Aqueles dois

23 07 2008

Ele estava andando pelo shopping quando se deparou com uma criatura muito cheia de trejeitos felizes. Ela vinha saltitando, balançando a cabeça de um lado para o outro, meio que dançando também, e sorria… Ela nem prestou atenção nele e nem percebeu que desde a entrada do shopping, ele a seguia com os olhos.

Ele quase morreu de pavor quando viu que ela tinha um mp3 player e estava lá..  com seus fones de ouvido, cabelos esvoaçantes e boca exageradamente em movimento, cantando com o “mute” acionado, enquanto caminhava em sua direção.

Ele entrou em pânico, estava prestes a se armar em posição de luta, se não fosse o pavor e a sua involuntária rendição aquela cena de comercial de margarina.

Ela de cinco queijos. Ele de calabresa com muita cebola. Os dois de pizza fria com café.

Ela de Woody Allen. Ele de David Lynch. Os dois exatamente de William Wallace gritando FREEEEDOOOOOWWWWW.

Ela de Amelie Poulain. Ele de Star Wars. Os dois de “any of you fuckin pricks move, I’ll execute every motherfuckin last one of .. ya!” em Pulp Fiction.

Ela de cinema. Ele de tevê a cabo. Os dois de finais de semana na maratona cartoon.

Ela de Gabriel García Márquez. Ele de Dostoievski. Os dois com aversão a Paulo Coelho.

Ela de Álvaro de Campos. Ele de Alberto Caeiro. Os dois apaixonados por Fernando Pessoa.

Ela de qualquer coisa com legendas e mais de um capítulo. Ele de Seinfeld. Os dois rindo, segurando uma colher e imitando o Joey falando greeeaa-aaaaat

Ela de Chico. Ele de Led, os dois de Ferris Buller, cantando Twist and shout, enquanto imitam a mesma dancinha.

Ela Clocks, enquanto faz a escova de cabelo de microfone. Ele com cara de mal humorado, enfatizando que detesta Coldplay.  Os dois no carro, desafinados, volume ensurdecedor, fazendo dueto em You give me fever, feeeeverrr“, enquanto ela estala os dedos e ele batuca o volante.

Ela de Regina Spektor. Ele de Hã?? Regina o que???

Ela rindo. Ele tentando convencê-la que aquele é o olhar de furioso dele, não o de poodle sem dono.

Ela bêbada, com um copo de gelo nas mãos, já meio rouca e cantando “1, 2, 3 indiozinhos.. 4, 5, 6 indiozinhos 7, 8, 9, 10 indiozinhos iam navegando pelo rioooo-oooo”. Ele gargalhando, pedindo mais uma caipirinha e dizendo que vai denunciá-la para a FUNAI por maus tratos aos índios e para o MEC pelo péssimo emprego da música em questão.

Ela 20 e poucos anos de orgulho e inconveniência. Ele desde 1979 magoando pessoas com palavras ásperas e mal medidas. Os dois desde vidas passadas, só pode!

Dia desses, ele no hospital, ela também, motivações diferentes, mas os dois estavam lá por uma causa em comum: ele. 

- Estou acordado já faz uns 10 minutos, ouvindo você chorar compulsivamente. Ou eu estou morrendo ou você já descobriu que não vende cerveja na cantina do hospital. Pelo jeito sincero que está chorando acho que a última opção é a mais provável, por mais que eu esteja morrendo.

Ela ri, enxugando as lágrimas:

- Pelo visto você já está fora de perigo.

- Pelo visto você me ama.

- Err.. Na verdade não amo.. Estava chorando porque constatei que vou ter que passar o dia aqui com você e meu… não tem tevê a cabo.  Estou pensando se vale a pena. Deve estar passando os irmãos Winchester essa hora.

- Eu quase ter morrido me livra da bronca por ter deixado você esperando?

- De jeito nenhum! Perdoaria se fizesse igual todo mundo.. se tivesse se atrasado por estar com umas vadias, por estar jogando sinuca ou pela cerveja com o pessoal do trabalho. Essa de apelar para o “eu estava inconsciente” para se livrar de uns esporros, não vai funcionar.





Entre pipoca e lágrimas

15 07 2008

 

Moletom, sofá e Dr. House, ela jurava que nada a faria abandonar os travesseiros e o edredom naquele dia, quer dizer, abriria uma exceção: João, definitivamente, pelo João ela abriria uma exceção, não tiraria as pantufas para correr de encontro a ele.. Ah! Mas pelo João, somente pelo João, seria capaz de apertar o pause do controle remoto. Era isso: dvd´s, moletom, edredom, sofá e o João, entregador de pizza amigo, trazendo o mesmo pedido de sempre: tomate seco com rúcula. Mas..

 

- Alô..

- Vamos sair?

- Não.

- Vamos sair?

- Não.

- VAMOS SAIR?

- Err.. hum.. não!

- Você fez um juramento lembra?

- Amar, respeitar e ser fiel até que a morte nos separe? Hum, não, não.. não era isso. Era? Xiiii… Senhor, perdoai.. eu pequei!

- “Com esse pedaço de carpê nas mãos, tendo Deus como testemunha, eu juro que nunca mais deixarei ninguém do meu círculo de amizade ir ao cinema sozinho”. Lembra-se?

 

Merda! Eu adoro cinema, cadeiras nas últimas fileiras, tela grande, saquinhos de M&M, mas a verdade é que o cinema, pra mim, é uma prova de que seres humanos são feitos para viver em sociedade. Em um dos meus piores pesadelos, estou em um cinema vazio, com um pote de jujubas, assistindo repetidamente Casablanca e chorando ao som de “as time goes by”.

 

Toda imagem de independência, toda a ilusão de auto-suficiência, toda arrogância de “não preciso de você pra nada”, se esfacela diante da bilheteria de um cinema.  Com quem vou rir nos trailers? Quem vai repetir comigo “há-há-há eu não tinha pensado nisso”, naquela mesma propaganda de Seguros do Unibanco? Com quem vou fazer observações (im)pertinentes? Definitivamente, o ser humano não nasceu pra ser só e por mais que os curitibanos (variante da espécie homo sapiens, mas com inúmeras peculiaridades) afirmarem que vão ao cinema sozinho por gosto pessoal, eu acredito que nenhum ser humano pode, REALMENTE, achar DIVERTIDO ir ao cinema sozinho, mas.. sei lá.. talvez a estranha seja eu, afinal, sou excêntrica.. faço solos de air guitar ouvindo Doors. Mas, enfim, convite para cinema é covardia. Como recusar? É uma alma em desespero, clamando por ajuda:

 

- Hum.. e qual é a boa de hoje? Documentário cambojano? As mazelas da Somália? Ou outro incrível filme iraniano sobre tratadores de avestruz? (ele é sempre responsável pelos mais “incríveis” convites, sempre acho que está testando o quanto eu posso suportar).

- A nova animação da Pixar.

 

(Pausa para a confissão pública: eu A-D-O-R-O desenhos).

 

- Está sendo cínico? Está dizendo isso para me fazer ficar feliz, dizer umas interjeições que expressam felicidade e depois acabar com todas minhas ilusões, num ato de puro sadismo?

- Não, estou realmente te chamando para assistir o novo desenho da Pixar.

- Por quê?

- Porque sei que você adora desenhos, oras!

- Hum… Você fez alguma coisa que faria eu te odiar pra sempre e está tentando ser legal para me impedir de te odiar pra sempre?

- Eu sempre faço coisas que fariam você me odiar, mas sabe Deus porque, nunca funciona.

- Eu estou doente, né? Eu estou com os dias contados e você, na sua infinita bondade, está tentando me deixar feliz antes da passagem, confesse!

- Pobre criança inocente! Você sabe que eu nunca faria isso.. minha bondade é extremamente finita, isso seria uma atitude cristã demais pra mim.

- Está precisando de um rim?

- Não, só de companhia para o cinema… e talvez de um fígado, mas creio que você não seja a escolha mais acertada para essa necessidade. Então, 15 minutos?

- Claro! Aí você me espera por mais 1 hora e vamos.

 

E lá estávamos nós e milhares de criança, em uma sala de cinema, comendo pipoca e assistindo Wall-E, quando:

 

- Má, você está chorando?

- Chorando?? Eu?? Eu não tô chorando.

- Então vamos sair daqui correndo para o hospital, deve ter algo estranho, estão saindo lágrimas dos seus olhos, LÁGRIMAS!! Sem você chorarrr.. Um médico, UM MÉDICO. Sococorro! Glândula lacrimal fora de controle!

 

E, em um ataque de fúria, o belisquei.. ferozmente!

E Wall-E fez o que nem a morte do pai do Simba em “Rei Leão” fez.. Patéticas cenas de uma pessoa adulta, chorando assistindo um desenho. Constrangedor! Na próxima vamos ver algo meio “Piaf”, “menos” triste.





Devaneios de domingo

13 07 2008

 

                                 

 

 

 Domingo de meias, nem tristeza, nem felicidade.. nuances de cinza. Traços vermelhos e sonhos em cores em um filme preto e branco. Melancolia? Culpa das trágicas histórias dos filmes anos 50, que pessoas não deveriam, em hipótese alguma, assistir sozinhas em um domingo ou, pelo menos, não sem a companhia de um pote de sorvete de chocolate que fosse.

 

Havia um estranho incomodo no ar. Uma sensação real, rodeada de situações confusas, estrelada por imagens inacreditáveis que nos esmagam com uma força brutal, enfraquecem, desnorteiam, jogam nosso corpo de uma realidade para outra, de um estado para outro, deixam impotente, inerte, irreconhecível. Absurdo? Em um instante paz, calmaria, encantamento… No instante seguinte, chuva, vento, angústia… sentindo em cada pequeno movimento uma pressão enorme que poderia sufocar lentamente.

 

Cada verdade é apenas uma parte de um todo ambivalente, complexo, confuso e contraditório, afinal, cada alma tem um mundo.

 

Não sabia ao certo, mas aquilo dominava seus pensamentos, percorria suas artérias e ocupava todos os átrios e ventrículos do seu coração. Confusão? Todos os sentimentos se misturavam à condição da sua existência e retornavam em outra composição para a atmosfera: suspiros.

 

Era, desde o princípio, previsívelEra o senhor do seu rir e pesar. 

 

A direção constantemente abandonada do nosso destino,

A nossa incerteza pagã sem alegria,

A nossa fraqueza cristã sem fé,

O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,

A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,

A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida…

 

[Passagem das horas - Álvaro de Campos]





Vida independente - Como matar animais ferozes

9 07 2008

 

No auge dos meus dezessete, dezoitos anos.. consegui a minha independência, ainda comprava danoninho e jujuba, ainda vivia do dinheiro dos meus pais, mas tinha me tornado uma adulta que fazia suas próprias compras no mercado e podia almoçar bolacha (não biscoito, que fique claro!) negresco, se eu quisesse.

Morava sozinha e apesar de sofrer com uma forte crise de abstinência provocada pela falta de tevê a cabo, eu superava a infelicidade disto com as festas open bar da USP.

E nessa vida independente e solitária, em um dia de calor senegalês, em um dia de ar condicionado quebrado, em um dia em que me sentia mais ou menos como o vilão de Exterminador do Futuro II, dissolvendo, me partindo em milhares de partículas e me transformando em uma poçinha, eis que tomo a sábia decisão: 

- Vou dormir de janela aberta, não era isso que os antigos faziam em tempos longínquos, em uma vida de privações.. uma existência sem os prazeres do ar condicionado? Isso! Janela aberta, afinal, eu moro no quinto andar, que perigo uma janela aberta teria?

Então, lá estava eu, reclamando insistentemente do calor absurdo, lembrando como minha criação me estragou e eu me tornei uma pessoa que necessita de um ar condicionado no nevar para ter uma boa noite de sono, mas.. em um determinado momento, fui vencida pelo cansaço.. e em meio aos lençóis de algodão e a falta de vento entrando pela janela.. adormeci.

E lá, nos meus devaneios, lá dormindo e sonhando com camelos e o deserto do Saara, eis que de repente sinto algo em minha perna, instintivamente peguei o travesseiro e bati na perna, jogando o que quer que fosse para longe. Cambaleando, levantei e acendi a luz, então me deparo com aquilo: algo preto, rastejando sobre o piso. Dormindo, sonhando, delirando, pensei comigo:

- O que seria isso? Uma borboleta mutante e feia, feia, feia?

Então, saindo do meu estado de transe, deixando para a trás a demência do sono, eis que:

- Aiiiiii.. um morcegooo! Um morcegooo.. UM M-O-R-C-E-G-O (grito, enquanto faço o que qualquer outra mulher destemida faria: subo na cama).

Respiro fundo, tento superar o ataque de pânico e começo a pensar em soluções:

- Posso pular da cama, sair correndo.. trancar o morcego no quarto e dormir na sala. Amanhã eu cuido do morcego (eu = cara de sofredora, voz mansa implorando para um homem tirar aquele bicho asqueroso do meu quarto).

Me pareceu coerente. Então, destemida sai correndo do quarto, enquanto soltava algumas interjeições de pânico. Deitei na sala:

- Merda! Não vou conseguir dormir aqui, sofá desconfortável… Que absurdo! Eu com pânico de um morceguinho?  Que mulherzinha! Claro que eu consigo me livrar de um morcego.

Então, bravamente, armada com uma vassoura, entro no quarto decidida:

- Alguém aqui vai morrer e não serei eu, está me ouvindo Batman?

E lá, senhora de mim, tentava matar, com a vassoura, o morcego que se arrastava pelo chão. Mas no meu planejamento ele morria, não grudava na vassoura:

- Merda! 

E então, provando sua superioridade, provando ser conhecedor de diversas artimanhas para assustar mulheres indefesas, eis que o morcego começa a voar pelo quarto. Mais pânico, mais gritinhos, interjeições e corrida destemida até a sala, enquanto trancava a porta do quarto.

Corajosa, independente, senhora de mim, tomei uma decisão: fui pedir socorro para o ex-namorado e vizinho:

- Tem um monstro no meu quarto!

- Jeito estranho de pedir desculpa e fazer as pazes.

- Estou falando sério.. tem um monstro no meu quarto.

- Se você quer dormir em casa, é só pedir.. não precisa inventar desculpas malucas.

- Tem um animal asqueroso e feroz no meu quarto, vamos lá matá-lo (digo o empurrando até meu apartamento).

- Se você quer que eu durma com você na sua casa, é só precisa pedir.. não preci.. 

- Entra lá no quarto.. tem um morcego horrível… eu espero aqui.

Ele abre a porta, entra e minutos depois sai:

- Certo, não tem nada lá dentro. Isso tudo é porque você quer que eu durma aqui ou porque você quer dormir lá em casa, mas é incapaz de engolir o orgulho e pedir desculpa?

- Como não tem nada lá dentro? Claro que tem… (digo enquanto entro corajosa dentro do quarto).

Olho em volta, vasculho e nada do morcego. Concluo:

- Deve ter saído pela janela, então.. pode ir agora.

- Ahn? Como assim? Você me acorda, me faz vir aqui por nada e nem um pedido de desculpa, nem um assumir que estava mentindo?

- Errr.. não.. TCHAU!…

E ele vai embora, e eu volto para o quarto… e me preparo para voltar a dormir, quando:

- Aiiiii.. um morcego, um morcego.. UM MORCEGOOOO!..

Novamente, destemida, senhora de mim, adulta e independente, bato na porta desesperadamente:

- Tem um morcego no meu quarto.. verdade.. ele está lá.. ele está lá..

- Má, ou você me pede desculpas e diz que errou e eu deixo você dormir aqui, ou.. você vai para sua casa e sossega e para com essa história de morcego.

- Eu juro que tem um morcego lá.. Por favor, tire ele de lá.. (digo chorosa, puxando-o pelo braço)

- Não tem nada aqu..arghh.. um morcego… não é que era verdade? Me traga uma vassoura.

- Ah!.. Eu já tentei isso.. mas ele não morre..

- Me traga a vassoura.

E então ele, destemido, macho alfa, profundo conhecedor de técnicas de caça, vira a vassoura e com o cabo esmaga a cabeça do morcego.

- Arghhhh!… Que nojooooo…. (digo, sempre primando por comentários coerentes e inteligentes).

- Ele te mordeu?

- Ahn?

- O morcego te mordeu?

- Ihhh… não sei… talvez.. eu estava dormindo, quando senti algo na perna.

- Vamos para o hospital (diz me arrastando)

- Nãooooo.. hospital nãooo…

Patéticas cenas de uma mulher independente, destemida, senhora de si.. em um hospital, tomando injeção por causa de uma maldita noite de calor senegalês, sem ar condicionado.. Ah! A vida independente….

 





Como cuidar de cachorros – Lição I

30 06 2008

 

 Eu adoro cachorro, de todos os tipos, tamanhos, raças.. eu simplesmente ADORO cachorros. Quando criança eu morava em um lugar que meu pai transformou em uma quase chácara. Já tive os mais diversos bichos de estimação, só não tive um golfinho porque meu pai disse que não era viável criar um golfinho na piscina. Em compensação já tive patos, ganso, coelhos, tartarugas, cavalos (mas esses não ficavam no quintal, mas sim na fazenda), mas sempre gostei mais de cachorro… e é assim até hoje.

Tirando Lênin, um pastor alemão que já me mordeu uma vez, já mordeu meu irmão mais velho uma vez, já mordeu meu primo uma vez, já mordeu meu irmão caçula 4934894034 vezes e já mordeu/assustou/arranhou/avançou em alguns passantes, os cachorros lá de casa sempre foram conhecidos por aquele jeito de cachorro bobão e pacato até que:

- Ah! Você ficou sabendo o que aconteceu com o Neto?

- Ahn?

- O Neto..coitado! Morreu em um acidente de moto..

- Ahn??

- O Neto.. não lembra dele?

- Quem??

- O filho da Maria.

- Maria?

- Ah! Enfim.. ela te deu o cachorro.

- Hein?? Cachorro???

E foi assim que de repente lá em casa passou a ter uma criatura que alguns chamavam de cachorro, outros de criatura demoníaca. Um fila enorme e incrivelmente sociopata, que ficava isolado no outro lado do quintal de casa, afastado por um muro e dois portões do convívio social, sendo alimentado só pelo meu pai e privado de carinhos na barriga e brincadeiras com bolinhas, por se tratar de um cachorro incrivelmente bravo. E assim seguimos nossas vidas, eu já não morava mais com meu pai e nas raras vezes que estava lá de passagem, nem chegava perto do cachorro.. sabia de sua existência pelos latidos altos e em som grave e vivia bem assim.. até que meu pai fez uma operação e eu era a única pessoa passando uns dias em casa, então, ou eu alimentava o cachorro ou ele morria de fome. Confesso que cogitei deixar o cachorro morrer de fome cada vez que ele rosnava pra mim e avançava sobre a grade, mas eu lembrei que eu adoro cachorros, então, pensei:

- Que isso.. medo eu tenho de ratos, que são animais ferozes e perigosos, vê se eu vou ter medo de um simples cachorro.

E assim, munida de muita coragem, atravessei o portão que liga o quintal social ao quintal dos cachorros e senhora de mim, peguei o saco de ração com a bravura de uma guerreira dos tempos romanos, pelo menos por breves momentos, até o cachorro começar a latir, rosnar e bater na grade do outro portão, então, como qualquer mulherzinha que se preze, larguei o saco de ração e sai de lá antes que ele descobrisse que era maior do que a grade que nos separava.

Depois dessa tentativa frustrada, como mulher adulta, independente e auto-suficiente que sou, fiz o que qualquer outra faria no meu lugar: chamei um homem.

- Ei! O que está fazendo?

- Nada. Por quê? Tá querendo fazer alguma coisa?

-Sim, estava pensando em alimentar uma criatura com corpo de cachorro e fúria de leão, está afim?

- Oi??

- Não consigo dar comida pro cachorro, ele me detesta!

- Que patinha!! – diz ele rindo – Já estou indo.

Então ele, ser do sexo masculino, senhor de si, corajoso e macho pra caramba, atravessou aquele portão, com a determinação de um William Wallace, lutando por suas crenças e menos de um minuto depois:

- Meu! Aquilo não é um cachorro… não vai dar não, Má.. não tenho coragem de encostar na grade pra por ração.. nem água.

 - Ahh.. mas o que fazemos então? Não podemos deixar o cachorro morrer de fome.. chamamos os bombeiros?

- Hum… eu tenho um plano.

- Qual?

- A gente pega uma mangueira e um banquinho, subimos no banquinho e jogamos água por cima do muro, até encher a vasilha de água – diz destemido.

- E a ração?

- Uma coisa de cada vez, uma coisa de cada vez..

E assim, corajosamente, colocamos água para o cachorro.

- Já sei como colocar ração.

- Como?

- Só precisamos distrair o cachorro.

- Ah! E como distraímos uma besta demoníaca faminta?

- Tenho certeza que você vai dar um jeito.

- Eu????

- Eh.. é só você ficar lá na parte da frente da casa e manter o cachorro lá, enquanto eu entro e coloco a ração.

- E como vou manter o cachorro lá? Vou dar minha mão pra ele morder?

- Isso!!! Grande idéia

- Ahn?

- Vá jogando alguma coisa pra ele comer..

E assim fiquei, na parte da frente da casa, jogando pedaços de pão para o cachorro, enquanto meu amigo entrava cuidadosamente e colocava ração para o cachorro. Missão cumprida.

Dois dias depois, pensei novamente:

- Merda! Tenho que dar comida pro cachorro.. vou ligar para o… Ahhh! O que eu sou? Uma franguinha? Desde quando tenho medo de cachorros ferozes e com dentes afiados?

E, numa técnica milenar, aprendida nos filmes do Karatê Kid, fiquei por minutos, encarando o cachorro por cima do muro, ele me encarando e latindo, eu o encarando e cogitando latir e assim foi até que ele parasse de latir e de avançar sobre a grade. Então, determinada, entrei pelo portão, peguei o saco de ração e o cachorro voltou a latir e a rosnar, eu olhava pra ele, ele olhava pra mim.. ou ele avançava em mim.. ou eu avançava nele, mas não ia sair de lá sem colocar comida e água, já tinha decidido e eu sou conhecida pela minha teimosa. E pronto, lá estava eu, senhora de mim novamente, uma pessoa capaz de colocar água e ração para um cachorro sem a ajuda de terceiros.





A fase da negação

27 06 2008

 

Estavam no bar. Ele a olhava fixamente com um sorriso de canto de lábio, ela ria e falava compulsivamente sobre papéis, mundo corporativo, frio, cor-de-rosa e insanidades aleatórias, de maneira completamente não linear.

- Desisto! Quem é ele? (diz ele batendo na mesa e interrompendo uma das histórias dela)

- Ah! Você não conhece.. é aquele boy novo daquele…

- Não, não é disso que estou falando. Quero saber quem é o cara.

- Ahn? Cara? Que cara?

- O cara por quem você está apaixonada.

- Eu?? Apaixonada? – diz entre risos – Eu não tô apaixonada.

- Sim, está.. mas não descobri ainda por quem. Eu conheço? Não, não devo conhecer.. senão já teria notado.

- Eu não to apaixonada, meuuu!

- Ihhh… ele é casado?

- Hein? Não!!! Ele não é casado.

- Rá! Se tem um ele que não é casado é sinal de que tem um ELE que é solteiro. Qual é o problema então?

- Problema? Que problema? Não tem problema nenhum.

- Então porque não estão namorando? (pausa) (pausa) Xiiiii…

- O que? O que?

- Você realmente gosta dele, né?

- Mas quer merda!!! Não tô apaixonada.

- Se não estivesse apaixonada, estaria namorando.

- Ahn?? Não é o contrário?

- Seria, mas você tem um modo de funcionamento muito peculiar. Qual o problema com esse cara? Aliás, qual a razão totalmente sem sentido, mas que na sua mente parece ter coerência?

- Se eu estivesse apaixonada eu saberia, não?

- Mas você sabe que está, mas está na fase da negação.

- Negação?

- Sim, por causa do funcionamento peculiar, racionalidade, medo e coisas que soam e cheiram a certezas. Você está e tenta se convencer que não está… sei lá.. aquelas coisas de gostar do controle da situação, não pisar em ovos.

- Quantas cervejas você tomou antes que eu chegasse?

- Não o suficiente para não perceber que está mudando de assunto.

- Não estou apaixonada.

- Então prove!

- Como?

- Fique com um cara hoje.

Ela ri:

- Quem? Você? Se for essa sua técnica de convencimento já digo que foi uma péssima abordagem.

- Por quê? Você quer ficar comigo? Ai Meu Deus! Sou eu? Você está apaixonada por mim? É.. por isso tem demorado pra retornar as minhas ligações.. é isso.. antes você não estava apaixonada, podia me ligar compulsivamente, agora me ama.. não quer que eu perceba e tenta me evitar para que eu não note o sentimento mais profundo.

- Quer me fazer ficar com você e ainda tentando me fazer pensar que sou eu que quero porque estou apaixonada por você, mas não sei lidar com isso?

- Não! Eu sei que está apaixonada.. e sei que não é por mim, mas não custava tentar. Mas e aí.. vai ficar com o cara?

- Cara? Que cara? O por quem estou apaixonada?

- Ah! Então você está apaixonada…

- Não sei.. você disse que estou…

- Se não está marque de sair por uma semana com aquele cara que te mandou aquela cantada escrita no guardanapo.

- O que escreveu “se você querer”??

- Exato!

- Olha..o “se você querer” eu relevava.. o “encomodar” eu deixava passar.. mas, definitivamente, o “entertida”.. ah não.. não tem como.

- A-hááááá.. Já sei!! É o João.

- Hein?!?! Não!!!!

- Hmmm… é… não, não é o João mesmo… o João eu conheço. Quando vou conhecer esse tal cara??

- Gente! Desculpe o atraso, maldito trânsito, maldito horário comercial, malditas calçadas, salto quebrado. Merda! Garçom.. uma caipirinha de rum, capricha no limão (diz, enquanto puxa uma cadeira e se junta a eles). Ihh.. que caras são essas? Do que estão falando?

- Ela está apaixonada! – diz ele com olhar cínico e com o maldito sorriso de canto de lábio.

- Apaixonada?!?!? Por quem??

- Não conhecemos, mas ele não é casado.. é o que sei.

- EU NÃO TÔ APAIXONADA!

- Xiii… A fase da negação, é?

- Exato! A negação… Garçom… mais uma cerveja e Cranberries de música de fundo, porque temos aqui uma mulher apaixonada!





Em uma segunda dessas

24 06 2008

 

 

Ele entra pela porta, sorridente, sem camisa e batucando em uma maleta que estava em suas mãos:

- Amor!!! (diz enquanto pula em cima do sofá e a abraça) Pergunta onde eu estava.

Ela fecha o livro que estava lendo:

- Hum.. tá.. espera aí… Pode fingir que está entrando novamente? Pra dar mais realismo.

- Está bem, recomeçando (diz ele se levantando, abrindo a porta e fazendo a mesma entrada).

Dessa vez nem dá tempo dele dizer nada:

- PORRA!! Posso saber onde diabos o SENHOR ESTAVA???

- Ow, quando você vai parar de se intrometer na vida dos outros?!?! Que coisa. Porra!!! Assim você me sufoca… não me dá espaço.. Se eu quisesse que você soubesse onde eu estava, teria te contado, porraaa. Puta que pariu, viu!!!

- Então não fala porraaaaaa… Não quero mais saber da sua vida.. Vai catar coquinho.

- Catar coquinho??? – diz ele gargalhando - Você fica tão fofa nervosa.

- Se liga ow..QUEM TÁ NERVOSA AQUI, HEIN..HEIN, HEIN??

- Devo ser eu, desculpa, é que tomei muitas porradas no futebol.

- Hum… Você estava jogando, é verdade.. segunda é dia de futebol, estava no contrato, letras miúdas, tinha esquecido. Fez muitos gols?

- Onde você pensou que eu estivesse? Na esbórnia? Por isso mantenho este meu porte físico de Deus Grego!!! Poxa, mas é claro que fiz gols né. Fora o espetáculo. Mas foi bem isso, era eu passar pelos caras pra tomar porrada.

- É duro ser artilheiro. Quantos gols fez?

- Pois é.. o que compensa a dor de ser perseguido em campo é o salário. Fiz a incrível quantia de UMMMMM golaçooooo.

- Quase o novo ídolo do ataque palestrino (diz ela entre risos cínicos).

- Mas nem só de gol é feito o futebol!!! Já diria nosso excelentíssimo técnico, o senhor Parreira: “Gol é um detalhe”. E as assistências?!?! E o espetáculo?!!?

- Ah! Quer dizer que teve espetáculo??

- Err.. na verdade não, mas os três pontos foram nossos. Nosso time ganhou de 8×4!!! E o negócio é o seguinte, além de jogar muito, sou o capitão do time e ainda o cara, apesar de mais velho, com mais fôlego.

- Fico só imaginando o nível dos outros jogadores.

- É ruim, é muito ruim. Um dia você tem que ir lá ver.

- Tudo bem, e se pagar umas cervejas eu até bato palmas, grito seu nome e digo que você joga muitooooo.

- Dois minutos me vendo jogar e você não vai agüentar, você vai gritar. Nem que seja da bolada. Hoje quebrei dois no jogo. De raiva mesmo, estava sendo perseguido em campo.

- Não sabe que essa é a sina dos craques? Tipo..ser perseguido em campo..

- Ah é??!?! Acha mesmo que sou um craque, amor??

- Err.. não,  mas o seu time deve ter usado a seguinte tática..espalharam por aí, em conversas informais, que você era o craque do time para os marcadores adversários te perseguirem em campo..Com isso confundiram o pessoal e deixaram as reais estrelas livres pra brilhar.

- Hmpf! VÁ CATAR COQUINHO!





Uma lição de amizade

15 06 2008

  

- Como foi de dia dos namorados?

- Com muita DR.. O ponto alto da noite foi a vitória do Palmeiras sobre o Cruzeiro.

- Veja pelo lado bom: Você pode ficar encalhada, mas ao menos o Palmeiras ganhou. Uma tiazona que torce pra um time campeão é melhor que uma tiazona que torce pra um time fracassado…. Ou não… Ah! Deve ser.

- Sim.. sim.. e não foi um completo fracasso, eu ainda tenho com quem discutir relação, com quem brigar..

- Sexo, briga… são conceitos parecidos, pelo menos.. soco, pulo, grito… saca? Mas se é difícil manter um namorado você podia só engravidar.. pelo menos constitui família.

- Você sempre querendo me engravidar (no bom sentido hahaha).

- No bom sentido não! No ótimo sentido. Quem vai fazer o trabalho, é algo indiferente. Me paga uma pizza e umas cervejas, me fala umas coisas bonitas no ouvido e pronto. Resolvo isso. Ou então terceirizo pra alguém… Candidatos é o que não faltam.

- hahahahaha.. muito obrigada por dizer que eu só preciso embebedar alguém.. está ficando cada vez mais animador.

- Não que seja extremamente necessário embebedar pra conseguir. Mas torna tudo mais fácil. E além do mais, ficar bêbado é bom, seja lá qual for o motivo. Neste caso, seria por uma boa causa.

- Pois é.. beber é sempre bom.. embebedar uma pessoa em uma medida desesperada pra conseguir sexo que soa meio deprimente..

- Se não funcionar, sempre há a possibilidade de pagar por sexo. Fique fria. Algum jeito a gente dá.

- Obrigada, fico aliviada em saber que se eu não conseguir nada, você está aí pra me dar cobertura hahaha.





12 de junho

12 06 2008

 

Aqui jaz um texto!

 

(mas os comentários moram no meu coração - entra música brega.. hahaha)





Desígnios celestes

11 06 2008

 

 

Ele era daqueles que acreditam em destino, universo ou coisa que o valha. Ela? Debochada, ria toda vez que ele afirmava que ela na vida dele não era por acaso e dizia, sem a menor dor na consciência, que o destino era uma desculpa que damos quando não queremos acreditar que tudo é acidental, inclusive ela, que por ventura, acabou fazendo parte da vida dele.

 

Ele insistia no universo, nos porquês, em motivos especiais… Ora contente por toda a conspiração do universo e as forças ocultas que comandam a vida, terem colocado ela em seu caminho, ora impaciente, inquieto e enfatizando a crueldade do destino, do universo, ou coisa que o valha:

 

- Porque isso? Chega a me dar raiva..  eu deveria perguntar para o destino ou universo ou coisa que o valha pra descobrir porque essas coisas (coisas = ela = maluca = complicada =  confusa = geniosa) acontecem… mas eu encaro que nada é por acaso..

Ela ora séria, ora rindo cínica:

- Ah sim… tudo está escrito e eu estou na sua vida por um motivo altamente relevante… não é mesmo?

- Não está tudo escrito, mas o universo coloca em sua frente aquilo que você pede pra ele.

- Hum.. e você queria uma paulista chata, metida e nojentinha pra te azucrinar todo dia? Humm.. ou o tal do universo que confundiu tudo? Serei eu uma prova de que o sistema de distribuição do universo tem suas falhas?

- Não.. eu queria outra coisa.. quer dizer.. Ah! Não vou dar esse mole todo de ficar te contando tudo que eu desejo.

- Eh.. está certo..  até porque quem tem que saber tudo isso é o universo, não?

- Sim… e vai que não é você.. Vai que você só me distrai enquanto o que eu quero de verdade chega.

- Ahn?.. Hum… está bem,  eu não to fazendo nada mesmo.. eu posso ficar aqui um tempo te distraindo até o universo mandar o pacote certo.  

 

Ele? Ele ainda acredita no universo, destino ou coisa que o valha. Ele deve ter encontrado uns porquês para aceitar todas as peças do destino.

 

Ela? Debochada, incrédula e cínica. Duvida do universo, mas passou a acreditar que nada é por acaso. Primeiro o sistema educacional e os professores de literatura, depois ele e sua paixão por textos da Clarice. Acidental? Não, definitivamente, não.. nada na vida é por acaso… Ela duvida de muitas coisas, mas passou a acreditar na Clarice Lispector e nos seus desígnios.