos de água em um grande incêndio, não resolvendo o problema, mas fazendo sua parte?

- Não era um beija-flor?

- Não importa o pássaro, mas sim a ação..

- Certo, amanhã conversamos e você me fala de todos os pássaros existentes na fauna brasileira. Boa noite.

- Viu? Nem você se importa..

- Tá, me denuncie para o Greenpeace. Agora, VÁ DORMIR. BOA NOITE.

- Não! Espere…

Tum, tum, tum..

- Alô? Alô? (tum, tum, tum). Ehhh.. Eu digo, ninguém se preocupa, ninguém se preocupa…

Cinco minutos depois chega o sms:

 “Se cada um fosse um sabiá, um beija-flor que seja… sua parte manja? São as pequenas coisas”.

- Aiiiiii!