Parte I: O telefonema
Terça-feira, bemmmm (enfatizando) de manhã, acordo assustada.. telefone tocando. Tem uma extensão no meu quarto, mas ela estava na mesa do computador. Levanto enrolada no edredom, saio derrubando cadeiras que estavam na minha frente, e pisando nos livros que acabei deixando no chão. Depois de superar todos os obstáculos chego até o aparato telefônico e solto um insosso:
- Oi (raramente atendo com o famoso Alô)
- Bommmmm diaaaaaaaaa! (quase ensurdecedor, escuto do outro lado da linha).
Balanço a cabeça, meio dormindo, meio acordada e respondo o tal bom dia, de forma menos animada.
- Você sabia que Beto Richa (prefeito de Curitiba) trouxe de volta a semana do leite? Sim, sim, no Mercado Municipal agora você pode acompanhar todo o processo de ordenha… blá blá blá.. manteiga blá blá blá.
Fiquei atordoada com tanta informação… tentei interromper o telefonema no meio pra soltar um belo:
- Hein? Leite? Mercado?
E então.. tchan – tchan – tchan (onomatopéia) me dou conta que é uma gravação. Linda forma de se começar o dia, não?
Parte II: E o final de semana?
- Má, já programou o final de semana?
- Não né, terça ainda…
- Boliche?
- Oi?
- Vamos no boliche (autoritário, como sempre, não pergunta se eu vou, afirma). Sexta ou sábado? (mas me dá a chance de decidir o dia)
- Sexta tem o show do Ira!
- E você vai? Onde vai ser? Quanto é?
- Não sei, não sei.. e a última pergunta.. Ah, eh, então.. não sei.. só sei que vai ter.. e que é sexta.. e que não é no Master Hall.
- Ah, mas se informa né, você já foi mais eficiente.. tá doido..
- Você deveria se informar e me informar. Hierarquia, sabe?
- Putz! Custa você ver isso pra gente, custa? Vou ter que parar de jogar paciência pra ir atrás disso? Ta doidooo! Você não pode parar o que está fazendo por alguns minutos?
Olho com cara de descrença e desprezo, mas dominada pelo espírito de Dalai Lama, com a paciência emanando de mim, vou me informar sobre o show. Cinco minutos depois:
- Dia 1, sexta, na Hellooch, R$ 60,00; R$ 30,00 para estudantes ou pra quem doar um quilo de alimento não-perecível, exceto sal e açúcar (respondo eficiente).
- Mas….
Me antecipo e interrompo dizendo:
- A Hellooch fica na Rua Des. Westphalen, 4000
- Exatamente isso que ia perguntar hahahaha. Então Má, vou me informar aqui e já te passo as informações.
“Hein?” Pois é, também me pergutei isso.
- Mas que informações??? Mas é um pateta!! Acabo de te dar a ficha completa e você vem me dizer que vai se informar a respeito? A respeito do que sem noção??
- Localização Má, localização.. te conheço né.. você não deve saber qual altura da Westphalen, você é uma perdida.. Vou ver onde exatamente fica a Hellooch, mapas, sabe?
Ele abre sites de mapa, olha, olha, dá diversos “zoom”, solta alguns “maldição”, e me pede pra ficar calma, que está tudo sob controle. Eu afirmo que estou calma.. ele que não parece muito calmo. Reclama, reclama, reclama.. critica o zoom novamente, fala “maldição” e termina com um:
- Pronto.. já cheguei a uma conclusão
- Qual?
- A Hellooch, de fato.. fica em Curitiba.. pude perceber pelos mapas…
E ele desiste.. é na Westphalen, é o suficiente saber isso.
Parte III: Sonhos malucos, orkut e indianos
Estava conversando com uma amiga, contando pra ela o incrível sonho desesperador que tive, onde queriam me forçar ir para a Índia e eu tinha surtos dizendo que não ia, nesse mesmo momento abro o Orkut e o que vejo lá? Dois indianos, com jeito de indianos, com cara de indianos, deixando recadinho e pedindo pra ser adicionado. Medo, muito Medo!!! Minha amiga defensora de frases feitas, do tipo “é um sinal”, “nada na vida acontece por acaso”, me manda ignorar os caras pra sempre e nunca, nunca, NUNCA escrever nada a eles.
Outro amigo, guru, chato, reclamão e um tanto autista (hahahahaha) que acompanhava a história do sonho e dos indianos no orkut diz:
- E se seu sonho foi premonitório? E se foi um aviso pra você ficar bem longe desses indianos? Pense, seu sonho pode significar um seqüestro forçado (Hein? Todo seqüestro não é forçado?) ou que você vai se apaixonar por um indiano, casar com ele e ser forçada a ir pra Índia.
Outro amigo (menos chato, menos reclamão e nada autista) que também acompanha toda a história, diz:
- Sim, e se sua vida cair em desgraça? Tudo porque você foi gentil.. tudo porque ignorou os sinais.. tudo porque respondeu um maldito scrap. Vale a pena Má? Me diz… não, não.. ME DIZ MÁ, VALE A PENA PARECER SIMPÁTICA POR ESSAS CONSEQUÊNCIAS?
- Tudo bem, tudo bem.. sou uma sociopata mesmo.. mas vou ignorar eles e dizer que vocês mandaram.
Eles concordam.
- Qualquer coisa, se eles insistirem… manda falar comigo. Digo que sorte deles que você os evitou.. e eu que não tive essa sort.. digo.. azar.. e tô aqui.. com você.. até hoje… hahahahaha (completa um dos “amigos”)
Ah! A amizade!!!
Parte IV – A semana do leite e os amigos das megalópoles
Uma das minhas grandes amigas é bem do tipo urbana, mas urbana mesmo, não que ela seja contra a natureza, ela adora a natureza! É urbana pelo fato de poder pedir comida tailandesa às 3 horas da manhã, por sempre ter morado em grandes cidades, respirado poluição e todas essas coisas. Mas, apesar disso, ela adora o contato com a vida no campo. Lembro que fomos a algumas das tais feiras agropecuárias nessa nossa vida.. e ela simplesmente repetia “uau, cavalos!!!”, “uauuu vacas” e olhava tudo maravilhada, dizendo que só tinha visto essas coisas pela tevê.
E no dia que fomos para uma fazenda? Ah! Ela dava gritos de emoção ao ver vacas no pasto, até achou bárbaro ter sido perseguida por uma.. E quando viu uma galinha então? Ela duvidada da existência de galinhas, acreditava que eram formas de vida criadas em laboratórios e que só podiam ser encontradas na seção de congelados dos mercados.
Já um outro grande amigo, que também estava na fazenda, e também achou bárbaro ver galinhas, não era tão cético, mas acreditava que galinhas eram animais selvagens, e que só podiam ser encontrados na floresta amazônica.
Pois bem, contava a esses dois amigos empolgados com o contato com a natureza, sobre o tal telefonema de manhã, com a gravação falando da semana do leite.. da ordenha de vacas.. contando como fiquei revoltada por ser acordada com isso e ao invés de apoio o que recebo?
- Mas Má, onde é isso? Como é que é? tem vacas ao vivo?
- De que horas até que horas? A semana inclui final de semana, né? Será que dá pra gente ir?
- Poxa!! Ordenha de vaca, nunca vi uma ordenha de vaca.
- O leite não vem em caixinhaaa???
- Nossa Má! Estávamos mesmo querendo ir pra Curitiba, vamos ver a semana do leite?
Você.. essa pessoa que cresceu numa casa que seu pai transformou em uma semi-chácara, você que já ganhou patos e coelhos de presente. Você, neta de um fazendeiro, que cresceu sabendo o que são vacas, inclusive freqüentou leilões de gado com seu avô, presenciou vacinação contra a febre aftosa e cansou de ver ordenhas de vaca, responde aos amigos:
- Claro!! Mal posso esperar pra ver de onde vem o leite.. E aí, quando vocês chegam?